Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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A qualquer hora, a casa cai

12 de junho de 2019, às 12:35h por Samarone Lima

 

Uma das poucas virtudes que tenho é a de agüentar calado muita coisa. Nunca fui adepto do “não levo desaforo pra casa”, porque muitas vezes nem é um desaforo, é só um mal-entendido, coisa que se resolve com uma conversa, com mais calma.

Em outros casos, é um disparate tão grande com as coisas que acredito, vivo e sonho, que prefiro não perder meu tempo. Gasto minhas palavras com meus amigos, ou as pessoas que têm a mínima abertura para trocar idéias – não insultos.

Pois eu venho agüentando caladinho a sanha desse tal de Sérgio Moro – e das pencas de Morinhos que simplesmente brotaram, no Brasil, nos últimos anos. Uma mistura de presunção, arrogância, cobiça, vaidade e “posso tudo”.  Essa gente que carrega um rei na barriga, orgulhosa que só pavão novo.

E tem um clube que freqüento, de classe média, no Recife, que é meu teste semanal. Vou lá, nadar e pegar uma sauna duas vezes por semana, e disparado, sou o menor PIB.

Os coroas que vão lá são todos do mesmo time. O que tiver de pior, no país, eles apóiam na hora, vestem a camisa. Se puder, botam a farda. O que a Globo diz, no encontro seguinte, eles já estão repetindo.

Pra não dizer que não falei das flores, outros dois são do meu time, à esquerda, mas também pouco interessado em discussões inflamadas com uma gente que vive esculhambando Lula e o PT (76% do tempo)  e conversando sobre as viagens à Europa, ações na bolsa, a venda de um dos três carros, as casas em Aldeia, um filho que mora em Londres, enfim (24%). É um povo que não consegue ficar calado.

Outro dia, calhou de ficarmos os três (os de esquerda, que eles chamam logo de petistas) sozinhos na sauna, e logo que isso aconteceu, nos entreolhamos na cumplicidade e veio o inevitável comentário:

“Já perceberam que já pararam de falar do presidente que elegeram, né?”

Pois é.

Escutei e fiquei calado, na minha posição de meditação, um deles, que sempre chegava vermelho, eufórico, aos berros, durante o vergonhoso processo de impeachment da então presidenta, Dilma Rousseff:

“Cunha é meu herói! Cunha é meu herói!”

O herói dele foi pego com muita grana em paraísos fiscais e está preso.

Quando Lula foi preso, abri meu sebo aqui em Olinda e os amigos foram chegando, arrasados, cambaleantes, creio que foi o velho Léo Antunes que providenciou um projetor, e assistimos um documentário incrível do Leon Hirzman, “ABC da Greve”, onde se via Lula comandando milhares de metalúrgico, e sendo levado nos braços do povo, desde sempre.

Depois tomamos umas e discutirmos sobre os tempos sombrios que se avizinhavam.  E eles viriam pior do que imaginávamos.

No dia seguinte, fui ao clube. Fiquei calado que nem doido-manso. Não disse um arroz. Mais quieto que pestana de defunto. Os homens estavam no céu. A prisão de Lula era como o salvo-conduto para o futuro do Brasil. Finalmente, o país estava livre de uma praga. E eu, para a irritação de alguns deles, fiquei caladinhi, costurando com minhas próprias linhas a tristeza que era só minha.

Os heróis deles variam, ao longo dos anos. Cunha, Michel Temer, Bolsonaro, por aí vai. O mais recente, claro, é o juiz Sérgio Moro.

Moro pra cá, Moro pra lá, e eu calado, na minha, só vendo a maruagem, os arrumados do poder, já preparando o dito cujo para o Supremo, valei-me Padim Ciço.

Entre os amigos, a gente dormindo nas urtigas, contando estrelas ao meio-dia, comendo o pão seco do desterro, rezando para essa onda devastadora de retrocesso dar pelo menos uma mitigada. Cada dia era uma notícia pior que a outra.

Mas, como diz o ditado popular, todo mofino tem seu dia.

