Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

Apresentação


Oficinas


Livros


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

agosto 2015
D S T Q Q S S
« jul    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

Arquivos


Usuários online

3 Usuários Online
Leitores:

3 Caranguejos

É possível ensinar alguém a escrever?

4 de agosto de 2015, às 10:53h por Samarone Lima

Sinceramente, não.

Acho que escrever é um processo único, pessoal, que o sujeito constrói a vida inteira.

Mas acho que qualquer pessoa pode, sim, melhorar o que escreve. E pode ter ajuda de alguém de fora que já, digamos, tem uma estrada percorrida e uma boa milhagem de páginas escritas, rasgadas, esquecidas, renovadas, concretizadas.

Falo no meu caso. Já tenho alguns livros publicados (oito, no total).

Os melhores foram, de longe, os que tive apoio externo para o cansativo trabalho de ler com cuidado, dar sugestões que tivessem fundamento, sugerir cortes etc.

A lista aqui seria enorme: Gustavo de Castro, Cremilda Medina, Isa Pessôa, Homero Fonseca, Flávia Suassuna, Inácio França, Mário Hélio, Ronaldo Correia de Brito, Arsênio Meira Jr, Karla Melo e, claro, Silvia Leite.

Devo ter esquecido injustamente vários nomes, porque tenho recebido ajudas generosas desde o meu primeiro livro (“Zé”), publicado em 1998, ao mais recente (“O aquário desenterrado”), publicado em 2013. O próximo, que deve sair em outubro, foi lido e relido no mínimo três vezes, em um café no Paço Alfândega.

Nos últimos 15 anos de escrita, já escutei frases do tipo:

“Se você publicar este poema, favor não me dirigir mais a palavra”;

“Eu cortaria este capítulo inteiro. É frágil e forçado”;

“Aqui está faltando um capítulo de ligação com o próximo. Você topa escrever?”;

“Se você não tem tempo para reescrever todo o original, podemos contratar um gost-writer”;

“Esse título é bem horroroso”.

Bem, os exemplos seriam muitos. Dos mais clássicos, educadíssimos, aos que chuta logo a canela (e não trazem Gelol).

Para meus dois livros de poemas, passei infinitas e maravilhosas horas cotejando palavra por palavra, verso por verso, título por título. Um troço de esgotar qualquer um.

Mas sou grato a todo amigo, simpatizante, editor, revisor, por cada minuto vivido neste processo.

Tenho uma mistura de sorte com gente e abertura para as críticas. Isso facilita muito a vida. Malhem pra valer nos meus originais. Sem pena. Sem alisar. O que não suporto é o texto ruim, publicado na internet, em jornais, revistas, livros.

Então, informo aos meus diletos leitores que minha “Oficina da Palavra”, iniciada no coletivo de jornalistas independentes www.marcozero.org vai continuar a partir da próxima quinta-feira, dia seis de agosto, às 19h.

Tivemos a turma inicial, em julho, que se embrenhou pelas leituras em sala, discussões, primeiros textos, correções, sugestões de leitura etc.

O objetivo essencial é duplo – ler e escrever mais e melhor.

Como parece que os cobaias gostaram (e vão prosseguir), abri mais algumas vagas.

Os encontros semanais acontecerão no espaço cultural CineSeu Luiz, do amigo Lula Terra.

Rua Alfredo Lisboa, 507, sala 202, Bairro do Recife.

Quem estiver interessado, mande email para:

oficinadapalavra2015@gmail.com

ou para meu email particular:

samalima@gmail.com

Até lá.

Postado em Crônicas | Sem comentários »

Memória da alegria – Cinco anos na estrada com Ariano

23 de julho de 2015, às 21:21h por Samarone Lima

“O que foi marcado de estrelas – tudo aqulio que, depois de ser salvo e assinalado, será para sempre e exclusivamente seu”.

(Ariano Suassuna. A Pedra do Reino”)

**

1 -  Garanhus – A última aula

Estamos no dia 18 de julho de 204, uma sexta-feira. Ariano chegou com sua trupe de artistas para a Aula-Espetáculo “Tributo a Capiba”, no Festival de Inverno. A duas horas do início, descobrimos algo importante. Adriana Victor, gerente de gestão da secretaria de assessoria ao governador, que sempre fazia a abertura e o convidava para subir ao palco, tinha saído alguns dias antes para novos desafios profissionais. E agora?

Fui encarregado de realizar este improviso.

