Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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É só isso o que me basta para fechar os olhos e agradecer

22 de agosto de 2016, às 12:15h por Samarone Lima

Quando estou triste, assim, como agora, uma certa melancolia me leva a algo que tenho como sagrado: escrever.

E fico quieto, calado, fico em silêncio, contemplando a vida, que me foi dada em algum momento de agosto de 1968, e realizou-se por completo em maio de 1969, fruto do amor dos meus pais.

Quando estou triste, eu fico calmo como agora. E tomo um bom banho, e escolho uma camisa branca e alguma das minhas velhas calças marrons, e ponho alguma lavanda e uma sandália. E a Elis me cai bem, especialmente quando canta que me fizeste criança, ou que tuas mãos foram minhas com calma.

E lembro de todas as pessoas que minha memória permite. As que estão e as que se foram. E as que virão. As pessoas que amo, que amei, que amarei. Sempre achei que o amor não tem tempo, e que é possível amar no futuro. E creio que nunca deixamos de amar quem um dia amamos. Ele, o amor, é uma sombra boa que levamos, até o último suspiro.

O coração é mesmo o maior órgão do corpo. Suspeito, inclusive, que nos transplantes, a pessoa que o recebe, herda todos os sentimentos alheios, e passa a amar uma legião.

Quando estou triste, acho o mundo estranho e frágil. E estranho esta intensa vaidade humana. E sento num banco de praça qualquer, e olho o mundo.

E vejo passar Seu Biu, um negro atarracado e sorridente, chegando para o trabalho. Vou acenar e sei que ele dará um belo sorriso. E digo “Fala, Biu”, e ele abre um largo sorriso e diz “tás na boa, né?”

E sinto o sol em mim, e o vento que sopra aqui, às margens do Capibaribe. E escrevo, muito lentamente, para que a vida seja apenas a simplicidade de um caderno e de uma caneta.

E sinto paz. E me sinto uma breve comoção, com as coisas que andei a fazer nesta vida. Os amigos, amores, trabalhos, lugares que vivi, experiências, viagens, sonhos, livros, tanta coisa. Mas o meu fundamental é mesmo gente.

A alguns, dei as mãos no momento certo. A outros, dei o que tinha . E me perdoem se eram sobras – era o melhor que eu tinha, naquele instante. A outros não devo ter dado nada,porque sou feito do mesmo material humano, que é incompleto e errante.

E algo que chamam de mistério entra na minha alma, me toca os músculos, ossos, sangue.

O mistério de estar vivo, aparentemente saudável, aos 47 anos, numa manhã de sol, às margens do Capibaribe, a cidade que escolhi para viver, na vida que encontrei para viver.

A vida que me completa, com todas as ausências, lágrimas, baques, com todas as alegrias, tristezas, epifanias, descobertas. Há sempre pó de saudade no ar que respiro, porque tenho uma sorte antiga – conheci e compartilhei a minha vida com pessoas absolutamente extraordinárias. Delas nunca me perderei, porque o mapa de cada uma ficou desenhado na minha alma.

É só isso o que me basta para fechar os olhos e agradecer. A algo que não sei o nome, mas sei que existe.

E passou por mim esta manhã.

* Para Geneton Moraes Neto, grande jornalista, grande amigo, grande homem, um dos mais humildes que conheci, que morreu ontem e faz parte da minha legião, onde estiver.

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Historietas

11 de agosto de 2016, às 14:49h por Samarone Lima

Não tente roubar quem está sofrendo

Ele tinha se separado e arrastava sua dor pelas ruas, sua cachorrinha adotiva da solidão, mais magro que ela, por sinal. E doía mais a decisão da ex-mulher, de ir morar em Santarém, com o filho, o único.

Não sabia o que estava a fazer, nem direito para onde ir. Atravessava uma dessas pontes do Recife, conversando com alguém ao celular. Algum amigo, tentando se consolar de algo perturbador. Se perguntava: “por que Santarém, meu Deus?” Não poderia mais levar o menino para os jogos do Santa, o estádio se tornaria um enorme vazio.

E na metade da ponte avistou ou Carrefour, iria lá comprar alguma coisa, que nem lembrava o que exatamente, comida para o filho é que não era, e isso doía até nos ossos.

Então começou a chover. E falando com o amigo, as lágrimas se misturando com as outras águas, lá de cima. Poderia ser poético, mas ele achou que a vida estava mesmo uma grande ruína, nada poderia ficar pior. Falava mais do filho porque não queria dar uma folga para a dor. Ainda havia amor pela ex-mulher, mas era também uma sangria.

Foi quando percebeu se aproximando um rapazote numa bicicleta. Foi reduzindo a velocidade, até encostar ao lado dele e avisar, segurando algo na cintura:

“Ei fera, passa o celular”.

Ele tirou o telefone do ouvido.

