Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Despedida

30 de setembro de 2014, às 7:50h por Samarone Lima

O Oswaldo me ligou ontem à tarde, a ligação estava péssima. Após tanto tempo sem nos encontrarmos, tudo ficou meio entrecortado. Primeiro, algo como “não tenho uma boa notícia” e cortes, e silêncios. Mudei de lugar duas vezes, e surgiram as primeiras palavras que doem. Tany, nossa amiga de tantos anos, morrera de madrugada. O enterro tinha sido às 15h, e tentaram me avisar, mas meu celular parecia desligado, ou com problemas, não conseguiram.

A tristeza, numa hora dessas, é como um vazio. Acho que cada pessoa responde à morte de alguém muito querido de uma forma diferente. Eu sinto como se me esvaziasse. Não é propriamente uma dor, é um vazio que me deixa mudo.

Ainda conversamos um pouco. Um câncer devastador, que  a levou em três meses. Deixou dois filhos, de cinco e três anos.

Então lembrei da última vez que nos vimos, há alguns meses, quando fui conversar com seus alunos da UFRPE, aquele seu jeito contagiante de se relacionar com as pessoas. Ao final, me avisou que tinha feito uns exames, e que iniciaria um tratamento, mas parecia confiante. Já tinha superado outro problema de saúde, tempos antes. Neste período, mandei email perguntando como estava o tratamento, mas não tive resposta. Achei que era a sua travessia, que talvez quisesse fazer com seu companheiro, com os filhos, Valentina e Francisco.

Após o telefonema do Oswaldo, fui para a piscina do Português e dei longas braçadas lembrando de Tany, de nossa turma da UFPE, no final dos anos 1980, já início da década de 1990. Lembrei de tanta gente. Eu, que estudava Educação Artística, no Centro de Artes e Comunicação, mas só vivia com o pessoal das Letras. Nadei até sentir uma certa exaustão, para depois ficar quieto e calado, sentindo a morte de uma pessoa que se quer tanto bem.

Como nosso aniversário era no mesmo dia (3/05), tenho uma foto de 1989 (ou 1990), ali no “Bigode”, numa divertida farra, com direito a balões e tudo o mais. Tany era mais nova que eu uns três anos, creio. Acho que é a única foto que tenho dela e de nosso grupo.

Oswaldo me disse que nos próximos dias, os amigos vão se encontrar, para celebrar sua vida.

Vinte e cinco anos depois, nosso antigo ritual terá uma súbita ausência para desvelarmos.

Como uma carta ainda por abrir. Com uma saudade ainda por entender, Tany nos deixou.

E pequenos acenos distantes, feitos de pontos azuils como seus olhos eternos, ficam.

Para Tany Mara Monfredini

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O que pensa um coronel da Aeronáutica sobre a ditadura

23 de setembro de 2014, às 16:19h por Samarone Lima

Frequento um clube do Recife duas ou três vezes por semana. Depois tomo uma boa ducha, há lugar para relaxar, aquelas cadeiras de beira de piscina, e geralmente nesse lugar, os homens conversam. E muito. Sobre todos os temas, mas alguns são mais recorrentes. O trânsito, os engarrafamentos, alguma rusga futebolística, política. Como é um clube de classe média, num bairro de classe média alta, o governo Dilma é atacado com um ódio visceral. É a pior coisa que já aconteceu ao país. Juntados os governos Lula e Dilma, é quase como se tivessem destruído o país. Somos a nova Venezuela. O Judiciário está amordaçado. Eu escuto e bebo minha água, ou leio algo. Nunca me meto.

Há pouco dias apareceu um senhor que eu nunca tinha visto, de uns 65 anos. Incansável no julgamento. Aquele sujeito que fala, que tem explicação para tudo. Um homem de convicções patológicas. Descascou o governo Dilma, “o mais corrupto da história”. Tinha explicações para tudo, era incapaz de ficar um segundo em silêncio. Marina é sua grande esperança para “tirar essa corja que domina o país”. Se ela não vencer, acredita ele, “estamos perdidos”.

Não sei exatamente de onde surgiu o tema, mas ele falou que entrou na Aeronáutica em 1969. Um sujeito que estava calado, bem quieto, disse uma frase banal:

“Ah, eu tinha seis anos nessa época da ditadura”.

