Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Minhas copas do mundo

28 de maio de 2018, às 14:43h por Samarone Lima

A primeira foto que tenho de uma Copa do Mundo é em Pentecostes, no interior do Ceará. Estou todo de amarelo, com o símbolo da Copa da Argentina, em 1978. A foto é horrível. Não sei se sou menos feio ao vivo ou em fotos. Mas eu tinha nove anos, ainda tinha uma certa graça.

Nunca imaginei que, muitos anos depois, estaria na mesma Buenos Aires, vasculhando arquivos e entrevistando pessoas para saber o que estava acontecendo naquele mês de Copa, quando a máquina repressiva jogava os corpos no mar. Virou meu segundo livro, Clamor.

Minha segunda lembrança, pungente, por sinal, foi na Copa de 1982, na Espanha. Eu tinha 13 anos, e tinha no meu irmão, Tonho, o companheiro futebolístico. Pintamos a rua, fizemos bandeirinhas, o time só tinha craque, eu achava tão lindo, um homem barbudo, magro, alto, que comemorava seus gols apenas com o punho em riste, dizendo tanta coisa, e que era um médico, o Doutor Sócrates.

Quando a Itália fez o terceiro gol, senti uma dor profunda, mas sabia que a qualquer momento, daquele monte de craques, sairia o empate, e nossa classificação. Nunca veio. Na frente de casa (a gente morava na Maraponga), chorei de soluçar.

Em 1986, a gente morava no Montes Castelo, e lembro de ter assistido aquele jogo contra a França na casa de uns amigos, e todos, na hora dos pênaltys, estavam de mãos dadas, rezando.

Da Copa de 1990, não lembro quase nada. O time era uma coisa medonha, e o treinador era um tal de Sebastião Lazaronni.

Em 1994, eu tinha chegado em São Paulo, assisti todos os jogos no Vale do Anhangabaú. A final, fui assistir na casa do amigo Inácio. Fomos campeões, fui dar uma volta com o carrinho do bêbê dele (Pedro), para homenagear o Senna, quebrei o espelho da sala.

A de 1998 foi em São Paulo, pelos botecos da Santa Cecília, onde morei por seis anos. Nessa época, eu já não sofria com as derrotas.

Em 2002, morava no Poço da Panela. Foi farra até umas horas. Consegui assistir todos os jogos possíveis. Tenho uma foto segurando a réplica da taça, feita por Gugu Ferrer. É minha segunda foto de Copa.

Em 2006, um time cheio de estrelas, um rebolado da gota, eu já estava ficando invocado com aquela imbecilidade da TV Globo o dia inteiro lambendo os caras. Fomos eliminados pela França, e eu estava mais preocupado mesmo era com o Santa Cruz.

Ufa, chegamos a 2010, na África do Sul. Torci pela Holanda na final, para os holandeses finalmente levantaram uma Jules Rimet, mas de nada adiantou. Lembro que estava no bar Mamulengo, vendo Brasil X Holanda, quando Gerrá comentou que a vitória estava no papo. Dois vacilos, e a vaca foi para o brejo. Tomamos nossas cervejas e ficamos rindo.

A de 2014 teve aquela coisa pavorosa das Arenas. O jogo contra a Alemanha foi no Princesa Isabel. Me levantei para ir ao banheiro, o Brasil já estava perdendo. Voltei, pensei que estavam passando o repeteco do jogo, era já o terceiro ou quarto. Nem nas peladas que eu jogava, a era tão fácil fazer gols. Quando estava 5 x 0, a gente estava já tirando onda. Virou 7 x 1. Qualquer paixão pela Canarinha foi para o saco.

A Copa de 2018 só me desperta mesmo o desejo de ver ótimas partidas, encontrar os amigos-comentaristas (Inácio, Laércio, Little Paul, Naná, entre outros).

Tenho umas cinco camisas da seleção brasileira, mas vontade nenhuma de usar. Vou ver se consigo uma do Egito, por causa do Salá, jogador maravilhoso, criminosamente tirado de campo, na final da Euro, sábado passado, pelo açougueiro Sérgio Ramos.

