Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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A mulher que perdeu os medos

19 de março de 2010, às 12:39h por Samarone Lima

(texto publicado originalmente em abril de 2007)

Foi na semana passada, e como dizem os psicólogos, estou elaborando o diálogo, pela rara intensidade. Eu conversava com duas pessoas, na despedida de um amigo, a conversa seguia boa, cheia de coisas ricas, delicadas, falávamos de coisas da vida (acho melhor não citar o nome porque nem todo mundo quer ver seu nome em uma crônica, e daqui a pouco não vão querer conversar mais comigo, porque posso publicar conversas).

Fomos trocando impressões sobre as mais diferentes coisas, lembrando coisas de nossas vidas. Uma disse que foi apaixonada por um garoto do Jardim I até a 4a série, então rimos muito. A outra disse uma frase e tanto: “Desde que eu me lembro, estou apaixonada por alguém”. Ela tinha um pôster do He-Man e cada vez que acordava, dava um beijo nele. A amiga confessou que adorava o He-Man, mas que não chegou a ficar apaixonada pelo super-herói.

Até que, em um determinado momento da conversa, uma delas me disse que não tinha mais medo de nada. Ela disse que nada, absolutamente nada, lhe dava medo.

 Fiquei assombrado. Como assim, sem medo de nada?

Então ela me contou que no ano passado perdeu a irmã mais nova, vítima de uma doença. Não entrou em detalhes, e nem precisava. Mas o que ela mais temia na vida era perder aquela irmã tão amada, e foi justamente o que aconteceu. Uma esquina no meio da vida. Hoje, ela não tem mais medo da solidão, da morte, de ficar desempregada, nada. Simplesmente perdeu o medo, nada mais que isso. Não havia convencimento em suas palavras, não se tratava de nenhuma tentativa de demonstrar força, mas pelo contrário. É como se tivesse chegado ao ponto mais frágil da vida, quase um graveto, e aquele graveto quase quebrou, mas depois ela conseguiu se redimir, sobreviver.

Quando ela terminou de falar, fizemos um breve silêncio, e dos seus olhos vazava uma luz muito forte, serena, que guardei como quem está recebendo um presente para a humanidade inteira.

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Para quem não consegue comprar meu livro

17 de março de 2010, às 11:31h por Samarone Lima

Tenho recebido uma penca de email de gente que não consegue comprar meu livro, o “Viagem ao Crepúsculo”, sobre a vida cotidiana em Cuba, no cinquentenário da revolução.

Por enquanto, os caminhos são:

Comprar pelo site da editora: www.casadasmusas.org.br

Comprar pelo site da Livraria Cultura: www.livrariacultura.com.br (a vantagem é que o sujeito pode pagar em cinco vezes sem juros e o frete é grátis, mas estou fazendo merchandising sem receber um tostão, o que é coisa de bobo).

Tem na livraria Cultura de Campinas e de São Paulo (Pompéia e Villa-lobos).

No Recife, tem nas principais livrarias, que são poucas.

Quem não conseguir, pelo Brasil afora, mande um email para mim, que vejo o que posso fazer: samalima@gmail.com

Vou aqui, já pensando no Césare Pavese: Trabalhar cansa.

ps. Um monte de gente não conseguiu ver o debate no programa Painel, da Globo News. Segue o link:

http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1528788-17671,00.html

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Autor em apuros

15 de março de 2010, às 12:29h por Samarone Lima

Aconteceu o que todo autor de livro quer. O meu “Viagem ao Crepúsculo” conseguiu sair do circuito do Recife, onde praticamente foi vendida a primeira edição (1.000 exemplares). Com o debate sobre Cuba, que participei no no programa Painel, da Globo News (sob comando do excelente William Waack), milhares de pessoas assistiram.

Na volta de São Paulo, um sujeito no aeroporto veio falar comigo, querendo comprar um exemplar. Eu, claro, não tinha nada na bolsa. Vai o link:

http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1528788-17671,00.html

No sábado, saiu uma excelente matéria do Ronaldo Bressane, no jornal Brasil Econômico. De longe, a melhor e mais articulada matéria que saiu sobre o livro.O cara entendeu tudo, e tem um texto de primeira linha.

 Tentei encontrar na versão digital, mas não consegui. O Bressane reproduziu em seu blog, então segue:

http://impostor.wordpress.com/

Mas é um momento estranho, esse que vivo. Como a editora é pequena e com dificuldades de distribuição, falta livro em todo canto. No sábado, fui à  Livraria Cultura do Conjunto Nacional, tinham encomendado 8 livros.  Nenhum exemplar nas prateleiras, sequer para remédio. A sorte é que passei na casa do velho e bom Abel Menezes, que pegou 20 livros para deixar lá, a título de consignação.

