Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Pequena autobiografia não autorizada: Pobreza, fome e feiúra

17 de abril de 2014, às 11:06h por Samarone Lima

Capítulo 22: Pobreza, fome e feiúra*

Em julho de 1987, passei por uma brutal mudança de classe social. Estava com 18 anos e dois meses, e como tinha prometido sair de casa aos 18 anos, sentia uma enorme angústia – o prazo tinha expirado havia dois meses.

Morava em um casarão de classe média alta (só as duas salas são maiores que o apartamento onde vivo hoje), o jardim tinha até cascata, meu pai era de um cargo importante do Banco do Brasil, minha educação foi toda em escola particular, enfim.

Vim para o Recife na base da raça. Ou tudo ou nada. Como não contava mais com a ajuda oficial (grana de casa), meu primeiro trabalho foi carregando vidro – desses que usam em prateleiras de farmácia. A loja era na Estrada do Encanamento. Passei a morar no trabalho, no primeiro andar. Dormia numa cama de campanha, se é que alguém se lembra. Almoçava com a galera no mercado de Casa Amarela. Lá, aprendi a torcer pelo Santa Cruz. Foi amor à primeira vista. Terminei o segundo grau numa escola estadual na Estrada do Arraial, não lembro o nome dela agora. Faltava professor pacas.

Ou seja – saí da Classe A para a Classe C. No mínimo. Hoje, está uma confusão essas explicações de classes no Brasil. Mas o certo é que a vida ficou dura pacas. Eu me tornei um liso crônico.

Pois bem. Depois fui trabalhar em hotel, já que falava fluentemente inglês e francês. Consegui o trabalho na cara dura. Entrava no hotel, perguntava pelo gerente, me apresentava, dizia que era estudante universitário, falava três línguas (contando como português, claro) e levava um sonoro “não temos vaga”. No quinto hotel, o Vila Rica, o gerente chamou um recepcionista e fez um teste:

“Esse rapaz aí diz que fala francês…”

O recepcionista, que depois virou meu amigo de fé, começou a conversar comigo em francês, perguntando de onde eu vinha, o que estava querendo da vida, e mandei ver no meu francês, aprendido na Funefor, de Fortaleza. Isso agradeço à minha mãe – foi ela quem conseguiu a vaga. Aliás, devo uma penca de coisas à minha mãe. Nunca, fazer aqueles biquinhos e arrastar um pouco no “bien… c´est vrai…” foi tão importante.

Fui contratado. Trabalhava de madrugada e morava numa pensão perto da Católica. Eu morei em umas cinco, por ali. Essa era meio barra. Dividia o quarto com um sujeito que trabalhava com vendas e mandava ver na cachaça, à noite. Quando a faxineira passava a vassoura, era um monte de latinhas de Pitú vazias. E o quarto era quente pacas. Por isso, até hoje sou viciado em ventilador, de preferência no três. É trauma. Às vezes, estou num lugar frio e fico procurando um ventilador. Pode ser um grau de loucura, também.

Nessa época, eu estudava de manhã na UFPE (Educação Artística) e à noite na Católica (Jornalismo). Só tinha a tarde para dormir. Era um osso duro de roer, porque é um troço horrível trocar o sono da noite pelo o da tarde.

Até que um dia, um camarada que trabalhava no mesmo hotel me perguntou por que eu não me inscrevia na Casa do Estudante Universitário da UFPE (CEU). Eu não sabia que o CEU existia no Recife e muito menos que ele era tão perto – dentro do Campus da Universidade. Melhor – que poderia me inscrever. Ficamos mais amigos, o sujeito tomava um chimarrão empurrado, então um dia ele me sugeriu ficar hospedado no mesmo quarto como “penetra”, para aguardar as incrições, que começariam no final do ano (ou no meio, eu não lembro). Isso já era uma tradição nas residências estudantís. Era como um estágio probatório. Se eu fosse um psicopata, creio que teriam me enxotado.