Saiu chorando, porque sua dor era saber que iria fazer falta ao seu time. E fez muita.

Ou a do Uruguai, porque é meu destino morar em Montevidéu alguns anos, e sempre torço pelo Uruguai nas copas, e é um país que tem ensinado muitas coisas aos países vizinhos.

A seleção brasileira, que fez aquele adolescente que fui se derramar em lágrimas, em 1982, hoje provoca um certo asco. Ela tem mais a cara de um banco do que a de seu povo.

A 17 dias da Copa, não tem uma rua aqui do sítio histórico de Olinda com uma reles bandeirola pendurada, uma parede pintada, que nos lembre de uma paixão que atravessou gerações.

Vou praticar meu esporte nacional – torcer pelo time mais fraco. Mas dia 15/06 tem Egito x Uruguai. Salá, fica para a outra rodada, visse?

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O Pecado Capital…

14 de maio de 2018, às 14:46h por Samarone Lima

 

teresa com o quadro

Quando Teresa Costa Rêgo disse que iria que fazer seu aniversário no Sebo Casa Azul, deste que vos escreve, tomei um susto, mas ao mesmo tempo achei ótimo. Uma das maiores artistas plásticas do Brasil, moradora ilustre da Rua do Amparo, chamar seus amigos para celebrar seus 89 anos neste modesto espaço, foi algo que tocou este velho marujo.

A data era 28 de abril, e me remeteu a abril de 2017, quando o velho amigo, Inácio França, iria visitá-la, pra entregar o romance/novela “Teresas”, que acabara de sair da gráfica, pela editora Confraria do Vento.

“França, quero ir para esse encontro para conhecer Teresa”, disse. Ele me incluiu na visita, que tinha, além dele, sua mulher, Geórgia, e meu quase-afilhado, Bruno.

Já no primeiro encontro ficamos amigos, a conversa rapidamente foi acompanhada de um bom vinho. Como a rua 13 de maio é uma extensão da rua do Amparo (e vice-versa), fui algumas vezes visitá-la, até que ela se mudou para um apartamento à beira da praia, em Bairro Novo.

Acertamos os detalhes para o aniversário, que contaria com mais duas novidades – o relançamento dos livros “Teresa Costa Rêgo – uma mulher em três tempos”, de Bruno Albertim (CEPE), e o próprio “Teresas”, do já citado Inácio França, pai do meu quase afilhado, Bruno França, também já citado.

Vinhos, vatapá, flores, tudo sendo acertado para a festa, até que Teresa, num átimo, disse que queria um quadro seu para a noite do aniversário. Emerson, que trabalha com ela há algum tempo, estava por perto, e ficou pálido quando ela disse o nome do quadro.

“O Pecado Capital”.

Só no dia de pegarmos o quadro, na casa dela, ele  me perguntou se eu “aguentava peso”. Eu disse que aguentava, mas quando chegamos à casa/ateliê dela, senti o baque.

É um quadro belíssimo, forte, grande e, sobretudo, pesadíssimo.

“Quando dona Teresa me disse que era esse quadro, chega me deu uma dor”, disse ele.

Quando tiramos o quadro da parede, me deu uma dor e pensei em desistir, mas seria um acovardamento precoce. Respirei fundo, juntei todas as forças e saímos, para a rua do Amparo. . Não sei quanto vale o quadro, mas como eram dois barbudos saindo de sua casa com uma de suas mais importantes pinturas, não sei como não avisaram à Polícia, um caso de roubo de quadro em plena tarde de Olinda.

Nos Quarto Cantos demos a primeira parada. Deveria ter trazido um par de luvas, pensei. Devia ter vindo de tênis, pensei. Descansamos. A segunda pausa foi na rua da Boa Hora. Foi realmente uma ótima hora, quando paramos por mais alguns minutos. Respiramos fundo e demos o derradeiro gás, até o número 121 da rua 13 de maio. Mais um quarteirão, eu teria fingido uma cãimbra e pediria substituição. Emerson arrumou tudo e penduramos o quadro na parede.

