Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Pura alegria

9 de janeiro de 2017, às 16:50h por Samarone Lima

Até hoje não entendo direito quando vejo entrevistas com escritores falando sobre os sofrimentos e tormentas da escrita.

Para mim, é um momento de pura alegria. Sempre foi, e creio que sempre será, porque já estou com 47 anos, tempo suficiente para saber o que dá alegria e o que traz sofrimento.

Posso escrever sobre minhas mazelas nos meus intermináveis diários, mas no momento em que estou escrevendo, o sentimento já muda um pouco, já perde aquele gás de se sentir o fodidão-mor. É como se a mazela fosse um pouco domesticada, virasse um gato que quer carinho, algo do tipo.

Os melhores momentos mesmo são quando estou atravessando alguma fronteira da poesia, quando sei que vai dar em algum lugar. Isso sim, parece mesmo com uma salvação, ou com algum tipo de absolvição. Poesia é minha comoção. Só eu sei o que sinto quando estou mergulhado no mundo secreto dela. É outra espécie de ar que respiro.

Aquele prazer particular de ver o bicho nascendo, ganhando forma. Alguma metáfora que surgiu, sabe-se lá de onde, de algum porão, alguma desgarrada cósmica do inconsciente. Ou, quem sabe, o estalo que veio de algo simples – o acúmulo dos milhares de poemas que venho lendo e absorvendo, ao longo da vida. Uma hora eles se misturam e resultam em algo novo e se rebelam, e se revelam, e seguem como nômades, pelos caminhos que eles mesmos inventam.

Nunca há uma formula, um caminho reto. É como o caminhar de um tigre no meio de uma floresta. Ele vai deslizando por entre as árvores, galhos, pisando de leve nas folhas, para não fazer barulho, não chamar a atenção de ninguém.

Estou agora neste momento em que as coisas acontecem ou não.

Explico.

Um livro de maior fôlego, que é quando o sujeito precisa contar uma história, exige dedicação, paciência, uma constante íntima. Serão meses na mesma rotina, no mesmo desafio, na mesma demanda emocional. E é preciso um fio da meada. A maior dificuldade é sempre encontrar esse fio, que costuma escapar, e dá um trabalho imenso. Mas quando a gente encontra ele e não deixa escapar, dá uma alegria.

Aconteceu comigo algumas vezes, especialmente quando escrevi coisas em prosa, como o “Zé” (1998), “Clamor” (2003) e “Viagem ao Crepúsculo” (2009). Sempre me deu um a febre da escrita, como uma força a mais, vinda não sei de onde.

E por esses meses, vinha lutando para encontrar a fonte misteriosa do “Zé”, já que me propus a reescrever todo o livro.

Vinha lutando bravamente, mas não tinha conseguido a conexão profunda.

Acho que foi na última semana de dezembro, quando estive em Belo Horizonte, participei da última fase de uma seleção de uma bolsa de pesquisa. Dois dias depois, saiu o resultado e não passei, depois de três fases. E o tema da pesquisa era a repressão da Ditadura em Minas Gerais.

Eu não entendi nada do resultado mas me ocorreu o movimento contrário.

Me veio a instigação íntima, a força secreta de simplesmente fazer a minha parte – escrever. Foi um estalo mental, uma virada de página.

Estou agora no meio desta nova aventura. A reescrita já ganhou outra forma. Os capítulos começam a sair, como se aquele acordo íntimo estivesse sendo validado, desde a hora em que abro os olhos. Simplesmente cumpro minhas obrigações como ser humano. Acordo, tomo café, medito um pouco e vou escrever. E o texto vai saindo, sem aperreios. Termino, vou trabalhar nas outras coisas, abastecer a casa do necessário, pagar contas, ver algum filme, ler um pouco, mas voltar a escrever. Tudo gira em torno do ato físico e mental de escrever. É uma obsessão boa.

Hoje, na metade de um longo capítulo, parei, olhei a paisagem da rua da Aurora, um dia lindo aqui no Recife e pensei bem no cá comigo – está acontecendo novamente.

