Estou com os estudantes e com os que dizem não a tantas coisas silenciadas
Samarone Lima
Na sexta-feira passada fui comprar frutas aqui perto, no centro do Recife. Encontrei banana a R$ 12,00 a dúzia, beterraba a R$ 4,50 e cebola a R$ 5,00. Encontrei uma inflação louca e a cidade em transe. É que os motoristas de ônibus, numa determinada hora, estacionaram, fizeram fila dupla, desligaram os motores e desceram. Fim da corrida. Ficou apenas um lado da pista para o restante dos veículos.
Tudo mudou no centro. Pessoas a pé, atrasadas, uma maré de gente caminhando, motoristas e cobradores reunidos em cada esquina e, para minha surpresa, de vez em quando passava alguém dizendo “é isso mesmo!”, “força!” e coisas do tipo. Os que passavam de carro, com os eternos vidros fechados, buzinavam alto, certamente irritados com “esse absurdo” que é parar o trânsito às 8h13 da manhã.
Na volta, conversei com um motorista, um negro de quase dois metros. Ele me explicou que era apenas uma paralisação rápida, até às 9h, para os empresários se ligarem. Na reunião de negociação, tinham oferecido 1% de aumento. A ajuda para alimentação é de R$ 160,00 ao mês. Perguntem quanto cada desembargador de São Paulo recebeu, retroativo, de auxílio alimentação. Daria para alimentar todos os motoristas e cobradores do Recife durante anos.
Ele estava feliz. Andava orgulhoso, inteiro, sorrindo. Mais que isso, estava orgulhoso porque a sua categoria aderiu. Não há nada mais frustrante do que uma greve que é organizada durante a madrugada e os companheiros de trabalho furam. Os que fazem são demitidos e a categoria perde a força. Os pelegos negociam na calada, ganham uma boa grana por fora e assim se fortalecem centrais sindicais que escravizam várias categorias. Perdão por usar “companheiros” e “pelegos”, coisa bem década de 1980, mas existem sim, até hoje, os companheiros e os pelegos.
Cheguei em casa e vi, horrorizado, as imagens da polícia de São Paulo massacrando os estudantes, que lutam contra o aumento das passagens. Ela custa R$ 3,00 e vai passar para R$ 3,20. Balas de borracha, bombas, cacetete, prisões. O prefeito da cidade e o governador do estado, não por acaso, estavam em Paris, achando que tudo está certo.
Os que estão dopados, os que perderam a coragem de questionar, que só pensam em trabalhar, escapar dos engarrafamentos, pagar os juros do cartão de crédito, os que ficam nas filas de bancos reclamando que “só tem dois caixas atendendo”, os que estão morrendo de tédio e só querem que o dia chegue ao fim sem levar um tiro, sem serem roubados, acham essas passeatas uma grande merda, acham que a polícia tem mesmo é que mandar bala e gás lacrimogêneo, tem é que descer o cassete. Seria melhor, para alguns, que descessem “uma camada de pau”, para “acabar com essa anarquia”.
Pois eu, Samarone Lima, 44 anos, morador do Recife, eu que ando pelas ruas desta cidade que amo, que escrevo crônicas semanais e algum livro quando tenho tempo, eu estou com os estudantes.
Eles estão esfregando na nossa cara que são capazes de lutar por algo. Os R$ 0,20 centavos não são o eixo da luta. Eles estão brigando porque há um subsídio milionário de R$ 1 bilhão para as empresas. Estão lutando porque numa cidade como o Recife, quente pra caralho, não temos ônibus com ar-condicionado e as pessoas vão para o trabalho pingando de suor. Estão lutando pelo mesmo motivo que os turcos estão apanhando da polícia de um tirano – porque não deixaram que um parque viesse abaixo para a construção de um shopping center.
Estão dizendo NÃO quando estamos dizendo sim o tempo todo.
Dizemos sim às prisões superlotadas, às torturas de hoje, à polícia que leva para a delegacia o sujeito que tem um baseado no bolso, dizemos sim à destruição de qualquer meio ambiente em troca de uma indústria, dizemos sim a um sujeito que sai de casa, para passear com o cachorro e morre eletrocutado, dizemos sim aos 32 indivíduos que morreram eletrocutados nas ruas de Pernambuco, em 2013, dizemos sim às madrugadas sem médicos em hospitais, aos abortos clandestinos em nome de uma falsa moral, enfim.
Estamos vivendo numa sociedade do sim.
Estou com os estudantes. Um povo que luta contra um aumento de R$ 0,20 centavos em seu terror diário nos transporte público ônibus do Brasil, que luta contra a destruição de um parque para que construam um shoppin center, ainda não morreu. Neste caso, nossos estudantes são os mesmos turcos que lutam pelas árvores, a milhares de quilômetros.
Encerro esta crônica com uma imagem que me chegou pelo email.
Uma amiga estava no centro da confusão, no Rio de Janeiro. Viu dez mil estudantes mobilizados contra os aumentos e desceu. Caminho no meio da multidão, anônima e tão indignada quanto, emocionada. Andou sozinha no meio da multidão, sem medo, guiada por um sentimento de inteireza.
Os dez mil seres humanos que lotaram a avenida Rio Branco protestavam não só contra o aumento da passagagem de ônibus. Lutavam contra a política de transporte público, contra o projeto da cidade-balcão-de-negócios, contra o atual modelo de desenvolvimento.
“É tão fácil fingir que nada está acontecendo, é tão cômodo dizer : isto não me diz respeito”, disseminha amiga.
“No entanto, agora lembro minhas primeiras aulas na Faculdade de Filosofia, aos 17 anos, já era alertada”:
“O preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior”.
**
Debate na livraria Cultura
Para quem gosta de futebol e literatura, fui escalado para um debate hoje (17.06), às 19h, na livraria Cultura. Estarei em campo ao lado do triatleta Inácio França , do escritor Paulo Santos, com a mediação do médio volante Homero Fonseca.O debate, promovido pela Companhia de Eventos, é um aquecimento par a Bienal Internacional do Livro, em outubro.
Postado em Crônicas |
4 Comentários »