O falante, que não sei o nome, encheu-se de uma ira monumental. Começou uma longa aula de história, dizendo que o Marechal Castelo Branco, um homem digno, um democrata, que “assumiu a presidência para ficar dois anos e acabou tendo que ficar mais tempo”. Explicou ao homem que tinha seis anos em 1969, que nunca houve uma ditadura, que a cada quatro anos havia um novo presidente, eleito legitimamente pelo Congresso Nacional.

Fiquei escutando, mais pela curiosidade. Depois passou a falar que os militares foram praticamente obrigados a ficar 21 anos no poder, porque havia os guerrilheiros, uma gente que, segundo ele, “não era gente, não era brasileiro”.

Em outras palavras, os 21 anos sem liberdades, com cerco à imprensa, aos jornalistas, sindicatos, com direito ao Ato Institucional número cinco, que tirou inclusive o habeas corpus do mundo jurídico, foi quase uma gentileza das Forças Armadas. Os mortos e desaparecidos não entram nessa conta. Claro, se não eram gente, para que contar suas mortes?

Nessa hora, pensei em me meter, em dizer que nasci em 1969, ano em que ele entrou na Aeronáutica, que pesquisei muito sobre este período, que entrevistei dezenas de pessoas que foram presas, torturadas, que conversei longamente com familiares de mortos, desaparecidos, mas o sujeito me parecia alguém com um grau de fanatismo. Ele estava ali e precisava de gente que escutasse suas histórias, sua versão de uma parte da história do Brasil. Eu também tenho minha herança jornalística. Era uma oportunidade muito boa de saber o que pensa um coronel da Aeronáutica, possivelmente reformado, vivendo de sua aposentadoria.

Contou que fez cursos no SNI, que trabalhou num cargo importante, no último mandato de um general-presidente, o de João Batista Figueiredo. Seu trabalho prosseguiu em outros cargos importantes, já na redemocratização. Ou seja, ele seguiu como praticamente todos os militares que fizeram parte da ditadura brasileira – da conspiração à democracia, sem problemas com a Justiça, sem julgamentos, sem que as violações que cometeram resultassem em punições.

Depois de um bom tempo, juntei minhas coisas, guardei no armário e fui embora. O que lamentei não foi escutar aquilo de um ex-integrante da Aeronáutica falou sobre parte da história do Brasil. Nem saber que o que ele pensa, o que ele defende, é praticamente o mesmo que uma parcela importante das Forças Armadas ainda pensa – e acredita. Que fizeram algo “pela democracia”. Talvez seja por isso que os comandos das três forças se neguem a entregas documentos para as Comissões da Verdade. Seria olhar demais no espelho.

O mais duro mesmo foi escutar sua definição para os opositores:

“Não eram gente, não eram brasileiros”.

A frase diz tudo.

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Isso é o que chamo de escapar fedendo…

15 de setembro de 2014, às 17:32h por Samarone Lima

Teve uma época na minha vida em que fiz longas e malucas caminhadas com o velho amigo Iramaraí Vilela, artista plástico de primeira linha e atualmente desenvolvendo atividades no Programa Mãe Coruja Pernambucana. Iramaraí, diga-se de passagem, não é muito bom do juízo. Já escrevi muito sobre ele aqui. Mas isso é outro assunto.

Eram viagens malucas, sem previsão, mapa, sem roteiro, ao sabor dos ventos e tempestades. O importante era seguir, contra ou a favor do vento, das previsões, para os lugares os mais improváveis e incertos, iniciando sempre com um jejum de 24 horas. Sem data para terminar. Algumas delas transformei em textos de viagem, e publiquei neste afamado blog, mas não sei agora as datas nem títulos, nem tenho idéia de como fazer o tal link. Minha idéia continua com acento.

