Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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A cerva nossa de cada jogo…

26 de março de 2015, às 13:42h por Samarone Lima

Fui ontem à Assembléia Legislativa, para entrevistar o deputado Antônio Moraes (PSDB). Não o conhecia pessoalmente. É um senhor de 61 anos, muito educado, gentil, conversa franca, me deixou boa impressão.

Ele está lutando, na AL, para liberar a venda de cerveja nos estádios de futebol de Pernambuco. Caso vocês não saibam, amados leitores, desde abril de 209, foi proibida a venda de qualquer bebida alcoólica em nossos estádios. O projeto de lei 13.478 , do deputado Alberto Feitosa (PR) foi aprovado com tranquilidade. Estamos há seis anos vivendo com essa bobagem monumental.

Falo isso porque sou torcedor do Santa Cruz e costumo ir aos estádios que meu time joga – exceto a Arena Itaipava, claro -, por uma questão de inteligência emocional.

A pouca inteligência emocional não me permite sair daqui de casa, na rua da Aurora, para ver um jogo em São Lourenço da Mata, um estádio que não tem um boteco no entorno, um espetinho esfumaçado, um sanduba. Acho, inclusive, que o Náutico fez uma das maiores besteiras de sua história, que foi ter saído dos Aflitos, para fixar residência futebolística numa Arena bonita, cheirosa, “de primeiro mundo”, como dizem os boçais para elogiar algo, aqui no Brasil, mas que não tem alma. Tudo que está ligado ao sentimento, precisa de alma. Tem boteco velho, caindo aos pedaços, que tem alma. Tem boteco novinho em folha, tudo lindo, coisa de arquiteto renomado, que tem tudo, menos alma.

Bem, mas voltando ao tema.

Quem aprovou a lei proibitiva mostrou aos seus eleitores que não entende uma vírgula de futebol, nem de violência nos estádios, nem de vida em sociedade. Certas leis são inventadas mesmo é para um belo jogo de cena.

Cresci indo para estádios com meu pai e meu irmão do meio, o Tonho. Meu pai bebia uma Brahma gorduchinha, de garrafa, que o sujeito botava num copo plástico. Vi jogos em diversos estádios, de todos os tamanhos, a partir de Imperatriz, minha primeira lembrança futebolística, um jogo do Sampaio Correia, depois o Castelão e o pequeno caldeirão, no centro de Fortaleza, que é o “PV” (estádio Presidente Vargas).

Depois que cresci e vim para o Recife, criei raízes no Arruda e posso contar nos dedos alguma briga dentro do estádio. A cerveja gelada, que hoje seria vendida a R$ 5,00 a latinha, não é causa de embriaguez ou desordem alguma. A turma vem brigando de longe, por motivos os mais diversos. Um dos principais é a falta de uma ação coordenada e inteligente para modificar o cenário, coisas que outros países já fizeram, mas isso é para outra crônica.

Após a aprovação da tal lei, o que tem acontecido é o inverso. Muita gente já chega ao estádio chapado, cheio dos paus, porque sabe que vai passar duas horas sem poder beber nada. Vejo isso com meus amigos. Dentro do estádio, o mercado clandestino de bebida funciona com rara intensidade. É fácil comprar aquela garrafinha de Teachers, que no comércio custa R$ 13,00. Dentro, sai por R$ 25,00 ou R$ 30,00. Nos camarotes, onde está a turma do “andar de cima”, corre bebida a rodo.

Nesses seis anos de abstinência coletiva, a violência continua a mesma. A Tropa de Choque continua nos tratando do mesmo jeito, com seus cavalos em cima de multidões, e a truculência para resolver qualquer desordem, enfim. O nome, por sinal, já diz tudo – Tropa de Choque. Acho até que piorou, a violência, porque morreu gente. Um “segurança” de uma torcida atirou num torcedor do Náutico, defronte ao estádio dos Aflitos. Um imbecil, torcedor do Santa, foi capaz de arremessar uma priva na torcida do Sport, matando uma pessoa. Trata-se, portanto, de dois assassinos, que deveriam estar presos e nunca mais poderiam voltar a um estádio.

