Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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As ironias da vida…

20 de abril de 2016, às 17:59h por Samarone Lima

Parece que isso é verdade – quanto mais voce renega alguma coisa, mais ela vai dando suas voltinhas, como um falso cachorro de estimação, e de repente está ao seus pés, latindo e pedindo um cafuné.

Minha bronca com as tecnologias é antiga. Demorei anos para encarar o celular, mas depois ele não me arrancou pedaço algum. Eu só não gosto de atender quando estou  conversando com as pessoas e detesto quando estou numa conversa interessante e a pessoa simplemente atende, faz um “espera aí” com a mão esquerda (na direita está o celular) e passa a conversar sobre temas os mais diversos, como se eu não estivesse ali.

Facebook me aperreava muito, mas uma leitora amiga fez uma Fan Page com meu nome e depois passei a administrá-la. Também não está me arrancando lágrimas, porque o acesso é menor e há menos tumulto. Boto link das coisas que escrevo alhures e um bocado de gente que nem lembrava mais do Estuario.com aparece.

Vinham insistindo para que eu entrasse no zap zap. Segui firme. Até o meu grupo de estudos do Budismo tem zap zap, é o fim dos tempos.Sustentei a pressão, Teria o grupo do Budismo, depois o da família, depois o dos amigos do santa Cruz, depois o da Biblioteca do Poço, depois da turma da pelada, depois eu estaria arrependido.

Até que aconteceu o mistério. O falso cãozinho de estimação da irionia chegou.

Semana passada, fui convidado oficialmente para ser o “Coordenador de Conteúdo” da comunicação do Santa Cruz Futebol Clube, meu time de coração, desde tempos remotos. O meu chefe é o “Diretor de Comunicação”, o velho e bom amigo Inácio França, parceiro de vários projetos, um deles o Blog do Santinha, que já vai com dez anos.

Papo vai, papo vem, terei como missão coordenar a comunicação do clube, que tem como base as seguintes ferramentas: Site, Instagram, Facebook, Twitter, e um troço bem esquisito, um tal de “Soundcloud”. Cada uma dessas coisas tem milhares de seguidores.

Comecei sexta-feira passada. Na segunda, tive uma reunião com a equipe de jornalistas, a turma do Design. Confessei antecipadamente meu analfabetismo digital e disse que iria aprender muiti com eles, o que causou uma boa repercussão, pelo menos enquanto eu estava na sala.

Hoje, com a ajuda de algum deles, terei que botar o tal do zap zap num celular novo, cheio das mungangas, que o pessoal do Marco Zero me deu (mais um grupo que tem zap zap, por sinal). É um celular da Motorola e todo mundo diz que é “complicadíssimo”. Ou seja, o ideal para a incomunicação.

São 17h, o Santa Cruz joga às 21h45 e já estou no clube, monitorando essas coisas todas. Pelo menos acessar tudo eu já sei. Punk vai ser mais tarde, ali pelas 20h, quando sei que meus amigos de fé meus irmãos camaradas estarão todos em algum boteco por perto, tomando umas cervas geladas, comendo um espetinho maneiro e tocando uma boa conversa fiada.

Vai dar uma inveja danada.

Mas são, como disse, as ironias da vida. Tenho também que sobreviver e adoro desafios.

É bom ficar esperto. Já passei por muitas coisa nessa vida, mas ser demitido por um grande amigo como o França, antes mesmo dos três meses habituais, seria uma pancada.

Quanto ao Soundcloud, fica para a semana que vem,  já que amanhã é feriado e não posso forçar tanto o cabeção assim.

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Pequenas biografias poéticas*

15 de abril de 2016, às 16:15h por Samarone Lima

I

O poeta russo Joseph Brodsky viveu com os pais

Em Leningrado.

 

O cômodo e meio da família

Media 40 metros quadrados.

 

Sempre considerou aqueles metros

Os melhores de sua vida.

 

Mais tarde foi condenado ao exílio

Sob a acusação de ser “parasita social à margem

Da literatura”

(não tinha o Certificado Oficial

Do governo russo

Que lhe assegurava o direito

De ser poeta).

