Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Olindezas

17 de setembro de 2017, às 20:05h por Samarone Lima
Isabelitta cuidando das minhas leituras.

Isabelitta cuidando das minhas leituras.

No dia 12, completei seis meses como morador de Olinda. Hoje, enquanto faço essas anotações, a cidade ferve, com maracatus e frevos se espalhando pelas ruas, especialmente no Carmo e imediações. Aqui, na rua 13 de Maio, onde moro, o silêncio quase absoluto só foi interrompido pelo velho e bom John Coltrane. De vez em quando, boto o “mute”, ele deixa de tocar seu saxofone e fico desfrutando do silêncio, este amado amigo de tantos anos.

De minha parte, só vou sair daqui mesmo se me obrigarem. E só saio para morar em Montevidéo. Olhei agora de novo o contrato, esfreguei bem os olhos e está lá a data de vencimento: 15 de setembro de 2019. Como tenho sido um bom inquilino (e a dona da casa é tão tricolor, que o sobrenome é Arruda), creio que a estadia vai prosseguir.

Mas vamos ao momento presente, à vida presente – aqui estou tocando minha vida, tocando “Meu Sebo, Minha Vida”, escrevendo bastante e aprendendo a viver numa cidade cheia de mistérios e surpresas.

Uma das muitas surpresas boas foi a chegada de Isabelitta, a gatinha que eu sempre cumprimentava, quando passava na esquina aqui perto. Ela se derretia com meus carinhos, depois passou a se aproximar e um dia entrou de vez, para nunca mais sair. Foi amor às primeiras patas. Ela foi ficando, ficando, até que tivemos uma conversa franca, vi que ela queria se mudar em definitivo, então comprei ração e botei água. Ela tem se especializado em participar de todos os eventos da casa. Em peças, entra na cena e se instala. Nos lançamentos de livro, pode ser vista em cima da mesa onde está o autor, discutindo sobre sua obra. Na foto que separei para esta postagem, ela se debruçou na obra de Antonin Artaud. E ela gosta de vir deitar na minha barriga, quando estou à rede. Ela é demais mesmo.

Nos três meses iniciais, tive que fazer um intensivão para que minha janela não virasse um ponto de oferta de produtos os mais diversos, pedidos os mais variados, fora os camaradas que tiram fruta-pão dos quintais olindenses (aqui tem dois pés enormes).

Bastou comprar um berimbau de um sujeito (estava bem bonito, e ele pediu R$ 20,00 – comprei mais porque tinha vendido uns livros, e queria dar uma força). Nos dias seguintes, o sujeito apareceu com obra de arte, uns quadros meia-sola, até que chegou oferecendo um videocassete, então chamei ele na grande, expliquei que estava liso e não queria comprar nada. Ele tentou ainda outras vezes, mas quando é para ser chato, eu capricho.

Os dois sujeitos que foram aprovados para tirar fruta-pão acabaram depois barrados. O primeiro, um sujeito parrudo, incapaz de esboçar um sorriso até num descuido, tirou umas duas sacas de fruta-pão, depois veio com o filho e o tratava quase a pauladas. Queria vir quase toda semana. Não gosto de gente que é bruto com os outros. Abri a vaga com um sujeito mais velho, humilde, que vinha com dois filhos.

Era o contrário. O filho tinha ódio de alguma coisa e transferiu para mim. Entrava com o pai, queria passar a manhã inteira rapando o pé inteiro, tirando até os fruta que estavam verdes. Um dia o pai chegou com ele, eu disse que não podia, porque tinha que sair, escutei quando ele ficou me esculhambando, junto ao pai.

Depois desses breves problemas, a época do futa-pão acabou e acabou sendo bom pra mim. Além disso, eles, por mais brutos que sejam, têm que subir numa altura imensa, eu fico preocupado com algum acidente.

Mas já fiz a minha base. Já tem o mercadinho da minha preferência, no Largo do Amparo. Lá tem também a ração que Isabelitta gosta, a “Max Cat”. Não sei o motivo, mas toda ração acha que nossos amados animais falam inglês. Ao lado, tem um restaurante com uma sopa que se garante, bem quente. No caminho entre o Amparo e a minha casa, tem uma vendinha improvisada, numa casa, que você pode comprar até 22h, basta apenas tocar uma campainha.

