Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Com licença

19 de agosto de 2014, às 11:56h por Samarone Lima

Caros leitores, saí do pesado circuito recifense de mortes e lágrimas.

Estou bem longe, praticamente sem sinal de satélite, celular ou coisa que o valha.

Uso uma lan house de improviso.

Retornarei segunda-feira que vem com alguma crônica nova.

Samarone Lima

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Jornalismo e (in)sensibilidade

15 de agosto de 2014, às 12:04h por Samarone Lima

São tempos difíceis que vivemos, cá em Pernambuco. A tragédia envolvendo a morte do ex-governador Eduardo Campos e de seus jovens e talentosos assessores, é de comover o mais duro coração. Há dias sinto uma tristeza difusa pelo que aconteceu. Um amigo não consegue dormir direito. As pessoas mais simples choram abertamente.

Lembro especialmente das famílias, que vivem a angústia pela espera dos restos mortais, Só assim será possível iniciar, de fato, o luto.

Falo aqui de todos – Eduardo Campos, Carlos Augusto Ramos Leal Filho (Percol), Alexandre Severo Gomes e Silva e Marcelo de Oliveira Lyra.

Todos jovens, todos cheios de talento, em busca de seus sonhos. Percol, que foi meu aluno de Jornalismo na Católica, sempre animado, com um sorriso de canto a canto. Já na sala de aula, bem moço, era o mesmo. Amava a vida. Nos encontramos pela última vez no Hospital Português, quando ele acompanhava Eduardo Campos na internação de Ariano Suassuna. Só tivemos tempo de um abraço, uma conversa rápida, naquele dia triste, porque foi o da morte de Ariano. Nunca imaginei que seria nossa última conversa, o último abraço rápido.

É impossível não se comover com as vidas ceifadas brutalmente. Gente talentosa como Alexandre Severo ou Marcelo Lyra.

Por mais que falemos, jamais alcançaremos a dor de quem vive isso na carne – os parentes.

Talvez por isso eu não tenha mais ligado a TV ou rádio, depois do acidente.

Os jornalistas estão deixando de lado qualquer rastro de sensibilidade, em busca de algo que não tem nome.

Os amigos de partido estão chocados, muitos arrasados. Em meio às lágrimas, à dor, o repórter pergunta bruscamente:

“Sim, mas como o senhor acha que vai ficar o PSB daqui pra frente?”

Meu Deus, isso é hora de falar nos rumos de um partido?

Será que é preciso detalhar, a cada meia hora, a coleta dos corpos, os estilhaços, tantos detalhes, como se a Medicina Legal pudesse dar conta do sentimento?

Entre as lágrimas dos que sofrem, algumas perguntas chegam a ser uma aberração:

“O senhor me desculpe a ousadia neste momento, mas o senhor acha que pode ter sido um atentado?”

Ontem, para não ficar totalmente alheio a tudo, liguei o rádio. Fiquei alguns minutos, escutando perguntas as mais descabidas para pessoas amigas do ex-governador. Gente que está, verdadeiramente, sofrendo. O locutor perguntava sobre temas os mais diversos, como se estivesse num boteco.

O jornalismo, neste momento, mostra toda a sua insensibilidade. Pior – há traços de crueldade. Certas perguntas, simplesmente aumentam a dor, o sofrimento. Deveria ser criado, nos cursos de Jornalismo, uma disciplina intitulada “introdução ao silêncio”.

Até domingo, milhões de pernambucanos serão entupidos de imagens, falas, exageros, repetições.

Uma pequena homenagem que faço a Eduardo, Percol, Alexandre Severo e Marcelo Lyra é desligar a TV, o rádio, não me deixar dopar de imagens terríveis, de entrevistas brutais com especialistas em acidentes, em resgate de corpos.

Acendo um incenso e, em silêncio, desejo paz aos que partiram.

Aos que ficaram, que tenham força para suportar o que, neste momento, é insuportável.

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Um homem realizado

29 de julho de 2014, às 13:16h por Samarone Lima

Republico na íntegra a entrevista que dei ao jornalista João Valadares, publicada no jornal Correio Braziliense, no último domingo (27.07). Foi a melhor forma que encontrei para homenagear Ariano Suassuna – falar sobre ele, na vida cotidiana.

Samarone.