Estou na luta com as palavras. É uma luta linda, porque não tem vencedor ou vencido.

Não, não é luta.

É uma alegria em estado puro.

E isso faz um bem enorme para a alma. Pelo menos para a minha, faz.

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Devagar, de mansinho e atentos

1 de janeiro de 2017, às 13:25h por Samarone Lima

Sou péssimo em várias situações sociais. Não sei, por exemplo, dar pêsames direito. Sempre me enrolo e digo outra coisa no lugar, e às vezes era melhor ficar no simples “meus pêsames” mesmo, ou “meus sentimentos”, mas isso, na minha boca, soa falso. 

Uma vez morreu o avô de uma amiga minha, que estava bem doente, e fiquei sabendo logo que cheguei à redação do Diário Popular, onde trabalhava loucamente, cobrindo a editoria de Polícia. Soube da notícia e fui tomar o café, e esbarrei na amiga:

“Tô sabendo. Deu zebra com teu avô, né?”

Putz, foi uma das piores da minha vida.

Os amigos comentaram. “Que vacilo, heim?”. “Porra, Deu Zebra é de lascar!”.

Fiquei todo murcho, amuado, caçando uma pauta logo, para sair do jornal. É bem foda magoar uma amiga que adorava o avô. Pior era que minha amiga era vizinha de prédio, quando me encontrasse na padaria, iria virar o rosto contra “aquele troglodita do Samarone”.

No dia seguinte, minha amiga foi para a redação com uma camisa listrada de preto e branco. Me abraçou e disse:

“Vesti para você, que levou a morte do meu avô com tanta leveza. Aquele lance da zebra foi muito legal”.

Glub.

Natal e Réveillon é a mesma coisa. Eu digo “Feliz Natal” porque me desejam, e seria uma indelicadeza seguir calado. Mas não entendo direito o que está acontecendo na véspera, quando todo mundo corre feito louco e, no comércio do Recife, os trabalhadores passam oito horas por dia com aquele chapeuzinho do Papai Noel na cabeça, que é quente pra caramba.

Bom mesmo é quando a gente bota alguma moeda na caixinha, alguém grita “caixinha!” e todos os funcionários repetem algo ao mesmo tempo, quase um coral. Outro dia, o coral foi tão alto, que tomei um susto. 

As obsessões com a chegada da virada, do dia 31 dezembro para o dia 1 do mês seguinte, sempre me comoveram, porque não sinto absolutamente nada. Eu sou um convidado ridículo em qualquer Réveillon. Acho que é por isso que não me convidam. Minha conversa deve dar sono.

No dia 31 de dezembro de qualquer ano, desde que me entendo por gente, a última coisa que me preocupa é o dia seguinte. Não acho ele nada demais. Eu gosto mesmo é quando cai na semana, que dá para curtir mais. Dia primeiro de janeiro em pleno domingo deveria ser proibido.

Acho que é fruto dos anos de solidão na Casa do Estudante, onde eu vivia liso como um gambá. Sem parentes importantes e vindo de Fortaleza, o que me restava mesmo era dormir. Acordava com os fogos, virava para o lado e pensava “opas, chegou 1989″. Isso já faz tempo, já que cheguei ao Recife em 1987, aos 18 anos.

A hora da virada vai chegando, tem aquele frenesí, aquela expectativa todo, mungangas mil, milhões de fogos (fico sempre com pena dos gatos, quem cria os bichanos sabe como eles ficam pensando que estão numa guerra e sofrem de verdade).  Busco alguma emoção diferente, uma alegria revigorante, lista do que vou fazer, mas nada. Nem emoção diferente, nem alegria revigorante, nem lista do que vou fazer. Sequer a “Mega-Sena da Virada” eu jogo, porque sei que não vou ganhar. E se ganhasse, putz, que confusão dos diabos, amanhecer com R$ 200 milhões na conta. Eu compraria um carro novo para minha mãe, que insiste em dirigir aquele velho Fiat todo esculhambado, que quebra toda terça, quinta e sábado.