“Como é?”

“Passa o celular”, repetiu o rapaz, com cara amarrada, segurando algo na cintura.

“Tu quer essa merda?”, disse, olhando para o objeto, que nem era essas coisas todas.

O sujeito não respondeu. Encarava, para meter medo.

“Então vai buscar”.

E jogou o celular no rio.

E seguiu pela ponte, sem olhar para trás. Só depois lembrou que nele estavam guardadas tantas fotos e lembranças.

Só escutou comentário do Candidato a Ladrão resmungar, antes de seguir no sentido contrário:

“Bicho doido do caralho”.

**

A inveja da dor

Eram dois velhos amigos e irmãos, embora moços e de famílias diferentes. E dividiam o apartamento em São Paulo, no apogeu dos trinta anos. Eram tão silenciosos, que a vizinha só sabia que tinha gente, quando um deles, o cozinheiro, fazia, na panela de pressão, a elogiada galinha com batatas e ervas (de algum oriente que inventava sempre).

O que cozinhava, seguia na estrada acadêmica, com suas pesquisas, aulas, leituras. Estava tomado por uma solidão sem tamanho. Algumas mulheres se aproximaram, o encantaram, e partiram, sem deixar rastros.

O outro, vivia uma desolação. O amor, depois de duas ou três separações, agora também partira, deixando os rastros de quem ousa amar. A dor da falta, a memória latejando em todos os pontos. E apesar de imensa, tudo em São Paulo lembrava seu amor, que agora já não estava.

Enquanto um esperava um amor, que não vinha, o outro chorava a partida do seu, desta vez, sem volta.

E conversavam longamente, tomando café, fumando uns, comendo aquela galinha tão saborosa. Mas também riam. Um  dia haveremos de lembra desse tempo quase com nostalgia, disse o primeiro. Ou com uma saudade sem nome, respondeu o outro.

Numa dessas conversas, surgiu um silêncio.

E o que esperava o amor, que há tempos escapava, viu que seu amigo estava a chorar. Mesmo que ele estivesse de costas, olhando para as ruas do bairro, sabia que ele chorava sua dor e sua saudade.

Aproximou-se. Precisava dizer.

“Estou com inveja da tua dor”.

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Pequenas histórias de amor, volume 12

4 de agosto de 2016, às 10:15h por Samarone Lima

Ele estava doente, já cansado, mas com o velho humor contagiante de sempre.

Até que os muitos exames revelaram o problema nos rins. Estavam  começando a falhar.

Eles começaram uma nova jornada. As farras, os encontros com amigos, as conversa boas e fartas, teriam que ser moderadas. Ele teria que reduzir os aperitivos. Depois, passou ao mínimo. Então, em momentos especiais, apenas duas doses de whisky. Nada mais que duas doses, como bem alertou o médico.

Ele esperava chegar perto da meia-noite, para tomar as duas do dia, e as duas do dia seguinte. E ria sempre, de cada presepada. E eram muitas, contadas com uma  voz que se espalhava pela casa e deixava marcas na memória.

E depois veio a Hemodiálise. Dia  sim, dia não, a batalha, o cansaço, a recuperação.

Havia no horizonte a possibilidade de um transplante de rim. Sim, mas quem?

Alguns exames com filhos, parentes, o trajeto das compatibilidades, incompatibilidades.

Ela, altaneira, avisou que se fosse compatível, seu rim já estava à disposição, desde sempre.

Ele, claro, não perdeu  a chance:

“Mas meu Deus, um rim que mal processa duas doses de Martini…”

Certa vez, ela tropeçou e bateu de lado. Ele, de imediato, comentou:

“Olhe, tome cuidado com esse meu rim…”

E mesmo alquebrado, os encontros com os amigos eram memoráveis, plenos de uma vida que veio e soube se dar.

Quando ele piorou, e foi internado, ela estava ao lado, sem trégua.

Não houve tempo para o transplante.

Mas todos sabem. Se fosse possível, ela daria o próprio coração.

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Antonio Porchia

25 de julho de 2016, às 13:54h por Samarone Lima

Trechos de um de meus escritores prediletos, jamais publicado cá no Brasil:

“Uma coisa, até não ser toda, é ruído. E toda, é silêncio” (Antônio Porchia, poeta argentino).

“Quando tu e a verdade falam, não escuto a verdade. Te escuto”….
(idem).

“Quando o superficial me cansa, me cansa tanto, que para descansar preciso de um abismo”.
(idem)

“O pensar profundo transforma, como o amor profundo”.
(Idem)

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Guima & Riklke

15 de julho de 2016, às 16:23h por Samarone Lima

“Merece de a gente aproveitar o que vem e o que se pode, o bom da vida é só o chuvisco…”

(Guimarães Rosa)

**

“A dor não tolera intérpretes”.

(Rilke)

**

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