 

Depois de deixar seu país

Se dizia poeta

Desde o amanhecer.

 

Nome?

Poeta

 

Profissão?

Poeta

 

Estado civil?

Poeta

 

Idade?

Poeta

 

Residência?

Poesia.

 

Precisava do substantivo

Para vingar

Para viver.

 

II

 

Wislawa Szymborska

Tinha 73 anos e era praticamente desconhecida

Fora de seu país

A Polônia.

 

Quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura

Acreditou que o telefonema, de Estocolmo

Era um engano

Uma brincadeira

Um trote.

 

Depois que notícia foi oficializada

Foi para o alpendre de sua modesta casa

Fumou mais um de seus incontáveis cigarros

E pensou, com um sorriso irônico:

“mas vejam como são as coisas…”

(E logo dormiu uma longa sesta).

 

Meses depois

Seguia para o lançamento de um livro seu

E viu uma longa fila.

 

Perguntou a um amigo

Se aquela multidão estava a caminho

De algum jogo de futebol.

 

Uma de suas frases prediletas era

“não sei”.

 

III

 

O russo russo Óssip Emilievitch Mandeslsthám

Era, de fato, um homem feio.

 

Usava costeletas

Para disfarçar as orelhas de abano

A cabeça era grande demais

Para um pescoço tão fino.

 

Mas bastava subir ao palco

Com seus velhos papéis caindo das mãos

Para que todo o semblante

Se transfigurasse.

 

Lia pausadamente os poemas

E as orelhas deixavam de ser de abano

A chama sagrada crepitava

E o rosto banal, insignificante

No meio de tantos rostos russos de seu tempo

Se transfigurava

No espanto visionário de um poeta

De seu tempo.

 

Os aplausos desmesurados

Estremeciam sua alma

E as musas se aproximavam invocando

seu nome.

 

Mas logo ele voltava ao abandono

À solidão de todas as horas

De um simples homem russo que tinha apenas

Palavras para oferecer.

 

“Não sei como é em outros lugares, mas aqui, neste país, a poesia é algo que cura e devolve a vida, e as pessoas não perderam o dom de beber nela o que lhes restaure a força interior. Aqui, pode-se matar as pessoas por causa da poesia – um sinal de respeito sem paralelo – porque as pessoas ainda são capazes de viver por causa dela”, disse certa vez.

 

Em 2 de maio de 1938

Mandelsthám foi detido

Acusado de “atividades contrarrevolucionárias”

E levado para Kolyma, na Sibéria.

 

Exaurido pelas torturas e privações

Morreu em dezembro.

Tinha 47 anos.

 

Seu corpo foi jogado

Em uma fossa comum.

 

IV

O poeta maranhense Ferreira Gullar

Passou dez meses clandestino

No Rio de Janeiro

Após o golpe militar de 1964.

 

Não era guerrilheiro, não conhecia armas

Era apenas mais um comunista na hora da caçada.

 

Sentia saudades das noites do Rio de Janeiro

Das conversas nos bares

Das manhãs de sol na praia

da cerveja gelada,

da casa

dos filhos, livros

da poesia

e do seu gatinho Camilo.

 

Fugiu para Moscou.

 

No Intituto Marxista-Leninista

Passou a ser chamado de Claudio.

Teve aulas de Revolução

Aprendeu a metodologia de “O Capital”

O materialismo dialético

O materialismo histórico

Mas nada daquilo o interessava.

 

No intervalo de uma das aulas

Deparou-se com dois olhos verdes, oblíquos

Uma mulher ruiva, com os cabelos presos na nuca

E um sorriso que o incendiou por dentro.

 

Elôina, o seu nome, soube depois.

 

Quando o viu, ela teve um susto.

“Meu Deus, que homem estranho é esse?”, pensou

(acreditava que Mefistófeles

Acabara de chegar a Moscou).

 

Uns amigos tinham avisado, dias antes

Que chegaria em breve

Poeta brasileiro.

Quando avistou aqueles olhos

Ela adivinhou

“Este é o poeta”

(mas achava que ele tinha a aparência

Do diabo).