Mas o que me mais me chamou a atenção, nesta conversa com o deputado, foi o fato pessoal, de ter ido à Assembléia Legislativa do Estado, comandada há alguns anos por uma espécie de imperador político de nossas terras, o senhor Guilherme Uchoa (PDT). Ele é presidente da casa desde 2007.

Para se ter uma ideia de como age este camarada, basta lembrar que no início de março, ele assumiu por cinco dias o mandato de governador do Estado. Claro que ele providenciou um jantar para seus colegas de parlamento. Ao final, autorizou os colegas a levarem as taças do acervo do Palácio. Saiu uma pequena nota no “Diário Político”, de Josué Nogueira, do dia 10 de março.

“Quando viu o desatino, um garçom se apressou, educadamente, em desmanchar a cortesia. Explicou que se tratava de patrimônio público”.

Ou seja, coube ao simples e modesto garçom lembrar ao presidente de uma Assembléia Legislativa que patrimônio público não é para ser levado para casa.

O mais incrível é estar batucando uma crônica sobre o direito à cerveja nos estádios de futebol. Coisa de desocupado, devem dizer, num país cheio de problemas.

É verdade, eu ando meio desocupado mesmo. E o estuário, como se sabe, é um espaço voltado para textos absolutamente desaprumados.

Mas, aproveitando o ensejo, peço gentilmente aos meus queridos leitores que, se tiverem alguma proximidade com os deputados estaduais de Pernambuco, peçam para eles deixem de picuinha e liberem da nossa querida cerva gelada.

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Caminhando por fora

17 de março de 2015, às 19:15h por Samarone Lima

Ah, meus amigos leitores, que maravilha…

Depois de mais um esforço concentrado (que durou alguns anos), consegui fazer algumas reservas estratégicas, cortei os poucos luxos que faziam parte da minha vida diária (carro, ar-condicionado, roupas caras, viagens internacionais na primeira classe, restaurantes com “couvert”, vinhos e maitre francês) e estou agora com alguns meses para tocar a vida por fora do esquema geral. Nem tão liso mas sem direito a exageros. Apesar de correr de manhã cedo, posso dizer que estou caminhando por fora.

Há vantagens e desvantagens, é claro.

A vantagem é que faço meus horários, não tenho chefe (apesar de ter tido muita sorte na vida com chefes, de uma forma geral). Faço o café da manhã, uma parte do almoço e posso me dedicar plenamente a algo que me enche de alegria, que é escrever. E vadiar. E não ter horários, obrigações etc. E ler muito.

A desvantagem é mais financeira e aquela palavra que nem me incomoda muito, chamada “incerteza”. Não tenho certeza de nada, mas acho que a vida é bem mais divertida assim. Chegarei ao final do ano sem décimo, sem férias remuneradas, e pelo andar da carruagem, se alcançar os 70 anos, terei direito a meio salário mínimo de aposentadoria, por “pouca contribuição, ao longo da vida, ao INSS”.

Escrevo religiosamente a partir das 10h. Não sei como esse horário se instalou, mas é que tenho obrigações do lar. Dar uma geral na cozinha, cuidar do WC dos gatos (Azeitona e Armorial), preparar o café, tomar banho, meditar, enfim, São muitos penduricalhos. Depois disso, é silêncio absoluto e dedicação.

Televisão, nem pensar. Os jornais são cópias uns dos outros, parece que o Brasil está pior que a Venezuela. Querem tirar a Dilma para botar o Michel Temer no lugar. Eu acho engraçado.