Geralmente eu curto mesmo é dar uma corridinha na manhã seguinte ao Réveillon, e tomar um bom banho de mar, me esgueirando pelas garrafas vazias, oferendas, copos e meio mundo de coisas que ficaram na areia, durante a madrugada.

De mensagem para esses eventos, sou péssimo. Se me mandam um “Feliz Natal” muito rebuscado, eu desejo o dobro para a outra pessoa. Um ano novo maravilhoso, cheio de conquistas, saúde, amizades, eu desejo o dobro e acrescento algo. Quando pinta uma inspiração, mando logo, para não esquecer.

De ontem para hoje me ocorreu desejar às pessoas que gosto, as que fazer parte da minha pequena constelação amorosa, apenas três coisas:

Vamos devagar, de mansinho e atentos.

Acho que assim, dá para encarar com mais calma as broncas todas, e desfrutar melhor das pequenas, médias e grandes alegrias – ou epifanias.

**

Ps. Estou procurando um lugar para abrir um sebo. Quem tiver alguma dica, agradeço. Uma casa agradável, para encher de livros e botar para vender. Mas tem que ser um espaço meio poético, bucólico, para fazer lançamentos, recitais, rodas de conversa, oficinas literárias etc. Já tenho até um gerente que entende de livros – eu mesmo. E milhares de livros para vender.

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Trata-se de não entregar os pontos

26 de dezembro de 2016, às 16:58h por Samarone Lima

Fazia tempo que eu não viajava, eu que não posso ver uma estrada, seja de terra batida, seja dentro de um ônibus ou qualquer coisa que se mova e me leve para outras paisagens, outras gentes, outras conversas.

E de novo, esbarrei em Minas Gerais. Cheguei por aqui a primeira vez em outubro de 1993, um projeto de gente a tentar se encaixar no mundo, com as garatujas de uma série de reportagens sobre o José Carlos da Mata Machado, militante político da AP, assassinado sob torturas no DOI-CODI do Recife. E aqui, o povo me empurrou para fazer um livro sobre ele. E cinco anos depois, em 1998, sabe-se lá como, o livro foi lançado. O meu queridíssimo “Zé”.

Mas rapaz, que invenção mais doida é essa, de publicar um livro com 29 anos, uma “reportagem biográfica?”

Deu tudo certo, uai. O livro caminhou por estradas as mais errantes, e justo no momento em que estou num trabalho braçal daqueles, cotejando entrevistas, revisando inúmeras passagens, ampliando relatos, cortando passagens ruins, apareceu um edital da UFMG e da Comissão da Verdade de Minas Gerais, para pesquisadores. E hoje vim para a última etapa, uma conversa com os professores, para saber o que andei fazendo, nesses últimos anos, e o que pretendo fazer.

E justo agora, posso ganhar uma bolsa de estudos para pesquisar mais sobre as brutalidades que foram feitas nesta longa noite obscura de nossa história recente. Justo agora que tem gente capaz de pedir “intervenção militar”, como se isso fosse um passeio num parque cheio de flores. Quando entraram, os milicos, era para tirar os comunistas, pare “restaurar a ordem”, essas coisas que repetem sempre, todas as ditaduras, que são todas iguais. Tomaram foi conta de tudo e só saíram em 1985 a muito custo.

Outro dia recebi uma penca de depoimentos que eu tinha feito, entre 1993 e 1998. Umas fitas que estavam guardadas, fora digitalizadas pelo meu amigo Marcus Galindo, na UFPE, e agora me chegaram transcritos. Fui ler. Há um depoimento de Carlucio Castanha, preso que estava no DOI-CODI do Recife, quando o Zé Carlos chegou, preso. É um relato terrível, da longa noite de agonia. Era assim que eliminavam os adversários. Massacrando.

E achei pouco reescrever o Zé por inteiro, incluindo tudo o que a Comissão da Verdade Dom Helder Câmara, de Pernambuco, vem conseguindo levantar sobre a Ação Popular e o assassinato de vários de seus líderes.

