Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Vocação para o riso

22 de abril de 2015, às 12:06h por Samarone Lima

Creio firmemente que algumas pessoas são predestinadas ao riso. A ver a vida mais pela janela do bom, do belo e do bem, mesmo em circunstâncias desfarováveis.

Tenho sorte de ter gente assim por perto, mas também cultivo esse tipo de humanidade. Não tenho a menor paciência com o mau-humorado oficial ou o pessimista registrado em cartório. Muito menos para quem acha que o Brasil está se acabando, que nada funciona, que somos a pior desgraça do mundo. Como diz (e muito bem) o psicanalista Christian Dunker, “pensar que nossas instituições são inviáveis é um resquício colonial”. Mas isso de “Mal-estar, sofrimento e sintoma”, tema do seu novo livro, é coisa para outra postagem.

Vejam o exemplo aqui do prédio onde moro – até quando a especulação imobiliária na Rua da Aurora permitir. Chama-se Capibaribe, o edifício, fica às margens do rio Capibaribe. Foi construído, salvo engano, na década de 1950 e até hoje, para manter a linha, o tapete vermelho é trocado anualmente. O condomínio, claro, acompanha a toada.

Não sei qual a metafísica utilizada neste processo de manutenção do prédio (e dos funcionários), mas o fato é que a maior parte dos trabalhadores daqui estão há muito tempo nas respectivas funções e têm uma rara, dedicada e generosa vocação para o riso. Diria que caçam sorrisos em qualquer situação.

Os que mais se destacam são Seu Biu (que faz serviços em todos os apartamentos, do piso ao teto), Seu Madruga, o filho de seu Madruga, que estamos chamando de Júnior, Joab (o porteiro da noite) e Giba, que trabalha no mercadinho, que funciona no térreo. Alex também é da turma do riso, mas gosta mais é de tirar onda.

Basta sair do apartamento para comprar um pão, uma lasca de queijo, que voce fatalmente vai encontrar Seu Madruga, com a farda azul, fazendo alguma atividade de limpeza, organização etc. Sempre tem um radinho pendurado na cintura, com um pênis-drive, digo, um pen-drive, com uma seleção do melhor do brega. Adelino Nascimento, Evaldo Braga, Balthasar, Carlos André, Bartô Galeno, Odair José etc. Até o gigante Genival Santos ele tem, graças ao trabalho dedicado do porteiro Eliel, que baixa músicas, filmes, seriados e até filmes que ainda estão sendo produzidos, em sua empresa caseira.

Basta dar um bom dia, que ele, Seu Madruga, aumenta o volume e pergunta quem está cantando. Escuto e digo o cantor. Meu índice de acerto beira os 93%. Madruga dá uma boa risada e o a vida segue melhor.

Se der sorte, vem chegando Seu Biu, um baixinho atarracado que mora no Cabo de Santo Agostinho e só anda de boné. É o faz tudo daqui. Qualquer bronca no prédio, surge a palavra mágica:

“Seu Biu está por ai?’

De longe, ele vem rindo. Nunca o vi de mau humor. Tem uma gaitada boa e tem serviços agendados até 2017, pelos meus cálculos.

Outro dia estava com uma hérnia, com dificuldades para trabalhar no mais pesado, mas nem assim desanimava. Fez a cirurgia, ficou bom e está em algum apartamento, agora, botando um piso novo para alguém. Piso não, cerâmica, porque qualquer novo comprador que chega por aqui, a primeira coisa que faz é arrancar o piso de taco e botar as indefectíveis cerâmicas.

Temos também Giba, que trabalha no mercadinho do térro. É sempre uma animação completa. Não tem tempo ruim. Comecei a emprestar livros para ele, que passou a ler como um danado, até que sentiu uma dor na vista e deu uma parada. A exemplo de seu Biu, só anda de boné e com um bom humor perpétuo.

Por último, Joab, que fica na portaria a cada dois dias. Entra no serviço às 19h, mas não é raro encontrá-lo já às 17h, no entorno, com aquela mutuca de olho no movimento, para não ser pego de surpresa mais tarde. Foi ele, por sinal, quem resgatou nossa gata Azeitona, quando ela passou 24 horas desaparecida, após uma farra em que cheguei sem rumo e a deixei sair.

Joab nasceu rindo, vive rindo e vai morrer rindo. É vocação.