Foi o que eu fiz. As coisas melhoraram, mas não tinha direito ao café da manhã e jantar, no Restaurante Universitário, o famoso “Erre U”. Só o almoço. Para dormir à tarde era osso, porque tinha mais quatro caras no quarto. O quinto era eu. Ser penetra é um negócio chato pacas, você parece um exilado em sua própria pátria.

Abriram seleção para novas vagas e fui me candidatar. Para ser aceito, eu tinha que provar que era pobre, fornecendo documentos da família etc. Mas como, se eu não era historicamente pobre? Se eu mostrasse o Imposto de Renda do meu pai, seria expulso na mesma hora.

Quando o sujeito está na magra, ele aprende a mentir com uma facilidade incrível. Dizem que isso se chama astúcia.

A história que inventei, com a ajuda da minha mãe (olha ela de novo) e da minha saudosa vovó Zeneuda foi a seguinte:

“Quando nasci, minha mãe já tinha se mudado para o Pará (não lembro se era o Pará, mas fica sendo), fiquei com minha avó no Crato, foi ela quem me criou (isso era verdade incompleta, porque ela me criou somente no primeiro ano de vida), hoje ela vive em um pensionato (era verdade), só recebe o salário mínimo (verdade), terminei o segundo grau numa escola pública (verdade) e dependo da CEU para fazer meu curso universitário, que é um sonho da minha avó”.

Para dar mais dramaticidade, disse também que era filho único. Foi mal Paulinho, Tonho, Mônica e Patrícia, foi mal, era o contexto.

A assistente social quase chorou, se é que não chorou. Quando saiu a lista dos aprovados na seleção, eu também quase chorei de felicidade. Quatro anos com um lugar para morar e o RU ao lado, com café, almoço e janta.

Tive que usar a mesma estratégia na Católica, para conseguir uma bolsa de 25%. Cheguei com a mesma ladainha, acho que só mudei o estado. Desta vez, minha mãe tinha ido embora para o Paraná. Botei nomes parecidos para não cair em contradição. Que eu nunca tinha vist minha mãe, nem em foto, que isso me doía muito, que meu sonho era ser um grande jornalista, que não tinha como pagar uma faculdade particular (verdade), que trabalhava de madrugada (ainda era verdade), enfim.

Quando fui buscar meu resultado, uns dez dias depois, nada. Zero bolsa. Puta merda, acho que desta vez menti demais, exagerei com aquele negócio de nunca ter visto minha mãe, enfim. Já me preparava para sair, chutando minhas pedrinhas, quando a assistente social me chamou. Eu já estava sorumbático e perplexo. Pensei que viria uma daquelas frases adocicadas de conforto social, que só pioram as coisas. Algo do tipo “na próxima o senhor consegue”.

“Ei, espere! Estou vendo na outra listagem. A sua bolsa foi de 50%!”

Quem diria que anos depois eu voltaria à mesma Católica para ser professor. Acho que é por isso que de vez em quando vou lá, conversar com alunos ou participar de bancas de avaliação da conclusão do curso. É um agradecimento pela bolsa. Valeu, Católica!

Saí do ramo hoteleiro, porque parecia um zumbi, trabalhando a madrugada inteira, emendando com aulas de manhã e à noite. Arranjei uns bicos na própria UFPE, só para sobreviver.

O período de maior rato durou uns três anos. De manhã, Educação Artística. À tarde, trabalhava na ANPOLL (Associação Nacional de Pós-Graduação em Letras e Linguística) como secretário. À tardinha, pegava minha mochila e um ônibus para a Católica. Não dava tempo de pegar a janta no RU. Eu deixava a carteira de morador da CEU e guardavam meu bandeijão. Assistia as aulas da Católica, depois pegava o infame “Cidade Universitária”, voltava cochilando. Lá pelas 22h30 pegava meu bandeijão.