Na Cultura daqui, hoje zerou o estoque. É o mesmo filme do que passei com “Zé”, meu primeiro livro.

Hoje de manhã, uma pessoa me informou que não encontrou o livro no Recife.

Eu queria um dia chegar a esse momento sublime na vida de um escritor, que é quando o sujeito escreve, trabalha duro, dá o melhor de si, acompanha todo o processo da feitura de um livro, que é exaustivo, e depois que é publicado, acompanha o andamento das coisas.

Neste momento, sou um autor em apuros. Nada pior do que escutar a frase:

“Não estou encontrando teu livro em canto nenhum”.

É o que mais tenho escutado.

Na hora do almoço, quando escreveria crônica nova, terei que encher mais uma mochila e sair para distribuir os livros. 

Amanhã escrevo algo decente. Ou depois.

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Diálogos

11 de março de 2010, às 14:08h por Samarone Lima

Nota: Neste sábado estarei no programa “Painel”, apresentado pelo jornalista William Waack, debatendo Cuba e temas afins. Os debatedores são Bolivar Lamounbier e Cláudio Gonçalves Couto.

É pela Globo News (TV a cabo). Vai ao ar às 22h no sábado, com repeteco no domingo, às 20h. Espero que gostem. De resto, segue crônica nova.

***

Estou numa minúscula agência do Banco Real. Estranhamente, tem apenas duas funcionárias, bem vestidas e jovens. Uma fala ao telefone, sentada à sua mesa, outra está sentada em um móvel, de costas para a janela. Não tem um cliente, exceto eu, que acabei de entrar. Estranhamente, portanto, é porque acho muito difícil o sujeito entrar numa agência de um banco, no Brasil, e encontrar somente duas funcionárias, bem vestidas e jovens, e só um cliente. Mas deixemos isso de lado, porque coisas esquisitas acontecem comigo com uma facilidade incrível.

Chego com um dinheiro num envelope, escondidíssimo, fruto de um bom frila.

- Posso depositar aqui?

- Pode não. Aqui não tem máquina para depósito. Tem máquina para depósito no corredor.

Puxo o cartão, tenho dificuldade para encontrar o número da agência e da conta. Tenho também dificuldades com muitas coisas, especialmente as mais óbvias.

- Moça, dá para você me dizer aqui qual é o número da conta e da agência?

Ela olha.

- Sua conta é conta salário, não pode fazer depósito nela, só em conta corrente.

Miséria, lá vou eu caminhar por essas ruas com um bom dinheiro intocado. Às vezes eu penso que dinheiro tem cheiro, porque nunca vi ladrão adivinhar tanto que a gente está bem forrado. Quando o sujeito está liso de doer, o ladrão muda até de calçada, parece que viu uma flor.

Sento numa cadeira, aproveito o ar-condicionado para me refrescar um pouco. O calor no Recife está derretendo até pinguim de geladeira.

Vou anotar algo que preciso fazer, um de meus vícios, eu sou cheio de vícios, quando uma das mulheres desliga o telefone.

- Saiu o resultado. Meu avô está com câncer na boca. Semana que vem começa a quimioterapia.

A outra mulher, que estava ao telefone, olha.

- Mas eu sou muito realista. Minha avó é que fica chorando toda aperreada, mas eu sou realista.

- Você não é realista, é mais fria que realista.

- Quando meu primo morreu, eu estava grávida, todo mundo chorando, eu disse que aquilo era previsível.

- Se eu fosse tua prima, te matava. Oi, bom dia, sim. Ah, me dê o número da sua conta, que eu vejo agorinha. Agora.

A mulher do telefone encaminha algo, desliga o telefone, e emenda a conversa do mesmo ponto, como se não houvesse interrupção.

- Você não é mais realista, você é mais fria. Ou Maciel, eu iria te ligar agorinha. Pausa. Resolve outra coisa. Desta vez, o seguro de um carro, creio. Mas mil e trezentos? Hoje de manhã fiz uma cotação para mim, deu mil e cem.  Termina a ligação, a outra completa do mesmo ponto.

- Talvez eu seja assim porque nunca vi um parente muito próximo morrer.

- Não é isso não. Banco Reall, bom dia. Pois não. Qual é o número da agência. Sim senhor, claro. Vamos ver aqui. Termina a ligação.