À tarde, quando bate o cansaço, vou cuidar de outras coisas, dar uma volta pelo Recife, saber com Naná como está nossa Biblioteca Comunitária do Poço da Panela e tratar com Inácio do nosso programa de Rádio, o “Para gostar de ler”. Ou não fazer nada mesmo, ficar lendo ou pensando em alguma besteira.

Agora mesmo, estou agarrado e deslumbrado com “As aventuras do bom soldado Svejk”, do escritor tcheco Jroslav Hasek. É maravilhoso. A nota triste é que o livro tem apenas 682 páginas, e sei que vou sofrer quando estiver perto do fim.

Mas, como dizem, é a vida.

Graças a esta jornada dedicada e perene, consegui entregar à minha editora, Karla Melo, os originais do meu novo livro de poesias, “Manuel de Espera e Solidão”.  São 70 páginas, ela já leu (linha por linha, em voz alta), aprovou, mas está cismando com o título, o que é grave. Mas ela pode tirar da algibeira um título melhor, então aguardemos, porque ela acertou em cheio com “O aquário desenterrado”, diga-se de passagem.

Vai ser uma coisa inédita na minha vida. Em quatro anos, quatro livros de poesia. Mas é que eu vinha guardando tudo e agora parece que abri as comportas. Tomara que os leitores gostem.

Sigo com outro projeto literário, que está me dando um trabalho danado (mas não posso falar ainda, porque estou na metade e preciso me dedicar muito), para chegar a um bom resultado (tenho que entregar os originais até o final do mês). Então, meus amigos, eu nem deveria estar atualizando a crônica semanal. Mas seria uma contradição dos termos – quando tenho mais tempo, deixo meu blog de lado. Vamos à luta.

Bem, o bolo da cereja apareceu. Aqui na Visconde de Suassuna, perto da minha casa, inauguraram um Café São Braz. Uma maravilha. Várias mesas, uma área com pouca gente, música boa (e baixa), ar-condicionado (não tem em casa, vocês sabem), sem TV. Na primeira vez que vim, cheguei tão contente que fui entrar e não vi que a porta do salão principal estava fechada, bati com a cabeça com tanta força que os clientes todos ficaram temerosos de um esfacelamento do crânio.

Tomei meu primeiro café segurando um saco de gelo, cortesia da gerente, que ficou muito preocupada, mas não deu nada de cortesia por causa do galo, coisa que lamentei profundamente.

Quando o dinheiro acabar, terei que voltar à luta diária. Já fiz isso outras vezes, não tem sofrimento. Se não for na raça, o sujeito não faz o que é sua missão, não cumpre sua vocação. Depois dá uma frustração triste.

Mas algumas coisas me deixam encafifado: Por que as pessoas têm que trabalhar tanto? Por que o PIB tem sempre que ser eternamente maior que o do mês anterior? Por que temos que vender mais carros que o ano passado? Por que a China é o exemplo do capitalismo, quando mostram os número da economia mundial? Por que falta tanto tempo para as coisas essenciais?

Minhas perguntas, claro, não vão dar em canto algum.

Vou perguntar ao meu amigo Laércio Portela, o Cético. É o meu amigo mais inteligente. Em segundo lugar vem o senhor Inácio França. Mas Laércio é um cético com pausas profundas. Uma pessoa que faz pausas profundas, enquanto fala, bota todo mundo no bolso.

Sobre eles falarei na próxima crônica, então. Preciso falar mais dos meus amigos. Sem eles, não sou nada.

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Pois eu quero que me avisem logo!

10 de março de 2015, às 19:43h por Samarone Lima

Talvez seja genético. Minha mãe esquece até que saiu de casa com Peugeot da filha (e não com seu Fiat 1995 caindo aos pedaços), e fica procurando, no estacionamento, o carro que jamais vai encontrar, porque está na garagem de casa. Segundo meu irmão Tonho, ela anda esquecendo de tudo um pouco, mas como continua trabalhando como auxiliar de enfermagem num hospital público, em Fortaleza, isso deve ser somente distração mesmo.

