Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

Apresentação


Oficinas


Livros


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

maio 2015
D S T Q Q S S
« abr    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Arquivos


Usuários online

3 Usuários Online
Leitores:

2 Caranguejos
1 Escafandrista

Nas ondas do rádio e (quem diria) no facebook

25 de maio de 2015, às 17:11h por Samarone Lima

Já fiz um bocado de coisas nessa vida errante. Fui vendedor de roupa nas ruas de Olinda (um fracasso absoluto e irreversível), trabalhei desmontando aqueles balcões de vidro de farmácia (usando um martelo de borracha), fui auxiliar de gerente de uma loja de produtos de butique, depois fiz uma carreira fulminante como recepcionista de hotel (o Vila Rica, de Boa Viagem), e mais uma centena de coisas que dariam pra encher várias páginas aqui do Estuário.

Agora me ocorreu uma novidade. Sou apresentador de um programa de rádio.

Eu e o amigo Inácio França temos agora o programa  ”Para gostar de ler”.

É toda sexta-feira, às 21h30, na Rádio Jornal (FM 90.3), com a mediação de Marcelo Araújo.

Começamos e março, e o negócio está indo bem pacas. Em meia hora, passamos dicas de livros, eventos literários, lançamentos, e sempre levamos alguém para uma entrevista. Já passaram por lá Xico Sá, Sergio Rodrigues, Raimundo Carrero, Everardo Norões, Wellington de Mello, Cida Pedrosa, Marcelo Cavalcante, Karla Melo, entre escritores, editores e gente do mundo da leitura, como Reginaldo Pereira, da Biblioteca Comunitária Caranguejo Tabaiares.

Se tudo der certo, ao final deste post vocês terão o link do programa.

Resumido, o programa é uma conversa de boteco tendo como locutores dois autores apaixonados pela literatura. Só não tem a cerveja gelada, mas é a vida. Inácio, por exemplo, é o único amigo que já leu toda a obra de Dostoiévsky. É, na verdade, um tarado – chegou a estudar russo para ler no original. Na terceira aula desistiu. Imaginem se Inácio falasse russo fluente. Seria o sujeito mais chato do mundo.

O cúmulo da boçalidade foi chegar ao programa, na sexta passada, com o segundo volume dos “Irmãos Karamazov”. Ridículo.

Nosso grande desafio, agora, é conseguir patrocinadores, já que eu e Inácio somos especialistas em participar de projetos que não aumentam em nada a nossa frágil conta bancária. Com o agravante de estar desempregado (eu) e gostando muito disso, mas uma hora a grana vai acabar.

Confesso, amigos leitores, que não pretendo voltar ao mercado formal tão cedo. De preferência nunca. Ter tempo para ler, escrever, vadiar, mudar a programação do dia na hora que der vontade, cancelar compromissos, eventos os mais diversos, é algo que faz parte da minha alma. Esse negócio de que o trabalho dignifica o homem é uma conversa fiada. A frase deveria ser assim: O pouco trabalho dignifica o homem.

Se você, caro leitor, é um empresário e tem um bom orçamento para publicidade (ou então está gastando fortunas em jantares no restaurante Leite), sugiro entrar em contato com a gente. O “Para gostar de ler”, segundo o levantamento do Ibope, tem 24 mil ouvintes. Eu mesmo acho muita gente, até porque Inácio é meio gago e às vezes invento de ler uns poemas que não têm nada a ver com o tema do programa.

Vejam o link de alguns programas:

http://radiojornal.ne10.uol.com.br/programa/literatura/

Facebook

Finalmente, depois de uma grande pressão popular dos amigos, entrei no Facebook.

Mas alto lá!

Tem uma página com meu nome, mas é uma tal de “fan page”, que uma leitora criou.

O que fato é o facebook da Biblioteca Comunitária do Poço da Panela, da qual sou membro fundador, junto com Naná e Ninha. Em março, para nossa alegria, completamos quatro anos de atividades. No peito e na raça.

Sou o responsável pela organização do acervo, triagem de livros, atividades culturais e arrecadação do dinheiro para pagarmos todas as despesas, que giram em torno de R$ 1.500,00 por mês.

