Notas de uma tarde de maio
Samarone Lima
Estou em casa desde as 14h. Aqui no quarto, o silêncio é total. Meu escritório, no fundo do amplo apartamento, tem uma pequena salinha, que tem uma janela. Posso ver, à esquerda, o mar. Antes, o enorme e feio prédio do Tribunal Regional Federal, onde trabalham vários amigos da pelada da quarta-feira. Ao seu lado, a Torre Malakoff. A luz que entra no quarto não é muita, porque ao lado tem outro prédio e mais à frente, outro. Mas no intervalo entre eles, posso ver o mar. A luminária do lado direito é regulável, tenho o misterioso direito de colocar a luz onde quero. A mesa onde escrevo, como sempre, está cheia de papéis, livros, encadernações, carimbos, canetas, lápis, cadernetas. Sou da civilização do papel. Preciso pegar, riscar, recortar, rasgar, colar.
No chão, me rodeando, como animais de estimação, pastas, cadernos com recortes, jornais amontoados, que prometo sempre arrumar, mas eles, como os animais, se multiplicam. No mural, em frente à mesa, fotos, anotações, a medalha que ganhei por ter concluído em tempo razoável a Corrida das Pontes, cópia do exame do coração, feito em janeiro, onde o Dr Edmilson descobriu um pequeno sopro, nada grave. A cadeira onde estou é confortável, a mesa é de madeira antiga, que Luzilá me emprestou desde a época em que morei no Poço da Panela, espero que não lembre tão cedo.
Então acontece isso. Uma paz imensa me assalta. Sei que não produzo um objeto sequer para o país, no dia de hoje. Não ajudo a ninguém com meu trabalho. Até o anoitecer, não trocarei um esparadrapo, o pneu de um carro, não jogarei uma semente na terra, para que um dia vire fruto. O PIB do país, com ou sem mim, será o mesmo. Talvez até menor, porque estou gastando a energia do ventilador, da luminária, o gás que usei há pouco para um chá. O máximo de contribuição para a humanidade, do ponto de vista prático, será botar a ração de Azeitona, nossa gata, que mais tarde miará pedindo algo. Alimentar um animal querido é, sim, uma contribuição para a humanidade, pelo menos a minha.
Leio, tomo notas, penso, escrevo. Então, um sentimento estranho e já conhecido me assalta. É um maravilhamento, uma alegria, uma pequena embriaguez, ou pequeno êxtase, ou talvez nem tenha nome. É a constatação de que estou fazendo exatamente o que quero fazer. Uma conquista íntima, fruto de anos de trabalho. Ficar em casa, numa tarde de maio, neste mundo que criei para mim, que alimento, que me completa. Algumas horas de aboluto desligamento do mundo, suas obrigações, petições, tantos combates desnecessários.
Cá estou, solitário, em silêncio. Tudo o que produzo agora é o ruído mínimo da caneta no papel. Depois, o barulho do teclado no computador. Espero sair desta tarde com fazia o Cabral, ao final de um poema – com as mãos lavadas. Ou com um silêncio limpo, como dizia o Bandeira.
Ou nem sair dela, porque daqui a pouco chega a noite, uma chuva, quem sabe uma primavera, e cá ainda estarei, neste Quilombo, no centro do Recife, vivendo a vida que me foi possível, a que me dei.
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