Uma delas foi a épica travessia Exu-Crato, pela Chapada do Araripe, com direito a hospedagem numa casa simples, ao lado de uma igrejinha, quando a fome e o frio nos atormentavam. Outra foi de São José do Belmonte até as pedras que inspiraram Ariano Suassuna a escrever “A Pedra do Reino”. Vivemos momentos de tensão na primeira noite, quando paramos para dormir, acendemos uma fogueira e fui inventar de ficar girando um pedaço de pau com fogo na ponta. Minutos depois, três homens chegaram a cavalo (já tinham bebido bastante, por sinal), e queriam saber “onde estavam nossas armas”. O mal entendido só foi solucionado quando tirei um exemplar d´A Pedra (que estava lendo na viagem) e mostrei a imagem das pedras que buscávamos, na sala da família do homem. A filha dele veio ver, reconheceu as pedras e foi um alívio geral. Em função disso, tivemos que beber várias doses de cachaça para saudar nossa amizade e nos ofereceram cama e café da manhã. Bendita Pedra do Reino.

Uma das mais malucas foi a que resolvemos fazer até Canudos, na Bahia. Não imaginávamos que a Bahia era tão grande, nem que Canudos fosse no fim do mundo – pelo menos para quem vai a pé. Nessa viagem, meu amigo Ailton Guerra, o “Peste” baterista da banda punk “Matalanamão” resolveu ir também para “curtir a emoção de uma caminhada a pé” e depois de umas nove horas de caminhada num sol brabo, descobriu que tinha muitas coisas para resolver no Recife. Dormimos numa rodoviária de alguma cidade que não lembro o nome e no dia seguinte ele pegou  um ônibus de volta. Se arrependeu pelo resto da vida e ainda está cansado.

Chegamos a Canudos justamente no período em que o Zé Celso Martinez apresentava a sua encenação de “Canudos” na cidade. Eu e Iramaraí assistimos, a peça durava umas cinco ou seis horas, mas depois de uma hora e meia eu olhei para o meu amigo e disse “vamos nessa”, e ele topou na hora. Ficamos bebendo cerveja do lado de fora. Sinceramente, não vi graça na encenação. Acho o Zé Celso ótimo provocador, tem muita inteligência, mas as montagens que já vi dele são sempre as mesmas. Se ele montar uma peça falando o Papa Francisco, vai ter gente se masturbando, gente pelada, carnaval, aquela coisa de sempre. E sempre coisas intermináveis. Como bem dizia Nelson Rodrigues, numa crônica de 1968, “a sua pessoa me parece bem mais fascinante do que a sua obra”.

No dia seguinte fomos ver a cidade, o povo, andamos muito e nunca fomos tão bem recebidos. Estávamos com longas barbas, de formas que podemos ter sugerido, no inconsciente coletivo, que tínhamos algum parentesco com o movimento messiânico liderado por Antônio Conselheiro, que foi trucidado pelo Exército. Nem comida aceitavam que a gente pagasse. Não lembro se fiz alguma promessa.

Foram várias caminhadas, mas uma foi meio maluca, porque decidimos descer do carro naquela região de Santa Maria da Boa Vista. Nessa época vivíamos viajando para todo canto, porque eu também participava da implementação do “Mãe Coruja”, junto com Mará e um pequeno grupo, sob o comando da querida Bebeth.

O motorista ficou meio nervoso, achava que era um perigo seguirmos por ali, mas não teve jeito. Caímos na estrada, andamos quilômetros sem fim, até que anoiteceu e chegamos numa cidade, que também não lembro o nome. Sei que fazia frio. Como viajamos muito pelo Sertão, pegamos cada frio arretado. Só nos restou encontrar um lugar menos frio na quadra de esportes (não dava para bater na casa das pessoas de noite, para pedir abrigo). Além de desconhecidos, temos dois anti-atrativos – eu e Iramaraí geralmente usamos cabelos meio cumpridos, que crescem para o alto, somos adeptos do bigode e barba. E somos feios pacas, de assustar criancinhas. Iramaraí é um pouco mais, todos concordam.

Dormimos, seguimos nossa caminhada, não sei onde fomos bater, mas o fato é que terminamos nossa jornada. Outras vieram, mas estou sem meu caderno de viagens aqui, não sei os detalhes.

Então corto o fio da memória para semana passada.

Estávamos tomando umas em Seu Vital, no Poço da Panela,quando Iramarai chegou. Começamos a conversar e ele me contou uma história incrível.