Esqueço coisas o tempo todo. Deve ser por isso que anoto tanto tudo. Hoje à noite mesmo, já deixo pronta uma lista das coisas que vou fazer amanhã. É detalhada. Desde ligar para alguém, o horário da dentista, o grupo de estudos do Budismo, passando pelas compras, coisas que preciso escrever, as cartas para postar, ver saldo do banco etc. Hoje de manhã mesmo, olhei a lista e estava lá:

“Atualizar Estuário”

Junto com mais 27 outras coisas, claro.

Muitas vezes saio aqui do quarto (onde estou escrevendo agora) disposto a buscar um bom café para animar. No caminho, brinco um pouco com um dos dois gatos disponíveis, e chego à cozinha com algo me rondando:

“O que eu vim buscar mesmo?’

Já esqueci a gata (Azeitona) na geladeira (quando ela era pequena), mas ela ficou batendo e se salvou. Já tirei dinheiro do caixa eletrônico, ele ficou lá, fiquei conferindo algo na carteira, e a máquina pegou de volta.

O pior mesmo é minhas repetições. Só depois de casado foi que descobri que conto uma coisa hoje, depois repito no dia seguinte. E mais tarde, de novo, com uma riqueza de detalhes que chega a comover. Se a história for boa, sigo na pisada, achando tudo lindo. Com doses infinitas de paciência, Silvinha escuta, até que percebo aquela expressão facial de quem está dizendo “puxa, mas essa história de novo?’. Tenho uma pequena recaída de consciência e pergunto:

“Mas…eu já contei essa?’

“Acho que umas cinco vezes”.

Glub.

Se eu beber, então, o caso ganha contornos dramáticos. Não sei como meus amigos me aguentam.

Uma vez, fomos gravar um curtametragem sobre futebol, dirigido pelo Cezar Maia (“Redondo como a bola”). Cada um deveria levar para um boteco em Olinda, algo ou alguma história pessoal que tivesse a ver com o futebol.

Levei uma pasta com recortes sobre meu pai, que foi jogador de futebol de salão no Crato, em meados da década de 1960. Ele foi o melhor jogador de 1963, há vários recortes etc. Todos os amigos repetiam, cada vez que chegávamos ao Crato, que ele era um craque de bola. Para fulminar minha carreira futebolística, perguntavam se eu jogava “pelo menos 10% do que teu pai jogava”. Isso é pergunta que se faça a um menino de sete anos, zagueiro como o pai, mas com limitações na saída com a bola?

Mas o que eu iria falar mesmo (no curta-metragem) era sobre o meu nome, Samarone, que é uma homenagem que ele fez ao craque do Fluminense de 1969 (ano em que nasci), Samarone. Meu pai é louco pelo Fluminense.

A conversa começou animada, era acompanhada de cervas geladas e cachacinhas. Só pilantras: Giba, Inácio França, Álvaro Claudino, Pedoca Chupeta, Cézar Maia, até silvinha participou. Cada um tinha uma história melhor, nem percebemos que tinha umas três câmeras filmando, até com aquela frescurinha do trenzinho deslizando com um cara filmando – tudo dentro de um bar. Arilson era o garçom.

Lá pelas tantas, não me contive:

“Já o meu nome….”

Surgiu um grito uníssono:

“Nãããããoooooooooo! De novo essa história!!!”

Era a terceira vez que eu contava a mesma coisa, e nem tinha notado.

Lógico que só apareci no filme fazendo dois movimentos – bebericando algo e mordiscando algum petisco. Também ria bastante. Minha estréia cinematográfica foi rindo à toa. E acabou por aí.

A lista (de esquecimentos e repetições) seria interminável, mas o fato é que uma matéria publicada na Folha de São Paulo, hoje,  acaba de me preocupar muito. O título é terrível:

“Famílias decidem ocultar de doente que ele tem Alzheimer”.