Chegou a hora da verdade. O jornalista norte-americano Glenn Greenwald e um grupo de jornalistas colaboradores publicou as reportagens no Intercept Brasil, mostrando o “modus operandi” do senhor Moro, no processo contra o ex-presidente Lula.

Moro Batia escanteio, corria, cabeceava, fazia gol, comemorava, apitava o fim da partida e expulsava o time adversário no mesmo jogo. Depois levantava a taça de campeão da moralidade e dava a volta olímpica sozinho. Um escândalo internacional.

O homem que só queria ser o 31 de fevereiro, está agora tendo que colocar suspensórios em cobra, cantando o coco sem saber a toada, chamando urubu de meu louro. Mais parece uma carranca de portão, com os olhos arregalados de tensão.

Como diz o velho ditado, “quem quer ser grande sem poder, fica pequeno sem querer”.  É o caso.

Hoje, por sinal, o clube citado vai estar aberto.

Vou lá, ficar no meu canto, pegando aquele calor bom no organismo. Vou ficar na minha posição de meditação, bem calado e quieto, como sempre.

Gosto deste espírito de contenção, mas… quando Lula for solto, meus amigos, eu realmente não vou prestar pra nada.

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Para uma nova amiga, de 80 anos

29 de maio de 2019, às 13:43h por Samarone Lima

Desde sempre, gostei de gente, de fazer amigos, e manter com eles laços que vão pela vida.

Gosto de farejar, de buscar, de sentir que um novo amigo está chegando. Por outro lado, sou capaz de andar mil léguas por um amigo.

Tenho uma pequena legião, que pode estar longe, que posso não ver há muito tempo (já que vivi em tantas cidades), mas basta um encontro, que retomamos uma conversa de três anos atrás. “Sim, mas como você vinha falando…”

Nesses tempos difíceis, quando a realidade é quase uma deslealdade, os amigos são uma espécie de oásis. Podemos conversar, repensar os rumos, ver estratégias de sobrevivência não só financeira, mas psíquica, porque há muita violência, muita falta de cuidado, muita agressão, muita “grosseria generalizada”, como diz a poeta Adriana Perrucci. Os amigos são uma sombra em qualquer sol, em qualquer chuva.

E registro pouquíssimas perdas. Os que, por algum motivo, simplesmente desistiram, deixaram a amizade minguar, tiraram a planta do sol. Faz parte da vida.

Ao longo da vida, tive muita sorte com eles, os que ficaram e criaram raízes, que fazem parte deste meu jardim. O Gustavo de Castro, o Jacaré, meu amigo de longas jornadas em São Paulo. Temos no currículo milhares de horas no alpendre da Canuto do Val, na Santa Cecília, quando ele fazia o doutorado, eu fazia o mestrado. Conversas sem fim, sobre a vida, os sonhos, arte, literatura, viagens, fracassos retumbantes que vivemos, enfim. E Josmar Josino, o Valente? Com certeza, o maior jornalista que vi trabalhando ao meu lado. Foi minha escola. E Selminha? “Nunes, Selma Nunes”, respondia ela, ao telefone. Só de falar, a saudade se mexe.

Já vi que esta crônica vai ser longa.

No Recife, outros tantos, que não poderei citar os nomes. São muitos do coração. O velho Inácio, Laércio, Naná, Seu Vital. Agora, em Olinda, novas descobertas e redescobertas, como a amiga Valda, que amiga de tantos anos, agora em Portugal, fazendo seu doutorado. Aqui, conheci o velho e bom Helder, dono do Sana Bar, que sonhava em fazer Filosofia, enquanto o país desmoronava. Há alguns meses, arrendou o bar, entrou na Universidade Católica e agora está enfurnado na Biblioteca Central, envolvido com seus novos amigos: Platão, o chegado Aristóteles, Plotino etc. Por falar em Filosofia, não posso deixar de falar de Zeca, O professor Marçal, Kiko, o filósofo que mais tem nomes e apelidos no Brasil, agora professor da UFRPE. Um “Crânio”, como se dizia antigamente.

Mas dou sorte porque ganho amigos que dificilmente teria, por serem pessoas muito conhecidas ou distantes.