O aniversário foi lindo e amoroso. Teresa recebeu muitos amigos de Olinda, estava feliz da vida, participou de uma mesa com os autores, meu amigo Jorge trouxe seu violão. Ibraim, que chegou com Cecília, foi buscar seu trompete em casa, e os dois fizeram vários improvisos.

“Vou deixar o quadro aqui mais alguns dias”, disse a aniversariante, pouco antes de sair.

Os poucos dias aqui foram o suficiente para virar um lugar de visitação. Todo mundo que vinha ao Sebo, eu fazia um passeio pela casa, somente para mostrar o quadro. Todo mundo ficava chapado com a beleza. Todo mundo tirava foto. Até Sidney Rocha, que detesta paisagens, detesta hotéis, detesta fotos, detesta que eu faça a lista das coisas que ele detesta, fez questão de tirar uma foto comigo, junto ao quadro. E ele, que detesta sorrir para fotos, está dando uma gargalhada.

Mas chegou o dia fatal – a volta.

Emerson chegou desolado, com aquela cara de quem vai carregar um piano (acho que o peso é o mesmo). Separei minhas luvas de jardinagem, dei uma a ele, botei um tênis (carregar quadro de Teresa Costa Rêgo usando havaianas é bem desagradável) e fizemos o caminho de volta, novamente com três paradas.

Chegamos de volta exaustos e suados, penduramos na parede e respiramos aliviados.

Olhando bem, está comprovado cientificamente que Teresa não é muito boa do juízo, para deixar um quadro desse andando pelas ruas de Olinda. Depois, passou uma semana aqui em casa, que não é, nem de longe, a casa mais segura da cidade.

O que importa mesmo é que foi uma noite maravilhosa, aquela do dia 28 de abril.  A celebração dos 89 anos de uma mulher instigante, carismática, cheia de vida, de sonhos, que já está pensando em uma nova série de pinturas.

Mas cuidado com os pecados. O Pecado Capital pesa muito…

sama defronte à casa azul emerson descansando defronte à casa de teresa sama e sidney 2

 

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Aos 49

3 de maio de 2018, às 14:41h por Samarone Lima

… e por esses mistérios da vida, cheguei aos 49 anos. Hoje, dia três de maio, ou ontem, como revelou minha mãe Ermira pelo telefone, diretamente de Fortaleza. Meu nascimento teria ocorrido dia dois de maio, mas o registro, feito pelo meu pai José, ficou para o dia seguinte. Essas coisas da vida.

Vou ter que conversar agora com Kaka Travassos, que fez já dois mapas astrais meus, seguindo as informações sobre o dia três, sem incluir nos cálculos esta meia hora, que pode mudar muito a conjuntura dos astros, a configuração do céu, naquele distante 1969, no Crato.

E descubro, com certa alegria, que não tenho nenhum problema com o avanço paulatino do tempo – que às vezes parece dar saltos. Outro dia cheguei ao Recife, depois de seis anos em São Paulo, era 2.000 e tinha trinta anos, fui dar aulas na Católica. Eu me sentia realmente bem moço, com 30 anos, mas também me sinto agora. A diferença é que a barba está bem grisalha, os cabelos também, e perdi alguns parentes e amigos. Mas as perdas são inevitáveis, e com elas vamos moldando nossas vidas, para talvez desfrutar melhor o belo e o bom, e os que fazem parte de nossas redes de afetos.

Outro dia tinha 18 anos e cheguei ao Recife com uma caixa. Escrevi já um poema sobre isso, no meu “Aquário desenterrado” . Sentia frio, mas não sei se fazia frio na rodoviária. Eu não sabia o que seria da minha vida, numa terra que eu mal conhecia.

“Na rodoviária, sentia frio/não sabia o que sentir/não sabia o meu nome.

Meu coração ainda não era meu”.