**

Entrevista/Samarone Lima

UM HOMEM REALIZADO

O jornalista e escritor Samarone Lima, assessor de imprensa do mestre Ariano Suassuna, o acompanhou durante os cinco últimos anos de vida. Em entrevista ao Correio Braziliense, relata o despojamento completo do autor paraibano e como ele conseguia transformar a vida de quem estava por perto. “Mesmo em silêncio, porque seus gestos sempre eram profundos”, lembra Samarone, que trabalha atualmente num livro sobre as aulas-espetáculos de Ariano. Sobre o Jumento sedutor, livro que Ariano estava escrevendo há mais de 30 anos, Samarone diz que, ultimamente, o escritor não tocava no assunto. “Ele tinha deixado de falar porque toda entrevista queriam saber se tinha terminado”.

Você é escritor, apaixonado por literatura, e teve a oportunidade de conviver com
Ariano Suassuna nos seus últimos cinco anos de vida. Imagino que as conversas sobre literatura e seus personagens eram frequentes. Que memória você guarda dessas conversas?

Eram conversas maravilhosas. Quando tinha alguns pedidos de entrevista eu
levava numa pastinha e resolvíamos com uma certa facilidade, já que ele não tinha
como atender tudo que pediam. Depois disso, bastava eu perguntar sobre o livro
que ele estava lendo, que seus olhos brilhavam. Era uma felicidade.

Ariano costumava conceder muitas entrevistas. Ele ainda tinha paciência para jornalistas?
Era uma relação difícil, por um motivo simples. Ele tinha uma agenda com várias demandas,e o jornalismo era voltado essencialmente para entrevistas. Se você for pesquisar, vai ver que há muitos anos Ariano dava as mesmas entrevistas, com perguntas que se repetiam. Há, claro, exceções como um Geneton Moraes, que se prepara com extremo rigor para encontrar o entrevistado, sabe cada vírgula da vida da pessoa. A entrevista se torna uma descoberta, um encontro. Mas os jornalistas, regra geral, perguntavam sempre as mesmas coisas. Nossa profissão, de certa forma, precisa se reinventar.

Como era a rotina de trabalho com Ariano?
Era bem simples. Eu recebia semanalmente dezenas de pedidos de entrevista, depoimentos para documentários, imprimia e botava numa pasta. Quando tinha muita coisa, acertava com ele e despachava os pedidos. Ele lia e dizia o que aceitava. Depois, era ver a agenda dele e encaixar. A melhor hora era quando ele dava as entrevista e eu acompanhava. Ficava me coçando para perguntar algumas coisas.

Imagino que Dom Quixote seja uma referência para Ariano. É a obra literária que ele
mais admirava?
Dom Quixote era sempre citado, mas Tolstói e Dostoievsky sempre chegavam. Foi graças a ele que passei a ler Tolstói, especialmente “Guerra e Paz”, que ele já releu inúmeras vezes. Bastava comentar um capítulo, que ele lembrava de detalhes inacreditáveis.

Ariano tinha uma alma-sertão, mas era um sujeito que vivia nessa maluquice chamada
Recife. Como ele convivia com isso?

Ele era um homem absolutamente caseiro. Saía mais para viagens, que eram muitas.

Assim como ele construiu um sertão ao seu modo, inventanto personagens e narrativas maravilhosas, de que maneira ele se alimentava desta cidade conturbada de hoje?
Desconfio que ele se alimentava mesmo era de suas origens mais remotas. Falo do Sertão.

Ariano sempre disse, em suas entrevistas, que não temia a morte. O que o assustava de verdade? Ele falava sobre os seus medos?
Não. Havia o mito de que ele tinha medo de avião, mas ele sentia era um profundo tédio. Numa das poucas viagens de avião que fizemos, para Petrolina, o avião sofreu uma queda repentina de altitude e fiquei apavorado. Quando olhei para trás, Ariano estava sossegado, como se nada estivesse acontecendo.

Após o infarto do ano passado e os recorrentes problemas de saúde, a relação dele com a morte mudou?
Creio que não. Ele falou algumas vezes, nas aulas, sobre o infarto e o aneurisma com o bom humor de sempre. Numa entrevista recente, ele disse que, se tivesse que morrer, queria morrer no palco. Não havia drama nenhum.

Você é um anotador compulsivo de frases. Imagino que, no seu caderninho, tenha um capítulo inteiro com frases de Ariano. Quais as melhores frases anotadas nesses últimos cinco anos?
São tantas frase maravilhosas que ele disse. Teria que pegar meus caderninhos, que não estão aqui comigo. Mas guardei a última frase de sua última aula. Ele disse o seguinte, após elogiar muito Gilson Santana, um bailarino negro que ele adora: “Eu falei aqui várias vezes da raça negra. A gente fala assim, estou  consciente, só por uma facilidade de comunicação. Eu tenho a absoluta consciência de que só existe uma raça no mundo, que é a raça humana”. Depois disso, o teatro mergulhou numa ovação completa, e terminou a aula.