Quando estou melhor de grana, vou comprar o pão integral na Chiviteria, da amiga Chivi, na rua de São Bento. Tem meio mundo de coisas deliciosas que ela faz. Na Gráfica Rápida do Varadouro, imprimo as minhas coisas para fazer as correções, porque só consigo ler coisas de verdade se elas estiverem no papel. Mas papel de verdade, daqueles que a gente pega e sente o papel, e risca em cima de trechos ruins, corta poemas ruins, depois encaderna, leva pra todo canto etc. O dono se chama Galego. Perto de Galego tem um restaurante com almoço a R$ 10,00 – generosamente servido. Ao lado do restaurante, tem a barbearia do seu Lula, onde cortei os cabelos há uns quatro meses, mas o negócio foi tão brutal, que ele cortou o próprio dedo.

Mas o que me encanta mesmo, além da cidade, é a beleza do povo de Olinda. Há uma forte presença negra, uma alegria diferente, que é daqui. Um riso mais aberto, mais livre, eu não sei o que é direito – e essas coisas a gente não precisa entender mesmo, só sentir. Muitas vezes fico com uma mesinha na parte inicial da casa, escuto as pessoas passarem conversando. É cada diálogo incrível. É meio difícil não encontrar inspiração por aqui. Tenho escrito menos no Estuário porque é um trabalho danado, mantes a Casa Azul organizada e limpa para os eventos.

Outro dia, um corretor de imóveis veio falar comigo. Era para “alugar no Carnaval”. Contou as vantagens, as loas e boas, que eu iria ganhar tanto, e eu só olhando. Falou uma meia hora e eu pensando comigo – mas rapaz, eu passei a vida toda vindo para Olinda como visitante, para alguns jantares na Creperia ou cervas ocasionais, no Carnaval era sempre aquele sujeito a mais que entupia as ruas da cidade com sua imensa cabeleira, e agora que estou morando na cidade, que vou poder passar um Carnaval aqui, como morador, eu vou simplesmente sair e deixar uma galera ficar aqui?

E meus livros, e o cuidado que estou tendo com a casa? E o jardim, que estou começando a plantar no quintal? E Isabelitta? Pra onde vai tudo isso?

Deixei ele falar, falar, falar. Já passei por tanto aperto na vida, nunca me movi por essa gana por grana, perdão pelo trocadilho infame, vou é ficar por aqui mesmo, para ver a loucura passar pela rua. Como sei que até dezembro a conversa vai ser a mesma, acho que vou botar uma placa logo – “Não aluga-se esta casa para o Carnaval”.

Outro dia lembrei de dois detalhes interessantes. Um dos meus primeiros trabalhos como estagiário foi no jornal “O Farol”, aqui de Olinda. Fiz algumas matérias, creio. E quando voltei de São Paulo, em 2000, após seis anos, cheguei a apalavrar uma casa em Olinda, não lembro direito onde. Mas a dona farrapou e acabei indo morar no Poço da Panela, que foi uma coisa maravilhosa.

Então, 17 anos depois, eu cheguei. Eu sou assim mesmo, sem pressa com as coisas. Meu objetivo na vida é ir cada vez mais devagar (apesar de gostar de correr, de manhã). Estou chegando mansamente, amorosamente.

Como nas sextas-feiras à noite temos tido recitais de poesia aqui no Sebo, tomei uma decisão meio ousada – na próxima vou fazer uma leitura dos originais do meu novo livro de poesias. Mas eu não sou homem de recitais. Só sei ler meus poemas, e às vezes me engasgo, quando me emociono. Vamos ver no que vai dar essa leitura.

Eu tinha outra coisa para escrever, mas esqueci agora. Fica para outra crônica.

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No instante em que se vive (texto que não termina nunca…)

13 de agosto de 2017, às 8:21h por Samarone Lima

Largo do Varadouro,  Olinda, domingo à tarde

Venho do Recife, fui ver umas coisas da Biblioteca Comunitária do Poço da Panela, com Gerrá. Desço na parada antes do Varadouro, onde tem um bom galeto assado na brasa, aos sábados, domingos e feriados. Custa R$ 12,00 e ainda dá direito a um saquinho com farofa.

