Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Notas de uma tarde de maio

9 de maio de 2012, às 16:37h por Samarone Lima

Estou em casa desde as 14h. Aqui no quarto, o silêncio é total. Meu escritório, no fundo do amplo apartamento, tem uma pequena salinha, que tem uma janela. Posso ver, à esquerda, o mar. Antes, o enorme e feio prédio do Tribunal Regional Federal, onde trabalham vários amigos da pelada da quarta-feira. Ao seu lado, a Torre Malakoff. A luz que entra no quarto não é muita, porque ao lado tem outro prédio e mais à frente, outro. Mas no intervalo entre eles, posso ver o mar. A luminária do lado direito é regulável, tenho o misterioso direito de colocar a luz onde quero. A mesa onde escrevo, como sempre, está cheia de papéis, livros, encadernações, carimbos, canetas, lápis, cadernetas. Sou da civilização do papel. Preciso pegar, riscar, recortar, rasgar, colar.

No chão, me rodeando, como animais de estimação, pastas, cadernos com recortes, jornais amontoados, que prometo sempre arrumar, mas eles, como os animais, se multiplicam. No mural, em frente à mesa, fotos, anotações, a medalha que ganhei por ter concluído em tempo razoável a Corrida das Pontes, cópia do exame do coração, feito em janeiro, onde o Dr Edmilson descobriu um pequeno sopro, nada grave. A cadeira onde estou é confortável, a mesa é de madeira antiga, que Luzilá me emprestou desde a época em que morei no Poço da Panela, espero que não lembre tão cedo.

Então acontece isso. Uma paz imensa me assalta. Sei que não produzo um objeto sequer para o país, no dia de hoje. Não ajudo a ninguém com meu trabalho. Até o anoitecer, não trocarei um esparadrapo, o pneu de um carro, não jogarei uma semente na terra, para que um dia vire fruto. O PIB do país, com ou sem mim, será o mesmo. Talvez até menor, porque estou gastando a energia do ventilador, da luminária, o gás que usei há pouco para um chá. O máximo de contribuição para a humanidade, do ponto de vista prático, será botar a ração de Azeitona, nossa gata, que mais tarde miará pedindo algo. Alimentar um animal querido é, sim, uma contribuição para a humanidade, pelo menos a minha.

Leio, tomo notas, penso, escrevo. Então, um sentimento estranho e já conhecido me assalta. É um maravilhamento, uma alegria, uma pequena embriaguez, ou pequeno êxtase, ou talvez nem tenha nome. É a constatação de que estou fazendo exatamente o que quero fazer. Uma conquista íntima, fruto de anos de trabalho. Ficar em casa, numa tarde de maio, neste mundo que criei para mim, que alimento, que me completa. Algumas horas de aboluto desligamento do mundo, suas obrigações, petições, tantos combates desnecessários.

Cá estou, solitário, em silêncio. Tudo o que produzo agora é o ruído mínimo da caneta no papel. Depois, o barulho do teclado no computador. Espero sair desta tarde com fazia o Cabral, ao final de um poema – com as mãos lavadas. Ou com um silêncio limpo, como dizia o Bandeira.

Ou nem sair dela, porque daqui a pouco chega a noite, uma chuva, quem sabe uma primavera, e cá ainda estarei, neste Quilombo, no centro do Recife, vivendo a vida que me foi possível, a que me dei.

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Um ano de livros

3 de maio de 2012, às 16:18h por Samarone Lima

Sábado que vem (5 de maio), comemoraremos a festa de um ano da Biblioteca Comunitária do Poço da Panela. Vamos fazer festa a partir das 9h, entrando pela tarde.

Vários poetas, contadores de histórias, um grupo de palhaças, cordelistas, vão participar. Vai ser um grande sarau, uma festa generosa. Ao final, o bingo de duas bibicletas, para mantermos as contas em dia e um forrozinho, que ninguém é de ferro.

Todos estão convidados, especialmente os que ajudaram ao longo do ano primeiro ano de vida.

Para chegar lá, é só ir até a igreja do Poço da Panela e perguntar onde fica a biblioteca. Todo mundo sabe, especialmente Seu Vital, o dono da venda mais famosa do local.

Inté.

Ps. Hoje completo meus 43 anos. É bom pacas estar vivo.

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Entre os poetas

26 de abril de 2012, às 11:21h por Samarone Lima

Antes de viajar para o Sertão de Pernambuco, no início da semana, esbarrei com o poeta Pedro Américo. Estava, eu, ao lado do poeta do violão, Zoca Madureira. Quando soube que depois de Quixaba e Princesa, dormiríamos em São José do Egito, Pedro lembrou que a cidade era terra de poetas. Na verdade, toda a região do Alto do Pajeú é repleta de poetas e cantadores.

“É uma coisa antropológica. Um nicho de poetas. Já crescem escutando, pensando poeticamente. A poesia brota nos mínimos detalhes, em todo canto”, disse Pedro.