 

A primeira frase que ele disse, em russo

Foi “ótin craciva”

(que a achava muito linda)

E seu rosto perdeu a cor.

 

Se amaram loucamente

Certos de que haveria uma data

Para acabar.

 

No dia de ir embora

Ela pediu que ele prometesse

Que um dia voltaria.

 

Ele prometeu

E desceu as escadas como um autômato.

Na rua, escutou o grito:

“Já começo a te esperar!”

 

Ele apressou o passo

Dentro da noite veloz

E logo escutou sues passos

(ela vinha correndo e se jogou em seus braços e passou a beijar sua boca, seus olhos, repetindo que o amava).

Depois ela disse

“Vai, vai embora!”

 

Ela ficou, ele apressou o passo.

“Estou cada vez mais longe dela”, pensava.

“Como pode? Estou caminhando deliberadamente

Na direção contrária à minha felicidade!”.

 

Na última curva da alameda

Ele olhou para trás e já não a viu.

Sabia que nunca mais a veria.

 

Na manhã seguinte, como um autômato

Estava em um avião, rumo à Itália.

 

Em Roma, na cama de uma pensão ordinária

O poeta tirou os sapatos

e ainda vestido

disse a si mesmo, numa explosão de lágrimas e soluços:

“Eu nunca mais vou vê-la”.

E repetiu o que o tempo tornaria verdade:

“Nunca mais”,

 

Ao acordar, de madrugada

E Gullar era um homem vazio, morto, conformado.

 

Quando retornou ao Brasil, anos depois

Os amigos o aguardavam em festa.

Entre os tantos abraços

Perdeu a bolsa de viagem.

Entre outras coisas

Estava o único retrato de Elôina.

**

* Projeto literário em desenvolvimento. Após cada minibiografia, haverá um poema de cada poeta.

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O brasileiro, em tempos sombrios

11 de abril de 2016, às 19:46h por Samarone Lima

Talvez seja pelo fato de não ter perfil no Facebook (apenas uma fan page que uma amiga criou no ano passado), não tenho muita noção do ódio político que anda escorrendo das telas de computador. Pelos relatos de amigos, amizades estão sendo desfeitas, gente que tinha até certos modos mais recatados na vida cotidiana vira um bicho quando posta ou comenta algo.

Como cronista já há um bom tempo, costumo olhar no meu entorno e ver como está a vida, o que as pessoas conversam. Especialmente, o que repetem. Então descrevo alguns encontros recentes, com dois desconhecidos e um amigo, para ilustrar um pouco como está o espírito do brasileiro, em tempos sombrios.

**

Domingo. Duas horas da tarde, boto minha camisa do Santa Cruz e vou à parada de Ônibus, aqui no Parque 13 de Maio. Mesmo com toda a violência que se espalha pela cidade e Região Metropolitana em dia de jogo, não deixo de vestir minha camisa. Olho e vejo uma velhinha baixinha, dessas que vão diminuindo de tamanho com o passar do tempo. Usa uma camisa do Sport. Ótimo. Então, na mesma parada, num dia de clássico, as duas camisas lado a lado.

Pouco tempo depois, chega uma numerosa família de evangélicos, todos com suas Bíblias (aqui no entorno o que mais tem é igreja). Não sei de onde surgiu o “mote”, mas a velhinha passou a falar mal dos jovens, que são os responsáveis pela violência, se referindo a um ônibus que  tinha acabado de passar, rumo ao Arruda, apinhado de torcedores do Santa.

Ela disse que são uns arruaceiros, que o filho dela se meteu com coisa errada, levou um tiro no braço.

“Quem mandou se meter com coisa errada? Se tivesse morrido, eu não estava nem aí. Mas o tiro foi só de raspão, depois ele se ajeitou”.

Mas o que me chamou a atenção mesmo foi o grau de violencia que aquele senhora de uns 80 anos tinha, por dentro. A linguagem era toda violenta. Deu trabalho? Mata, que não faz falta. Fez coisa errada? A Polícia tem que bater sem pena. O filho foi citado como exemplo. Se fez arruaça e estava no lugar errado e quase morreu, bem feito.