Chega um sujeito malamanhado, sem camisa, a dona do negócio desenrola pra ele duas toscanas assadas. Ele puxa um pão sabe-se lá de onde, aperta aquelas maioneses de saquinho e começa a comer com avidez. A filha da mulher (acho que é a filha) pergunta se ele andou “se metendo em treta”. Creio que já se conhecem de outras estradas.

“Matei um cara ontem”, diz ele, enquanto mastiga. “Só me liberaram para comer, porque minha família está na Delegacia”.

A delegacia fica a trinta metros de onde estamos.

“Tu vai descer?”, segue a moça.

Descer é sair direto para o presídio, especialmente o Cotel.

“Tão vendo lá”.

“Tu já tem passagem?”

“Eu já tenho uma queda lá”.

“Qual foi a bronca com o cara”?”, pergunto, enquanto a mulher corta meu galeto.

“Um safado. Aquilo era um safado. Merecia”.

Estava com a mão direita ralada. Tentou fugir, quando a polícia chegou.

“Livrasse o flagrante?”, sigo.

“Sei não”.

“Olha seu galeto, bênção”, diz a mulher.

Pago, ele limpa a boca e volta para a delegacia.

**

Largo da Encruzilhada, Recife, 16h30.

Espero o Rio Doce/Dois Irmãos ou Rio Doce/CDU, para voltar a Olinda. O horário é meu limite. A partir das 17h, os ônibus só passam lotados. A parada de ônibus, de tão precária, fica sendo na avenida mesmo. Há muitos velhos esperando.

Um deles, com uma sacolinha de supermercado, está impaciente, irritado. Seu ônibus não passa. Ele então solta um desabafo irritado:

“Tenho nojo do Brasil. Nojo!”

Silêncio geral.

“Tenho nojo deste País! Se eu pudesse, me mudava pra qualquer lugar, mas não tenho dinheiro. Tenho é nojo!”.

O silêncio é profundo. Era algo visceral.

Meu ônibus aparece e não sei como seu desabafo terminou.

**

Ônibus Rio Doce/CDU, rumo a Olinda. Noitinha.

Uma mulher gorda, de voz potente e conversadeira, conta à amiga como foi a morte do marido, num acidente de moto, uma curva malfeita, a queda num descampado. O ônibus todo acompanhava, tal era a riqueza de detalhes.

Viúva, ela passou por inúmeras dificuldades, porque não tinha nada assinado com ele, com quem viveu um ano.

“Nessa hora, o que faz falta um papel com uma assinatura… No começo foi difícil. Qualquer barulho na porta, eu achava que era ele voltando pra casa. Isso é o psicológico da pessoa, que fica imaginando. Eu sentia o cheiro dele dentro de casa. O psicológico da pessoa é muito forte”.

Voltou a falar do acidente.

“Eu vivia dizendo pra ele ter cuidado com aquela moto, mas ele era daquele jeito dele. Eu sei que tem aquele velho ditado, que todo mundo tem o seu dia, mas as pessoas, às vezes, apressam a morte”.

**

Onibus Rio Doce/Dois Irmãos, voltando para Olinda, umas 22h.

Sento ao lado de uma senhora. Deve ter uns 55 para 60 anos, tem uma roupa simples, florida, uma leve olhada para seu rosto revela um profundo cansaço, uma quase exaustão, como grande parte das pessoas que trabalham o dia inteiro e dependem de transporte coletivo.

Ela cochila, mas acorda ao toque do celular. Alguém fala sobre sair para algum lugar, pelo que percebi, e também é sexta-feira.

“Ah, minha filha, a gente não tem mais esse negócio de dinheiro para sair não. Esse negócio de passear é coisa do passado. Não é para a gente não, é pra quem pode”.

Ela escuta a pessoa falar, possivelmente insistindo,

“Não dá pra gente. Sem dinheiro, a gente vai pra onde, Adelaide?”

**

Rua 13 de maio, 121, defronte à minha janela.

Tuite, um camarada que passa o dia andando pelas ruas de Olinda e falando sozinho, veio aqui à janela e pediu uma camisa. Ele fala assim, direto:

“Ei, me arranja uma camisa!”

Eu já vinha separando umas roupas para doar, peguei uma preta que é bem legal e protege no frio.