Quando chego de algum lugar, lá pelas 22h, dou uma parada na portaria para botar os papos em dia. Depois chega Dimas, ou “O Pardal”, taxista que começa a trabalhar às 19h, aqui na frente, e larga às 6h da manhã. O Pardal, digo, Dimas, é meio invocado, e adora repetir a mesma história 12 ou 13 vezes, para a gente não esquecer.

Chamamos o Pardal de o “terceiro elemento”, porque o “quarto elemento” é Augusto, advogado gente finíssima que mora no Bloco A.

A conversa vai longe. É como uma mesa-redonda sobre temas os mais diversos, histórias, fatos pitorescos, tiração de onda com tudo e com todos.

Depois de uma boa roda de conversas e risadas, o dia fica mais macio.

Não raro acontecem surpresas ótimas no convívio com esta galera.

Outro dia fui passando, logo cedo e Seu Madruga disse que tinha uma coisa pra mim. Veio com uma Remington, que algum morador não queria mais. Ele guardou para mim, aumentando minha coleção de máquinas de datilografia para 14.

Perguntei quanto era. Era presente mesmo.

Ele aumentou o volume da música e perguntou quem era.

Chutei Carlos Alexandre, mas errei feio. Parece que era Evaldo Braga.

“Tás ruim, visse?’, disse Madruga, dando uma boa risada, a de sempre.

E assim vamos vivendo.

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Sociedade civil desorganizada

14 de abril de 2015, às 11:56h por Samarone Lima

Sou péssimo de fotos, por isso escrevo.

O fato é que, depois de várias idas e vindas, ideias e mudanças, dúvidas e aperreios, fizemos a festa dos quatro danos da Biblioteca Comunitária do Poço da Panela, no último sábado.

Foi uma bela aventura, pá!

Este ano, mudamos o local da festa, passando para o largo do Poço da Panela. A idéia era juntar a comunidade que frequenta a biblioteca (uma casa de primeiro andar, cravada na beira do rio Capibaribe), e aproximar aquela turma que vai muito à venda de Seu Vital, gente de classe média, muitos profissionais liberais que podem nos ajudar bastante. Como não somos ONG, nem Fundação, nem recebemos dinheiro de prefeitura, estado, não recebemos patrocínio de empresas, apenas ajuda de simpatizantes, somos apenas uma aventura humana que sobrevive a cada mês, na base da teimosia. Tenho dito que somos uma parcela da “sociedade civil desorganizada”.

O fato é que nem mesmo nas nossos mais tresloucados delírios, imaginaríamos que o negócio fosse dar tão certo.

O objetivo era arrecadar dinheiro para comprar um violino, já que tem uma penca de jovens estudando violino, violoncelo e teoria musical, graças a uma parceria com o Conservatório Pernambucano de Música. Outro objetivo era fazer a biblioteca ficar mais conhecida. Conseguimos as duas coisas, talvez até mais.

Antes da festa, as conexões astrais começaram a se mover. Serjão, velho amigo que conhece o projeto, passou a programação para uma penca de amigos. Num desses vai e vem, o email calhou de cair nas mãos de um camarada que trabalha nos bastidores da orquestra Criança Cidadã. Ele me ligou, disse que tentaria conseguir um violino, e conseguiu – uma doação.

Quando chegou ao Poço, lá pelas 15h, o Érico trazia um violino supimpa, num “case”, que é o nome que dão para caixinha, em português fluente. Serjão avisou que conseguira, com um amigo, um violão novinho. Começamos o dia com um 2 x 0. Dois amigos que estão firmes no jornalismo, Marcel Tito e Bruno Fontes, racharam a grana para comprarmos outro violino: 3 x0. Nivaldo Brayner chegou à festa trazendo um violão, que precisava apenas trocar as tarrachas. Se não for esse o nome, perdoem. Ele trocou as bichas e o instrumento ficou novinho: 4 x 0.

Para completar, apareceu uma moça muito simpática (foi a primeira a chegar, na verdade), chamada Valéria, que é professora na rede particular e na prefeitura. Conversamos, ela queria conhecer o espaço, fui com ela e depois chegaram outras pessoas. Pois bem. Valéria quer fazer um trabalho de leitura e teatro aos sábados, o dia que mais precisamos de gente. Ela deve começar já esta semana – 5 x 0.