Uma delas foi Ariano Suassuna. Na vida, tive pouquíssimos encontros com ele, coisa rápida, e por essas tramas do destino, acabei virando assessor de imprensa quando ele era secretário, e vivi cinco anos maravilhosos, viajando pelo interior de Pernambuco, acompanhando suas aulas-espetáculo e entrevistas. Sobre esses cinco anos com ele na estrada, ainda escreverei.

Cici

Até que, há um mês, surgiu o nome “vovó Cici”, aqui no Sebo. Quando falo “aqui no Sebo”, é porque moro numa casa-sebo. A idéia de Aura, minha namorada. Trazê-la da Bahia, para vivências, a partir das histórias afro-brasileiras.

Sim, mas com que dinheiro, todo mês eu faço milagres, para pagar o aluguel em dia?

A sugestão foi só uma – correr o risco. As tramas do destino costumam se arrumar quando há uma intenção verdadeira, amorosa, de cuidado e beleza.

E dia 22 de maio, ela chegou aqui, vinda de São Paulo, onde foi participar da Virada Cultural. Ficou até o dia 26. Ela é esta criatura linda das foto. Tem 80 anos, trabalha há muitos anos na Fundação Pierre Verger, na Bahia. É conhecida como Ebomi Cici, mas quando chegou aqui, olhou para o quadro negro com os dois nomes, apagou o “Ebomi”, que é um título que poucas pessoas têm nos terreiros.

“Basta Cici”, disse.

Era uma quarta-feira à tarde. Ela ficou num dos quartos que reservei para os amigos ou viajantes de boa fé (não topei a parada do AirBnb porque eu gosto de receber na minha casa gente que seja mais da minha espécie – do silêncio, da quietude, da boa conversa).

Foram quatro dias inesquecíveis. Tivemos vivências com grupos fechados (até 35 pessoas) na quinta, sábado e domingo. As pessoas ficavam extasiadas, com sua oralidade, a capacidade de passar horas contando histórias da “diáspora africana”, dos orixás, dos mitos, de sua vivência e aprendizados com o grande Pierre Verger.

Na sexta-feira, creio que Sebo viveu um dos momentos mais belos, nesses dois anos. O Sarau, que geralmente começa às 21h13 ou mais, e vai até tarde, com o microfone aberto para poetas e artistas em geral, recebeu, a partir das 19h33 uma senhora baixinha, que caminhava lentamente, amparada por uma daquelas muletas de alumínio, a “Muleta Canadense”, porque tem um sério problema de artrose.

Ela sentou, olhou para o público (umas sessenta pessoas), abriu um sorriso, se apresentou e passou duas horas contando histórias, ao lado de dois músicos, que tocavam ritmos que ela pedia, e cantava. Em alguns momentos, levantou e dançou, para mostrar como era a coreografia.

Sempre, no Sarau, boto cervejas para gelar e ganho uns trocados a mais, para ajudar nas contas. Nesta sexta, tinha ainda umas 30 cervejas do sarau anterior, e resolvi não comprar mais.

Durante toda a noite, não teve uma pessoa pedindo cerveja. O silêncio era absoluto. Todos pareciam ávidos de histórias, de encantamento. Caso raríssimo, quase ninguém puxou o celular para gravar nada. Tudo parecia obedecer a um ritmo diferente, a uma atmosfera que acontece em alguns momentos da vida. Todos estavam presentes.

Ao final, fui recolhendo as cadeiras e formou-se um novo público. Umas dez pessoas sentaram na calçada, ao seu redor, e a conversa foi até meia-noite. Eu queria que todos os meus amigos estivessem aqui, na sexta passada.

Nesses dias, conversamos muito. O café da manhã, demorado, rendia ensinamentos, partilhas, breves comentários que eram uma parábola. Mas, acima de tudo, um culto à simplicidade. Em cada gesto, um ensinamento. Tem na vida a missão de levar a memória da herança dos ancestrais, os que “vieram em navios negreiros”, para que os de hoje possam levar estes legado – para os que ainda estão por vir.

Anotei muitas coisas de nossas conversas. Uma delas me tocou em especial:

“O tempo só é bom para quem sabe esperar”.