Trabalhei em tanta coisa, em várias redações, viajei pela América Latina por conta do mestrado, dei aulas, tive muitos alunos, agora uma parte do meu dia está reservada para fazer pesquisas, botar preço em livros usados, arrumar prateleiras, receber clientes, vender livros usados e organizar o sarau da sexta-feira (ou algum evento de maior monta, como o aniversário de Tereza Costa Rêgo, sábado passado). Isso é tão bom, que vai ser difícil arrumar outra profissão.

 

Pela primeira vez, em muito tempo, vou comemorar esta passagem. Vai ser aqui no Sebo Casa Azul de Olinda (rua 13 de maio, 121, Carmo).

É muita desorganização mesmo. O sujeito nasceu no dia dois, achava que era no dia três e vai comemorar no dia 4/05.

Como diria o velho poeta João Henrique – ”eapois”.

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Pequena história de uma casa azul

12 de março de 2018, às 10:10h por Samarone Lima

A coisa mais improvável para mim, naquele início de março de 2017, era sequer pensar em alugar uma casa em Olinda. Eu era um sujeito latinoamericano sem dinheiro no bolso ou no banco, coberto de dívidas e problemas em diversas escalas Richter. Tudo desabava. Lembrava mais os personagens de Oswaldo Soriano, em seu impagável Triste, solitário e final. 

Então aconteceu o mistério, o milagre, e o recomeço de uma vida que estava arrebentada, de norte a sul.

Vamos pelo fim. Hoje, dia 12 de março de 2018, completo um ano morando nesta linda casa, que abriga o meu Sebo Casa Azul.

Vamos voltar no tempo.

A história começou com uma taróloga, a querida Eunice Mota, que faz parte do grupo de estudos do Budismo e outras paradas da vida. Ela já tinha oferecido colocar um tarô, mas calhou de marcarmos para uma segunda-feira, seis de março de 2017.

As cartas não mentem jamais. Apareceu mudança, mudança radical, não ficaria nem nada, somente os vestígios, coisas que a memória acolhe e transforma. Ao final daquela tarde/noite misteriosa, eu podia fazer cinco perguntas e puxar uma carta para cada. Eu queria fazer umas 20, mas estranhamente, perguntei pela casa, já que eu sonhava em ter um sebo. Bingo! Estava na hora justa, hora de se mexer, meu filho, deve ter dito a amada Eunice Mota, naquele venturoso entardecer.

Vamos cronometrando.

No dia 7 de manhã (terça, dia do Fuzileiro Naval e da Advocacia Pública), liguei para Chivi, amiga argentina que tinha morado em Ouro Preto e estava pensando em alugar uma casa em Olinda. Ela atendeu. Perguntei se ela sabia de alguma casa para alugar.

“Ah Samarone, sabe acabei de sair de uma casa azul, mas ela é muito grande para mim, e meio fora de mão, porque quero abrir minha padaria integral sustentável, se você quiser, te dou o contato do corretor”.

De tudo o que ela falou, guardei um trecho: “uma casa azul”.

Liguei para o corretor, Paulo, que marcou comigo para o dia seguinte, quarta-feira, dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher.  Ele deu o endereço: rua 13 de maio, 121. Um pedaço de papel, anotado às pressas, estava mudando a minha vida. A soma dos números dava oito, e achei bom presságio.

Tenho minhas mandingas e conexões as mais diversas.  O fato é que saí da rua da Aurora, peguei o ônibus, desci no Carmo, e quando fui entrando na cidade, fiz minhas orações, pedi licença para entrar, que vinha com as forças da bondade, queria apenas me reencontrar, estava por aí a procurar, rir pra não chorar.

O corretor já me esperava. Gente boníssima. Entramos pela lateral, ele foi me mostrando tudo, a casa era imensa, arejada, toda arrumadinha, tinha ficado um tempo para vender e não vendeu, tinha sido alugada no Carnaval que passou. Foi vendo devagar e me emocionando, olhando cada pedacinho e tremendo por dentro, de emoção. Depois de mostrar tudo ele disse “vamos ver lá embaixo?”