Segundo um estudo da Associação Brasileira de Alzheimer, 56% dos cuidadores de pacientes com o “Alze” não contam que a pessoa tem a doença. A mesma pesquisa revela que 88% das pessoas gostariam de saber, se fosse, eles as vítimas.

“Entre os argumentos dos familiares para omitir o diagnóstico estão a crença de que a revelação não fará diferença – já que ele vai esquecer mesmo – e o medo de que a informação cause mais prejuízo do que benefício”, diz a reportagem de Claudia Collucci.

Mas que besteira tremenda, esse argumento.

O médicos acham que é melhor contar, porque permite ao doente tomar decisões importantes, antes de “perder a autonomia”. Coisas como nomear alguém para cuidar das finanças, decidir se vai ficar com um cuidador ou vai para uma casa de repouso etc.

Eu vou logo avisando – quero que me avisem o quanto antes. Teria que tomar decisões bem importantes. Meus diários, por exemplo. Escrevo desde os 13 anos, de forma quase ininterrupta. Silvinha já disse não quer ficar com eles, até porque minha letra é pior que árabe. Às vezes, eu mesmo tenho dificuldade de ler. Teria que escolher alguém de confiança para cuidar deles. A pessoa terá que ter um bom espaço em casa para abrigar todos.

Mandar para a casa da minha mãe, em Fortaleza, também não iria dar certo, eles entrariam no grande “buraco negro” que é um enorme guarda-roupa que ela cultiva, há muitas décadas.

Lá ainda encontraremos, certamente, coisas ainda lacradas, com aquele brinquedo Atari, um jogo completo de roupas de cama que minha mãe ganhou no casamento, fora uns tufos de dinheiro (talvez o cruzeiro) que minha avó deve ter guardado para viajar a Roma e ver o Papa. Exemplares da revista Nova, de 1983, não devem ter sequer sido folheados, bem como pacotes de fraldas das minhas irmãs, que tinham acabado de nascer e hoje estão na casa dos 35 anos.

Creio, portanto, que os diários ficariam em boas mãos com minha amiga Mirtes Machado. Flávia Suassuna é uma ótima opção, mas ela é muito ocupada com seus alunos, seus filhos, e está escrevendo um romance. Ela, por sinal, é outra da turma dos D.C – distraídos compulsivos.

Sobre minhas finanças, não há muito o que me preocupar. O que tenho de reserva, só vai dar até julho, já que estou oficialmente desempregado, mais uma vez na vida. Se o “Alze” me pegar na covardia, o dinheiro vai ser para os gastos com remédio para memória e com alguém para me proibir de sair de casa pela a janela, já que moro no vigésimo andar.

Na verdade, eu nem sei exatamente de onde me surgiu esta idéia de escrever sobre isso.

Creio que é porque o Azheimer tem a ver com o esquecimento, e uma parte importante do que escrevo está relacionada com a memória. Talvez seja fruto da contradição, condição intrínseca do ser humano, que vivo escrevendo. Talvez seja para não esquecer, Quem sabe para ser lembrado. Vou consultar algum amigo psicanalista.

Mas tenho que encerrar esta crônica por aqui, porque tenho uma tarefa urgente e da maior importância - fazer o balanço das coisas que tinha listado para fazer hoje, e preparar a lista de amanhã.

O esquecido é um remador profissional. Mas não tem barco.

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Anotações sem rumo

2 de março de 2015, às 9:32h por Samarone Lima

Acordo cedo pacas. Posso dormir até de madrugada, mas dificilmente passo das seis da matina. Isso, para mim, é cedo. Se vou dar uma corridinha por aqui, o horário melhor é às 5h, porque quase não tem carro. Gosto de ver o dia logo na sua infância.

É geralmente na segunda-feira, que sinto aquela fisgada íntima:

“Samarone, hora de atualizar o Estuário!”