Não sei se foi exatamente isso o que escrevi, mas a frase ficou na medida para dizer o que ele me disse, ou o que entendi ele dizer, ou o que penso que ele quis dizer.

No caminho, fiquei pensando. Mas será que é assim mesmo. É uma interrogação, mas não sei onde está o ponto de interrogação neste computador emprestado. Será que tem mesmo tanta poesia, nesse mundo tao apressado.

Ontem chegamos a São José do Egito, com direito a ônibus quebrado na saída de Tabira, ao lado de uma casa de moças de serviços mais maliciosos, frequentadíssimo ao meio dia. Nos hospedamos no hotel “Louro do Pajeú”, homenagem ao grande poeta Lourival Batista. Tem fotos dele aqui no primeiro andar, versos emoldurados para a gente ler enquanto toma o café da manhã. Nas ruas, tem versos dele pintado nas paredes.

À noitinha, fui reconhecer o terreno. Não por acaso, cheguei ao Bar de Dona Mocinha, numa esquina, com as paredes descascadinhas e balcão de madeira, a la Seu Vital, do Poço da Panela. Entrei. Estava com uma camisa do Santa Cruz, modelo dos anos 1970. Um sujeito no balcão fez um alarde, me abraçou, disse que era tricolor de copro e alma (e também de copo e alma), perguntou quem tinha usado a camisa, se Givanildo ou Nunes.

Para não quebrar o encanto, disse que fora presente do meu pai, quando completei cinco anos.

“Ganhou das mãos de Givanildo”, disse eu.

Uma parte é verdade, porque sou de 1969, com sete anos, se não estivesse morando em Imperatriz, no Maranhão, estaria vendo o supertime de 1974. Mas como um homem de 42 anos pode estar vestindo uma camisa que ganhou ainda menino, e que está quase nova, perguntaria algum chato, mas o tricolor ao meu lado estava mais voltado para o lirismo e a poesia da camisa, do que para datas, tamanho de camisa ou coisas do tipo.

Havia outro homem, bebericando às escondidas, porque trabalha como segurança. Já tinha largado do serviço, mas como estava com a farda da empresa, achava que não cabia bem. Esses cuidados das almas mais simples. O pequeno cuidado. Um homem prudente e de sorriso franco.

Dentro do balcão, um homem de uns 73 anos, de fala meio arrastada, filho de Dona Mocinha. Perguntei o que tinha para beber. O tricolor do meu lado bebia algo escuro num copo americano. Era um vinho com gengibre, topei na hora. Gelado, desceu bem.

A conversa mal começou, e os homens já estavam falando de poesia. Sabiam versos decorados. O segurança, em especial, sabia muitos versos líricos, de amor, de paixão. O que não sabia, estava anotado em folhas, dobradas cuidadosamente no bolso (julgo que para ler enquanto as horas demoravam a passar, no trabalho).

Lá pelas tantas, Boy pegou seu celular e me entregou.

“Escute que beleza, esses versos”.

Eram gravações de violeiros cantando motes e glosas. Uma cantoria era sobre Lampião. Na outra, um violeiro defendia as vantagens de ser casado, outro dizia as loas e boas de ser solteiro. O celular dele estava cheio de gravações.

“Teu celular tem blutuf”, perguntou o Lírico da Cachaça. “Se tiver, a gente passa agorinha para teu aparelho o que tu escolher pra tu escutar na viagem de volta”.

Dei meu celular. Ele começou a cutucar. Chamou um moto-taxista, que cutucou mais ainda. Enquanto isso, Boy encheu de novo meu copo. O tricolor ao meu lado falava pelos cotovelos sobre a poesia da região. Olhei para as parede, as prateleiras de madeira. Este lugar, pelos meus cálculos, deve ser o mesmo há pelo menos uns 100 anos, já que Boy o herdou da mãe. Não por acaso, foi o primeiro bar que entrei em São José do Egito, e para o qual pretendo voltar sempre.

Fiquei neste deslumbramento até umas nove da noite. Comprei uma garrafa do vinho com gengibre para beber com meus amigos, na volta para o Recife.

No caminho para o hotel, chutando minhas pedrinhas, tive a certeza mais profunda que Pedro Américo estava certíssimo. Estou numa terra de poetas. Vou botar no meu evangelho uma bendição:

“Bendito sois vós, entre os poetas”.

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Hay cosas que ajudan a vivir

19 de abril de 2012, às 11:52h por Samarone Lima

Não pretendo morrer sem ver, fazer, experimentar, aprender, sentir e viver algumas coisas. Como está na moda as 100 coisa para fazer antes de morrer, levantei algumas minhas, sem ordem de preferência.

Ver espetáculo do Fito Paez, de preferência em Buenos Aires. “Yo no buscaba a nadie y te vi”, que é a música “Un vestido y una flor”, eu cantaria a plenos pulmões.

Também gostaria muito de ver um jogo da Copa do Mundo.

Se não for muito, ver o Santa Bicampeão no Arruda. De preferência, em 2012.

Ler toda a obra de Clarice Lispector. Reler pela terceira vez todo o “Quarteto de Alexandria”.