Tenho mais uma amiga na vida. E como ela é linda. Breve estarei na Bahia, para retomar as conversas.

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Uber: em cada viagem, um retrato de um país que desmorona

30 de abril de 2019, às 10:42h por Samarone Lima

Moro em Olinda, onde as linhas de ônibus são péssimas e caras. A passagem que mais pago, para não ficar no sol ou na chuva, custa R$ 4,70. Se for pegar dois ônibus para dar aula na Fafire, onde estou dando aula de Poesia (uma especialização em Escrita Criativa), melhor é ir de Uber mesmo, que é mais confortável e o preço fica quase o mesmo.

Então aproveito para fazer minhas pesquisas antropológicas, sinestésicas, ambientais-emocionais.

Pergunto desde que horas a pessoa está dirigindo, e há quanto tempo está no Uber. Depois desse “quebra-gelo”, vou ao terceiro passo – pergunto o que a pessoa fazia, antes de assumir uma direção de um carro para ganhar uma grana e sobreviver. Dá para ver como o país entrou numa espiral negativa, que parece não ter fim.

Mudando o nome das pessoas e contextos, vai um resumo do que guardei de memória, ao longo dos últimos dois meses.

Reginaldo

Esse foi um dos que mais me tocou. Chamei o Uber umas 22h, após sair de uma reunião no Arruda. Até chegar em Olinda, deu para conversar bastante.

Quando entrei no carro, vi que ele estava exausto. Disse que estava no volante desde as 5h da manhã. Está há dois anos no Uber. Trabalhava numa grande cervejaria, não lembro a profissão, mas ganhava uns R$ 3 mil por mês + cesta básica (que elogiou bastante). Cortes na empresa,o desemprego. Comprou um carro errado, o Peugeot, que lhe deu inúmeros problemas, se arrependimento mata, ele teria morrido há muito tempo. Por sinal, com outros motoristas da minha pesquisa, o Peugeot é, de longe, o carro que dá mais dor de cabeça, as peças são caras, e pra vender, é um inferno.

Reginaldo estava dirigindo para “alcançar a meta do dia” (que quase todos os motoristas usam). Isso significa mais de 15 horas dirigindo, para dar conta do carro (que é alugado), uma pensão e aluguel.

Marcelo

Trabalhava como soldador, no Estaleiro, em Suape. Foi o período de maior prosperidade. Salário bom, adicionais por hora extra, aproveitou o tempo de bonança para construir sua casa. “Aquilo era um mundo, mas acabou tudo. Só no local que eu trabalhava, eram 9 mil trabalhadores. No outro, cinco mil. Não ficou ninguém”.

Marcelo teve mais sorte, porque conseguiu fazer a casa e comprar um carro, que usa para se virar enquanto não aparece nada. Foi um dos poucos que estava mais tranquilo.

João,Francisco e Mário

Um mix de três pessoas que tinham histórias bem parecidas, que rodavam muitas horas por dia, entrando pela noite. João e Francisco tinham sido gerentes de logistica (um em uma farmácia, outro numa grande hamburgueria). Nos dois últimos anos, o emprego foi para o saco e ficaram sem opção. Começaram a rodar. João lamentava a “desgraça” que o país estava. Francisco lembrou dos bons tempos, com salário bom, décimo terceiro e férias.

Mário tinha o mesmo tipo de trabalho, só que numa grande empresa de medicamentos.

“Rapaz, eu ganhava em média R$ 6 mil por mês, estava com a vida organizada, mas a empresa perdeu uns contratos e agora estou me virando por aqui”.

Doval

Trabalhava entregando marmitas para hospitais, em uma Kombi. A empresa, chegada a um cambalacho, não assinava carteira nem depositava o Fundo de Garantia, mas ele não reclamava.

“Davam R$ 1 mil em dinheiro, sem descontar nada. A gente ía à paisano, como se a Kombi fosse da gente, e não da empresa”.

A exemplo de vários outros relatos, a empresa perdeu os contratos e os funcionários foram “demitidos”. Ou seja: vai-te embora sem nada mesmo.