“Lembra daquela nossa viagem a Santa Maria da Boa Vista?”

“Sim, claro”.

Ele disse que mês passado passou pela região e reconheceu a quadra de esportes onde dormimos. Desceu do carro, deu uma caminhada, até que encontrou uma senhora que estava por ali, varrendo alguma calçada ou olhando para o tempo. Ele, conversador nato, puxou assunto, até que tirou uma dúvida.

“A senhora lembra de dois homens que dormiram uma noite aqui, num canto da quadra, há uns quatro anos? Eles eram meio cabeludos, barbudos…”

Ela disse que lembrava sim, e contou que os dois escaparam de morrer por pouco.

A história, por alto, é a seguinte. Alguns homens da cidade estranharam a presença daqueles dois homens estranhos, que pareciam policiais “disfarçados de mendigos”. Durante a madrugada, chegaram a juntar alguns homens para dar cabo dos dois. A mobilização foi entrando pela madrugada.

Não se sabe exatamente o motivo, mas a tramóia não foi até o fim (e é por isso que estou escrevendo aqui). Pode ser que alguém tenha dito algo do tipo “vamos deixar amanhecer o dia” ou simplesmente não tenham encontrado uma arma, sabe-se lá. Nessas horas, até a Providência Divina entra em ação, sem que ninguém saiba.

O fato é que escapamos vivos.

Eu nem sei direito porque estou escrevendo essa história maluca. Acho que fiquei impactado com a possibilidade de ter morrido de forma tão besta, apenas caminhando pela vida, me aventurando com um amigo. Pior – enquanto dormíamos.

Escapamos fedendo. Mas que achei chato aquele negócio de “disfarçados de mendigos”, isso eu achei.

Vou ver se Iramaraí topa retornarmos às nossas bucólicas viagens. Só assim temos ótimas histórias para contar.

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Anotações sobre os prêmios

4 de setembro de 2014, às 10:46h por Samarone Lima

Nunca dei muita sorte com prêmios, sorteios, brindes etc. Falo desde a reles e simplória rifa, aos sorteios em confraternizações de fim de ano. A única vez que dei uma sorte danada foi na confra da Arquidiocese de São Paulo, quando eu trabalhava no valoroso “O São Paulo”, semanário da citada diocese, comandada, na época, pelo gigante Dom Paulo Evaristo Arns.

No dia da confra, tinha várias coisas para sortear e fiquei de olho numa linda cafeteira. Minha senha era, digamos, a 147. Sequei a cafeteira até umas horas, mentalizei o 147 várias vezes e os sorteios foram rolando.

Lá pelas tantas, a mulher pegou a cafeteira e puxou um número.

“147!”

E eu bestando. Cri cri cri…

“147!”

E eu olhando para o número, esperando chamarem o meu número.

“Vamos chamar mais uma vez e depois passaremos para outro número”, disse a irmã.

Ela chamou o 147 de novo, eu não me liguei, ela balançou o saco de pano e tirou outro número.

“98!”

Quando o ganhador foi buscar a cafeteira, alguém me cutucou e disse:

“Sama, estás com o 147 na mão!”

Corri lá, mostrei meu número, mas era tarde. Tinha passado a hora de receber. O infame do número 98 pegou a cafeteira novinha e saiu rindo. Deve ter sido o miserável do Guilherme Salgado, botafoguense mais doente que já conheci na vida.

Par ou ímpar, zerinho ou um, palitinho, levo sonoras goleadas. Os colegas de pelada tiram onda. Se tivermos sete pessoas do lado de fora e seis vagas para jogar, todos já sabem quem vai ficar de fora. Euzinho.

Pois bem. Isso vinha sendo aplicado aos prêmios literários. Até o início deste ano, nunca tinha ganho nenhum. Zero. Nem a reles, simplória, simpática “Menção Honrosa”, que pelo menos a gente bota numa moldura. Significa que alguém leu e resolveu dar um aperto de mão. Algo como quem diz “pôxa, legal teu texto”. Tentar eu sempre tentei, mas já nem olhava os resultados.