Amigos leitores, se o troço era ruim quando era servido quente, imaginem frio. Mas era a lei da oferta e procura. Eu só tinha uma procura – a fome. A Universidade só tinha aquilo para ofercer (a janta gelada). Eu mandava ver na sopa fria, no copo de leite frio e no pão.

Não sei exatamente se era por causa da fome, mas eu era incrivelmente mais feio do que hoje. Além de feio, eu não entendia nada de estética (só fui estudar no sétimo período). Eu conseguia a proeza de me tornava mais feio do que já era. Usava o cabelo quase raspado, não deixava a barba crescer um centímetro e cheguei a usar um bisonho bigode. Sem falar que apor um tempo, usei óculos vermelhos, talvez querendo imitar o cantor do Paralamas do Sucesso.

Eu era realmente feio de doer. Na CEU, meu apelido era “Feio”. Até hoje, o Negão 70, que mora em Manaus e virou cervejeiro, me chama de “Feio”. Hoje uso cabelos grandes, uma farta barba e bigode. Engano bem. Meu fracasso com as mulheres era absoluto. Não era meio fracasso. Era absoluto. Total. Sem chance. Era aquela combinação de feio e pobre e malamanhado. Eu também usava cada roupa, que eu vou dizer. Mas trato disso no capítulo 29.

Um dia, a caminho da Católica, ali perto da Igreja da Soledad, perto de uma banca de revista, avistei uma cédula. Hoje seria uma de R$ 10,00. Quando a avistei, pisei em cima de imediato e fiquei olhando para os lados. Se aparecesse o dono, claro que eu entregaria. Esperei, esperei e nada. Botei a cédula no bolso e fui à Católica. Mais que isso, ao restaurante da Católica. Lembro até hoje: foi uma sopa (quente, huuum que delícia), um sanduba (misto), dois copos de suco de laranja e um café, para arrematar.

Meu Deus, que felicidade. Peguei meu diário da época e escrevi umas cinco páginas seguidas. Poemas, alegorias, amuletos, canções, frases soltas, epígrafes, epitetos, hinos, epístolas, ponderações inúteis, entrei num frenesí inexplicável. Porra, fome faz um mal dos diabos ao organismo, foi o que constatei. Por isso entendo os gordinhos viciados na geladeira. Deve ter uma baita serotonina no ato de se fartar.

O período mais duro começou a passar quando consegui um estágio na redação do Diário de Pernambuco, à tarde.

Eu não imaginava que a redação de um jornal diário fosse um troço tão divertido.

*Nota: O livro tem 45 capítulos e ainda não foi revisado.

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Um coração sem pressa

10 de abril de 2014, às 10:58h por Samarone Lima

Sempre me achei meio lento. Às vezes, muito lento. Talvez por isso eu nunca tenha ido para uma dessas festas que chamam “rave”, porque é com música acelerada. E na música clássica, o adágio é a parte que mais me comove.

Por isso, talvez, eu tenha sido o último da minha turma de Jornalismo a concluir o curso. Só publiquei meu primeiro livro de poesia aos 43 anos, já um senhor. Fui um dos últimos da minha geração a me casar, aos 40 anos. Tenho uma dificuldade quase patológica em saber o que o sujeito faz da vida correndo pra cima e pra baixo, ocupando a agenda com trezentas coisas. Sou capaz de pagar para não pegar uma fila e nem gemendo eu encaro uma lotérica para fazer um jogo de mega-sena acumulada.

Eu não sabia que meu coração também é assim, sem pressa.

Confirmei na última segunda-feira, ao me consultar com o Dr Edmilson. Ele aos 80 anos (ou perto disso), continua dando seu plantão matinal no Otávio de Freitas. Como eu tive um piripaque ao final da Corrida das Pontes, fui ver o que era. Outra coisa que não tenho pressa nenhuma é a de morrer.

Fiz o eletro, o doutor me fez uma série de perguntas, foi tomando notas, depois me auscultou (tomara que eu tenha acertado na grafia), olhou o exame, ponderou – ou seja, fez tudo o que essa nova geração de médicos não faz, em hipótese alguma – e informou.