Ele agradeceu e no dia seguinte vi que estava usando.

Ontem de manhã bateu palma.

“Tem alguma comida?”

“Rapaz, por enquanto só tem fruta”.

“Ôx, fosse ao menos uma fava com um guisado”, respondeu, e foi embora, visivelmente contrariado.

**

Ônibus Alto Santa Isabel, vindo do Poço da Panela para a “cidade”, como se diz popularmente.

“Mas também, minha filha, só podia estar com depressão mesmo”, diz a cobradora, com uma amiga, que está ao lado da borboleta. Sei que o nome é catraca, mas borboleta é mais poético.

“A pessoa ser assaltada oito vezes nessa cadeirinha aqui, não é fácil não”.

“Oito?”

“Ou foi oito ou foi nove. Tá em casa, com depressão, a coitada”.

“É lasca…”

“O pior é que todo assalto levavam o celular dela. Celular eu sei que foram oito”.

“Misericórdia…”

**

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Os corpos dos que sofrem são os que mais incomodam

26 de julho de 2017, às 1:20h por Samarone Lima

Sou jornalista e escritor, agora vivendo em Olinda, depois de uma longa temporada no Recife, primeiro no Poço da Panela, depois na rua da Aurora. Sempre andei de ônibus, a pé e eventualmente de táxi. Tive um Fusca 68, mas depois da primeira e única batida num Honda Civic, vendi o que sobrou do meu azulzinho e voltei a ser como a maior parte dos habitantes das grandes cidades brasileiras – um usuário do transporte público ou das calçadas públicas.

Ou seja, todos os dias pego ônibus, saindo de Olinda para algum canto do Recife. Conheço quase como um camundongo as rotas dos ônibus, as conexões, os melhores horários de não pegar ônibus, os melhores lugares para descer. Sei que camundongo não pega ônibus, mas ele sabe se mover em qualquer canto. E a palavra camundongo é bem simpática.

Todos os dias, a humilhação desfila generosa nas paradas de ônibus feitas por algum engenheiro com cérebro de camundongo. Quando chove, todos se molham. Quando faz sol, a sombra fica do lado de fora do abrigo. O material é feito de ferro. Nas horas de calor, não tente sentar.

É comum (e natural) que às 7h da manhã você tenha que enfrentar um ônibus que saiu da garagem imundo. Ou com um barulho horrível, cada vez que o motorista pisa no freio – e isso vai acompanhar todos os usuários durante a viagem, e o motorista e cobrador, durante todas as viagens que fizerem.

Os idosos, como não pagam mais a passagem, ficam empoleirados na parte da frente do ônibus, antes da catraca, onde estão seis cadeiras. Alguns motoristas aceitam que o idoso mostre a carteirinha e entre pela porta traseira, para não aumentar aquele aglomerado na entrada. Outros motoristas sequer olham para eles.

Nessas horas, dá para ver duas coisas – como o Brasil está com uma população visivelmente mais velha, e como eles são maltratados pelo simples fatos de terem o direito a não pagar passagem.

Não, eles não recebem um cartão para passar na roleta e se acomodar onde quiser, como o restante dos passageiros. Eles entram, mostram a identidade e ficam confinados ali na frente. Por ali entram, por ali saem. Muitos têm problemas para subir os degraus, que parecem ter sido feitos para atletas olímpicos. Já é comum um idoso dar uma das cadeiras disponíveis para outro idoso com mais problema de saúde.

Nos últimos meses, as empresas do Consórcio Grande Recife inovaram. No lugar de seis cadeiras, os ônibus agora têm apenas três cadeiras para os idosos. É um escândalo. Algum promotor poderia se interessar por isso, mas transporte coletivo não interessa a ninguém – só a governos e donos de empresa – e à Imprensa, quando tem greve, para mostrar o “sofrimento do trabalhador”.

Eu tenho uma teoria que deve ter dono, mas eu não sei quem é – maltrate um povo, humilhe ele diariamente, obrigue-o a esperar no sol ou na chuva para conseguir entrar num ônibus sujo, barulhento, caro e quente, faça isso todos os dias, durante meses, anos – que este povo, aos poucos, vai sendo dominado e vai se acostumar a sofrer calado.