Quanto às doações, é um capítulo à parte. Tem muita gente legal que acha bonito levar tudo o que não presta para a biblioteca. Recebemos por elegância, mas tem hora que dá vontade de perguntar o que o sujeito acha que vamos fazer com suas coleções de revistas velhas ou com coleções sobre contabilidade, da década de 1980. Outro dia quase entramos pelo cano. Num espaço livre, onde qualquer morador pega o que quiser (inclusive crianças), deixaram uma coleção de revistas Playboy e Status. Se uma criança chega com uma Playboy em casa, dizendo que pegou a biblioteca, a bronca é grande.

Criei uma rede de umas 60 pessoas, mando informes mensais por email e passo o chapéu, mas percebi que poucas pessoas respondiam. Parece que o velho email está ficando fora de moda, como o finado Orkut, que meus alunos tanto amavam.

O amigo Esequias Pierre, que entende muito desse mundo virtual, topou gerenciar (como voluntário) a nossa página, que fez a estréia hoje.

Vejam o link:

https://www.facebook.com/pages/Biblioteca-Comunit%C3%A1ria-do-Po%C3%A7o-da-Panela/375917682609597?fref=ts

Eu tinha criado uma página para a biblioteca logo que abrimos, mas não conhecia nada desse mundo do Facebook. Passei três dias sem olhar, e quando voltei, tinha meio mundo de gente, pedidos disso, daquilo, curtidas, confesso que me acovardei e nunca mais postei nada.

Pelo acerto que fiz com Esequias, eu mando as informações para o email dele, algumas fotos, e ele vai postando. Se chegar alguma demanda importante, ele me repassa. Vai que aparece um ricão desses (que tem muito no Recife) resolve nos ajudar? O Brasil pode ter a crise que for, mas os ricos nunca deixam de ser ricos. Ainda vou escrever um “Manifesto contra a pirangagem”.

Se o cara pagasse só o aluguel, que custa R$ 700,00 a gente ficaria igual aos surfistas brasileiros – na crista da onda.

Para ter uma idéia, os meninos da comunidade estão tendo aulas de violino, violoncelo e teoria musical (um convênio que fizemos com o Conservatório Pernambucano de Música – Projeto Orquestrando), aulas de desenho toda terça-feira (com Edson Menezes, artista plástico do Poço) e de contação de histórias e teatro, com a professora Valéria, todo sábado.

Ps. Na quarta-feira, dia 27, lanço, junto com outros autores, o livro de poesias “Tempo de Vidro” numa edição artesanal, pelo projeto da Mariposa Cartonera. Vai ser na rua Joqauim Xavier, 104, Poço da Panela. Mas quem não puder chegar, não tem problema. De lá, vou bater o ponto em Seu Vital, e aproveitar para pagar as três cervejas que deixei no pendura ontem, acompanhando os emocionantes jogos decisivos da Liga de Dominó. Levarei algus exemplares para vender. Custam R$ 10,00 cada.

Ps. A página do Poço no Facebook já tem 47 curtidas, em menos de uma hora. Isso é uma falta de absurdo.

Postado em Crônicas | 6 Comentários »

O Bar de Giba, pois

18 de maio de 2015, às 3:36h por Samarone Lima

Chega de textos sociais.

**

Nosso latin lover, agora dono de bar quase na moda...

Nosso latin lover, agora dono de bar quase na moda…

Droga, temos um bar novo e muito bom no Recife. É o “Bar de Giba”, como dizemos entre os mais chegados, porque o “Clark Gable de Casa Amarela”, Gilberto Lins, o Giba, é um dos donos.

Não vou dar o endereço, para não espalhar a boa nova. Bar que dá certo no Recife é uma droga, porque vira “Bar da Moda”. Daqui a pouco, os incautos, que bebem mais pela paisagem e pelo “serviço” do que pelo papo e pelos amigos, vão descobrir, vão votar na seleção da revista Veja, e pronto, vão estraga tudo.

Desculpem, mas hoje estou repetitivo.