“Samarone, você é um vagotônico”.

Com seu jeito tranquilão, ele explicou o funcionamento de um dos sistemas do corpo, que tem duas vertentes: o Simpático e o Vago.

No Simpático, o coração bate, em média, 80 vezes por minuto. Isso tem repercussão em como o corpo age e reage diante de várias situações. Pela primeira vez na vida, posso dizer publicamente – não sou simpático.

Minha média de batidas, no exame, deu 47 por minuto. Quando ele me auscultou, a vagotonia tinha aumentado: deu 43 por minuto. A pressão é 11 x 8. Ou seja, sou do sistema Vago.

Na corrida, eu tive uma “crise vagal”. Ativei o Sistema Vagal mais do que devia. Mas estou bem. O doutor disse que posso fazer o que quiser, sem problemas.

“Seu coração está perfeitamente normal”, completou.

Puxa, como fiquei foi orgulhoso pacas com meu coração. Como ele realmente tem a ver comigo! Nós somos lentos de verdade!

Olhei o eletro. O coração bate, aquele risquinho sobe, desce, depois fica quieto. Depois “tum”, e o risquinho sobe, desce e fica a listrinha reta. Ele me mostrou o eletro de um movido pelo sistema Simpático. É igual àquela música que a Elba Ramalho canta – “bate, bate, bate coração…” O risquinho sobe e desce o tempo todo. Chega cansa, só de olhar o exame.

Fiz um cálculo besta. Meu coração bate 33 vezes menos por minuto. Isso, ao final do dia, deve dar milhares de batidas não realizadas, enquanto sigo vivinho da silva.

O exame me deu, além da sensação cósmica da lentidão íntima perpétua. De quebra, um argumento ótimo para chateações da vida, as implicancias que sempre aparecem, quase como ervas daninhas.

Quando alguém vier com grosserias generalizada, discussões sem fundamento, provocações, indelicadezas, eu poderei me antecipar e alertar. Botarei a mão no lado esquerdo do peito e dire, com certa gravidade:

“Amigo, pegue leve, que sou um Vagotônico”.

Estava batucando esta crônica semanal, quando a amiga Emília me mandou um email, combinando de encontrarmos uns amigos para conversar, tomar uns vinhos. Ela concluiu assim:

“Mas sem pressa… como o teu coração”.

E eu fiquei entre a distração e a emoção, pensando se há algum nome que possa descrever o espaço de silêncio que existe entre uma batida e outra do coração, especialmente no caso de um coração sem pressa.

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Que tal um “mea-culpa”, Diário de Pernambuco?

4 de abril de 2014, às 7:56h por Samarone Lima

Há uns sete meses, as Organizações Globo fizeram um “mea culpa” sobre a atuação durante a Ditadura que comandou o País de 1964 a 1985. No dia 30 de março, foi a vez do jornal “Folha de São Paulo” publicar um editorial na mesma linha. Diz que o jornal “deveria ter rechaçado toda violência de ambos os lados, mantendo-se um defensor intransigente da democracia e das liberdades individuais”.

Mas não o fez. Muito pelo contrário. Foi, como a maior parte da Imprensa do Brasil, uma “arma essencial da ditadura”, como bem diz o Jânio de Freitas.

Segundo a Folha, seus dirigentes agiram “como lhes pareceu melhor ou inevitável naquelas circunstâncias”.

Melhor transcrever o parágrafo inteiro, que é autoexplicativo:

“É fácil, até pusilânime, porém, condenar agora os responsáveis pelas opções daqueles tempos, exercidas em condições tão mais adversas e angustiosas que as atuais. Agiram como lhes pareceu melhor ou inevitável naquelas circunstâncias”.

Uai, então para que fazer um mea-culpa, se fez o melhor ou o “inevitável”?