Houve um toque do inusitado na nossa festa. O tradicional pula-pula, sucesso absolutao de público e crítica com as crianças, foi colocado defronte à igreja, onde seria realizada, às 19h, um casamento. Os noivos podem contar para seus filhos, daqui a alguns anos, que foi o primeiro casamento do Recife que teve como cenário um pula-pula, e uma fila sempre inesgotável de meninos, que vinham buscar a senha comigo mediante as palavra mágicas: “Biblioteca do Poço”. A festa dos noivos também vai ser lembrada porque, enquanto o padre celebrava o matrimônio, do lado de fora se ouvia os gritos de puxadores oficiais de bingo e os gritos de “bati!”

O bingo, cá entre nós, foi um retumbante êxito. Boy e Lula Terra se revezaram nas chamadas (cada um ficava responsável por um prêmio). Lula foi logo batizado de “enciclopédia”, porque contava uma história para cada número que tirava.

“Vinte e nove! Ano da quebra da Bolsa de Nova York!”

“Sessenta e dois! Ano do surgimento do Movimento Hippie!”

Boy seguia seu estilo comunidade:

“É de rombo!”

“Dois patinhos na lagoa”!

A venda de Seu Vital ficou bem cheia. Para nossa satisfação, os cinco prêmios fizeram um enorme sucesso: duas sanduicheiras, um liquidificador, um ferro de passar e um ventilador. O prêmio especial, que surgiu na hora, foi obtido graças à participação popular e à ação rápida de Lula Terra, que pegou seu chapéu e saiu circulando pelas mesas. Arrecadou R$ 143,00. Após uma rápida assembléia, ficou estabelecido que R$ 100,00 seriam destinados para o prêmio, e o restante para a biblioteca. Foi o prêmio mais disputado do bingo, e ganhou um sujeito que já tinha levado o ventilador. Ô camadada de sorte.

Manuela, a coordenadora do Orquestrando Pernambuco, teve a sábia idéia de chamar os alunos para uma apresentação rápida. Mesmo tendo iniciado as aulas somente em outubro do ano passado, os cinco jovens vieram com seus violinos e tocaram uma das músicas que estão aprendendo pelo “Método Suzuki”. Depois, Dudu, um menino que está se destacando no violino, tocou outra música, acompanhando a professora.

Bem, depois da missão cumprida, começou o forró em Seu Vital, a cargo do grupo “Regente Joaquim”. Foi farra até umas horas.

Vou ver se alguém que foi à festa tem umas fotos para mostrar a vocês.

Aos que nos ajudaram (e ajudam), obrigado. Naná, Ninha, Boy e eu estamos animadíssimos com o andar da carruagem. Agora já estamos pensando num sarau mensal, defronte à igreja, um festival de leitura com escritores amigos e mais um monte de coisas. A sociedade civil desorganizada segue firme e forte, hermanos, vamos que vamos.

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Convite “Festa do Violino”, sábado que vem, no Poço da Panela

8 de abril de 2015, às 10:03h por Samarone Lima

 

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Caros leitores, vai um convite.

No próximo sábado (11/04),  a comunidade do Poço da Panela vai estar mobilizada na comemoração dos quatro anos de existência da Biblioteca Comunitária do Poço. Haverá brincadeiras, brechó, feita de livros, recital de poesias, bingo e um forró na famosa “Venda de Seu Vital”, mas o objetivo principal da festa será a compra de um violino, que será disponibilizado para os jovens que estão tendo aulas de violino, teoria musical e violoncelo, nas dependências da Biblioteca, desde outubro do ano passado.

“A gente percebeu que os meninos estão bem envolvidos com o projeto, e decidimos usar a data de aniversário para conseguir um violino, que será entregue ao aluno que estiver tendo mais destaque”, informa Evaldo Gomes de Moura, o Naná, que trabalha diariamente numa Kombi, um dos coordenadores do espaço, ao lado de Ninha (merendeira), Boy (eletricista) e eu (no momento, desocupado).

Desde outubro do ano passado, a Biblioteca fez uma parceria com o Conservartório Pernambucano de Música, e o Poço da Panela passou a fazer parte do projeto “Orquestrando Pernambuco”, uma extensão, na comunidade, das aulas que são oferecidas no Conservatório. A coordenadora do “Orquestrando”, Manoela Dias, está dando uma “consultoria” para a escolha do modelo e tamanho adequado para cada faixa etária.