Roda várias horas por dia. Na conversa, não parecia alegre nem triste, apenas tocando o carro, alugado por um amigo, vivendo o que é possível viver.

Mariana

Mulher conversadeira, animada, tinha uma pequena lanchonete, que foi para o brejo há dois anos. Roda muitas horas por dia, diz que “é o jeito”, mas foi a única a descer a lenha na política econômica da era Temer, que “segue a mesma, mas piorada”, com o novo governo.

“Esses miseráveis só pensam em cortar dos que têm menos. Quanto mais eles cortam, mais o dinheiro some e o desemprego aumenta. Se essa reforma da previdência passar, a pessoa se aposenta e morre”.

Ela também demonstrou uma irritação com o assédio dos homens. Em qualquer insinuação, disse que dá logo um fora, “para o sujeito ficar esperto”.

Oswaldo

Foi o único que estava a boa com o Uber. Trabalhava numa empresa de segurança de valores, a bordo daqueles carros de valores (esqueci como é o nome dos bichos). Uma tensão desgraçada, levando o dinheiro alheio. Quando soube que haveria uma lista de dispensa, pediu para colocar seu nome.

“Antes a gente ganhava bem, tinha hora extra, mas foram botando mais gente e cortando tudo. Meu último salário foi R$ 1.300,00. Achei melhor sair. Tenho meu carro, minha casa, vou é curtir mais meus filhos e fazer um curso de elétrica para prédios”.

Em comum

Entre as dezenas de conversas, algumas coisas em comum.

1. Quem anda com o carro a gasolina, o motorista tem que trabalhar três vezes mais do que quem tem gás natural no seu veículo;

2. O Uber cobra, em média, 25% por cada viagem. Se eu pago R$ 10,00 em uma corrida, cai na conta R$ 7.50. O cara que inventou essa parada fica lá na Califórnia, em sua rede, não vai nem na esquina, e no final do dia tem uns milhões de dólares na conta.

3. Quase todos têm uma “meta” para o dia, que serve como uma base para fazer os cálculos, no final do dia. Tem motorista que roda o dia inteiro, tira o que gastou com gasolina e o que vai pagar da renda (se o carro for alugado), e pode chegar ao final do dia com R$ 50/60,00 de lucro

4. O tempo do Uber é diferente do relógio normal da humanidade. Aparece no seu celular que ele está a 4 minutos de sua casa, depois passa para 7, depois volta pra quatro, e daqui a trinta segundos ele chegou, quando você estava calçando os sapatos.

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Ditadura Nunca Mais

1 de abril de 2019, às 11:48h por Samarone Lima

Tenho 49 anos, quase 50. Sou um jornalista e escritor brasileiro, e bem jovem, ainda estagiário do Diário de Pernambuco, comecei a ler sobre a última ditadura, que durou 21 anos. Creio que o interesse veio de uma leitura precoce de “Batismo de Sangue”, de Frei Betto, que meu irmão Paulo, mais velho e politizado, trouxe em sua algibeira, quando voltou do seminário, em Carpina.

O livro, lançado em 1983, me impactou de forma irreversível. Eu tinha uns 15, 16 anos e vi como a tortura sistemática, organizada pelo estado, a infâmia autorizada, pode causar tanta dor, não só entre os que sofrem no corpo e na alma, mas em todo um universo que está ao redor. Desde esta época, a palavra ditadura se modificou em mim, ganhou outra dimensão. Algo que eu não quero que se repita nunca.

Pouco depois, em 1985, meu pai chegou em casa com o livro “Brasil: Nunca Mais”, feito com base nos depoimentos de presos políticos nos próprios tribunais militares. São dilacerantes.

Em algum momento da minha vida, decidi que seria jornalista, para depois, quem sabe, virar escritor. E que escreveria sobre este período, que durou 21 anos na história do Brasil. Um período de trevas, em todos os aspectos.

Meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, em 1993, foi sobre o assassinato do militante mineiro José Carlos Novais da Mata Machado, da Ação Popular (AP), no Recife. A versão era de que ele tinha morrido num tiroteio na avenida Caxangá, em 28 de outubro de 1973.