E cá estou. Mas  entre o acordar e o sentar para escrever, há série de tarefas cotidianas. Beber o limão com água morna (eu tenho cá minhas manias), limpar a areia dos gatos (Azeitona e Armorial), aguar as plantas (em dias alternados), fazer o café da manhã, tomar o café da manhã, tomar um banho enfim. E é porque não tenho (ainda) filhos. Uma hora dessas, era para estar voltando da escola, a pé, para ver se aparecia algum tema interessante para a crônica semanal.

Mas voltemos. Estou à escrivaninha, com o ventilador ao lado, ligado no três, a listinha das coisas para fazer ao longo do dia (sempre à tarde, de preferência), o computador em perfeito estado, mas… cadê o assunto?

Isso não é muito frequente, mas acontece. Hoje mesmo, o assunto sumiu, mas não posso ficar nessa de escrever só quando dá inspiração. Quem escreve, escreve. Isso me lembrou uma propaganda da Gerardo Bastos, em Fortaleza, onde vivi bons anos. Dizia o seguinte:

“Gerardo bastos – Onde um pneu é um pneu”.

Rararara. É a mesma coisa, esta minha célebre frase:

“Quem escreve, escreve”.

Então saco o último recurso do escritor apático, sem inspiração e sem tema – as anotações das cadernetinhas.

A que estou enchendo de anotações, atualmente, é uma maravilha da Cícero Papelaria (ciceropapelaria.com.br), que comprei outro dia na Cultura. É uma caixa com 12 cadernetas vermelhinhas, 13×9 centímetros, sempre com alguma pequena frase na capa. “Ame mais” é a que está na metade, com 106 anotações (boto sempre um número, o que não significa absolutamente nada). “Sonhe mais”, com 145 anotações, foi a de janeiro. “Brinque mais” é para “apontamentos poéticos”, idéias, algum relâmpago íntimo etc. ”Reclame menos” é minha caderneta de pesquisas sobre a ditadura, para um novo livro. Quem quiser me dar algum presente, nesta vida, não precisa nem perguntar – caderno, cadernetas ou canetas. Essa caixinha da Cícero, então, é o céu. Se vier com uma caneta Uni Pin, então, vou cair no choro.

Bem, então deixe de enrolar, Samarone, faça seu dever de casa. Vamos a algumas anotações da cadernetinha ”Sonhe Mais”:

**

“Não aguento mais ser servido por negros”.

(De um amigo gaúcho, após quatro dias no Recife, de férias. Ele estava realmente impressionado com a quantidade de negros que trabalhavam servindo, nos vários lugares que conheceu).

**

“Juro que não presto”.

(É o lema de um amigo de um amigo. O sujeito é divertidíssimo e diz que, ao conhecer qualquer mulher que lhe interessa, diz a frase com extrema sinceridade).

**

“Síndrome da autoilusão gratuita”.

(Síndrome que desenvolvi, ao longo dos anos, mas ainda não registrei na Anvisa. Não faz mal a ninguém e não sei para que serve, mas tem um certo charme).

**

“E como mudou o velho companheiro L. Ao ser perguntado sobre sua atual bandeira, ele respondeu, sem pestanejar:

“Visa!”

**

No restaurante português meio carinho, o casal olha longamente, até que ela pede um vinho e o garçom sai.

Ele – Querida, qual o vinho que você escolheu?

Ela – O de R$ 52,00.

**

“Ei, você voltou duas casas!”

(Silvinha, minha companheira, quando dou alguma mancada).

**

“Venha logo, meu filho, que a fome tem cara de herege!”

(Mãe de um amigo meu, com fome, ao telefone).

**

“Eu nunca deixei de dormir por causa de um não. Prefiro dormir com um não do que com a dúvida”.

(Amigo de um amigo, numa mesa de bar).

**

“Kimberly Klaxon Flyer”.

(Apresentou-se no Pátio de São Pedro, durante o Carnaval, mas infelizmente perdi).

**

“Não tenhas pressa e não percas tempo”.