Ver os poemas de Flávia Suassuna publicados.

Publicar o livro “O turbante da Naire”, com suas melhores crônicas. O prefácio seria do filho dela, o Magro Valadares.

Ter um filho. Minto. Dois ou três. Birigui, Nunes e Santa, os nomes.

Conhecer o México e a Índia.

Publicar um livro meu em espanhol.

Aprender a baixar filmes e documentários na Internet, além de entrevistas com meus escritores prediletos, como faz o meu cunhado Pedoca.

Fazer três gols na pelada deste ano, que cai no dia 3 de maio.

Conhecer o Nepal. Caminhar dias inteiros sem rumo por ali.

Conhecer pessoalmente o grande poeta argentino Juan Guelman.

Voltar a Cuba, por outros caminhos.

Comprar a casa (que é alugada) onde funciona a Biblioteca Comunitária do Poço da Panela, para não correr o risco de um dia termos que fechá-la.

Viver numa cidade cheia de bibliotecas e com um prefeito menos obtuso, mais inteligente e criativo (vivo no Recife).

Experimentar todas as cervejas da Alemanha.

Viajar novamente com o velho amigo Gustavo, o “Jacaré”, como já fizemos tantas vezes na vida.

Sentir, em algum momento, que meu irmão distante me perdoou.

Conhecer o Ferreira Gullar.

Conhecer Birigui.

Nunca ter dengue de novo.

Assistir um jogo de futebol com meu irmão, o Tonho.

Escrever a biografia do meu avô.

Essas coisas que ajudam a viver…

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Confissão de um torcedor que se acovardou

16 de abril de 2012, às 11:04h por Samarone Lima

No domingo, o Santa  Cruz perdeu de 2 x 1 na Ilha do Retiro. Para mim, foi uma derrota dentro de campo e outra fora. A derrota dentro do campo foi do meu time, ajudado por duas saídas bisonhas do nosso arqueiro. A derrota fora de campo foi minha, a de torcedor, apaixonado por ver jogo do meu clube ao vivo, dentro de qualquer estádio.

Desde pequeno, em diferentes estados do País, meu pai me levava a jogos, ao lado do meu irmão, tonho. Quando viajo, para qualquer lugar do Brasil ou do exterior, vejo nos cadernos esportivos a tabela, para saber se tem jogo marcado. Sou viciado no Santa Cruz e em estádios.

Aqui vai a confissão: não fui ao jogo de ontem por medo. Me acovardei mesmo.

Sei que vão aparecer os engraçadinhos, os machões, os robustos, para dizer “ah, tás com medinho de ir para a Ilha, é?”

Pois é. Até o final da manhã estava me organizando para ir. Liguei para vários amigos corais. Ninguém queria ir. O argumento era o mesmo. Muita violência, poucos espaços para escapar, rixa das organizadas. Só Naná e Oswaldo Titio confirmaram, mas já tinham tomado várias. Minha esposa pediu para que eu não fosse. Conversei comigo mesmo, como diz Seu Vital e acabei não indo ao estádio. Assisti em casa, sozinho e contrariado, tomando umas.

Hoje de manhã, vi as cenas na TV. Brigas, correria, tiros, confusão, espancamentos. Um torcedor coral morreu atropelado. Dizem que estava tentando escapar da brutalidade de uma das torcidas organizadas.

Pelos jalecos e padrões, as ditas “organizadas” mandaram ver. Daqui a um bom tempo, vai acontecer a maior de todas as inversões de valores – somente irão aos clássicos as torcidas uniformizadas. Nós, os torcedores de todas as classes, que vão olhar o espetáculo e torcer, com a mulher, filhos, amigos, ficaremos de fora. Seremos barrados. Na verdade, já estamos sendo barrados.

Não me arrependo de não ter ido. Mesmo que o Santa tivesse ganho o jogo. Respeitei meus limites. Tenho 42 anos, quero viver muitos anos ainda, tenho sonhos, projetos, tenho muito o que fazer, para correr o risco de levar uma pedrada, ser espancado, agredido, ganhar uma bala perdida, só porque estou com uma camisa do Santa Cruz.

Lamento muito isso tudo, mas algo terá que mudar, urgentemente.

Estou aqui, escrevendo algumas linhas sobre minha derrota como amante do futebol, mas sem hematoma algum pelo corpo.

O rapaz que morreu atropelado tinha 19 anos. A vida inteira pela frente acabou num domingo de futebol.

**

Ps. O lado positivo do dia foi o belíssimo movimento de ocupação do Cais José Estelita, ação coletiva que vai ganhando cada vez mais força. Fui lá, ontem à tarde. Criatividade, mobilização e gente na rua, ocupando os espaços da cidade. Tudo na paz e na beleza. De dar gosto.

O prefeito João da Costa foi rápido na resposta ao movimento da sociedade. Disse no Jornal do Commercio de hoje que dá apoio total ao projeto e cita os milhões de investimentos. De dar desgosto.

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