Mesmo tendo instrumentos cedidos a título de empréstimo pelo Conservatório, a compra de um instrumento vai servir de estímulo para os jovens alunos. Afinal, uma coisa é ter um instrumento por empréstimo, outra coisa é ter um instrumento seu.

História

 Cravada às margens do rio Capibaribe, onde mora uma parcela da população do bairro com uma realidade bem diferente dos imensos casarões que fazem parte do romantismo do Poço, a Biblioteca vem se tornando um pequeno espaço cultural na comunidade. Há dois anos, sempre às terças-feiras, o artista plástico Edson Menezes vem dando aulas de desenho para cerca de 10 jovens.

Ao longo dos quatro anos, os jovens da comunidade já tiveram oficinas de fotografia, rodas de leitura, trabalhos de arte com material reciclado e reforço escolar etc

Também conhecida como “Poço das Palavras”, a Biblioteca do Poço sobrevive de doação de parceiros, simpatizantes e amigos, através de uma rede na Internet. Mesmo tendo passado por dificuldades financeiras (quase fechou ao passado), vem sempre renovando as forças. Os coordenadores, que moram no Poço, sonham com uma geração de leitores e músicos, que poderá nascer com dois objetos: um livro e um instrumento musical ao alcance das mãos.

Detalhes da programação:

“Festa do Violino” – Aniversário de quatro anos da Biblioteca Comunitária do Poço da Paela

Local: Largo da Igreja do Poço da Panela

Data: 11/04/2015 (sábado)

Programação:

15h – Brechó, venda e troca de livros, pula-pula, brincadeiras com a criançada, etc.

16h – Roda de música e poesia, com Lula Terra e convidados.

17h – Grande “Bingo do Violino” (o dinheiro arrecadado será utilizado para compra de um violino para os meninos da comunidade que fazem parte do projeto “Orquestrando Pernambuco”, parceria da Biblioteca com o Conservatório Pernambucano de Música).

19h – Forró (Regente Joaquim), na Venda de Seu Vital.

Entrada franca

Mais Informações

(Coordenadores da Biblioteca)

Evaldo Gomes de Moura (Naná) – 8773 3934

Samarone Lima – 84104863

bibliotecapocodapanela@gmail.com

samalima@gmail.com

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Paixão de Cristo no Poço – lembranças minhas e alheias

31 de março de 2015, às 12:31h por Samarone Lima

Quando morei no Poço, de 2000 a 2005, aconteceram tantas coisas malucas, que meus leitores do JC on line, para onde eu escrevia na épca, acreditavam que os textos eram fruto de uma imaginação prodigiosa.

A verdade, no Poço, deixa qualquer Garcia Márquez chupando pirulito. É um mundo à parte. Não é à toa que quem bebe daquela água, nunca deixa de voltar, como é o meu caso.

Pois bem. Numa dessas semanas santas da vida, passou por mim um sujeito de cabelos ralos e brancos, com uma pastinha na mão, me olhou de norte a sul e profetizou:

“Serás o Cristo da Paixão do Poço”.

Ele tinha um olhar fulminante de diretor de teatro que descobre um talento em estado bruto e estava retomando uma Paixão realizada anos antes, que tinha dado errado por motivos, digamos, “Pocences”.

Os motivos foram simples:

1. O soldado escalado para dar umas chicotadas de leve em Jesus Cristo, Marco Careca (excelente tirador de cocos em geral e quebra-galho como eletricista, mas vive mesmo como porteiro de um prédio), vestiu a roupa de romano e incorporou o espírito. Quando apareceu a figura do Jesus carregando sua cruz, não se fez de rogado. Começou a açoitar o pobre do personagem como se tivesse aparecido um inimigo de décadas.

“Devagar, Marco, isso é teatro!”

“Teatro porra nenhuma. Comigo a lenhada é na vera!”, respondeu Marco, descendo a chibatada.

2. Numa cena anterior, quando Jesus chegava num burrinho, já perto da venda de seu Vital, o clima estava bucólico, os figurantes todos fazendo seu papel, quando o burrico, sabe-se lá por qual motivo, deu uma disparada, atravessou o cenário, assustou figurantes e só parou à beira do rio, tirando todos de tempo;

3. Na cena final, Jesus foi falsamente crucificado. A cruz, foi fincada defronte à Igreja de Nossa Senhora da Saúde. Marco Careca, encarregado de prender as mãos do santo homem (logo ele), continuava se sentindo uma mistura de oficial romano e da SS. Amarrou as mãos do cristo com dois nós cegos. E com a força de um soldado romano. Em poucos segundos, as mãos do nosso Salvador começaram a ficar rôxas. Jesus começou a gritar;

“Marco, está apertado demais, me salva aqui!”