Estou agora a escrever uma peça teatral sobre o período. Vai ser uma coleção de pequenas histórias, de coisas que escutei e registrei, ao longo desses anos todos, e coisas que vão saindo também da minha invenção, das minhas andanças, dos meus encontros com este tempo, que é tão marcante na minha alma.

A mulher que relata a dor de chegar ao Recife, pela primeira vez, desde o assassinato do seu companheiro, e viver a “solidão absoluta, irreversível”, de não saber onde estão seus restos mortais. Estão em algum lugar desta cidade. Ao mesmo tempo, em nenhum lugar.

Ou a filha que nunca viu o seu pai, desaparecido, e faz um exercício para imaginar seus gestos, seu sorriso, o que teria herdado dele.

Ou a mulher de um advogado que foi preso pela ditadura, que tive a honra de entrevistar, há muitos anos. Outro dia ela me mandou um email, perguntando se eu ainda tinha a gravação, porque queria simplesmente escutar a voz dele, do seu amor, pois sentia saudades. Ou um filho de um ex-preso político que me encontrou e queria saber como era a voz do pai. Ou lembrar, já que conviveu tão pouco com ele.

Está bem difícil entender o que acontece com este país, neste exato instante. Está feio, careta, pobre, conservador,baixo astral.

Não entrego os pontos. Não vou entrar nesse baixo astral, nesse cinismo desvairado, nesse estado infame que estamos vivendo.

Vou escrever. E breve, duas atrizes estarão com esta peça em cartaz. Elas já concordaram. Quando querem nos fazer esquecer, precisamos lembrar do que fizeram. Vamos à luta. Trata-se de não entregar os pontos.

Se eu não escrever nada até sábado, desejo um ano bem bom e cheio de amigos e amores em 2016. 

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O céu nas mãos

13 de dezembro de 2016, às 13:18h por Samarone Lima

Esta é a melhor hora.

Apenas o sol começou seu trabalho
Há poucos homens
E tanto silêncio.

Como se o mundo ainda estivesse
Gestando o dia.

Estou só e tenho mãos firmes
Que escrevem seu destino
Como quem vai por uma floresta sem trilhas.

E nesta hora
As palavras são livres
Como pássaros que se dispersam.

E aqui, nesta mesa
O mistério e o poema se encontram
Após tantas tentativas.

O poema termina.
Ao final, o vazio completo
A taça servida.

É a hora de levantar os olhos
E ver o céu nas mãos.

Recife, 12 de dezembro de 2016, dia do aniversário de Emília Miranda.

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Ferreira Gullar: uma pequena homenagem

5 de dezembro de 2016, às 9:47h por Samarone Lima

ferreira gullar

Há mortes que se entrelaçam. É uma crença minha.

Ferreira Gullar, que morreu ontem (4), no Rio de Janeiro, aos 86 anos, tinha um grande amigo aqui no Recife, que também foi meu grande amigo, o inesquecível Arsênio Meira de Vasconcellos Júnior.

Em nossos muitos encontros, ao longo de cinco anos, Gullar fez parte das conversas. Certa vez, Arsênio mandou uns poemas meus ao velho poeta maranhense. Eram os originais de “A praça azul”, meu primeiro livro, que só foi publicado porque Arsênio foi o responsável pela seleção e organização e prefácio. Quebrando um protocolo dos dois, Arsênio me repassou a resposta, que guardo comigo com extremo carinho. Na verdade, uma honra. Sempre achei que teria a felicidade de um entardecer no Rio de Janeiro, tomando um café com Gullar e Arsênio, em Copacabana, onde o poeta morava. Não deu.

Arsênio morreu em 18 de outubro de 2015, aos 40 anos. Foi uma pancada. Eu e Inácio, amigos “literários”, por assim dizer, ficamos arrasados. Tenho uma foto de Arsênio aqui no meu mural, dando um sorriso bom, manso. Ele me faz falta mesmo, mas a vida é assim mesmo, cheia de mistérios, quebras e perdas, além de felicidades não acontecidas, mas que a gente realiza na imaginação mesmo.