Ele, Giba, acredita piamente que o nome, “Balcão Centenário”, tem a ver com aquela conversa fiada dele. Só se fosse “Gibão Centenário”.

Já conversei com vários amigos sobre esta absoluta falta de harmonia entre o bar e o nome. Todo mundo diz:

“Vamos tomar uma no bar de Giba?’

“Balcão Centenário”, só se ele quiser pegar uma classe média altíssima que mora ali no entorno, mas que vai ficar enfurecida com o dono do bar, que é cozinheiro, se ele tomar todas e não for trabalhar no dia seguinte, por causa de uma boa ressaca.

Ninguém que eu conheça, em sã consciência, vai a um bar em que o dono não seja fundamental. Seu Vital, do Poço da Panela, é um exemplo. Experimente chegar no domingo, às 12h30, enquanto ele estiver jogando dominó. Vá buscar eficiência e produtividade no Boteco, no Bar Real, em outros lugares. Se ele estiver correndo risco de levar uma buchuda, faça o seguinte – abra a geladeira, tire uma cerveja e diga:

“Seu Vital, peguei uma Brahma pequena”.

Ele não vai escutar.

O Bar de Giba tem tudo para dar certo, e esse é meu medo.

Os amigos se reagruparam. Basta chegar lá, que tem algum conhecido que estava espalhado, vivendo sua diáspora boêmica.

Eu, sinceramente, acho aquela Mamede Simões meio chata. Bares demais, um ao lado do outro. Apesar de ter muitos poetas, não há poesia. Também não sou muito fã de cadeira e mesa de plástico. É besteira minha, mas sou assim mesmo. Gosto de cadeira de madeira, mesa que é mesa e garçom que tem nome e personalidade, como Marcílio, do Antiquário.

E também não gosto de beber com gente demais ao redor.

Se for o caso, melhor o Tepan.

A “Bodega do Véio”, de Olinda, abriu ao lado da Pizzaria Atlântico, na Rui Barbosa. É legal, fui para a inauguração, deu gente pacas, acho até melhor ter esta opção, porque tira uma galera do Bar de Giba.

Sobre Giba, há várias biografias sendo escritas. Dizem que ele nasceu na Alemanha, há 40 anos, filho de guerrilheiros de um grupo famoso de lá. A avó o trouxe, com o nome de Thomas Hardvyn, e ficou um tempo em Santa Catarina, para ele se adaptar climaticamente. Depois, a avó introduziu a jovem criança ao feijão e um tio espanhol o trouxe para o Recife, na década de 1980. Aqui, ele foi apresentado a algo inusitado – macaxeira com charque. Nunca mais foi o mesmo.

Nunca se adaptou aos trópicos. Quando o sol aparece, ele insulta Deus. Quando acorda, tem um ódio profundo a de quem diz “bom-dia”.

Frasista de primeira linha. Tem um capítulo na minha “Antologia do Instante” que se chamará “Gibóias”.

“Na minha pele só entra Dove”, disse certa vez.

No início de 2004, fizemos uma longa viagem. Passamos pela África central, depois seguimos para o Marrocos, onde ficamos 23 dias inteiros. Alugamos carros na França e seguimos sem rumos até paris. Foram aventuras tão intensas, que quase ficamos por lá. Depois veio Portugal, por seis meses, e nunca fomos tão felizes.

Já assistimos duas copas do mundo.

Por causa do bar, não sei se ele vai para a Copa América.

Fez curso de “chef” e é cozinheiro de primeira linha, apesar do excesso de pantim.

Giba, fingindo que trabalha...

Giba, fingindo que trabalha…

Mas esse negócio de “Balcão Centenário” não cola.

Sou mais o “Bar de Giba” mesmo, o “Clark Gable de Casa Amarela”, o “Dom Juan do Parque 13 de Maio”.

Pelo menos é o que dizem as redes sociais…

Ps. Agradecimento especial ao fotógrafo Pedro Antonio Leite, que já tem a ficha 39 no citado bar, para controlar seu consumo…

Postado em Crônicas | 16 Comentários »

Ao: Ministério Público de Pernambuco. De: um usuário do “Grande Recife Consórcio de Transporte”

15 de maio de 2015, às 14:46h por Samarone Lima

Meus leitores devem estar estranhando uma mudança no tom do Estuario – onde escrevo geralmente crônicas sobre o cotidiano e impressões sobre a vida, numa desordem de temas.