Fiquei olhando e escutando. Ninguém dizia nada A velhinha falava sem parar.

Lá pelas tantas, o arremate:

“Isso só está acontecendo depois da Dilma”.

Pensei em dizer que a violência entre jovens em dias de jogos com times de grandes torcidas é um fenômeno que tem por baixo uns vinte anos, que a segurança pública, pela Constituição, é dever dos governos estaduais, mas é o que ela acredita, não vou ficar arranjando discussão em toda esquina.

**

Frequento um clube conhecido aqui do Recife, onde dou minhas nadadas e pego uma sauna, duas vezes por semana. O público é bem de classe média, mais para alta. Já cansei de escutar os relatos de cruzeiros pela Croácia, viagens anuais para diversos países da Europa, Estados Unidos etc. O menor PIB de lá é o meu mesmo.

Lá, só duas pessoas no Brasil não prestam: Lula e Dilma.

Eduardo Cunha, com seus U$ 5 milhões no exterior, sequer é lembrado. Nem outros que aparecem em listas de milionários, com dinheiros em paraísos fiscais. O importante é prender Lula e tirar Dilma do governo.

Eu escuto, mas não discuto. Toda semana chega um senhor, muito falante e fica repetindo, atormentado:

“Ele ainda não foi preso! Ainda não foi preso!”

“Ele”, é o Lula.

Há uma espécie de surto nacional, onde não se pode mais conversar com decência, nem escrever nada com razoável capacidade de interlocução.

**

Outro dia, estava na esquina da Princesa Isabel com rua da Saudade (vejam só o nome da rua), bebericando uma cervejinha, tomando minhas notas habituais, no sossego do fim de noite, quando chega um amigo, visivelmente bicado.

Ele puxa o banquinho e começa a falar de Dilma, que Dilma isso, que Dilma aquilo, que comprou um carro desses de uns R$ 40 mil e não foi graças a ela, e tome pau na mulher. Não lembrou de um nome de corrupto do Congresso, dos muitos que estão espalhados por diversos partidos que estão acelerando o processo de Impeachment.

Desta vez peguei “peguei ar”, como se diz por aqui, no Recife. Quem disse que eu queria saber da riqueza dele? Será que o tratamento verbal a homem presidente seria o mesmo que ele usava contra uma mulher presidente?

Não sei. Paguei minha conta e peguei o beco.Não sei a quantas anda o ódio no Facebook e nas redes sociais, que acompanho cada vez menos, mas na vida cotidiana, o brasileiro está ficando cada vez mais agressivo e desagradável. O debate político, a conversa, virou esse fenômeno quase irracional: tudo é culpa da Dilma.

Acredito que não há nenhuma prova concreta para que ela seja retirada do cargo, para o qual foi eleita pela maioria do povo brasileiro, de forma democrática. Essa invenção da “pedalada fiscal” chega a ser uma piada.

Pior: ela pode ser tirada do cargo por um magote de deputados envolvidos em casos tenebrosos de corrupção.

Quem quiser ser presidente deste país, que ganhe – nas urnas – e receba a faixa do antecessor.

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Pequenos milagres

4 de abril de 2016, às 15:28h por Samarone Lima

Desde que fundamos a Biblioteca Comunitária do poço da Panela, há cinco anos, a data do pagamento do aluguel era um transtorno. As doações variavam de acordo com os ventos. Nossa salvação era um advogado que, durante algum tempo, transferia o dinheiro certinho, com uma só exigência: que seu nome não fosse divulgado. Era um alívio geral. Mas esse camarada nunca mais deu notícia, então as coisas complicaram.

Passamos a viver com um impasse crucial: toda semana as pessoas que gostam do nosso trabalho mandavam caixas e caixas de livros. Estávamos com problema de espaço. Faço a seleção do que presta e do que não presta (porque algumas pessoas mandam tudo o que não querem mais em casa), mas o espaço ficava cada vez mais entupido. Nosso acervo, cá entre nós, é maravilhoso.