Fui ao hotel, tomei um banho, troquei de roupa e escrevi algumas coisas, um balanço do número de aulas, coisas desse tipo. Costumo dizer que sou um tímido raçudo, mas em certas ocasiões, a demanda é muito grande. Quando cheguei ao teatro, estava lotado, com gente do lado de fora. Respirei fundo, fiz a abertura, Ariano já estava na coxia. Entrou e foi ovacionado. Cheguei perto, disse um “boa aula, professor” e desci para a primeira fila. Por sorte tinha levado uma pequena câmera, e gravei toda a aula, que foi monumental. Aos 87 anos, ele passou mais de duas horas no palco, levando o público ao riso, à emoção, ao espanto.

Encerrou falando sobre a raça humana. É o texto que aparece nesta postagem. É que ele tinha falado sobre a questão racial no Brasil. Sempre que podia, citava a beleza plástica e criativa de um de seus bailarinos prediletos, o Mestre Meia-Noite, que é negro. Disse que falava em raça nega mais por uma questão de comunicação, mas tinha a plena convicção de que só existe uma raça – a raça humana.

Foi ovacionado. Encerrou pedindo desculpas pelo desarrumado das conversas e disse um “até a próxima vez”.

Mas foi a última. A aula de número 166, desde 2007. Junto com o Grupo Arraial, Ariano apresentou diferentes espetáculos em 98 municípios do estado.

Compartilho um pequeno trecho desta filmagem caseira, deste último encontro dele com o grande público. Após sua morte, alguns canais de TV me perguntaram se tinha gravado algo, mas preferi guardar em silêncio.

**

2 – Recife, julho de 2008.

Essas geometrias do acaso me fascinam.

Em julho de 2008, a então assessora de imprensa da Secretaria Especial de Cultura, Diana Moura, convidou vários jornalistas para acompanharem Ariano e sua trupe de artistas (músicos, bailarinos e cantores) em uma longa viagem pelo sertão de Pernambuco. O objetivo era mostrar o projeto das Aulas-Espetáculo, que o secretário estava levando para todo o estado.

“É um esquema simples, de viajar com o grupo e ficar no mesmo hotel”, explicou Diana.

Como adoro uma aventura, aceitei na hora. Propus uma matéria para a revista Continente e nem imaginava que estava fazendo uma mudança de itinerário na minha própria vida. Fui o único jornalista nesta empreitada.

Assisti à primeira aula em Araripina, em nove de julho de 2008. Fiquei impressionado com a beleza do espetáculo “Nau”. Entre uma música e outra Ariano falava sobre temas os mais diversos, levando a multidão (tinha mais de 1.200 pessoas na quadra da Fafopa) ao riso, à reflexão, à alegria. Me impressionou também a vitalidade dele, com 82 anos.

Ao final, o fenômeno das fotos e autógrafos. Para sair do palco e chegar ao carro, Ariano demorava uns 40 minutos. Era cercado por uma multidão ávida. Adolescentes, jovens, velhos, policiais militares, pipoqueiros, todos queriam guardar uma lembrança.

Em oito dias, assisti aulas em Triunfo, São José do Belmonte e Quixaba. Percorremos, ao final de oito dias, cerca de 1.500 quilômetros.

Como eu teria tempo para ver outras aulas, preferi não molestar Ariano com entrevistas. Uma ou duas conversas rápidas. Lembro que na segunda, ele escreveu um trecho de um poema em que fala do seu “espelho de cristal”, uma referência à sua arte. Tenho comigo, esta relíquia.

Mas já naqueles primeiros encontros, havia algo em Ariano que chamava atenção.

Aliás, várias coisas.

Uma absoluta dignidade, uma simplicidade livre de complicações. Um dos maiores escritores do país, reverenciado em qualquer feira literária que participasse, ovacionado nos maiores teatros, andava pelo interior de Pernambuco acompanhado de uma humildade que parecia ser sua própria sombra.

Uma das poucas exigências que fez, ao iniciar as viagens, foi a de que o grupo de artistas ficasse hospedado sempre no mesmo hotel que ele. E um copo de água de coco na mesa, durante as aulas. Nos demais, uma gentileza no trato, uma elegância nas conversas, a animação com a vida. Ou, uma frase que gostava de dizer:

“Sou um velho animoso”.

Acompanhei várias aulas e acalentei o sonho de escrever um livro sobre as Aulas-Espetáculo. Para isso, comecei a acompanhar a trupe de Ariano. De alguma forma misteriosa, estava me embrenhando em seu mundo, sua mitologia. Me aproximava com cuidado, com uma certa timidez, e não sabia que a vida preparava uma surpresa – dessas que mudam roteiros para sempre.

3 – Espaço Pasárgada. Um convite improvável

Foi em julho de 2009. Um telefonema para ir ao Espaço Pasárgada com certa urgência. Como na época eu era coordenador de Literatura da Fundarpe e tinha realizado um sarau na sexta-feira à noite, pensei que alguma coisa dera errado. Os poetas, como se sabe, bebem pacas.