É que a realidade está gritando, e certas coisa doem profundamente.

No dia 8 de maio, Camila Mirele Pires da Silva, de 18 anos, caiu de um ônibus lotado, quando a porta abriu repentinamente, defronte à Casa do Estudante Universitário da UFPE. Pelos relatos, outro ônibus vinha atrás e ela foi atropelada. A linha Barro-Macaxeira é administrada pela Empresa Metropolitana. Ela morreu no hospital.

Camila estava no segundo ano de Biomedicina na UFPE e tinha uma vida inteira pela frente. É uma tragédia irreparável para a família e toda palavra de conforto, neste momento, vai ser uma gota, numa dor oceânica.

Fiquei particularmente tocado pelos símbolos envolvidos. Um transporte público decadente e degradante, que uso diariamente. O fato de ter sido defronte à Casa do Estudante, onde cheguei aos 18 anos, para morar, e saí aos 22, para viver como jornalista. Nesses 28 anos,desde os meus 18, fiz tantas coisas, viajei tanto, descobri tanta maravilhas, morei em tantos lugares, conheci tanta gente linda, amei, desamei, amei novamente, casei, mas tive a oportunidade de chegar aqui vivo.

Camila, aos 18 anos, foi lançada fora de um ônibus e também fora da vida. Que coisa mais desalentadora, meu Deus….

No dia 13, o Ministério Público de Pernambuco resolveu acordar de sua letargia. Disse que cobrará do “Grande Recife Consórcio de Transportes” providências sobre o transporte público. Aqui, um parêntese – já repararam que tudo hoje é na base do “consórcio”? Parece que celebrar um descalabro com o nome que nos remete a “associação”, “união”, fica mais fácil para não dar nome aos bois.

Você aí, caro leitor, sem consultar o google, me diga se o tal Consórcio tem presidente. Se tem, se você sabe o nome dele. Consórcio não fala – emite nota. Ou de pesar, ou de esclarecimento – e fica por isso mesmo.

O Ministério Público (agora, claro) pediu providências sobre quedas, freadas bruscas, superlotação e abertura de portas fora de hora, condições degradantes do sistema, tratamento dos motoristas, cobradores e fiscais e qualidade do serviço.

Como não tenho carro e uso quase diariamente o tal sistema, mando uma pequena missiva, com algumas sugestões e impressões sobre o tal Sistema:

**

1. Tratamendo dos motoristas e cobradores

O Ministério Público deveria investiga também o tratamento “aos” motoristas e cobradores, que trabalham longas jornadas, em condições as mais adversas. Os ônibus são irremediavelmente desconfortáveis, praticamente não temos veículos com o câmbio automático, a posição dos cobradores na cadeira é absolutamente desagradável e basta pegar qualquer assento na próximo ao cobrador, para presenciar as conversas sobre obrigação de cumprir horários (para isso, têm que correr feito loucos), longuíssimas jornadas, além de comemorações efusivas por uma eventual folga e reclamações brutais contra fiscais.

Não vou nem falar dos salários e da necessidade de muitas horas extras.

2. Tratamento aos idosos

É uma coisa bem ridícula, mas os ônibus do Recife não levam em conta uma parcela importantíssima da população – os idosos. O primeiro degrau é altíssimo, há a dificuldade natural de se fazer algo que chega a ser inacreditável – entrar em um meio de transporte público.

Quedas terríveis, sensação de impotência por não alcançar um degrau absurdamente alto para qualquer pessoa que não esteja em plena forma, fazem parte do cotidiano dos nossos velhos. Lembro que, se a vida nos for benéfica, ainda chegaremos lá.

Se ele estiver sozinho na parada, pode contar com a tradicional “queima da parada”.

