Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Diálogos

11 de março de 2010, às 14:08h por Samarone Lima

Estou numa minúscula agência do Banco Real. Estranhamente, tem apenas duas funcionárias, bem vestidas e jovens. Uma fala ao telefone, sentada à sua mesa, outra está sentada em um móvel, de costas para a janela. Não tem um cliente, exceto eu, que acabei de entrar. Estranhamente, portanto, é porque acho muito difícil o sujeito entrar numa agência de um banco, no Brasil, e encontrar somente duas funcionárias, bem vestidas e jovens, e só um cliente. Mas deixemos isso de lado, porque coisas esquisitas acontecem comigo com uma facilidade incrível.

Chego com um dinheiro num envelope, escondidíssimo, fruto de um bom frila.

- Posso depositar aqui?

- Pode não. Aqui não tem máquina para depósito. Tem máquina para depósito no corredor.

Puxo o cartão, tenho dificuldade para encontrar o número da agência e da conta. Tenho também dificuldades com muitas coisas, especialmente as mais óbvias.

- Moça, dá para você me dizer aqui qual é o número da conta e da agência?

Ela olha.

- Sua conta é conta salário, não pode fazer depósito nela, só em conta corrente.

Miséria, lá vou eu caminhar por essas ruas com um bom dinheiro intocado. Às vezes eu penso que dinheiro tem cheiro, porque nunca vi ladrão adivinhar tanto que a gente está bem forrado. Quando o sujeito está liso de doer, o ladrão muda até de calçada, parece que viu uma flor.

Sento numa cadeira, aproveito o ar-condicionado para me refrescar um pouco. O calor no Recife está derretendo até pinguim de geladeira.

Vou anotar algo que preciso fazer, um de meus vícios, eu sou cheio de vícios, quando uma das mulheres desliga o telefone.

- Saiu o resultado. Meu avô está com câncer na boca. Semana que vem começa a quimioterapia.

A outra mulher, que estava ao telefone, olha.

- Mas eu sou muito realista. Minha avó é que fica chorando toda aperreada, mas eu sou realista.

- Você não é realista, é mais fria que realista.

- Quando meu primo morreu, eu estava grávida, todo mundo chorando, eu disse que aquilo era previsível.

- Se eu fosse tua prima, te matava. Oi, bom dia, sim. Ah, me dê o número da sua conta, que eu vejo agorinha. Agora.

A mulher do telefone encaminha algo, desliga o telefone, e emenda a conversa do mesmo ponto, como se não houvesse interrupção.

- Você não é mais realista, você é mais fria. Ou Maciel, eu iria te ligar agorinha. Pausa. Resolve outra coisa. Desta vez, o seguro de um carro, creio. Mas mil e trezentos? Hoje de manhã fiz uma cotação para mim, deu mil e cem.  Termina a ligação, a outra completa do mesmo ponto.

- Talvez eu seja assim porque nunca vi um parente muito próximo morrer.

- Não é isso não. Banco Reall, bom dia. Pois não. Qual é o número da agência. Sim senhor, claro. Vamos ver aqui. Termina a ligação.

- Não é isso não. Sinceramente, eu acho que você.  Alô, bom dia. Pois não. Não é nesta agência, senhora. Vou dar o número do telefone correto. Fim da ligação.

- Não é isso mesmo. A questão é outra. Você.

O telefone toca de novo. Mais uma questão envolvendo seguro, talvez a mesma. Minha curiosidade foi aguçada ao extremo, mas o telefone tocava demais, o trabalho me aguardava, e eu já estava chamando a atenção, porque ficava anotando tudo numa rapidez incrível em meu bloquinho.

Saí da agência com aquela boa grana, mas encafifado, encasquetado, contrariado,  querendo saber o que era, mas nunca saberei.

Tem certas coisas que a pessoa nunca vai saber mesmo.

Passei na livraria e comprei um livro que estava paquerando há muito tempo, depois fui caminhando até o trabalho, com aquela alegria de saber que terei um belo livro para ler, a mais tarde. Um sol de derreter qualquer cabeção e eu assobiando uma música do Vinícius. Aquele negócio manhoso do se todos fossem iguais a você, que maravilha viver. Eu estava até entoado hoje, parecia um Pixinguinha do bico. Fiii forofo forofóoooo. Fii farafi fi fifi.

Só agora me ocorreu algo. Custava ter esperado mais um pouco, para saber mesmo o que era?