Ele não terá mais força para lutar por nada, sequer para reclamar. Seu sonho diário é apenas um: chegar no trabalho no horário de bater o cartão, e chegar em casa após as oito horas de luta.

Não queira estar dentro de um coletivo caso surja alguma manifestação nas ruas. Logo surgirão frases como “isso não dá em nada”, “lá vem essa merda de protesto de novo”.

Uma viagem simples, aqui do Carmo, na parte histórica de Olinda, até o Derby, um ponto central de cruzamento de ônibus de todo o Recife, custa, em média, R$ 4,40, valor do passe B. A distância é de 7,6 km.

Ser dono de empresa de transporte coletivo, nas grandes metrópoles, é um negócio milionário, envolve milhões de pessoas todos os meses, mas é uma terra de ninguém.

Ninguém sabe o nome dos donos das empresas, nem seus vínculos políticos. Nunca vi um fiscal do Estado dentro de um ônibus, tomando nota da quantidade de lâmpadas queimadas, registrando os ônibus que circulam lotados, na semiescuridão, sujos, velhos. Um motorista pode queimar vinte paradas durante o dia, que não acontece nada, a não ser nossos tradicionais muxoxos ou comentários irritados com o vizinho. Ou a reles indiferença, que é soberana.

Outro dia,os motoristas paralisaram quase toda a fronta de ônibus da Região Metropolitana para conseguir um aumento. Foram três dias de caos, confusão, mais sofrimento, até porque estava chovendo muito. Os motoristas conseguiram 6% de aumento.

Qualquer dia desse, vai ter uma reunião do Consórcio Grande Recife para discutir o aumento das passagens. Ela vai aumentar de novo, mas a frota vai continuar velha e suja e quente.

Quem decide, não anda de ônibus. Se for idoso, quem decide deve ter no seu carro aquela autorização para garantir sua vaga em qualquer estacionamento. Não vai importunar ninguém com seu corpo. Um carro não incomoda tanto quanto um corpo dentro de um ônibus, na área destinada aos idosos.

Os corpos dos que sofrem são os que mais incomodam.

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Anotações de um dono de sebo em Olinda

11 de julho de 2017, às 9:13h por Samarone Lima

Acordo sempre muito cedo, a primeira coisa que faço é abrir as duas grandes janelas e as janelinhas da porta, para entrar sol e aquecer um pouco os livro, já que as duas primeiras salas da casa são destinadas ao sebo Casa Azul.

Mas a impressão que tenho, desde que cheguei, é que estou em Macondo, não lembro direito se é a cidade inventada por Gabriel Garcia Márquez, onde começou a chover e não parou mais. O fato é que acordo, está chovendo. Quando dá uma trégua, boto as roupas para pegar sol, volta a chover. Saio de casa, está chovendo.Volto, está chovendo. Enquanto escrevo esta crônica, chove. Quando não está chovendo, o céu está carregado.

Os moradores de Olinda é que são safos. Em qualquer comentário nas ruas sobre o possível “excesso” de chuvas, a frase que mais escuto resume tudo:

“É o tempo dela”.

Quanta simplicidade e sabedoria em apenas uma frase.

Como é um sebo e as janelas estão sempre abertas e tem uma placa dizendo “para entrar, bata palmas – se eu não aparecer, é porque não estou”, aparece todo tipo de gente.

Nos primeiros dias aqui (amanhã completo quatro meses), houve uma batalha em torno dos dois pés de Fruta-Pão que tem aqui no quintal. Como são vendidos nas feiras por valores entre R$ 3,00 e R$ 5,00 e os pés estão carregados, entrar aqui no quintal com um ajudante (geralmente o filho), sair com 40 unidades (não sei como se escreve Fruta-Pão no plural) em uma manhã deve dar um bom dinheiro.

A coisa complicou porque todo dia aparecia um candidato a ser o “coletor-mor”. Deixei um senhor entrar, mas teve uma hora que eu estava aqui no quarto, escrevendo, olhei para o pé, o homem estava no cocoruto da árvore, uma altura que me deu calafrios, sem proteção alguma, só com uma vara e uma faquinha, enquanto o filho ficava com um saco, aparando a bolinha verde, para não machucar.