Tive um susto. Ainda tinha um quintal quase do tamanho do Arruda, com dois pés de fruta-pão e uma mangueira.

Mas eu temia duas coisas: o preço do aluguel e a famosa frase “mas tem uma pessoa na frente”. O valor do aluguel era bem razoável e não tinha ninguém na frente. Ficamos conversando umas águas, eu e o Paulo. O pai dele tinha sido jornalista, a conversa ficou boa, até que ele ligou para a dona da casa, Lady. E tome reza.

“Dona Lady, tem um rapaz aqui que gostou da casa e…”

Eles conversaram um pouco, acionei todos os santos e guias, lembrei de Oxalá, todo mundo foi convocado.

“Ela está perguntando pelo seu nome”.

Eu disse que era Samarone, ele retransmitiu a informação e repetiu algo que me encheu de animação: “Ah, a senhora conhece ele?”

Coisas da vida. Dona Vardeleide fora casada com Chico Arruda, amigo tricolor das bandas de Olinda, morto há uns dois anos.

Nos encontramos à tarde. Leide é uma mulher muito simples, gentil, disse os documentos que precisava, ela mesmo preparava o contrato, eu não podia dizer o quanto estava liso, e saí com a missão de mandar os documentos, achar um fiador e, principalmente, levantar o primeiro mês de aluguel, sabe-se lá de onde.

Meu chefe na época, o sr. Inácio França, topou ser meu fiador. Pensem num homem corajoso.

Na sexta-feira, Sidney Rocha me ligou, perguntando pelo ensaio que eu tinha prometido fazer para um projeto dele, eu nem lembrava, nos encontramos, tomamos um café, ele disse “vamos ali, que tenho que te dar os R$ 1.000,00 que acertamos”, eu quase choro. Era o que faltava para o aluguel.

Na sexta-feira o corretor avisou que estava tudo certo, e uma das mais lindas frases da língua portuguesa:

“Amanhã de manhã ela vai levar o contrato e a chave da casa”.

Sábado, 11 de março, umas 10h33, o corretor chegou, ficamos conversando, eu olhando para a casa e dizendo por dentro “isso é um milagre”. Dona Leide chegou, mansa como sempre, tirou os contratos, assinamos, entreguei o primeiro aluguel, ela me entregou as chaves, e entrei na casa, agora como morador, até o dia 14 de setembro de 2019.

Entrei e fiquei namorando a casa umas horas. Andei, fiz minhas orações, agradeci, volti à rua da Aurora para começar a organizar a mudança.

No domingo, 12 de março, dia do Bibliotecário e aniversário de Olinda, cheguei com uma rede e uma muda de roupas, fui comprar produtos de limpeza, vassoura, rodo e comecei a limpar a casa. Olinda estava em festa, com muitos maracatus celebrando o aniversário da cidade.

Três ou quatro dias depois da minha chegada, uma gatinha linda, que eu sempre fazia carinho quando passava, entrou sorrateiramente e chegou ao meu quarto. Subiu à mesa, depois deitou em cima do teclado do notebook, até que veio para o meu colo e ficou. E nunca mais saiu.

Batizei-a de Isabelitta. Está aqui ao lado, dormindo. Ela foi um desses presentes que a vida dá, quando a gente verga com um sopro, mas resiste a qualquer lâmina, como diz o poeta.

Teria que escrever uma crônica imensa, com dezenas de nomes de pessoas que me ajudaram, nos dias e semanas seguintes, de diversas formas. No dia 7 de abril de 2017, graças a essa gente toda, abri o Sebo Casa Azul.

Isso merece outra crônica, que escreverei em breve.

Quanto aos personagens citados: Eunice segue firme com seu Tarô (que recomendo) e em nosso grupo de estudos, Inácio não foi importunado por eventuais atrasos de aluguel (só um mês atrasei alguns dias) e deixou de ser meu chefe no final do ano passado. Sidney Rocha perdoou o ensaio nunca concluído e vem sempre aqui, conversar nossas águas. Chivi abriu uma charmosa padaria integral sustentável, na rua 13 de Maio, sempre cheia de gente bacana e comida boa. Dona Leide, com sua gentileza de sempre, nunca me reclamou de nada.