Em março, recebi meu primeiro prêmio literário – o segundo lugar no concurso literário da Bienal de Brasília, com meu livro de poesias, “O aquário desenterrado” (Editora Confraria do Vento, 2013). O troféu chegou ligeiro, o dinheiro (R$ 10 mil) foi uma confusão danada, acabaram confiscando 30% do valor, coisa que vários outros premiados não conseguiram entender, muito menos eu. Como tirar 30% de um prêmio, que não é um serviço (para descontar ISS) ou um produto (para descontar outros impostos)?

Da turma que ganhou (romancistas, cronistas, poetas e várias outras categorias), vários já tinham outros prêmios e estavam invocados com o desconto. Eu, com 45 anos, era o foca. Foca, nas redações de jornal, é o sujeito que está começando na profissão. Eu era o foca dos prêmios.

Na última terça, recebi um telefonema do Rio de Janeiro. Era a Ângela, uma moça muito educada e gentil, funcionária da Biblioteca Nacional. Me deu parabéns e informou que eu tinha sido o vencedor do Prêmio de Poesia Alphonsus de Guimarães, da citada Biblioteca.

Como assim, por exemplo?

Sim, era verdade verdadeira. Disse o nome dos jurados (entre eles, o grande Affonso Romano de SantÁnna), informou que, por causa das eleições, o prêmio só poderá ser entregue em dezembro, no Rio de Janeiro, e ficou de me mandar mais informações por email.

Eu já estava bem contente, porque é um prêmio reconhecido, com o respaldo da Biblioteca Nacional, quando ela arrematou;

“Ah, o prêmio em dinheiro é de R$ 30 mil em valores brutos”.

Fiquei em casa desorientado. Era muito difícil ser trote, porque só um gênio (ou louco) teria a engenhosidade de ir para o Rio de Janeiro, inventar uma lorota deste tamanho. Como ela não pediu número de conta nem nada, também não era golpe, só podia mesmo ser verdade.

Eu ía me beliscar para saber se era verdade, mas cinco minutos depois, minha editora, Karla Melo, ligou toda eufórica, comemorando o prêmio. Ela foi uma das responsáveis por esta vitória, já que o livro ganhou o título de “O aquário desenterrado” por sugestão dela. A Confraria do Vento é demais. Viva Karla, Victor e Márcio! E viva Arsênio Jr, que foi um grande incentivador para que eu publicasse o primeiro livro!

Ela falou tudo tão rápido, para economizar os créditos, que só entendi que era verdade. Ela está no Rio de Janeiro.

Como os jornais noticiaram o valor do prêmio, já começo a calcular os gastos. Tirando os descontos do Governo, terei que garantir o aniversário de uma amiga em dezembro (me ligou avisando que prefere vinho chileno). O pessoal do trabalho já me comunicou que este ano não teremos que fazer a famosa “vaquinha” para a confra do final de ano. Argumento: “O Sama está bombado”. Na comemoração, no bar Frontal, o Caio sequer olhou para a carteira, quando chegou a conta. “Ah, pode ficar à vontade para gastar o dinheiro do prêmio”.

Mas falta ainda Dona Ermira, minha amada mãe. Vou mandar os recortes de jornal hoje (se eu não mandar, é pior que ficar na malha fina do Imposto de Renda). Quando ela ver o valor do prêmio, certamente vai falar do seu velho Fiat Uno, que segue tendo problemas os mais diversos, do amortecedor ao IPVA.

Estou anotando tudo numa cadernetinha. Quando o prêmio sair, em dezembro, espero sobrar pelo menos uns trocados para comemorar com meus editores, no bar Amarelinho, bar que eles tanto falam.

Mas o pior é que já sei – a conta ficará para o “autor premiado” pagar.

Mas vamos comemorar, porque é a poesia que está sendo celebrada.

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Um passeio pelo IDH

28 de agosto de 2014, às 11:39h por Samarone Lima

Está bem, Samarone, 45 anos, é hora de dar uma geral. Como você gosta de correr de manhã e jogar sua pelada na quarta-feira, que tal ir a um cardiologista? Lembre que em março você passou mal numa corrida em março e acabou conhecendo a UPA da Caxangá. Estavas pra lá de Bagdá, por sinal.