Pela devoção com que produzia suas obras, penso que Ariano era um perfeccionista. A busca pela perfeição pode explicar os longos períodos para escrever seus livros? Ele até hoje mantinha o mesmo processo de produção?
Ele escrevia todos os dias, na parte da manhã. Era uma busca pela perfeição aliada a uma criatividade sem fim. Ele sempre tinha novas histórias para acrescentar ao seu livro.

Por falar nisso, como andava o Jumento sedutor? É verdade que o livro está pronto?
Ultimamente ele tinha deixado de falar do livro, porque toda entrevista queriam saber se ele tinha terminado. Às vezes eu achava isso uma chatice, porque bastava os jornalistas terem feito uma breve pesquisa, para saber que aquele livro era um projeto de longo fôlego. Não acho que havia inquietude, mas uma vontade de sempre continuar, pelo prazer monumental que sentia no ato de escrever. Ele sempre dizia que a literatura era missão, vocação e festa.

Ele falava sobre outros projetos além do Jumento sedutor?
Não acredito. Era seu principal projeto, e acho que ele não se desviava um minuto dele.

O mestre, à distância, me parece um gozador de primeira linha. Um sujeito que faz piada até com a sombra, aquele humor ferino do nordestino. Ele era assim na convivência diária?
Ariano era um homem que gostava de rir, e fazer rir, mas nem de longe um contador de piada ambulante. Gostava da boa conversa, sobre temas os mais diversos. Na convivência diária, era de uma gentileza profunda, de uma humildade inimaginável. Mas uma coisa é a vida, outra um teatro e uma aula-espetáculo. Havia um lado silencioso dele profundo, que sempre era respeitado.

Você viajou com ele agora nessas últimas aulas-espetáculos. Como ele estava?
Quando tinha aula-espetáculo em Pernambuco, em qualquer cidade, era meu dever de ofício acompanhar, colocar o programa atualizado em sua mesinha, ver se algum jornalista queria entrevistá-lo, enfim. A última aula foi dia 18 de julho, em Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, num teatro lotado. Ele tinha vindo de uma aula no teatro Castro Alves, em Salvador, dois dias antes. Tinha sido ovacionado por 1.600 pessoas. Ele chegou a Garanhuns exultante. Deu uma aula maravilhosa, exuberante, que  durou mais de duas horas. Fez o público rir, recitou poemas e se emocionou em alguns momentos. Ao final, o público ovacionou longamente. Depois de tirar várias fotos, no camarim, foi para o carro. Estava com um sorriso de menino. Este sorriso é a imagem de um homem realizado, feliz, pleno. Ele veio ao mundo e realizou sua missão. Quantos de nós conseguimos isso? Quantos países são capazes de produzir um Ariano? É o que levo comigo, esta bênção de ter vivido isso tudo, que mais parece ter sido parte de um sonho que durou cinco anos – e que talvez não termine, até que minha memória esteja viva.

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A dura e fascinante tarefa de viver

23 de julho de 2014, às 9:31h por Samarone Lima

Sexta-feira passada, Ariano Suassuna deu Aula-Espetáculo no Festival de Inverno de Garanhuns. O teatro Luis Souto Dourado estava lotado. Como sempre, fiquei na primeira fila, acompanhando tudo de perto, já que sou o assessor de imprensa dele, desde 2009.

Foi um espetáculo belíssimo. Ariano estava empolgado com a aula que dera dois dias antes, no Teatro Castro Alves, em Salvador, para 1.600 pessoas. Ele ficava, de fato, muito feliz, quando suas mensagens alcançavam o coração do público.

Em Garanhuns,  não foi diferente. Contou histórias, botou o público para rir diversas vezes e deixou muita gente engasgada de emoção, ao recitar “Vou-me embora pra Pasárgada”, poema de Manuel Bandeira. Junto aos músicos, bailarinos e cantores, a aula ganhou uma dimensão quase atemporal. Ali, estávamos todos em outro tempo, mergulhados na poesia, nas melodias de Capiba, na suavidade da voz de Isaar França, cantando a belíssima “Tu que me deste o teu cuidado”. Em algum momento, me senti um homem de muita sorte, por acompanhar Ariano e sua trupe nesta jornada, por estar ali, vendo e vivendo aquele momento sublime.