Pois acho que desde domingo os dois se encontraram.

Esta é minha pequena homenagem à poesia, aos poetas e a quem ama a poesia sem escrever, como foi o caso de Arsênio, meu velho e bom amigo que jamais esqueço.

**

Estou tocando um projeto literário que se intitula, por enquanto “Biografias Poéticas”, onde faço uma homenagem aos poetas que são da minha legião estrangeira. Vai um trechinho da parte que cabe ao Ferreira Gullar. Mas ainda está incompleta (falta ampliar e revisar). Acho que até janeiro termino este projeto. Arsênio, por sinal, já tinha lido esta parte.

**

O poeta maranhense Ferreira Gullar

Passou dez meses clandestino

No Rio de Janeiro

Após o golpe militar de 1964.

 

Não era guerrilheiro, não conhecia armas

Era apenas mais um comunista na hora da caçada.

 

Sentia saudades das noites do Rio de Janeiro

Das conversas nos bares

Das manhãs de sol na praia

da cerveja gelada,

da casa

dos filhos, livros

da poesia

e do seu gatinho Camilo.

 

Fugiu para Moscou.

 

No Intituto Marxista-Leninista

Passou a ser chamado de Claudio.

Teve aulas de Revolução

Aprendeu a metodologia de “O Capital”

O materialismo dialético

O materialismo histórico

Mas nada daquilo o interessava.

 

No intervalo de uma das aulas

Deparou-se com dois olhos verdes, oblíquos

Uma mulher ruiva, com os cabelos presos à nuca

E um sorriso que o incendiou por dentro.

 

Elôina, era seu nome, soube depois.

 

Quando o viu, ela teve um susto.

“Meu Deus, que homem estranho é esse?”, pensou

(acreditava que Mefistófeles

Acabara de chegar a Moscou).

 

Uns amigos tinham avisado, dias antes

Que chegaria em breve

Poeta brasileiro.

 

Quando avistou aqueles olhos

Ela adivinhou

“Este é o poeta”

(mas achava que ele tinha a aparência

do diabo).

 

A primeira frase que ele disse, em russo

Foi “ótin craciva”

(que a achava muito linda)

E seu rosto perdeu a cor.

 

Se amaram loucamente

Certos de que haveria uma data

Para acabar.

 

No dia de ir embora

Ela pediu que ele prometesse

Que um dia voltaria.

 

Ele prometeu

E desceu as escadas de sua casa

na gelada Moscou

como um autômato.

 

Na rua, escutou o grito:

“Já começo a te esperar!”

 

Ele apressou o passo

Dentro da noite veloz

E logo escutou sues passos

(ela vinha correndo e se jogou em seus braços e passou a beijar sua boca, seus olhos, repetindo que o amava).

Depois ela disse

“Vai, vai embora!”

 

Ela ficou, ele apressou o passo.

“Estou cada vez mais longe dela”, pensava.

“Como pode? Estou caminhando deliberadamente

Na direção contrária à minha felicidade!”.

 

Na última curva da alameda

Ele olhou para trás e já não a viu.

Sabia que nunca mais a veria.

 

Na manhã seguinte, como um autômato

Estava em um avião, rumo à Itália.

 

Em Roma, na cama de uma pensão ordinária

O poeta tirou os sapatos

e ainda vestido

disse a si mesmo, numa explosão de lágrimas e soluços:

“Eu nunca mais vou vê-la”.

E repetiu o que o tempo tornaria verdade:

“Nunca mais”.

 

Ao acordar, de madrugada

Era um homem vazio, morto, conformado.

 

Quando retornou ao Brasil, anos depois

Os amigos o aguardavam em festa.

Entre os tantos abraços, soluços

Perdeu a bolsa de viagem.

 

Entre outras coisas

Estava o único retrato de Elôina.

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