Não há mea-culpa nenhuma. Uma coisa é agir como lhe pareceu melhor, com as inúmeras vantagens econômicas que o regime ofereceu aos grupos de comunicação. Outra é citar o “inevitável naquelas circunstâncias”. Houve uma adesão maciça da Imprensa ao Golpe. Só a partir de 1979, com as lutas pela Anistia, alguns pisaram no freio e viram que o vento soprara para o outro lado.

Mesmo que esses pedidos de desculpas venham carregados de autopublicidade e tentativa de reescrita da história, creio que está na hora de um dos principais jornais do nosso estado, o Diário de Pernambuco, fazer sua mea-culpa.

Sua participação no período militar é de envergonhar qualquer jornal. O Diário conseguiu se antecipar, em dois anos e cinco meses, a promulgação do AI-5 (Ato Institucional Número 5). Pedia despudoradamente uma ditadura sem “panos mornos”, em um editorial na primeira página. Somente em dezembro de 1968, o então ministro Jarbas Passarinho diria a famosa frase:

“Senhor presidente, às favas os escrúpulos”.

O Diário disse isso antes, na capa.

Explico.

No dia 25 de julho de 1966, uma bomba explodiu no saguão do Aeroporto dos Guararapes, pouco antes da chegada do marechal Costa e Silva. Duas pessoas morreram, entre elas, o jornalista Edson Régis de Carvalho, secretário de administração do governo Paulo Guerra. Assinava a coluna Política e Políticos, do Jornal do Commercio. É um dos capítulos mais nebulosos do período, com a autoria não totalmente esclarecida e cheia de mistérios. Estou escrevendo um livro sobre isso.

No dia seguinte (26/07/1966), o Diário publica seu editorial, intitulado “Mão forte para aniquilar a anarquia”.

Isso mesmo. A palavra é “aniquilar”. Os militares só conseguiriam “aniquilar” os adversário, como uma política de Estado, a partir de 1969, com a chegada de Médici ao comando. Em 1973 quase todos os adversários já tinha sido aniquilados. Muitos são desaparecidos. O Dops do Recife teve uma atuação de destaque neste aniquilamento.

Com rara franqueza, o jornal apontava, em julho de 1966, os caminhos que os militares deveriam assumir:

“O que, porém, deve ficar bem claro, desde já, é que o governo revolucionário tem o dever impetuoso de aceitar o desafio anti-revolução – partir de onde partir, abandonando esta linha de tolerância, de panos mornos, que, em derradeira análise, soam como fraqueza”.

Toda a costura política das oposições, movimentos sociais, sindicatos, igreja, até dissidentes das próprias forças armadas – que vinha sendo expurgados -, para que o país voltasse rapidamente para a democracia, não mereciam a menor atenção.

“Na hora em que tanto se luta pelas “garantias” constitucionais, temos de cobrar dos responsáveis por estas torpezas, contas severas”.

O recado mais grave, naquele momento, era a utilização, pela primeira vez de um verbo oriundo do latim – “vindicare”. Vingar.

“Em nome do sangue derramado no Recife, que como o de Abel, clama por vingança. Temos de pedir conta aos apátridas do PC, aos inocentes úteis, aos que, direta ou indiretamente, vêm sendo, em toda parte, linhas auxiliares da anti-revolução”.

O editorial parece ter sido escrito por um militar, dentro de um quartel.

“A hora não é mais de transigências nem tibiezas, pois talvez seja isso que esteja acumulando os mastins da subversão e da desordem”.

**

Vejo a edição do dia 1/04/2014, do mesmo Diário de Pernambuco. A manchete ocupa a página inteira:

“Há 50 ANOS NUNCA MAIS”.

A foto é simbólica. Uma fileira de soldados apontam seus rifles para alguma multidão que não vemos. Parece que estão na rua da Aurora.

O texto, logo abaixo da foto, diz o seguinte:

“Hoje faz 50 anos que os militares tomaram o poder no Brasil instaurando uma ditadura que durou quase 21 anos. Uma data para não ser comemorada, mas sim para ser lembrada sempre e nunca mais repetida. Para contar essa história, nossos repórteres consultaram arquivos, buscaram documentos e ouviram especialistas à procura de histórias para traçar um retrato desse período sombrio”.