Então surgiu a idéia de fazermos uma feirinha literária, para comemorar os cinco anos de atividade. Foi na sexta-feira passada, no pátio da Igreja do Poço. Antes de começarmos, os meninos do Poço que estudam violino, violoncelo e teoria musical (parceria com o Conservatório Pernambucano de Música), se apresentaram, para orgulho dos pais e amigos. A Shelda,  de oito anos, já está matriculada no conservatório. Outro menino já está a caminho.

Botamos os livros numa mesa e … bingo! Decidimos não botar preço.

Sim, isso mesmo. Cada pessoa dava o que achava justo pelo livro, sabendo também que o dinheiro ajudaria o nosso projeto, já que não somos ONG nem nad. Somos o que denomino “sociedade civil desorganizada”. É um milagre ainda estarmos funcionando.

As vendas foram um sucesso total. Em três horas, conseguimos exatamente metade do valor do aluguel. Lá pelas tantas, surgiu a idéia de “passar o chapéu” no forró que estava rolando dentro da venda de Seu Vital. O encarregado foi Antônio Pinheiro, ou “Mister P”, para os íntimos. A venda estava lotada até a tampa, e Chiló, à frente do “Regente Joaquim”, soltava o Gogó. “Na feira de Caruaru…”

Os dois bailarinos do grupo, Sprite e Duda a Milhão, faziam suas evoluções apoteóticas.

O chapéu foi passando, as pessoas eram informadas do projeto, e a coisa andou. Já eram quase onze horas, quando contamos o arrecadado. Deu a metade restante do aluguel e sobrou uma laminha.

Naná ficou com o dinheiro, que seria entregue ao proprietário no dia seguinte, de manhã. Uns dias antes, Esequias Pierre, do nosso grupo gestor, tinha conseguido vender duas camisas de time, pela Internet, e deu um reforço em nosso caixa, no vermelho já há alguns meses.

Então nos ocorreu isso. Vamos fazer da biblioteca uma espécie de “Bibliosebo” ou “Seboteca”, e não ficar mais passando sufoco, no dia do vencimento do aluguel.

Uma vez por mês, vamos colocar nossa mesinha e improvisar uma atividade cultural. Mas pode ser quinzenal mesmo, ou semanal, porque ficar numa mesinha, vendendo livros e conversando com gente interessada em livros, para mim é fonte de alegria.

No sábado, comemoramos na própria biblioteca os cinco anos. A professora voluntária Valéria Vital fez um balanço das atividades com a criançada, após um ano como voluntária (já imaginaram, ir todo sábado, de 9h às 12h, para fazer atividades artísticas com a criançada?). Robson, do nosso grupo gestor, levou bolo e coxinha. Os meninos saíram correndo à cata de velas, e voltaram com cinco. Teve parabéns, depoimento da professora e da criançada. Vejam lá no facebook Biblioteca do Poço da Panela.

Ao meio dia terminamos, varremos o espaço e encerramos a semana. No domingo, fui com Inácio França, dar uma organizada no acervo. Lá pelas tantas, chegou Deyvson, que foi o primeiro menino da comunidade a “adotar” a bibioteca. Ele tinha 15 anos e vivia lá. Agora está cursando Química na UFRPE.

“Foi aqui que virei leitor”, disse.

Ele foi lá pedir uma cópia da chave da biblioteca, para ficar estudando lá nos finais de semana.

Saí de lá com um sentimento bom, de que vamos ter mais um ano de muitas coisas boas e bonitas. 

Chamam isso de “trabalho voluntário”, mas para mim é involuntário. Nosso pequeno grupo que cuida da Biblioteca do Poço vai para lá com o coração.

E, como se sabe, o coração bate por conta própria.

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Por todos os motivos, não deixem de ver “Nem mesmo todo o oceano”

1 de abril de 2016, às 11:44h por Samarone Lima

 

Uma peça imperdível

Uma peça imperdível

Confesso que esfreguei os olhos quando olhei a programação de teatro do Recife, para os dias 31 de março e 1º de abril de 2016, exatos 52 anos após o Golpe que arrancou do poder o presidente eleito João Goulart, e obrigou o Brasil a mergulhar num período de trevas – com marcas profundas na alma nacional. A Peça que está em cartaz (e que vai permanecer, até dia 9/04), na Caixa Cultural, se intitula “Nem mesmo todo o oceano”.