Quando entra, o idoso encontra uma novidade – ele pode viajar de graça se ficar na parte dianteira. Como nossa população idosa está aumentando, é comum a parte dianteira dos veículos ficarem cheias, quando poderiam estar mais confortáveis no restante dos assentos livres.

3. Frota

Estive recentemente em São Paulo. Os veículos são invariavelmente novos, com câmbio automático, baixíssimos, com mais espaço interno e silenciosos. Não sei como é a fiscalização por lá, mas os veículos sempre estão limpos e o motorista, depois de oito ou dez horas sem ter que passar milhares de marchas durante horas, sai da sua jornada com uma cara decente.

A frota do Grande Recife é o que na Odontologia chamam de “poliesculhambose”. Cada empresa tem seu padrão, e como não tem fiscalização decente (se tem, não dá resultado), funciona do jeito que o empresário quer. Se eu for para as bandas de Casa Forte, Poço da Panela, a empresa Transcol é até melhorzinha, com uma frota mais renovada, apesar de não gostarem muito de lavar os veículos. Agora pegue os ônibus que fazem a linha para Boa Viagem, da empresa borborema, para verem uma desgraça. São geramente barulhentos, imundos, os motoristas correm como loucos, e não sei como não morre gente todo dia.

Numa cidade miseravelmente quente, praticamente não temos ônibus com ar-condicionado. Os que têm, não é bom nem olhar quando o filtro foi trocado.

Uma pessoa num ônibus lotado, no Recife, às 7h30 da manhã, está sofrendo – e muito. Ele poderia ter o direito de pagar um pouco mais caro se tivesse a opção de um veículo refrigerado.

Não imagino quanto lucram as empresas de ônibus por mês, mas tenho um amigo que foi dono de empresa de ônibus. Garanto que é um negócio que dá muito, mas muito dinheiro.

4. Acessibilidade

É uma das coisas mais terríveis que vejo, quando alguém numa cadeira de rodas consegue um ônibus com o Serviço Especial de Transporte (SEI). É preciso sorte para que aquele elevadorzinho funcionar. Não raro, os passageiros têm que ajudar e o cadeirante, depois que consegue se instalar, aliviado. Na linha Alto José Bonifacio, da empresa Globo, apenas um ônibus tem o equipamento. O mesmo na linha Alto santa Terezinha.

A linha que atravessa Casa Forte, rumo ao Alto Santa Isabel, da Transcol, são 7 veículos com o equipamento. Por que será?

A empresa que vai para Casa Caiada, a Rodotur (pelo menos no site do Grande Recife está assim) tem 13 desses equipamentos.

5. Paradas de ônibus

Se eu tivesse jeito de usar tecnologias, tirava foto das paradas e mostrava aos meus leitores. Não sei qual foi o gênio que as projetou. É um pedaço de ferro na horizontal que nos proporciona algo incrível: quando chove, todos se molham. Quando faz sol, não há sombra.

6. Escuridão

O Ministério Público poderia dar uma olhada nos ônibus, à noite. A maioria viaja numa semiescuridão, com várias lâmpadas queimadas. Quando eu entro num ônibus iluminado, já sei – é novo, e aquilo vai durar pouco. Com um veículo bem iluminado, a viagem no mínimo se torna mais agradável e segura, dá para ler alguma coisa. Mas… se preocupar com lâmpada queimada em ônibus?

7. Terminais Integrados

Graças a Deus, não preciso usar esses terminais. Já vi dezenas de matérias na TV. Invariavelmente lotados, confusão para entrar etc.

Mas tenho uma fonte ótima sobre os terminais – Dona Cremilda. Ela vem uma vez por semana fazer a faxina aqui em casa. Geralmente, os trabalhadores brasileiros começam 8h sua lida diária, mesmo os diaristas, mas Dona Crema, como a chamamos, já está por aqui 6h30 da manhã.

Na segunda vez que chegou, perguntei por que chegava tão cedo para o trabalho.

“Ah, Seu Samuel, para escapar daquela confusão no Terminal Integrado, eu prefiro acordar de madrugada. Aquilo é muito sofrimento, ninguém merece”.

Ela só me chama de Seu Samuel.