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A impressionante arte de lançar livro

5 de março de 2010, às 16:15h por Samarone Lima

Definitivamente, minha vocação para lançar livros aos poucos vai se tornando um folhetim. Ontem, fui lançar o “Viagem ao Crepúsculo” em Natal e repeti façanhas aqui já relatadas, de lançamentos em outras cidades.

Às 9h, estava dentro do ônibus da Viação Progresso, uma empresa que eu faço questão de denunciar. Invariavelmente, pego ônibus com um péssimo ar-condicionado, sem água, e banheiro de boteco falido.  O de ontem foi um show à parte. Não tinha sequer água para lavar as mãos, papel, sabonete. O ar-condicionado era uma vaga lembrança.  Melhor seria viajar com as janelas abertas.

Quando chegar a Natal, vou ligar para o 0800 da ANTT, que é a agência reguladora dos transportes no Brasil, foi o que pensei.

Às 14h33 desembarcamos, eu e a caixa de livros (40 exemplares, era minha tosca esperança de vender no lançamento). Uma turma da ANTT estava fazendo uma pesquisa na rodoviária, fui logo dando o nome para falar, mas a moça queria saber apenas de onde eu vinha e quanto tempo iria ficar, e se voltaria de ônibus. Falei com a moça sobre o ar-condicionado, ela respondeu bestamente:

“Ah, isso é o que mais reclamam”.

Achei uma besteira a pesquisa, mas órgão governamental adora fazer pesquisa. Fui com minha caixa de livros e uma bolsa à tira-colo ligar para os amigos jornalistas, mas dei com os burros n’água. Meu celular estava descarregado, e os três amigos estavam em suas obrigações jornalísticas.

Do orelhão, liguei para a ANTT. Um atendente, de nome Jander, pediu meu nome, identidade, cpf, número do bilhete, placa do ônibus, e de vez em quando me dizia “aguarde um momento, senhor”. Isso durava de três a cinco minutos. Depois voltava, pedia o número do bilhete, senha, detalhes, pensei que ele iria pedir um retrato falado do motorista, meu tipo sanguíneo, clube de coração, livro preferido, tamanho do sapato, e arrematou minha reclamação pedindo que eu mandasse a cópia da passagem por fax. Mais fácil deve ser abrir uma empresa e pagar impostos.

“Escuta amigo, isso é para o cara reclamar ou é um censo que vocês estão antecipando?”.

Acho que o Jander não gostou muito da minha pergunta.

Tomei uma cerveja para relaxar, e às 16h descobri que era um verdadeiro idiota latinoamericano. O lançamento, no Bar Prozac, seria somente às 19h. Para que diabos peguei o ônibus das 9h, se tinha um às 11h?

Sem conseguir falar com ninguém, sem saber onde era o bar, meio desolado, um sol de rachar, pude utilizar o banheiro da rodoviária de Natal, uma das coisas mais imundas que já tive oportunidade de conhecer. Depois, pedi um sanduíche, um dos piores que comi nos últimos dez ou doze anos. Só mesmo um lampejo de esperança poderia me salvar.

Foi quando olhei para o outro lado da rua e vi:

“Hotel Cidade do Sol”.

Deixei a caixa de livro num box e fui lá. A diária custava R$ 15,00 mas expliquei meu problema, a moça baixou para R$ 12,00.

Paguei, peguei a chave, fui lá. Era um labirinto de quartos. No meu, um ventilador medíocre, uma toalha muito antiga e um sabonete de motel fuleiro. Meu plano era tomar um banho, cochilar, descobrir onde ficava o Prozac e seguir para o lançamento de táxi, com minha caixa. Nesse período, comprei um carregador de celular por R$ 10,00.

Voltei para buscar a caixa no box. Nisso, eu já estava cansado pacas, igual à Baleia, do Graciliano, pensando num mundo cheio de preás. 

Quando estava pensando em rezar, pedindo ajuda aos meus santos, o Carlos  Magno me liga.

“Sama, vou te buscar. Te deixo lá em casa, tu toma um banho, come algo e depois o Tácito vai te buscar, para ir ao lançamento”.

Foi uma das frases mais lindas da língua portuguesa que escutei este ano – “Sama, vou te buscar”.

Voltei para o hotel, expliquei à moça que iria embora, mas os R$ 12,00 ela dividisse com a faxineira. A moça abriu um sorriso. Voltei para o quarto, deu tempo de cochilar vinte minutos, depois desci, com a caixa e os 40 livros, minha mochila e meu terno de escritor, que uso em lançamentos.