Fiz dezenas de entrevistas, consegui encontrar um grupo de amigos que tinham dado abrigo ao Zé, no Recife. O tiroteio nunca aconteceu. O Zé, como era conhecido, morreu após uma noite inteira sendo torturado, no DOI-CODI do Recife, ao lado do seu companheiro de AP, Gildo Lacerda. O longo depoimento de um ex-preso, que viu o Zé, agonizante,  ajudou a desfazer uma das muitas farsas da ditadura.

A família do Zé conseguiu resgatar seu corpo, mas com uma condição – o caixão não poderia ser aberto. Gildo continua um desaparecido político.

Em 1998, após cinco anos de pesquisas em arquivos, dezenas de entrevistas com parentes e amigos, publiquei meu primeiro livro. Ganhou o título de “Zé”, pela editora Mazza.

Por essas caminhadas da vida, fiz um mestrado e pesquisei sobre as ditaduras do Chile, Argentina e Uruguai, que virou o livro “Clamor – a vitória de uma conspiração brasileira”, publicado pela editora Objetiva.

O balanço final de cada Ditadura é que nenhum povo quer viver sob o domínio do medo e da violência. Ao final de cada uma, há um longo tempo de dor, que é mitigada quando os algozes reconhecem o que fizeram e pedem desculpas. Em alguns casos, os responsáveis são punidos, como na Argentina. O general Jorge Rafael Videla, o mais sanguinário, morreu na cadeia. Os militares brasileiros que deram o golpe, e, com ajuda forte de civís, ficaram 21 anos no poder, jamais pediram desculpas pelas atrocidades cometidas nos subterrâneos dos quartéis.

Hoje, quando lembramos os 55 anos daquele terrível primeiro de abril de 1964, que arrancou 21 anos de vida democrática do Brasil, é uma insanidade, uma afronta à nossa Democracia, um sujeito que está ocupando a cadeira de presidente da República, esse sujeito medíocre, fascista, chamado Jair Bolsonaro, pedir para que a data seja comemorada nos quartéis.

É uma afronta aos que morreram, foram torturados, enlouqueceram, se suicidaram.

É uma afronta às famílias, aos amigos, aos que tiveram que partir para o exílio, aos que nunca mais conseguiram reconstruir a vida – e perderam, certamente, 21 anos preciosos, com os militares mandando e desmandando em todas as esferas de governo.

É uma afronta à nossa história e memória.

Das muitas pessoas que entrevistei, três estão presentes como chama viva na minha vida: os engenheiros Edinaldo Miranda, Ricardo Zarattini e a advogada Mércia Albuquerque.

Edinaldo, em algum momento da prisão, após muito sofrimento, começou a acreditar que tudo o que pensava estava sendo registrado pelos agentes da repressão. Começou a cantarolar a “Pequena Serenata Noturna”, de Mozart, para não pensar em nada. Foi salvo por um médico que estava na mesma cela.

Zarattini foi preso, torturado durante 17 dias no DOI-CODI do Rio de Janeiro. Inventou uma história, para não entregar ninguém, até que, em certo momento, começou a acreditar na própria mentira. Com isso, salvou várias pessoas. Estava no Chile, no golpe de Pinochet, em 1973, ajudou vários brasileiros a entrarem em embaixadas, e só depois cuidou de si. Até o final da vida, se definia como um revolucionário.

Mércia Albuquerque era uma advogada altiva, corajosa, destemida. Atuou durante toda a ditadura para dezenas de presos políticos. Em outubro de 1973, ela foi acionada pela família Mata Machado para tentar encontrar o corpo do Zé. Ela foi nos cemitérios do Recife, conversou com coveiros, descobriu um enterro misterioso de duas pessoas, à noite, com carros do Exército.

Localizou a vala onde estava o corpo do Zé, conseguiu que fosse exumado e mandado para Belo Horizonte.

Ditadura Nunca Mais.

Ao irmão Paulo, que me politizou com seus livros.