**

Que pena, Camila, esta sua morte absurda.

Nessas ocasiões, tem gente que diz algo do tipo “que a morte  dela sirva para mudar alguma coisa”.

Não aceito isso. As pessoas merecem viver com dignidade até a sua morte.

Nós só podemos mesmo é lamentar profundamente.

Postado em Crônicas | 3 Comentários »

Dias estranhos. Talvez, tempos sombrios

13 de maio de 2015, às 12:46h por Samarone Lima

Dias estranhos, esses. Talvez, tempos sombrios.

Me vejo num país cheio de raiva, de acertos de conta, de pouca abertura para discutir as diferenças.

Vivemos uma época de “preto ou branco”, “certo ou errado”, “tudo ou nada”.

Na falta da capacidade de diálogo, odeia-se tudo que não faça parte do meu.

Se Augusto dos Anjos estivesse vivo, teria sido apredejado até a morte, por escrever que “A podridão me serve de evangelho”, em seu único livro.

Parece que tudo agora funciona melhor com doutorado na escola do maniqueísmo.

A impressão que tenho é que as pessoas andam com um bofete à mão.

Delação premiada é nosso oráculo, nosso mantra, nossa grande sede de Justiça.

Um juiz, para ser aceito no Supremo Tribunal Federal, precisa jurar, quase segurando a cruz, que jamais aprovará a legalização do aborto, que sequer irá discutir este tema.

Os gênios da grosseria estão em toda parte. Super-homens da ofensa.

 

Saudades de Darcy Ribeiro, que amava gente.

Saudades de Sobral Pinto.

Saudades de Ariano Suassuna, que discordava, fazendo você rir.

Anoto uma frase de David Hume (1748): “Da desesperança cega”.

No meio desta guerra tirânica de egos, uma voz ilumina nossa poderosa escuridão: a do psicanalista Christian Dunker:

“É preciso desarmar a valentia”.

Por hoje, é tudo.

Postado em Crônicas | 5 Comentários »

Vem sonhar com a gente, Luciano

8 de maio de 2015, às 15:13h por Samarone Lima
Companheiro Luciano Siqueira:
é desta forma que  vejo – um companheiro de lutas por uma sociedade melhor, mais justa, fraterna e humana.Sua história de vida é de uma dignidade, de uma elegância, de uma coerência indiscutíveis. Sempre senti orgulho de vê-lo presente em nossa vida política, marcada pelo oportunismo, pilantragem, acordos funestos, desarranjos em gabinetes. Aos 11 anos, você já estava envolvido em lutas, depois aprofundou sua militância, acabou preso durante a ditadura, foi preso, torturado, passando por situações dramáticas com sua eterna companheira Luci, fez greve de fome, chegando a passar 21 dias  sem se alimentar.E sobreviveu, para refazer a vida e lutar pela volta da democracia. Pois bem, estamos nela. Estamos sofrendo e lutando com ela.

Seu perfil, delicadamente escrito por Joana Rozowykwiat, no livro “Subversivos – 50 anos após o golpe” (CEPE, 2014), é uma aula de história, vida e política. As novas gerações devem ler sobre você, devem se inspirar em você.

Mas você nem imagina como me doeu ao saber que você foi vaiado,  na terceira Semana de Comunicação Pública de Pernambuco, dia quatro de maio, ao defender os trâmites nada democráticos, oportunistas e milionários do projeto Novo Recife, que pretende ocupar uma das áreas mais importantes do Recife com dezenas de prédios, ao arrepio da lei.  O projeto foi aprovado numa votação-relâmpago, sem direito a discussão, e sancionado, pasmem!, pelo prefeito Geraldo Júlio, que estava em São Paulo!

Como tenho uma velha mania de recortar notícias de jornais, vejo o que você disse, e que foi publicado no Diário de Pernambuco:

“Eu não conheço ninguém na prefeitura que tenha se levantado para defender esse projeto. O que nós sancionamos foi o plano urbanístico para a área, uma lacuna que existia do ponto de vista jurídico e formal para todo aquele conjunto de área em que está o projeto estelita”.