Carlos Magno me levou para a casa dele. Fiquei sozinho, morrendo de fome e sede. Ele me apresentou a casa inteira, mas o melhor cômodo que achei mesmo foi a geladeira, cheia de tapauer com opções de rango. Mandei ver num macarrão com almondegas, fora uma salada de verdura e um pouco de purê. Um vinho tinto gelado completou a cena.

Às 17h30 estava debaixo de um banheirinho morno. Depois, foi só botar a roupa, ligar o ventilador no três e esperar o Tácito chegar.

Tácito é pontual pacas e me levou ao Prozac. No lançamento não deu tanta gente, mas a mesa ficou uma delícia. Sônia e Carlão, Demétrius e Raíssa, Xico Guedes, Tácito, Carlos e Elizandra. O excelente Dinarte, que fez uma matéria muito bacana para o Novo Jornal, também chegou por lá. Depois, o Carlos Magno. Também registro a presença do pai e da mãe de Inácio, meu dileto amigo.

A conversa girou em torno de Cuba, que é o tema do livro. Foi uma delícia. O Demétrius, que é poeta, saiu com essa:

“Foi uma revolução que gorou”.

O Xico contou que estava em Havana na época do julgamento do coronel Uchoa, homem queridíssimo pelo povo Cubano, que foi fuzilado. Para muitos  cubanos, ali foi o início do fim.

Foram conversas deliciosas sobre o mundo, viagens, impressões, sonhos, esperanças. Eu adoro conversar com velhos comunistas, os que não endureceram o pensamento. Rimos muito quando começaram a lembrar das marchinhas de Carnaval que caíram no gosto popular.

“Cuba Cuba Cuba/

Andou na contramão/

Vai descansar no Paredão”.

Uma música lembrou muito minha tia Flocely.

“O Brasil vai lançar foguete/

Cuba também vai lançar/

Lança Cuba, lança/

Quero ver Cuba Lançar”.

Ra ra ra ra. Quando eu fui viajar para Cuba, a saudosa Flocely repetia:

“Sama vai cuba lançar”.

Às 23h55 eu estava dentro do ônibus, voltando para o Recife, trazendo novamente a caixa quase cheia e alguns amigos novos. Minto. Alguns ótimos amigos novos.

Hoje de manhã fiquei pensando comigo. Algum dia vou chegar numa cidade, vai ter aquele pessoal do receptivo com uma plaquinha e meu nome. Depois vou para um hotel bacana, numa Van, onde poderei descansar, tomar banho, e à noite vai ter o lançamento, e meio mundo de gente para comprar o livro. E depois, uma baita farra, e eu não vou nem olhar para a conta.

Ah, mas se não tiver essas coisas, não tem problema, porque vou me divertindo à beça com esses improvisos. Ruim é quando a pessoa fica querendo demais uma coisa, e deixa de se divertir com as outras coisas boas que estão por perto.

O lançamento em Natal foi uma ótima desculpa para uma deliciosa roda de conversas com novos e velhos amigos, e isso já é uma dádiva.

Agradecimentos especiais a Tácito e Carlos Magno.

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Teoria e Método + Divulgação do livro novo

1 de março de 2010, às 10:37h por Samarone Lima

Nota do autor

Nesta quinta-feira (4/03), estarei no bar Prozac, em Natal, lançando meu “Viagem ao Crepúsculo”, a partir das 19h.

Na sexta (5/03 – lógico), participarei de um debate na Rádio Jornal AM com Plinio de Arruda Sampaio e Maurílio Ferreira Lima sobre “A esquerda, hoje”. Vou falar é sobre meu livro, isso sim.

Uma leitora querida mandou o link para escutar o programa. O linque da tua entrevista no JC: http://jc3.uol.com.br/jornal/2010/02/28/not_367842.php   (é só clicar em cima que abre direto, viu?)
 
O sítio da rádio JC, e é só clicar na coluna à esquerda, no nome do Geraldo Freire: http://jc3.uol.com.br/radiojornal/canal.php?canal=43  (idem)

Mas voltemos ao texto original. Não botei outro novo por causa desse tumulto do livro novo. Se o cara não se esforçar, o livro mofa na editora e o prejuízo é grande.