O caderno tem 12 páginas, é muito bom, mas em apenas um momento se refere à natureza civil-militar do Golpe. É no texto de Vandeck Santiago.

Sobre isso, pouco se fala, escreve ou reflete.

Para se manterem hegemônicos durantes 21 anos no poder, os militares contaram com inúmeros parceiros, colaboradores, gente que deu sustentação por interesse pessoal, político, econômico, ou porque era o momento mesmo do oportunismo.

Os jornais, que são empresas de comunicação, ajudaram de forma intensa a chegada e perpetuação dos militares ao poder. E ganharam muito dinheiro com issso também. Sinto muito, Folha de São Paulo, mas foi como lhes pareceu melhor mesmo, não porque era “inevitável naquelas circunstâncias”.

O Diário de Pernambuco ajudaria muito a “contar essa história” se, cinquenta anos depois, consultasse seus próprios arquivos, suas muitas capas e reportagens de apoio ao regime, seus editoriais que clamavam por vingança, e admitisse, tardiamente, que fez parte de uma vasta rede de sustentação ao regime.

O período sombrio que o Brasil viveu, de 1964 a 1985, teve, também, comportamentos sombrios.

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Exercício prático de contradição

26 de março de 2014, às 11:50h por Samarone Lima

É engraçado isso. Gosto de lentidão e de correr. Gosto de silêncio, quietude, e adoro estádio de futebol. Fico feliz da vida quando passo vários dias sem beber, parece que estou no Nirvana, e adoro tomar uns pileques, quando chamo urubu de meu louro. Posso ir a um bom churrasco e me esbaldar nas maminhas e picanhas, mas uma das minhas comidas prediletas é arroz integral com azeite de oliva e molho Shoyo. Amo as viagens, mas detesto aquela coisa que voa, chamada avião. Ou seja, sou mesmo um exercício prático (e ambulante) de contradição.

No domingo passado, vivi isso de forma tão intensa, que quase fui para o beleléu.  Explico.

É que gosto de correr já faz tempo, mas só há três anos, com a Corrida das Pontes, resolvi participar de corridas organizadas, com todo o aparato, percurso organizado etc. Achei ótimo, mas vi como estava enferrujado. Terminei a primeira prova de 5,6 km aos trancos e barranco. Tem até foto minha com Inácio França, meu velho amigo, antes e depois da prova.

Então peguei gosto, corri outras. Algumas são bem divertidas, outras são chatas, porque botam a entrega do kit para o Shopping Recife, em Boa Viagem, e acho Boa Viagem um país longe pacas. Ano passado, pasmem, ganhei a Corrida das Pontes nos 5,6 km na categoria Jornalistas, com direito a troféu no pódium, foto e tudo o mais. Foi ótimo, mas o bom mesmo foi curtir o final da corrida, encontrar amigos e  conhecer o organizador do evento, o grande sujeito que é o José João da Silva.

Nesse intervalo (2012-2014), o Recife conheceu uma verdadeira febre de corridas. Como moro na Rua da Aurora, palco ideal para esse tipo de eventos, passaram pela minha janela, ao longo desses anos, milhares de sujeitos correndo, de todas as cores, idades, tamanhos, pesos, com suas indefectíveis camisas coloridas (de cada corrida), o número no peito e o chip amarrado ao cadarço, para marcar o tempo.

Já tinha experimentado duas corridas de 10km e foram legais. Nada anormal. Gosto de correr. Vou meditando, esqueço das coisas, respiro mais fundo, lembro dos amigos, faço umas meditações meio malucas, mandando energia para pessoas que acho que precisam, essas doidices.

Este ano, me inscrevi nos 10km da Corrida das Pontes, categoria Jornalista. Saí de casa feliz da vida, lembro da concentração, alguns amigos, o aquecimento, mas não vi o amigo Inácio na concentração, o que não foi bom sinal.