Como faço estudos sistemáticos de engenharia, sei que um andar tem, em média, três metros. Ele, o homem, estava a uns seis, sete andares de altura. Bastaria um movimento em falso e estaria estatelado aqui no quintal. Só sosseguei mesmo quando ele desceu.

Tentei dar uma chace a outro senhor, mas foi como abrir concorrência para um cavalo batizado. Um homem rude, que trouxe o filho adolescente para ajudar. Acho que só não trouxe um chicote para ficar açoitando o menino porque percebeu que eu não deixaria. Rapou o pé, depois foi grosseiro comigo e acabou demitido. Vou ficar com o primeiro. Dá pena ver os frutos caírem no quintal, sabendo que pode dar uma renda para alguém, e que é um alimento.

É normal passar, todos os dias, um sujeito que não sei o nome ainda, mas o apelidei de “Tuita”. No meu tempo, era aquele auto-falante dos sons. Negro, estatura de media para alta, cara de gente boníssima, anda mais de bermuda e passa o dia caminhando por Olinda, falando sozinho.

Tuita tem assunto pacas. Às vezes estou na sala da frente, arrumando preços dos livros, ele encosta na janela falando, eu tomo um susto. Fala sobre vários assuntos sem ponto ou vírgula. Isabelita, que de manhã dorme no sofá da frente, levanta a cabeça, se espreguiça, olha pra mim como quem diz “é ele de novo, né?” e volta a dormir.

Ontem à tardinha uma moça bateu palmas, perguntou se era verdade que eu estava dando livros. Expliquei que era um sebo, eram livros com preços mais em conta, perguntei se ela queria entrar para ver. Ela, meio constrangida, perguntou se eu tinha algum alimento, porque a mãe estava desempregada, a situação estava braba mesmo. Abri a porta, pedi para ela entrar, perguntei se ela estava estudando, ela disse que iria fazer o ENEM, perguntei para que, ela quer fazer Letras.

“Dê uma olhada nos livros, que vou ver se tenho algo”.

Uma vergonha, minha despensa. Era para ter feito compras domingo, mas uma virose braba me deixou na lona, com febre e uma coisa que quase nunca tive na vida, a tal da sinusite, então só encontrei um pacote de pão de milho e uma fatia grande de um bolo de chocolate, que Flávia trouxe para o lanche do curso de Filosofia do sábado.

“Só tenho isso mesmo, desculpe. Gostasse de algum livro?”

Ela, para minha surpresa, estava com um livro de Maquiavel.

“Pode levar, é presente”.

Ela saiu com um pouco mais animada, creio.

Outro dia, à noite, chegou um sujeito com cara de agoniado. Cabelos brancos, agitado, tinha quatro livros, queria trocar ou vender, expliquei que estava no começo, não trabalhava com troca ou compra, ele não me deixava falar direito, abri a porta, ele foi olhar o acervo, perguntou pelo segundo volume de Xogum, putz, fazia tempo que eu não escutava sequer o nome do livro. Ele ficou cutucando tudo, não gostava de nada. Meu modesto sebo, cá entre nós, tem um acervo que não é fraco não.

“Quero dar um presente para uma amiga”, sugeri dois bons livros, ele pegou um sem nem olhar direito, quando fui dizer o preço ele me entregou o saco de livros que tinha trazido. Estranhamente, entre quatro livros péssimos, tinha “O homem e seus símbolos”, do Jung. Peguei esse em troca dos dois que ele levou.

Antes de sair, ele falou umas coisas como “eduque, para não construir presídios”, insistiu para que eu encontrasse Xogum, depois pediu que eu anotasse seu número, porque está rodando no Uber e depois saiu, com a mesma pressa que chegou.

Todos os dias passa gente por aqui, algumas figuras bem legais, que adoram livros. Outro dia, dois rapazes vieram e ficaram um tempo enorme. Um deles, que estuda letras, comprou cinco exemplares daquela coleção do Oto Maria Carpeaux. Deu para perceber que ele tinha guardado um dinheiro para isso, e que ficou bem feliz.

Lembrei da história do amigo Inácio França, que durante vários meses, em alguma fase da sua vida, ficou guardando o dinheiro da merenda, digo, do lanche (merenda é minha herança cearense), para comprar a coleção “Tesouros da Juventude”. Imagino a felicidade no dia em que, finalmente, chegou em casa com ela.