(Conselho de José Saramago aos jovens).

**

“Memórias hediondas”.

(Para livro autobiográfico que escreverei ano que vem).

**

“O tempo de espera punitivo é uma questão de classe”.

(Paulo Eduardo Arantes, filósofo. Folha de São Paulo, 10/05/2014).

**

“Samarone, esses óculos não valorizam a sua beleza”.

(Nane, minha cunhada, criticando meus óculos).

**

“Rede social afasta quem está perto e aproxima quem está longe”.

(De um amigo, que se separou recentemente. Um dos principais motivos foi o a conexão perpétua com as redes sociais).

**

“Você sabia que os crocodilos são os únicos animais que não tossem?’

(Descoberta recente de Silvinha, que me deixou extremamente orgulhoso. Se alguém estiver falando muito empolado, numa mesa de bar, vou sacar esta – “Você sabe qual o único animal que não tosse?’)

**

“Aquele seu último livro é muito bom, “O aquário subterrâneo“.

(De um amigo, referindo-se ao livro “O aquário desenterrado“).

**

“A maior parte dos meus clientes usa o Twitter para se esconder”.

(De um amigo que trabalha com vendas).

**

“Dize-me então com quantos dentes

esse amor te morde”

(Dante. Canto XVI de “A divina comédia”).

**

Até breve. E, por favor, me mandem alguma sugestão de tema, para a próxima crônica…

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Anotações sobre a morte e a vida, ou vice-versa

23 de fevereiro de 2015, às 11:32h por Samarone Lima

O título da crônica de hoje tem uma relação com a leitura de dois textos, coisas boas, que não consigo ler nos jornais do Recife, obcecados pelos fatos, crimes e redundantes coberturas políticas.

O primeiro foi uma entrevista bem surpreendente, com o médico britânico Richard Smith, publicada na Folha de São Paulo, sábado passado. A manchete chega dava um susto:

Não há melhor forma de morrer do que de câncer - Doença permite se despedir, refletir e fazer pela última vez o que quiser”, afirma médico.

A foto mostra um sujeito de 62 anos, com um largo e bom sorriso, cabelos que parecem ter levado um banho de talco e aqueles dentes amarelados dos ingleses.

Claro que fui ler. Teve gente da minha família que morreu de câncer, pessoas amigas, e a doença é bem dolorosa para quem a vive na pele.

A tese dele (publicada no início do ano), é a de que “você pode dizer adeus, refletir sobre a vida, deixar mensagens, visitar lugares especiais pela última vez, ouvir as músicas favoritas, de acordo com suas crenças, para encontrar seu criador ou curtir o esquecimento eterno”.

Ou seja, o câncer ataca essencialmente pessoas sempre bem de vida, que podem reunir amigos, viajar, sem dores brutais, impedimentos, remédios devastadores, têm à disposição hospitais e ótimos médicos, e a palavra “Dor” sequer aparece.

Segundo o Smith, nós partimos desta para outra viagem de quatro maneiras: morte súbita, demência, falência dos órgãos e câncer, “que ocorre ao longo de semanas, dando tempo para despedidas e toda sorte de preparativos”.

É mesmo algo bem idealizado, mas o que ele diz, ao longo da entrevista, é que devemos nos preparar (ou pensar a respeito) para a morte.

“Os filósofos estóicos, como Sêneca, mostraram claramente que contemplar a própria morte não só leva a uma morte melhor como uma vida melhor. Uma aceitação por inteiro da morte significa uma vida plena. Para mim, a morte dá significado à vida. É um ciclo natural”, a  diz.

Respeito as ideias do médico, mas esse câncer que ele cita é diferente do que eu já vi de perto. Eu prefiro mesmo a morte súbita, sem tempo para despedidas, sem viagens para lugares especiais pela última vez, nem me preparar, pois acho que estar vivo, hoje, batucando esta crônica quase médica, é um verdadeiro milagre. Todo dia, na minha filosofia do desaviso, é o último.