Luciano, era você mesmo quem falava?

Sobre a aprovação de forma extraordinária e agilidade na sanção por parte do prefeito Geraldo Julio, que estava em São Paulo:

“Essa pergunta deve ser endereçada ao presidente da Câmara, Vicente André Gomes, e a mesa diretora da Casa. É público que a Prefeitura do Recife encontrou esse problema quando assumimos o governo já estabelecido. Nós não aprovamos e não apoiamos. Sanção rápida é normal, qualquer projeto votado na Câmara é sancionado. É só consultar a lei orgânica”.

Luciano, essa pergunta deve ser endereçada não a um arremedo de vereador, mas ao prefeito e ao vice, que é seu cargo, que sancionam ou não projetos que podem lesar o povo do Recife.

E leio mais, espantado e triste:

“Para o vice-prefeito, o papel da gestão municipal assegurou democracia à aprovação”.

“Nós convocamos o movimento Ocupe Estelita e as universidades que têm cursos de arquitetura e urbanismo, a OAB, o CAU e o Crea. Enfim, um conjunto de instituições para que se abrisse o diálogo e que permitiu que o projeto tivesse mais de 40 medidas mitigatórias em favor da população. Nós estamos governando a cidade, temos que cumprir a legislação”, concluiu.

Luciano, meu querido, li cada palavra pronunciada por você repetindo um lamento.

Não contra você, claro, um homem que admiro desde sempre, mas pelas escolhas que você está fazendo, em nome, talvez, da “construção de unidades”, que é o DNA do PC do B.

Foi por isso, para não “dividir as esquerdas”, que você abdicou de se arriscar a uma candidatura a prefeito, após oito anos sendo vice-prefeito de João Paulo, abrindo caminho para um desastre recifense – o prefeito João da Costa. Você, com os pés nas costas, é muito mais brilhante, inteligente e articulado do que esses dois.

Talvez seja por isso que você venha a público, como vice-prefeito de Geraldo Júlio, defender “medidas mitigatórias”, num projeto que vem sendo contestado pelo movimento Ocupe Estelita, Ministério Público, OAB, Direitos Urbanos e uma multidão de pessoas que sonha com uma cidade verde, cheia de parques, flores, que respeite os desejos de seu povo. Em maio de 2014, a obra foi embargada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Ipahn). Há tantas irregularidades nisso tudo, que só mesmo cifras milionárias podem provocar esta espécie de imbecilização do poder – muito dinheiro em jogo.

Luciano, me permita um desabafo de boteco: porra, velho, que merda!

Como é que você faz isso com você, com uma galera massa do PC do B que conheço, que está na luta há tanto tempo, e que discorda totalmente deste projeto?

Você tem toda uma história, uma biografia,  para chegar ao prefeito e dizer:

“O que estamos fazendo vai contra meus princípios éticos, morais, é contra minha história de vida. Vou ficar como sempre fiquei, ao lado do povo. Vamos cancelar este projeto e transformar o Estelita num grande parque, numa cidade que praticamente não tem espaços verdes”.

Isso que estás fazendo é o que bem disse Ivan Moraes Filho: o tal “papel institucional”.

Às favas, Luciano, o “papel institucional”. Honre sua história.

Seu coração é vermelho. Você é gente, velho. Sei que deve estar sofrendo. No íntimo, sabe que empreiteiras famintas pela urbanização de uma ilha, aliadas a vereadores corruptos, liderados por um insano Vicente André Gomes, estão escrachando com uma parcela importante da sociedade civil.

Neste momento, o “Ocupe Estelita” está acampado defronte ao prédio do prefeito, Geraldo Júlio. Têm, eles, todo o meu apoio.

No livro da Joana, você diz que o comunista é “um ser humano que se renova a cada instante”.

Até outro dia, sem conhecer direito, eu não dava muita bola para o Ocupe Estelita.

Mas agora te convido:

Vem pra cá, meu velho. Se renove. Saia dessa cilada.

Vem sonhar com a gente.

Do seu amigo e admirador,

Samarone Lima.

Postado em Crônicas | 16 Comentários »

« Artigos anteriores