- Não é isso não. Sinceramente, eu acho que você.  Alô, bom dia. Pois não. Não é nesta agência, senhora. Vou dar o número do telefone correto. Fim da ligação.

- Não é isso mesmo. A questão é outra. Você.

O telefone toca de novo. Mais uma questão envolvendo seguro, talvez a mesma. Minha curiosidade foi aguçada ao extremo, mas o telefone tocava demais, o trabalho me aguardava, e eu já estava chamando a atenção, porque ficava anotando tudo numa rapidez incrível em meu bloquinho.

Saí da agência com aquela boa grana, mas encafifado, encasquetado, contrariado,  querendo saber o que era, mas nunca saberei.

Tem certas coisas que a pessoa nunca vai saber mesmo.

Passei na livraria e comprei um livro que estava paquerando há muito tempo, depois fui caminhando até o trabalho, com aquela alegria de saber que terei um belo livro para ler, a mais tarde. Um sol de derreter qualquer cabeção e eu assobiando uma música do Vinícius. Aquele negócio manhoso do se todos fossem iguais a você, que maravilha viver. Eu estava até entoado hoje, parecia um Pixinguinha do bico. Fiii forofo forofóoooo. Fii farafi fi fifi.

Só agora me ocorreu algo. Custava ter esperado mais um pouco, para saber mesmo o que era?

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A impressionante arte de lançar livro

5 de março de 2010, às 16:15h por Samarone Lima

Definitivamente, minha vocação para lançar livros aos poucos vai se tornando um folhetim. Ontem, fui lançar o “Viagem ao Crepúsculo” em Natal e repeti façanhas aqui já relatadas, de lançamentos em outras cidades.

Às 9h, estava dentro do ônibus da Viação Progresso, uma empresa que eu faço questão de denunciar. Invariavelmente, pego ônibus com um péssimo ar-condicionado, sem água, e banheiro de boteco falido.  O de ontem foi um show à parte. Não tinha sequer água para lavar as mãos, papel, sabonete. O ar-condicionado era uma vaga lembrança.  Melhor seria viajar com as janelas abertas.

Quando chegar a Natal, vou ligar para o 0800 da ANTT, que é a agência reguladora dos transportes no Brasil, foi o que pensei.

Às 14h33 desembarcamos, eu e a caixa de livros (40 exemplares, era minha tosca esperança de vender no lançamento). Uma turma da ANTT estava fazendo uma pesquisa na rodoviária, fui logo dando o nome para falar, mas a moça queria saber apenas de onde eu vinha e quanto tempo iria ficar, e se voltaria de ônibus. Falei com a moça sobre o ar-condicionado, ela respondeu bestamente:

“Ah, isso é o que mais reclamam”.

Achei uma besteira a pesquisa, mas órgão governamental adora fazer pesquisa. Fui com minha caixa de livros e uma bolsa à tira-colo ligar para os amigos jornalistas, mas dei com os burros n’água. Meu celular estava descarregado, e os três amigos estavam em suas obrigações jornalísticas.

Do orelhão, liguei para a ANTT. Um atendente, de nome Jander, pediu meu nome, identidade, cpf, número do bilhete, placa do ônibus, e de vez em quando me dizia “aguarde um momento, senhor”. Isso durava de três a cinco minutos. Depois voltava, pedia o número do bilhete, senha, detalhes, pensei que ele iria pedir um retrato falado do motorista, meu tipo sanguíneo, clube de coração, livro preferido, tamanho do sapato, e arrematou minha reclamação pedindo que eu mandasse a cópia da passagem por fax. Mais fácil deve ser abrir uma empresa e pagar impostos.

“Escuta amigo, isso é para o cara reclamar ou é um censo que vocês estão antecipando?”.

Acho que o Jander não gostou muito da minha pergunta.

Tomei uma cerveja para relaxar, e às 16h descobri que era um verdadeiro idiota latinoamericano. O lançamento, no Bar Prozac, seria somente às 19h. Para que diabos peguei o ônibus das 9h, se tinha um às 11h?

Sem conseguir falar com ninguém, sem saber onde era o bar, meio desolado, um sol de rachar, pude utilizar o banheiro da rodoviária de Natal, uma das coisas mais imundas que já tive oportunidade de conhecer. Depois, pedi um sanduíche, um dos piores que comi nos últimos dez ou doze anos. Só mesmo um lampejo de esperança poderia me salvar.

Foi quando olhei para o outro lado da rua e vi:

“Hotel Cidade do Sol”.