Mas no dia seguinte à entrevista do britânico, a mesma Folha de São Paulo publicou uma bela profunda carta de despedida do neurologista e escritor Oliver Sacks, também britânico. Se intitula “Minha vida”. Vai na linha do “tempo para fazer os acertos”.

Ele tem 81 anos, e até outro dia, nadava 1.600 metros todo dia, tinha o que ele mesmo denomina de “uma saúde de ferro”. Há algumas semanas, descobriu que tinha “múltiplas metástases no fígado”. Há nove anos, já tivera um raro câncer no olho, fez tratamento (que o deixou cego de um olho), e conseguiu seguir a vida. Até que ele retornou, “Estou entre os 2% desfavorecidos pela sorte”, diz.

Agora, ele está cara a cara com a morte. O avanço desse tipo particular de câncer não pode ser impedido.

E agora, Oliver?

“O que me cabe agora é decidir como viverei os meses que me restam. De vive-los da maneira mais rica, profunda e produtiva que puder”, diz o neurologista, encorajado pelas palavras de um de seus filósofos favoritos, David Hume, que teve uma morte por doença, mas seguiu com o espírito elevado. “Possuo o mesmo ardor de sempre pelos estudos, e a mesma alegria na companhia de outras pessoas”, escreveu Hume.

Sacks diz os seus planos para o tempo que lhe resta:

“Sinto-me intensamente vivo, e quero e espero que, no empo que resta, eu possa aprofundar minhas amizades, dizer adeus aos que amo, escrever mais, viajar, se tiver força para tanto, alcançar novos graus de entendimento e de discernimento”.

“Isso vai requerer audácia, clareza, franqueza: é uma tentativa de acertar as contas com o mundo. Mas haverá tempo, também, para diversão (e até mesmo para um tanto de tolices)”.

E talvez este seja o parágrafo que me fez escrever esta crônica quase médica:

“Sinto uma súbita nitidez de foco e de perspectiva. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso me concentrar em mim, no meu trabalho, nos meus amigos. Não vou mais assistir ao noticiário na televisão toda noite. Não darei mais atenção alguma à política ou ao aquecimento global”.

Hoje, no café da manhã, comentei com a Sílvinha sobre o artigo do Sacks, que ela também tinha lido.

“Mas é preciso estar perto da morte, para que isso aconteça?’

Concordei inteiramente.

É muito bacana ter uma saída poética, com despedidas, poder viver a própria vida e morrer a própria morte, como diz o Sacks, mas isso pode acontecer sem aviso prévio.

Outro dia eu estava num perrengue triste com uma amiga. Começou com uma discussão infeliz, descambou para uma troca de email desafortunada e resultou em hematomas dos dois lados. Depois de uns dias, veio um email gelado, que nos levaria a uma amizade desamparada, triste, quando algo se quebra e não faz mais “clic”, como as melhores caixinhas. Lembrei que a vida é curta para ficar com besteiras. O tal do “orgulho ferido” é um troço triste. Respondi noutro tom, afetuoso e acolhedor. E tudo se desmanchou.

Marquei de tomarmos um bom vinho para conversarmos sobre a vida, que é breve e pede cuidado, e a plantinha da amizade já começou a esverdear.

“Viver é distrair-se da morte”, já dizia o velho e bom Macedônio Fernandez. Não por acaso, uma das frases que mais repito, em momentos diversos, é a do poeta Paulo Leminsky:

“Distraídos venceremos”.

Essas minhas crônicas, realmente, não levam a lugar nenhum, mas vamos em frente…

**

Nota.

Abriram um Facebook com meu nome (Samarone Lima), com foto e tudo o mais. Não sei quem tomou a decisão. Só espero que não coloquem por lá coisas que não escrevi ou  disse. Se algum leitor passar por lá, favor me avise se esse Samarone está se portando bem no “Face”…

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