***

Tinha uma matéria na faculdade que me fazia sofrer terrivelmente – Teoria e Método de Pesquisa. Fora a experiência da reprovação em matemática, na quinta e oitava séries, foi o período da vida em que me senti mais burro. Eu não captava a teoria, nem desenvolvia um método. Não sei até hoje como terminei o curso de Jornalismo, se tínhamos a cadeira de TV por quatro semestres seguidos. Essas loucuras que não entendo. Quatro cadeiras de TV e nenhuma de filosofia ou literatura.

Disso resultou uma enorme dificuldade com as teorias, em geral, e com os métodos. Desenvolvi duas alternativas no que se refere ao meu ofício, que é escrever. Criei uma especulação e um jeito de escrever.

Hoje mesmo, acordei já pensando em uma crônica nova, mas me faltava o tema. Entrou a especulação. Uso meu instrumento básico de trabalho, que são as cadernetas e cadernos, que são muitos. Estão cheios de frases, cenas, observações, inutilidades. Tenho também cadernos com inúmeros recortes de jornal, com notícias estranhas e inusitadas. Fora isso, tenho um chamativo para malucos e pessoas que adoram me contar suas vidas em cinco minutos. Eu também tenho uma vasta coleção de inutilidades, que servem muito para a escrita.

Exemplo. Ontem, fiquei sabendo que o Brasil tem um Ministério do Esporte no Gelo. Não confirmei com minhas fontes em Brasília, mas deve ser verdade. Pensei em escrever sobre isso, mas me faltou elegância e astúcia. Fica para depois.

Passada a fase da especulação, chego ao jeito de escrever. Tenho o meu, cada um tem o seu. O principal é escrever sobre o que gosto. Como já tem muita gente escrevendo sobre os problemas do Brasil e do mundo, tento ir para a vida cotidiana, que é meu grande assombro. Só de vez em quando entro nesses litigios maiores, porque também não estou vivendo sem interagir, e muitas coisas me doem.

O melhor horário, disparado, é de manhã. De preferência, bem cedo. Quanto mais cedo, melhor. Como tenho minhas esquisitices, sou um cearense radicado em Pernambuco que bebe chimarrão quase todo dia de manhã. Estou aqui, portanto, com a cuia e a garrafa térmica. Os amigos nunca deixam faltar a erva-mate em suas viagens. Adriana Dória me trouxe recentemente uma erva argentina que era uma delícia, mas já acabou.

Teve uma época em que eu só escrevia de madrugada. É ótimo, mas o cara cansa muito no outro dia. Na época de Casa do Estudante, eu varava as noites em claro, com a ajuda do Nescafé. Eu também fumava, mas como só gostava de cigarro forte, o Derby, a essa altura, meus pulmões já estariam pifando. Hoje em dia, só fumo quatro cigarros, nos dias dos jogos do Santa Cruz. Dois no primeiro tempo, dois no segundo.

Escrever crônica é uma delícia, mas é preciso ter cuidado. Se a pessoa ficar falando demais dela, começa a ficar chato. Morro de medo de ficar chato. Se ficar também só fazendo análises, críticas, acaba ficando repetitivo. Para mim, o grande mestre da crônica continua sendo o Rubem Braga. Daqui de Pernambuco, o Renato Carneiro Campos me encantou com um livro magistral, “Sempre aos Domingos”.

Adoro escrever crônicas. É uma conversa com os leitores. Me divirto e, de certa forma, me realizo. Não dependo de nenhum meio de comunicação para me comunicar com as pessoas. Acabei de olhar no contador interno de Estuário. Esta crônica é a de número 580. Uma leitora está fazendo uma seleção rigorosa, para transformar em livro. É bom que ela faz a seleção e me manda comentários filosóficos, sociológicos, articulando com seus pensadores prediletos. Eu fico todo cheio de bossa, mas isso dura cinco minutos.

Com livro, trata-se de uma batalha. Leva tempo, cansa, dá trabalho. O sujeito sofre. Levei cinco anos na pesquisa e escrita de “Zé”, meu primeiro livro. É preciso das uns descontos, porque a primeira versão eu perdi integralmente. A segunda, creio, ficou melhor. Depois veio “Clamor”, que durou uns três anos. A batalha maior, comigo, é para definir como vou contar a história. O “como” me atormenta muito. O primeiro capítulo é meu maior sofrimento. São dias, semanas, meses, até achar o tom, o jeito. Quando ele fica pronto, o primeiro capítulo, desenho mentalmente a estrutura dos capítulos, anoto num caderno, e aos poucos, vai nascendo.