Sim, há três anos tens um Plano de Saúde, por insistência da sua mulher, Silvinha, bendita seja. A Camed, outrora elogiadíssima, caiu na lista das melhores operadoras, esse nome esquisito para o plano de saúde privado.

O Hospital é gigante, cheio de labirintos e a cardiologista, já conhecida, disse que a agenda estava cheia. Sugeriu um encaixe. E assim foi. Às 7h30 estava lá, com meu cartão da Camed e minha cara de leso. Tudo limpo e organizado, funcionando. Até a máquina de café (dos bons) era grátis.

Vinte minutos depois, o aviso para fazer o eletro. Depois, a consulta. A amiga, que eu não via há tempos, olhou meu eletro, que estava normal. A pressão supimpa:  11 por oito.

Exames, uma penca. No laboratório, 23. Outros no hospital mesmo. Ergométrico, ecodoppler, fora um da carótida, que eu nem sabia que tinha tanta importância assim para minha vida cívica e escritural. Comecei a temer pelo antigo refrão, que é título do bloco de Carnaval do Tribunal de Contas do Estado: Quem procura, acha!

No corredor tem uns telefones, você agenda os outros exames direto, disse minha amiga. Este computador que estou usando não tem aspas nem travessão. Mas foi uma frase dela.

Fui lá e em cinco minutos marquei os três exames. De repente estou a Suécia, meu IDH Subiu 77 posições. Tomo outro café na maquininha e tenho tempo de ver uma matéria na TV sobre os grandes clubes do Brasil que completam 100 anos em 2014. Lá está o Santa Cruz e sua massa. Sento, vejo a matéria, termino o café e atravesso os corredores, para ir ao trabalho, no centro do Recife.

Saio do Hospital e meu IDH cai 88 posições. A parada de ônibus é debaixo de um sol brabo (queria saber quem é o gênio que fabrica as paradas de ônibus do Recife, que molha todo mundo quando chove e deixa a turma debaixo de um sol de arrombar, a qualquer hora do dia). Dois queimam a parada. O terceiro está enfadado, sequer responde ao bom-dia.  A parte da frente, aquele gueto reservado aos idosos, está lotado. O restante do veículo está semivazio. Um idoso cede gentilmente o lugar a uma senhora, mais idosa do que ele. Neste ritmo, daqui a alguns dias teremos brigas com argumentos temporais. Eu tenho 78 e você? Eu tenho 73. Então me dá a cadeira, que sou mais idosa.

Sento, penso na vida. O motorista, para minha surpresa, escuta um jazz de primeira linha, destoando do que se escuta nos ônibus do Recife. Acho que é um trompete, algo de Louis Armstrong. Deu vontade de puxar assunto, mas é tarde, já passei pela catraca. Nada como uma boa música em plena manhã, no coletivo.

Desço na última parada da Conde da Boa Vista. Camelôs, buracos, calçadas descalçadas, gente dormindo pelo chão. Súbito, meu IDH cai mais 22 posições. A Conde da Boa Vista é nosso malamanhado, nosso desencontro com a cidade. É uma aorta entupida, uma veia estrangulada num corpo, que é a nossa cidade. Feia, suja, com poucas faixas de pedestres que duram segundos, eu estranho não morrerem duas ou três pessoas por dia, debaixo de ônibus ferozes e barulhentos. Nada tão parecido com um espelho da sociedade que criamos e alimentamos.

Paro numa casa de suco. Resolvo tomar um de beterraba. Deve ser o efeito da consulta, dos exames. Nessas horas, o sujeito fica com vontade de ter mais saúde, para voltar ao médico com bons resultados. É como levar o boletim ao pai : veja como minha notas foram boas. O suco é bom pacas. Dizem que beterraba é ótimo para as hemácias e os glóbulos vermelhos.

Comprei uma pasta na papelaria e botei o nome : Exames/agosto 2014. Serão muitos.

Tentei imaginar como teria sido meu desempenho se tivesse feito o percurso na rede pública, mas não consegui. Minha imaginação vai a muitos lugares, mas esbarra em alguns desertos chamados realidade.

Estou de volta, depois de uma temporada mais afastada. A vida segue.

 

 

 

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