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As coisas que bastam

31 de janeiro de 2018, às 21:30h por Samarone Lima

Há uns três meses, o corretor da casa onde moro, aqui em Olinda, passou a me ligar. O assunto eu já imaginava – alugar a casa para o Carnaval. Na casa, funciona o Sebo Casa Azul. Deve ter uns dois mil livros. Fora minhas fotografias nas paredes, os lugares mais aconchegantes, os espaços que dão mais alegria de ficar. Toda casa tem seus mistérios e segredos.

Veio umas três vezes, com umas propostas financeiras meio indecentes. Alugar a casa para um grupo que vinha não sei de onde, chegaria na sexta, saindo na quarta-feira de cinzas. Ou seja, eu sairia de casa na sexta-feira, ficaria em algum canto que nem imagino, e voltaria na quinta-feira, para ver o que sobrou.

“Basta tu colocar esses livros todos num quarto e liberar o restante”, dizia ele.

Eu escutava a conversa. Metade do dinheiro na conta, já no dia seguinte. A outra metade quando a turma chegasse. Uma ótima grana. E eu, liso feito um gambá, arrumando a casa aos poucos, ajeitando uma coisinha aqui, outra ali, o dinheiro miúdo, difícil de aparecer. Uma onça no meu bolso era animal em extinção.

Mas cada vez que ele vinha, eu ficava com o coração apertado. Pensava nos livros, na casa, na gatinha Isabelitta. Pensava nas plantas, nos livros do meu acervo pessoal, nas minhas pequenas coisas. Mas pensava, principalmente, em quem iria ficar num lugar que eu vinha cuidando com tanto zelo. Quinze, vinte pessoas? Vindos de onde? Filhos de grileiros de alguma parte deste país devastado? Agroboys, tocando o terror? Para mim, parecia inimaginável não saber esta origem. A origem, muitas vezes, diz tanto…

Chegou um dia em que fui direto ao assunto. Não iria alugar a casa. Ele arregalou os olhos. Falou do dinheiro. Eu pensei – já estou liso há tanto tempo, que uma hora isso vai passar. E não fechei negócio nenhum.

E súbito, me veio uma imensa alegria. Porra, nem tudo está à venda!

De lá pra cá, fui cuidando mais da casa, apareceu um dinheiro que eu não esperava, pude fazer pinturas, reparos, tirei uma parede de gesso da sala, e ela ficou enorme, bela, pintada de azul-céu. Isabelitta, muito agradecida, passou a dormir com mais tranquilidade.

Pois bem. O Carnaval está chegando. A cidade está a mil. Aos 48 anos do segundo tempo, vou estar em Olinda, na minha casa (o aluguel vai até 2019), e poderei ver todas as troças e loucuras passarem.

Uns amigos combinaram de ficar dois dias, para usar a casa como ponto de apoio. Água, chuveiro, banheiro, descanso no quintal, essas coisas. Nada de “Day Use”. Muito mais, uma pausa para descanso. Não sei como se diz isso em inglês, pausa para descanso. O professor Marçal resolve em trinta segundos. Outros já disseram que pretendem vir, e vão dar uma grana, para ajudar com um segurança e uma faxineira. Tudo simples.

Depois que o corretor foi embora, naquele afortunado dia, fiquei pensando em outra coisa. Como seria ridículo, depois de tantos carnavais zanzando pelas ruas de Olinda como um folião errante, simplesmente sair da festa, para os outros ocuparem a casa, na hora mais preciosa.

Minha cota de fazer besteiras na vida é bem extensa. Dá umas vinte laudas de word, com espaço 1, na letra Cambria.

Essa eu não fiz. Vou ao meu primeiro Carnaval aqui na 13 de Maio. Espero me divertir com as pessoas queridas por perto, na mais pura alegria.

Isso me basta. Ou, como diz um grande amigo, “isso é o suficiente”.

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