O livro de Cuba, por exemplo, me custou um ano e meio de trabalho puxado. Só consegui acertar o prumo quando decidi o seguinte – vou tentar levar o meu leitor comigo, pelas ruas de Havana.

O grande problema de quem escreve é tempo. Sempre falta tempo. Eu queria muito ter um mecenas, alguém rico que me desse uma bolsa de trabalho por uns três anos, mas os ricos do Brasil vão para Miami gastar o dinheiro todo lá, nunca tive essa sorte.

Mas um dia a gente para de reclamar, deixa de besteira, porque tem que sobreviver, pagar as contas etc. Adotei o método de escrever todo dia um pouco. Mesmo que 30 linhas de um texto. Cada dia um pouquinho. Assim, o sujeito vai construindo algo. Nessa luta, já vou com meus quatro livrinhos, e estou muito satisfeito com o andar da carruagem.

É claro que o retorno dos leitores é uma maravilha. Aqui em Estuário, tem o espaço dos comentários, que geralmente me dão muitas alegrias. Leio todos, até porque vão direto para minha caixa de email. É bom ver a diversidade de opiniões, de visões. Fico feliz. Geralmente respondo, mas não sei se as pessoas querem resposta, querem mais só comentar mesmo.

Os livros são outro tipo de retorno. Um amigo disse que só chorou com dois livros na vida: “Zé”, e “Meu pé de laranja-lima”. Achei sensacional, estar ao lado de “Meu pé de laranja-lima”, porque chorei com o filme, quando era pequeno. Outro mandou um email dizendo que começou a ler o livro sobre Cuba e se empolgou tanto, que passou da parada. Só se o cara for muito besta, para dizer que não se importa com isso, esses afetos cheios de bondade.

Fora a especulação e o método, algo me move profundamente – a teimosia. Sou teimoso pacas. Taurino turrão, me disseram outro dia. Estou numa pesquisa sobre um livro que começou em 1992. São 18 anos de luta paciente, coleta de informações, visitas a arquivos etc. Mas é bom ver que ele está se tornando realidade. Semana passada escrevi o capítulo 13. Tem dia que não consigo pegar no texto, mas fico remoendo aqui no cabeção, pensando nas cenas, só aguardando a hora de ficar com ele. Acho que a vida fica muito menos chata quando a gente tem uma teimosia dessas para dar conta.

Bem, eu tinha pensado inicialmente em escrever sobre o Ministério do Esporte no Gelo. Acabei mergulhado nessas reflexões e manias, um pouco dos bastidores da minha criação.

No fundo, eu queria mesmo era agradecer aos leitores que passam por cá, leem e deixam uma notinha ao pé da página.

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Quem lamenta sou eu, presidente

25 de fevereiro de 2010, às 12:02h por Samarone Lima
Orlando Zapata

Orlando Zapata

Em janeiro de 2008, voltei de uma viagem a Cuba que durou um mês, que resultou em um livro (Viagem ao Crepúsculo, Editora Casa das Musas). Naquele janeiro, o presidente Lula visitou a ilha, e acompanhei a mobilização de dezenas de estudantes de Medicina brasileiros, para tentar uma audiência. Em pauta, a revalidação do diploma. O máximo que conseguiram foi falar com o ministro da Saúde, José Gomes Temporão.

Nos jornais e rádios estatais, a visita foi cercada de silêncio. Lula chegou, encontrou com o velho amigo Fidel, tirou fotos, tudo muito divertido e afável. Entre os muitos amigos cubanos, havia um ranger de dentes. Uma raiva interior confessada em palavras baixas. Lula jamais deu uma palavra sobre prisões de dissidentes, violações de direitos humanos, a absoluta falta de liberdade que impera na ilha.

Desta vez, Lula chegou a Havana no fim da agonia de Orlando Zapata Tamoyo, de 42 anos, um bombeiro hidráulico e prisioneiro de consciência. Após 85 dias em greve de fome, ele morreu. À noite, no necrotério, sua mãe, Reina, deu um breve e comovente depoimento, uma indignação dolorosa e profunda.

“Eu digo ao mundo. Esta é a minha dor. Meu filho foi torturado durante todo o período em que esteve preso. Foi assassinado”.