Ontem encontrei, num almoço aqui perto, a Lorena e o filho Francisco. Ele tem oito anos, creio. Disse que está separando uns livros que já leu para levar para o sebo.

Por essas e muitíssimas outras está valendo muito à pena ter aberto este espaço em Olinda.

Está sendo mesmo um Sebo Azul. Vertiginosamente azul. Azul.

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Hoje, somente hoje…

21 de junho de 2017, às 14:05h por Samarone Lima

Hoje, somente hoje, alguém foi a um cartório tirar a segunda via do registro para casar;

Hoje, alguém cantarolou uma música antiga e lembrou de uma certa pessoa;

Hoje, alguém olhou para uma foto de um dia tão especial, e sentiu algo como o perdão;

Hoje, alguma mulher grávida pensou com um sorriso – “eu vou ser mãe”;

Hoje, alguma mulher pensou muito e decidiu que nunca será mãe;

Hoje, somente hoje, alguém muito rico resolveu comprar uma Land Rover à vista;

Hoje, alguém que não conheço entrou definitivamente na linha da pobreza

Hoje, alguém lembrou do Raul ao vender seu Corcel 73;

Hoje, alguém foi ao banco cheio de esperanças, mas nada havia em sua velha conta;

Hoje, alguém armado roubou uma pessoa desarmada na rua;

Hoje, alguém foi morto a tiros;

Hoje, alguém visitou um parente no hospital e sentiu que ele está próximo de partir;

Hoje, alguém saiu de casa somente para comprar uma lâmpada para a sala de leitura;

Hoje, e somente hoje, alguém desistiu de um trabalho angustiante e resolveu mandar tudo às favas;

Hoje, alguém foi ao primeiro dia de estágio numa grande empresa, e não sabia sequer onde sentar;

Hoje, alguma mãe lembrou saudosa do filho distante;

Hoje, a filha percebeu que a mãe está próxima da morte e se sentiu tão desamparada que ligou para o irmão no exterior;

Hoje, alguém que está vivendo há tempos no exterior se perguntou – “mas o que diabos estou fazendo neste fim de mundo?”;

Hoje, alguém escutou uma canção de Gilberto Gil, possivelmente “Drão”, enquanto dirigia, e pensou nas belezas do mundo;

Hoje, alguém rompeu a barreira do autocontrole e mandou um email dizendo “oi, eu errei, e quero voltar”;

Hoje, alguém olhou a caixa de email e não tinha nada especial, e isso doeu muito;

Hoje, alguém respondeu depois de uma semana dizendo “mas ninguém está mais lendo email, meu amor…”;

Hoje, alguém pensou pela milésima vez em começar a ler Dom Quixote, pelo gosto de ter lido ao menos um clássico;

Hoje, algum adulto ensinou uma criança a dizer pela primeira vez “água”;

Hoje, alguém comprou o vinho mais caro, porque o jantar com aquela pessoa merece;

Hoje, alguém tomou uma dose de cachaça para começar o dia;

Hoje, alguém que precisava muito, acertou na milhar;

Hoje, alguém olhou para o mural de fotos e resolveu tirar a foto dele, porque é o momento de olhar para outras pessoas;

Hoje, em meio a uma discussão patética, ela disse furiosa “ora, vá pra casa do caralho, você e sua grosseria!”, e ele ficou perplexo;

Hoje, ao ver o noticiário na TV, alguém comentou “esse país está uma podridão só”;

Hoje, alguém comentou com um amigo que conheceu uma certa pessoa;

Hoje, algum amigo cumprimentou o outro dizendo “fala, miséria, por que tu não fosse à pelada do domingo?”;

Hoje, alguém tirou a carteira de motorista, mas ainda não tem carro;

Hoje, alguém descobriu que está com câncer mas decidiu enfrentá-lo;

Hoje, alguém recebeu do médico a notícia que terminou a radioterapia, e que deu tudo certo;

Hoje, alguém pensou – “é hoje, que eu encho o caneco”, esfregando as mãos;

Hoje, alguém sentou na calçada e ficou pensando no nome do filho que ainda vai ter com a mulher que ama;

Hoje, e somente hoje, o dia que cabe todas as coisas…

Recife, 15 de setembro de 2005 e 21 de junho de 2017.

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