“Segura a tua onda, Cristo”, respondeu Marco.

Nesse instante, uma galera de uma comunidade vizinha, que tinha arenga com o Poço, chegou para guerrear, e começou um vale-tudo. Quando o pau cantava, a cruz começou a entortar e Jesus ficou num estado lastimável – com as mãos ficando pretas e torto.

“Ai, Jesus”, gritou, mas ele era o Jesus.

Foi salvo por alguém que sempre aparece nas horas mais improváveis: Naná, Luís Maúcha ou Duda “A Milhão”.

4. Depois disso, nunca mais teve a “Paixão do Poço”.

De formas que senti um calafrio quando o diretor me reconheceu como Cristo. Iria realizar um velho sonho, que era o de participar de uma peça de teatro ao ar livre, provando que sempre tive, sim, valor artístico em cima dos palcos. Mas lembrei de todas essas peripécias que Naná me contava a cada ano, mamando seu Carreteiro de 20 litros.

Declinei do convite, até porque Marco Careca está trabalhando num prédio bem perto de Seu Vital. Ele, quando bebe, costuma dizer que “navio de madeira também pega fogo”.

Dois anos depois daquela proposta, um grupo resolveu montar a “Paixão de Cristo do Poço” numa versão um pouco mais maluca. Eram os amigos que bebiam religiosamente, na venda de seu Vital.

Fizemos uma reunião na casa de Walter Barba, para distribuir os papéis, enquanto serviam umas cervejas, cachaças e whiskys os mais diversos.

Foi uma noite cheia de papéis trocados, acusações e risadas. Luis Diazepan não gostou de ter sido escolhido para interpretar o jumento. Na verdade, nada deu certo e sequer começamos a ler o texto. As críticas se multiplicavam, misturando o caráter de cada um com os problemas do papel. Grão de Bico queria ser Maria Madalena e Nossa Senhora. Era complicado. Ninha, Boy, eu, Naná, Oswaldo Titio, acho que Jorge Alberto – era uma profusão de péssimos atores com papéis que não se encaixavam.

Quando Marco Careca apareceu na janela, e perguntou se tinha vaga para “soldado romano” eu fingi uma escapada ao banheiro e fui tomar uma em Seu Vital.

“Esse negócio não vai dar certo”, disse o velho Vital.

Ele não erra uma. A Paixão do Poço ficou por ali mesmo. Hoje em dia, tomamos nosso modesto vinho e relembramos “aquele última Paixão de Cristo”, que se renova a cada ano, nos bairros os mais diversos do Recife, e pelo mundo afora.

A todos, boa Paixão.

Ps. aproveitem o feriadão para assistir “O sal da terra’”, filme sobre a vida e obra do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado (e sua grande companheira). Você vê todas as desgraças do mundo que ele fotografou e, ao final, por mais contraditório que pareça, sai do cinema cheio de esperanças. Emocionante é pouco.

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A cerva nossa de cada jogo…

26 de março de 2015, às 13:42h por Samarone Lima

Fui ontem à Assembléia Legislativa, para entrevistar o deputado Antônio Moraes (PSDB). Não o conhecia pessoalmente. É um senhor de 61 anos, muito educado, gentil, conversa franca, me deixou boa impressão.

Ele está lutando, na AL, para liberar a venda de cerveja nos estádios de futebol de Pernambuco. Caso vocês não saibam, amados leitores, desde abril de 209, foi proibida a venda de qualquer bebida alcoólica em nossos estádios. O projeto de lei 13.478 , do deputado Alberto Feitosa (PR) foi aprovado com tranquilidade. Estamos há seis anos vivendo com essa bobagem monumental.

Falo isso porque sou torcedor do Santa Cruz e costumo ir aos estádios que meu time joga – exceto a Arena Itaipava, claro -, por uma questão de inteligência emocional.