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Sejamos mais Diadorins

20 de março de 2019, às 10:26h por Samarone Lima

Tempos terríveis vivemos nós. Tempos brutais, de violência física, psicológica. Barbaridades são ditas a todo instante, pelos que agora governam esta sobra de país. O Brasil está por uma peinha de nada.

Conquistas sociais, que custaram décadas de lutas, organização, mobilização, que os nossos velhos deram o sangue, agora são jogadas por terra com uma simples canetada. Um ministro da Educação assina decreto para que o enfadado hino nacional volte a ser cantado nas escolas, que os alunos sejam filmados, e que louvem o sujeito que chegou à presidência tendo como maior símbolo, uma arma em punho. Depois, o idiota volta atrás, e fica uma poeira do entulho, dos milhões de zaps produzidos, comentados.

O presidente da república, o capitão da reserva, vai aos Estados Unidos, para uma visita humilhante ao fanfarrão bilionário loiro e faminto de nossas riquezas, e meu celular é inundado de memes, filmagens, caricaturas do serviçal (e sua comitiva), de um sujeito que sai do Brasil, uma nação linda, rica, poderosa, e diz que “se sente em casa”, nos Estados Unidos. É triste ser motivo de chacota internacional, mas me dói muito mais saber que voltamos a ser um país de quinta categoria, cada vez mais pobre e submisso.

Nessa minhas poucas linhas semanais, nessas crônicas sem rumo que escrevo, peço aos amigos algo ridículo – que acalmem seus celulares, que reduzam seus reenvios de zaps, de memes, de fotos dessa gangue que chegou ao poder. Essa gente das milícias, da violência, da subserviência absoluta, quando o assunto é a riqueza brasileira. Aqui dentro, eles só falam em matar gente, dar pau, são o cão chupando manga. Lá fora, chegam com o rabinho abanando, rastejando.

Não aguento mais esse negócio de ficar falando com um amigo, gravando não sei quantas mensagens, resolvendo coisas importantes, colocando os afetos sem ouvir a voz do outro.

Precisamos nos falar. Ligar para os nossos, saber como está um amigo que você não fala há semanas, meses. Escutar a voz, esse bem precioso que temos. Falar. Escutar o outro. Marcar encontros nas casas, reunir os chegados, reforçar os laços. Fazer uma comida juntos, tomar café, chá, cerveja, cachaça, seja lá qual for a pedida, mas nos ver, olhos nos olhos, saber como está a vida.

A barra está pesada, meus amigos e amigas, e vai pesar ainda mais. A turma que tomou de assalto o poder é faminta, é violenta, não tem nenhum vínculo com movimentos sociais, com movimentos periféricos, com grupos de direitos humanos, de mulheres, nada. Pra eles, o Brasil precisa ser desconstruído. Em outras palavras, tudo o que vier do lugar que eles não vieram, tem que levar porrada. O Brasil, para eles, precisa ser mesmo é destruído.

Não nos afastemos. Vamos ampliar nossas redes, incluir mais gente, vamos nos encontrar mais, e não somente nas manifestações.

Quanto a mim, peço que não fiquem me reenviando áudios, vídeos, filmagens, dessa turma. Eles não merecem nenhuma atenção. Quanto mais falam dele, repercutem as merdas deles, eles gozam.

Prefiro que me mandem canções de Milton Nascimento, Mercedes Sosa, dos Mutantes, do Ave Sangria, de Sérgio Sampaio. Eu quero é botar, meu bloco na rua. Me mandem poesias de Nicanor Parra, de Alejandra Pizarnick, de Conceição Evaristo, dos poetas novos, que estão explodindo de emoção nas perifas de todo o Brasil. Nunca vi tanta gente feliz no Instagram. Parece gente de outro país. Me mandem belezas, cantos de fé, orações, imagens dos guias, de Oxalá,de Yemanjá. Um relato do momento em que você chutou o pau da barraca. Um poema seu, uma frase, uma foto com a cara triste, mas sincera. Me reenvie Caetano, com sua Oração ao Tempo. Ou Maria Bethânia, lendo Guimarães Rosa.

Sejamos mais Riobaldos. E, principalmente, mais Diadorins.

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