A largada foi às 7h, fui no meu pique normal, virei os 5 km numa boa, fui sem exagero, até que resolvi dar o meu pique final, inspirado num corredor que admiro muito, o Emil Zatopeck. Faço isso sempre nos dois últimos quilômetros, mas acho que calculei mal. O pique acabou sendo numa distância muito maior.

O certo é que cruzei a linha de chegada, me escorei num ferrinho e a cortina desceu. Sumiu o som e a imagem.

Acordei às 9h45, creio, numa maca. Olhei para o teto e vi as luzinhas passando. Fazia o frio do ar-condicionado. Silvia, minha mulher, que trabalho na assessoria da Corrida, acompanhou tudo desde o início. Passei mal, piorei. Fomos de ambulância para a UPA de Nova Descoberta, depois chegamos à UPA da Caxangá. Eu estava sem o cartão da Camed, e como o Plano de Saúde está em franca decadência, com uma penca de médicos se desfiliando, talvez tenha sido até melhor.

Na verdade, tive um atendimento da melhor qualidade. Fiquei impressionado. Não sei se pelo meu estado semi-vegetativo tive prioridade, mas não faltou nada, em nenhum momento, aproveito para agradecer a todos os funcionários da UPA da Caxangá.

Silvinha disse que foi uma Ódisséia. Se aperreou pacas. Disse que tive delírios. Comecei a me despedir, certo da morte. Dessa parte, eu me lembro.

A primeira frase que escutei, quando voltei, foi:

“Meu amor, você ganhou a corrida na categoria Jornalista”.

Era uma espécie de consolo, para tentar me animar.

Fizeram uma penca de exames. Eletro, aquele do coração, que esqueci o nome, depois fiquei num quarto, tomei aquelas bolsas de soro e finalmente fui liberado.

Só mais tarde vou buscá-los, para saber o que aconteceu. O certo é que quase não bebi água durante toda a corrida e que não tenho nenhum corredor na família, muito menos parentes no Quênia.

Posso dizer que vi bem de perto o beleléu. As cucuias. Uma luzinha escura que vai afunilando, afunilando, até não ter quase nada. Eu só escutava as pessoas conversando ao meu lado, e não tinha reação. Já posso dizer – “no ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”.

Mas abri os olhos de repente e voltei.

Estava pensando muito sobre tudo isso, quando o velho e insuperável amigo Arsênio me mandou um email. Resume tudo em poucas palavras.

“A poesia também é deixar-se inerte, abandonando-se no meio da pista, carregado sem macas, Upas, Ambulâncias, para sentir o peso do esquecimento, carregado para longe do pódio, para longe de todo e qualquer lugar”.

A vida, que belo exercício prático de contradição…

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Sobre marchas e contramarchas

21 de março de 2014, às 13:48h por Samarone Lima

É bom saber com quem e para o que marchamos. Explico.

Está organizado para amanhã (22 de março) uma “Marcha da Família com Deus” em São Paulo, no Rio de Janeiro e, segundo meus informantes secretos do Facebook, em mais 200 cidades.

É uma reedição da famosa “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, realizada em 19 de março de 1964, que reuniu cerca de 200 mil pessoas em São Paulo. Estavam preocupados com a “ameaça comunista” e pediam a deposição do presidente João Goulart. Doze dias depois, o pedido foi atendido, com um Golpe Militar que mergulhou o Brasil em 21 anos de trevas.

Antes de aderir a qualquer Marcha, acho bom olhar também o que há por trás. A principal reivindicação dessa turma que pretende ocupar as ruas amanhã é bem sinistra. Pedem uma intervenção militar, com o objetivo de “acabar com a corrupção, retirar dos poderes políticos considerados corruptos, promover a moralização dos três poderes e, posteriormente, convocar novas eleições para a criação de um governo constituído apenas por “fichas limpas””.