A pouca inteligência emocional não me permite sair daqui de casa, na rua da Aurora, para ver um jogo em São Lourenço da Mata, um estádio que não tem um boteco no entorno, um espetinho esfumaçado, um sanduba. Acho, inclusive, que o Náutico fez uma das maiores besteiras de sua história, que foi ter saído dos Aflitos, para fixar residência futebolística numa Arena bonita, cheirosa, “de primeiro mundo”, como dizem os boçais para elogiar algo, aqui no Brasil, mas que não tem alma. Tudo que está ligado ao sentimento, precisa de alma. Tem boteco velho, caindo aos pedaços, que tem alma. Tem boteco novinho em folha, tudo lindo, coisa de arquiteto renomado, que tem tudo, menos alma.

Bem, mas voltando ao tema.

Quem aprovou a lei proibitiva mostrou aos seus eleitores que não entende uma vírgula de futebol, nem de violência nos estádios, nem de vida em sociedade. Certas leis são inventadas mesmo é para um belo jogo de cena.

Cresci indo para estádios com meu pai e meu irmão do meio, o Tonho. Meu pai bebia uma Brahma gorduchinha, de garrafa, que o sujeito botava num copo plástico. Vi jogos em diversos estádios, de todos os tamanhos, a partir de Imperatriz, minha primeira lembrança futebolística, um jogo do Sampaio Correia, depois o Castelão e o pequeno caldeirão, no centro de Fortaleza, que é o “PV” (estádio Presidente Vargas).

Depois que cresci e vim para o Recife, criei raízes no Arruda e posso contar nos dedos alguma briga dentro do estádio. A cerveja gelada, que hoje seria vendida a R$ 5,00 a latinha, não é causa de embriaguez ou desordem alguma. A turma vem brigando de longe, por motivos os mais diversos. Um dos principais é a falta de uma ação coordenada e inteligente para modificar o cenário, coisas que outros países já fizeram, mas isso é para outra crônica.

Após a aprovação da tal lei, o que tem acontecido é o inverso. Muita gente já chega ao estádio chapado, cheio dos paus, porque sabe que vai passar duas horas sem poder beber nada. Vejo isso com meus amigos. Dentro do estádio, o mercado clandestino de bebida funciona com rara intensidade. É fácil comprar aquela garrafinha de Teachers, que no comércio custa R$ 13,00. Dentro, sai por R$ 25,00 ou R$ 30,00. Nos camarotes, onde está a turma do “andar de cima”, corre bebida a rodo.

Nesses seis anos de abstinência coletiva, a violência continua a mesma. A Tropa de Choque continua nos tratando do mesmo jeito, com seus cavalos em cima de multidões, e a truculência para resolver qualquer desordem, enfim. O nome, por sinal, já diz tudo – Tropa de Choque. Acho até que piorou, a violência, porque morreu gente. Um “segurança” de uma torcida atirou num torcedor do Náutico, defronte ao estádio dos Aflitos. Um imbecil, torcedor do Santa, foi capaz de arremessar uma priva na torcida do Sport, matando uma pessoa. Trata-se, portanto, de dois assassinos, que deveriam estar presos e nunca mais poderiam voltar a um estádio.

Mas o que me mais me chamou a atenção, nesta conversa com o deputado, foi o fato pessoal, de ter ido à Assembléia Legislativa do Estado, comandada há alguns anos por uma espécie de imperador político de nossas terras, o senhor Guilherme Uchoa (PDT). Ele é presidente da casa desde 2007.

Para se ter uma ideia de como age este camarada, basta lembrar que no início de março, ele assumiu por cinco dias o mandato de governador do Estado. Claro que ele providenciou um jantar para seus colegas de parlamento. Ao final, autorizou os colegas a levarem as taças do acervo do Palácio. Saiu uma pequena nota no “Diário Político”, de Josué Nogueira, do dia 10 de março.

“Quando viu o desatino, um garçom se apressou, educadamente, em desmanchar a cortesia. Explicou que se tratava de patrimônio público”.

Ou seja, coube ao simples e modesto garçom lembrar ao presidente de uma Assembléia Legislativa que patrimônio público não é para ser levado para casa.

O mais incrível é estar batucando uma crônica sobre o direito à cerveja nos estádios de futebol. Coisa de desocupado, devem dizer, num país cheio de problemas.

É verdade, eu ando meio desocupado mesmo. E o estuário, como se sabe, é um espaço voltado para textos absolutamente desaprumados.

Mas, aproveitando o ensejo, peço gentilmente aos meus queridos leitores que, se tiverem alguma proximidade com os deputados estaduais de Pernambuco, peçam para eles deixem de picuinha e liberem da nossa querida cerva gelada.

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