Será possível que alguém nesse país tenha cometido a loucura de adaptar para o teatro o livro homônimo do Alcione Araújo, um tijolo de 752  páginas, que li com ardor quase febril, em 1998, época em que foi lançado?

Vi a síntese da peça e confirmei. A peça era mesmo uma adaptação do romance, obra da Cia Omondé, do Rio de Janeiro. Seis atores em cena, sob a direção de Inez Viana. Foi ela, que teve a coragem de fazer a adaptação. Isso mudou meu dia por completo, porque coincidiria com a passeata em apoio ao governo democraticamente eleito de Dilma Roussef, agora ameaçado por uma mídia que despeja ódio diariamente nos lares de milhões de brasileiros, aliada a um congresso repleto de corruptos, liderado pelo “honestíssimo” Eduardo Cunha.

Fui à passeata com uma muda de roupa na bolsa. Lá pelas tantas, quando a passeata ocupou a Conde da Boa Vista toda, olhei o relógio, peguei o beco e fui no meu passo de camelo para a Caixa Cultural. Lá, como se sabe, para comprar ingresso o sujeito precisa ir três dias antes e rezar muito, porque o teatro é pequeno e só tem coisa boa.

Dei sorte. O trânsito estava um caos (por causa da passeata), e quando cheguei, quase me ofereceram cafezinho, bolo e água. Escolhi a cadeira, troquei de roupa, passei lavanda Johnson (cheirinho de cuidado de mãe), tomei um maltado e fiquei esperando o início.

Eu estava absolutamente emocionado por um motivo pessoal. Em 1998, quando li este romance, eu tinha acabado de publicar meu primeiro livro, o “Zé”, fruto de cinco anos de pesquisas sobre o período da ditadura no Brasil, tendo como personagem principal o militante mineiro José Carlos Novais da Mata Machado, o “Zé”. Todo aquele universo estava muito vivo em mim (e está), porque fiz muitas  pesquisas, entrevistei dezenas de pessoas, entre amigos dele, familiares e gente da repressão.

O Zé foi morto no DOI-CODI, que funcionava onde hoje é o Hospital do Exército, na rua do Príncipe. Após me desviar da passeata, passei na frente do prédio e repeti varias vezes “não esqueci, não esquecemos, não esquecemos, não esqueceremos este período de trevas”.

O romance conta a história de um rapaz simples, do interior de Minas, que vai para o Rio de Janeiro tentar a vida, no período que antecede ao Golpe.  Acompanha tudo, sem a menor ideia do que estava realmente acontecendo. Chega o Golpe, e ele não entende nada, como não sacava nada o que era o cinema de Gláuber Rocha, o Teatro Opinião e todo um cenário cultural que sacudia o país. Ele entra no curso de Medicina, segue como um sujeito alienado, tem amizades com gente ligada ao regime, e a vida segue.

Para contar isso no teatro, temos seis excelente atores em cena, se revezando no papel do personagem principal, e de outros secundários, que mostram como funcionava a engrenagem repressiva, o clima que se instalou, as relações, a vigilância, repressão, tortura, medo. Após se formar, ele ganha de presente um trabalho como médico do Exército. Vai trabalhar num dos piores lugares de tortura do país, naquele momento. É a hora da verdade. De muitas outras verdades, que ficaram escondidas até a criação recente das Comissões da Verdade.

Não vou contar tudo, para não tirar a surpresa da trama, que a Inez Viana conseguiu magistralmente realizar.

Mas prepare seu coração. A peça provoca profundas reflexões, justo neste momento em que muitas vozes repetem, num cinismo atordoante, coisas como “intervenção militar”. Não deixem de ir. Hoje (1º de abril) haverá um debate ao final do espetáculo. É dessas peças que a gente fica lembrando por muito tempo e celebrando o fato de ter diretores de teatro e atores que têm coragem e amor ao que fazem.

Mais tarde farei uma entrevista com a Inez Viana, que pretendo publicar amanhã, aqui mesmo no estuário.

O ingresso custa R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia). Cheguem cedo.

 

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