Ou seja, o mesmo argumento de todos os golpistas da América Latina, nos últimos 50 anos. Tomam o poder, prendem, arrebentam, esfolam, ampliam a corrupção, acabam com a liberdade de imprensa, os poderes são desequilibrados, e as “novas eleições” ficam para depois. Muitos anos depois. Em nosso caso, foram 21 anos de espera.

O organizador da Marcha, Bruno Toscano, disse à Folha de São Paulo (edição de 16 de março de 2014) sua fórmula mágica:

“Seria constituído um governo provisório, de três meses, e eles convocariam novas eleições, mas em urnas que não sejam fraudadas”, diz.

Questionado pelo jornal sobre os nomes do possível novo governo, ele deu uma resposta que resume tudo?:

“Nenhum político que está aí serve para alguma coisa”.

Nenhum?

Nenhum reles vereador, deputado estadual, federal, prefeito, senador, ministro? Nada? Ninguém?

O sujeito é exigente pra caramba.

Mas há um depoimento precioso de outra organizadora da Marcha, Cristina Peviani, de 51 anos, que tem um ano a mais que o Golpe de 1964, lembrado a partir do próximo 31 de março/1º de abril.

“Eu não vi nenhum general morrer milionário. As escolas públicas eram de ótima qualidade e havia respeito à família e à ordem”.

É mesmo difícil ver um general morrer milionário, porque depois que deixaram o poder, em 1985, foram para suas casas, pegaram as aposentadorias e poucos deram as caras. Até hoje se recusam a informar sobre os desaparecidos na Guerrilha do Araguaia, quando vários deles se entregaram, sob a promessa de um tratamento digno e acabaram mortos. Regra geral, esses generais dizem que “não lembram” os principais fatos do período. Deve ser um Alzheimer seletivo.

Um dos poucos a dar as caras é o general reformado Newton Cruz, de 89 anos, que era chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações) em 1981. Em maio daquele ano, uma bomba explodiu no Riocentro, no Rio de Janeiro, na festa pelo Dia do Trabalho. Hoje se sabe que foi o próprio regime que organizou o atentado, que deixaria dezenas, talvez de vítimas, mas a bomba explodiu dentro de um Puma, ocupado por dois militares. Um morreu na hora, “em serviço”.

“Não era para matar ninguém”, diz o general, patenteando um novo tipo de bomba.

Cristina foi questionada sobre as torturas e perseguições políticas aos opositores.

“Eu nem sei se eles adotaram isso [a tortura]. Porque o pessoal que diz que foi torturado está tão gordo, tão, forte, tão bonito, né? Eu vi lá na comissão [da Verdade de São Paulo], que eles não tinham uma marquinha sequer”.

Chega a ser uma afronta, a pessoa dizer um negócio desses.Há dezenas de livros sobre o período, filmes, relatos os mais dramáticos de pessoas que foram presas, torturadas e mortas até porque deram abrigo a alguma pessoa que lutava contra o regime. Eu conheço vários, que conheceram a solidão, o desespero, a falta de esperança. Outras tantas que amargaram o exílio, a saudade do Brasil, outros que morreram sem ver o país retornar à Democracia.

Cerca de 70 passeatas do gênero aconteceram no Brasil, entre março e junho de 1964.

Quando os militares assumiram, afirmaram que iriam livrar o Brasil do Comunismo, e havia previsão de eleições em 1966.

Amargamos 21 anos de obtusidade, violência, corrupção, censura, burrice. Peças teatrais foram proibidas, livros censurados, os compositores tinham que mostrar suas canções aos censores de plantão. Pensadores do quilate de Paulo Freyre, Darcy Ribeiro, gente como Dom Hélder Câmara, Miguel Arraes de Alencar, Dom Paulo Evaristo Arns, foram perseguidos,

Quanto à falta de “uma marquinha sequer”, no corpo, creio que é desnecessário dizer que a tortura deixa mais marcas na alma do que no corpo.

Mas na vida, cada um vai para a marcha que quer.

E também reconstrói a história do país à sua imagem e semelhança.

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