Depois de relatar as torturas sofridas pelo filho durante todo o período em que esteve preso (desde 2003), ela não esqueceu dos demais infelizes que ousaram levantar a voz contra o regime:

“Que exijam a liberdade dos demais presos e demais irmãos”.

O depoimento da mãe pode ser escutado no blog da única voz possível vindo de Cuba, a blogueira Yoani Sánchez  (www.desdecuba/generaciony)

Forçado pelas circunstâncias a falar  sobre a morte de Orlando, Lula respondeu assim:

“Lamento profundamente que uma pessoa se deixe morrer de greve de fome. Pelo amor de Deus, ninguém que queira fazer protesto peça para eu fazer greve de fome, que eu não farei mais”.

Quem lamenta sou eu, presidente. A circunstância da visita permitiria, pela primeira vez, que uma voz reconhecida mundialmente trouxesse à tona um dos maiores crimes cometidos pelo regime cubano – a perseguição implacável a qualquer voz dissidente, tratados como “mercenários financiados pelos Estados Unidos”. No mínimo, uma negociação pela libertação dos que estão com graves problemas de saúde, os mais velhos, para que possam morrer perto dos parentes.

Lamento que a vítima, um bombeiro hidráulico passe de vítima a culpado. Claro, ele “se deixou morrer” na greve de fome.

Havia uma carta dos dissidentes, que deveria ser entregue a Lula. Ele não recebeu e explicou o seguinte:

“Eu não recebi carta nenhuma. As pessoas precisam parar com o hábito de fazer cartas, guardar para si e depois dizer que mandam para os outros”.

Tristeza, decepção, indignação. É o que sinto pela morte de um preso de consciência, após a agonia de 85 dias, e pelo que diz o presidente do meu país, com palavras que passam pela vulgaridade. Um homem que tem planos de ser um estadista mundial, que pretende mediar conflitos.

Mas vai uma confissão. Essa postura de Lula não é nenhuma novidade para mim, bem como o profundo, meticuloso e inabalável silêncio de praticamente todas as pessoas esclarecidas e de esquerda no Brasil sobre a realidade cubana.

Após o lançamento do meu livro, que mostra a vida cotidiana, o sofrimento, a penúria e repressão naquela ilha, participei de vários debates. Há os defensores radicais do regime, que me apontam o dedo e dizem que não vi os avanços em saúde e educação. Há dedos em riste, acusadores, as famosas perguntas, se vi crianças nas ruas, se vi mendigos.

Em nenhum dos debates, algum defensor ardoroso perguntou ou falou sobre esta palavra que me move diariamente, e com a qual caminharei até o último dia: Liberdade.

Os cubanos não são livres. Não podem sair do país. Não podem criticar o regime na fila do pão, sob o risco de serem rapidamente presos pelos infiltrados, e condenados a 20, 30 anos de prisão, após julgamentos rápidos. Não podem escrever um artigo para publicar no Granma, pedindo respeito aos direitos humanos.

Conheci de perto a azeitada máquina repressiva cubana. A rigorosa cobrança da identidade aos jovens mulatos. Os infames “Comitês de Defesa da Revolução”, verdadeiras máquinas de vigilância e delação, instalados em todos os bairros. Escutei relatos sobre a vida nas prisões de Cuba, por uma mulher admirável, que me hospedou, enquanto juntava os trocados para visitar o filho preso, a cada 15 dias.

O que está acontecendo em Cuba é uma tragédia humana que um dia será contada. A Anistia Internacional calcula em mais de 200 presos de consciência. Não mataram, não roubaram, não desviaram dinheiro. Ousaram falar, escrever, questionar.  

Orlando Zapata Tamoyo passou por uma longa agonia, e morreu às vésperas da chegada de um presidente que foi preso porque liderou operários, em busca de liberdade.

Zapata não se deixou morrer, presidente Lula.

Ele tinha a mesma fome que tenho, e que jamais saciou: de liberdade.

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In memorian

25 de fevereiro de 2010, às 1:30h por Samarone Lima

Orlando Zapata, 42 anos.

Preso de consciência da ditadura cubana.

Morreu em uma greve de fome, após dois meses.

Lula encontrou Fidel e Raul Castro, tirou fotos, mas não soube de Orlando.

Numa entrevista desastrosa, lamentou que “uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome”.

Isso é lamentável e muito triste. Há mais de 200 presos políticos na ilha.

No blog da Yoani Sánchez, a voz na surdina dos familiares de Orlando.

www.generaciony.com

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