Ao final, as dezenas de fotos de sempre, até chegarmos ao carro.

No dia seguinte, no hotel Tavares Correia, acompanhei Ariano numa pequena homenagem que os músicos de Bom Jardim fizeram, lhe entregando uma placa e tocando duas músicas. Terminada a sessão de fotos, fomos até seu quarto, com dona Zélia, sua esposa, a neta e Juscelino, seu motorista. Nos despedimos, desejei boa viagem e fui para meu quarto.

Foi nosso último encontro. Na segunda (21), Ariano teve um AVC Hemorrágico, ficou internado no Hospital Português. O grande mestre morreu ontem, às 17h15. O coração fez sua parte.

Hoje não tenho ainda espírito para escrever.

Deixo algumas palavras de Ariano, publicadas numa entrevista ao jornal O Globo, em 04.08.2013. Dizem muito de tudo o que ele viveu.

Celebremos sua grande, fecunda e iluminada existência.

“Passei por momentos muito duros na vida, mas os enfrentei pela minha arte, que é a minha dança. Eu sei que posso ficar cego, porque sou diabético – mas eu danço. Quando eu digo dançar, quero dizer que participo da festa da literatura. A morte é certa. Todos morremos – e eu danço mesmo assim. A tarefa de viver é dura, mas fascinante. Agradeço a Deus o fato de viver. É com estas três palavras que eu danço: missão, vocação e festa”.

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A longa segunda-feira na Faixa de Gaza

21 de julho de 2014, às 12:40h por Samarone Lima

Às vezes me pego pensando como deve ser a vida na Faixa de Gaza. Agora, nesta manhã de segunda-feira, com o Exército de Israel bombardeando tudo. Mas logo me vejo, perplexo, sem conseguir imaginar como é a vida num local que passa 12 horas por dia sem luz, onde o consumo diário de água é de 80 litros por pessoa (o padrão da OMS é de 100 litros por pessoa/dia), onde 40% dos hospitais não têm os medicamentos essenciais, onde 58,9% das pessoas entre 25 e 29 anos não têm emprego.

Minha imaginação às vezes sofre de delírios mas o ser humano que escreve crônicas semanais neste blog sofre muito com cada bomba despejada pelo exército israelense, que há 12 dias começou a operação “Margem protetora”, após três adolescentes serem mortos, certamente por militantes do Hamas.

O que alguns chamam de “guerra”, prefiro chamar massacre. Já são 325 palestinos mortos. Do lado israelense, há dois mortos. Um deles, o sargento israelense Eitan Barak, de 20 anos, pode ter sido morto por “fogo amigo”, que é uma morte acidental, provocada por algum companheiro da tropa.

O pior é ler a entrevista da brasileira Ana (nome fictício) publicada na Folha de São Paulo (edição de ontem).

Ela fez parte do comando do tráfego aéreo de Israel em 2008, quando começou a operação “Chumbo Fundido”, quando Gaza foi atacada por 22 dias. Ela diz que grande parte dos militares de Israel desconhece o alvo de seus ataques.

“A gente não sabe quem está atacando, só recebe uma pasta com ordens”, disse.

Os operadores não sabem o que é o alvo, diz o jornal. Só conhecem sua localização, que aparece como um ponto no radar. Uma imagem capturada por um drone mostra, em preto e branco, o caminho do míssil, sem nitidez.

“Eu nunca atirei, porque não conseguiria fazer isso. Eu sabia que tinha uma pessoa ali embaixo e, para mim, isso era muito complicado”, disse.

Ela contou que, às vezes, os millitares faziam uma celebração após o ataque. Ana pediu tratamento psicológico ao Exército ainda durante o serviço militar.

Não sei quanto tempo vai durar a onfensiva, quantos mortos teremos pela frente, incluindo crianças, mulheres, velhos, uma grande parcela de civís, além do incremento do ódio, tristeza e dor.

Um grupo de artistas e intelectuais de diversos países (incluindo seis vencedores de prêmios Nobel da Paz) divulgou uma carta condenando a operação de Israel em Gaza, pedindo também um embargo militar contra os israelenses.

Não sou intelectual, não tenho prêmio algum, só alguns livros publicados, mas assino embaixo, embora saiba que isso de nada vai adiantar e que muitas famílias palestinas serão destruídas até o fim desta longa segunda-feira.

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