Deixei a caixa de livro num box e fui lá. A diária custava R$ 15,00 mas expliquei meu problema, a moça baixou para R$ 12,00.

Paguei, peguei a chave, fui lá. Era um labirinto de quartos. No meu, um ventilador medíocre, uma toalha muito antiga e um sabonete de motel fuleiro. Meu plano era tomar um banho, cochilar, descobrir onde ficava o Prozac e seguir para o lançamento de táxi, com minha caixa. Nesse período, comprei um carregador de celular por R$ 10,00.

Voltei para buscar a caixa no box. Nisso, eu já estava cansado pacas, igual à Baleia, do Graciliano, pensando num mundo cheio de preás. 

Quando estava pensando em rezar, pedindo ajuda aos meus santos, o Carlos  Magno me liga.

“Sama, vou te buscar. Te deixo lá em casa, tu toma um banho, come algo e depois o Tácito vai te buscar, para ir ao lançamento”.

Foi uma das frases mais lindas da língua portuguesa que escutei este ano – “Sama, vou te buscar”.

Voltei para o hotel, expliquei à moça que iria embora, mas os R$ 12,00 ela dividisse com a faxineira. A moça abriu um sorriso. Voltei para o quarto, deu tempo de cochilar vinte minutos, depois desci, com a caixa e os 40 livros, minha mochila e meu terno de escritor, que uso em lançamentos.

Carlos Magno me levou para a casa dele. Fiquei sozinho, morrendo de fome e sede. Ele me apresentou a casa inteira, mas o melhor cômodo que achei mesmo foi a geladeira, cheia de tapauer com opções de rango. Mandei ver num macarrão com almondegas, fora uma salada de verdura e um pouco de purê. Um vinho tinto gelado completou a cena.

Às 17h30 estava debaixo de um banheirinho morno. Depois, foi só botar a roupa, ligar o ventilador no três e esperar o Tácito chegar.

Tácito é pontual pacas e me levou ao Prozac. No lançamento não deu tanta gente, mas a mesa ficou uma delícia. Sônia e Carlão, Demétrius e Raíssa, Xico Guedes, Tácito, Carlos e Elizandra. O excelente Dinarte, que fez uma matéria muito bacana para o Novo Jornal, também chegou por lá. Depois, o Carlos Magno. Também registro a presença do pai e da mãe de Inácio, meu dileto amigo.

A conversa girou em torno de Cuba, que é o tema do livro. Foi uma delícia. O Demétrius, que é poeta, saiu com essa:

“Foi uma revolução que gorou”.

O Xico contou que estava em Havana na época do julgamento do coronel Uchoa, homem queridíssimo pelo povo Cubano, que foi fuzilado. Para muitos  cubanos, ali foi o início do fim.

Foram conversas deliciosas sobre o mundo, viagens, impressões, sonhos, esperanças. Eu adoro conversar com velhos comunistas, os que não endureceram o pensamento. Rimos muito quando começaram a lembrar das marchinhas de Carnaval que caíram no gosto popular.

“Cuba Cuba Cuba/

Andou na contramão/

Vai descansar no Paredão”.

Uma música lembrou muito minha tia Flocely.

“O Brasil vai lançar foguete/

Cuba também vai lançar/

Lança Cuba, lança/

Quero ver Cuba Lançar”.

Ra ra ra ra. Quando eu fui viajar para Cuba, a saudosa Flocely repetia:

“Sama vai cuba lançar”.

Às 23h55 eu estava dentro do ônibus, voltando para o Recife, trazendo novamente a caixa quase cheia e alguns amigos novos. Minto. Alguns ótimos amigos novos.

Hoje de manhã fiquei pensando comigo. Algum dia vou chegar numa cidade, vai ter aquele pessoal do receptivo com uma plaquinha e meu nome. Depois vou para um hotel bacana, numa Van, onde poderei descansar, tomar banho, e à noite vai ter o lançamento, e meio mundo de gente para comprar o livro. E depois, uma baita farra, e eu não vou nem olhar para a conta.

Ah, mas se não tiver essas coisas, não tem problema, porque vou me divertindo à beça com esses improvisos. Ruim é quando a pessoa fica querendo demais uma coisa, e deixa de se divertir com as outras coisas boas que estão por perto.

O lançamento em Natal foi uma ótima desculpa para uma deliciosa roda de conversas com novos e velhos amigos, e isso já é uma dádiva.

Agradecimentos especiais a Tácito e Carlos Magno.

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