Fui informado por Adriana Victor (gerente de gestão), que Diana Moura tinha sido convidada para retornar ao Jornal do Commercio, e a vaga dela ficara aberta. que tinham sugerido meu nome para seu lugar. Fiquei aliviado porque não era nenhum problema com o espaço, mas ainda não tinha entendido se era uma sondagem ou uma ótima notícia.

Em seguida, ela disse que Ariano tinha aprovado.

Mesmo sendo jornalista de ofício, às vezes sou lentíssimo para processar informações. Ela foi mais objetiva e disse que dentro de dois dias, quando meu nome saísse no Diário Oficial, começaria o trabalho.

Saí de lá sem entender direito o que estava acontecendo. Fui falar com Luciana Azevedo, então presidente da Fundarpe. Eu precisava pedir demissão do cargo. Ela ficou eufórica, me deu abraços efusivos e antecipou que seria uma experiência de vida inesquecível. A ficha começou a cair.

Aos poucos fui me adaptando à nova rotina. – era receber as dezenas de pedidos mensais de entrevistas, documentários, teses de mestrado, doutorado, tudo que envolvesse o mundo de Ariano, das Aulas-Espetáculo etc.

Fora isso, preparar e enviar para os municípios, o material de divulgação das aulas no interior do estado. E o melhor – acompanhar todas as entrevistas e aulas. Acho que o nome disso é sorte, mas deve ter outro nome melhor.

Adriana Victor e Josafá Mota (chefe de gabinete) foram me dando orientações sobre como encaminhar as coisas com Ariano, levando em conta sua agenda, que era muito movimentada.

Eu imprimia as demandas, marcava um dia e despachávamos. Havia o pequeno ritual de ligar antes, dizer que era Samarone, da Secretaria, Ariano vinha, atendia e agendávamos. Eu só o chamava de professor, ele me chamava de Sama.

Ariano, na verdade, já não queria mais dar tantas entrevistas. Sua agenda nacional era repleta de convites, viagens, e ele também percorria o estado, precisava de tempo para terminar seu derradeiro romance, “O jumento sedutor”, um projeto de muitos anos.

O despacho dos pedidos, portanto, era rápido e simples. Aceitava uma ou outra coisa, que fizesse sentido. Aceitava, por exemplo, dar uma longa entrevista à revista Ocas, que é feita por uma ONG e vendida por moradores de rua em São Paulo.

Depois dos temas burocráticos, bastava perguntar qual o livro que ele estava lendo, que Ariano abria imediatamente um cenário literário com as palavras. Falava de Tolstói com rara felicidade. Era capaz de citar trechos inteiros dos seus livros prediletos.

Graças à influência dele, comecei a ler Tolstói e outros autores que não tinham entrado na minha biblioteca. Mas a convivência acabava se espalhando por outros aspectos da vida. Ariano era um homem da palavra, mas ele influenciava muito pelos pequenos e silenciosos gestos.

E a cada viagem (quando podia conviver um pouco mais com ele), surgia aquele homem simples, que parecia irradiar uma onda energética de mansidão. Um respeito perpétuo e irrevogável pelo outro, de qualquer classe social. Uma gentileza nos mínimos gestos, com as pessoas mais simples. Jamais recusava um pedido de foto, um autógrafo (sempre com o nome da pessoa, um texto e a data, com enorme paciência).

Ao avistar os artistas de rua se apresentando em algum semáforo, imediatamente dizia:

“Meus amigos artistas”.

Então tirava uma cédula de vinte, às vezes cinquenta reais.

Com o passar dos anos, Ariano parecia cada vez mais feliz, realizado. Vivia num estado de espírito elevado, como se estivesse cheio de júbilo. Uma mansidão  animosa. Um homem que gostava de rir e de fazer os outros rirem. E o profundo amor por sua mulher, Zélia Suassuna, era exaltado em cada espetáculo que ela estava.

“Eu namoro com esta mulher desde vinte de agosto de 1947. Não acabou ainda e não vai acabar nunca”, dizia ele sempre. E acrescentava – “Nem com a morte”.

Acredito nisso.

 

4 – Hospital Português, 23 de julho de 2014.

Era já tardinha, quando minha amiga Bebeth, que é médica e sobrinha de Ariano, passou por mim e disse:

“Acabou de morrer, Sama . Um infarto. Estava segurando na mão dele”.

Não tive tempo de assimilar a informação. Meu celular começou a tocar alucinadamente. Jornalistas de todo o Brasil queriam a confirmação da notícia, que acabara de ser anunciada na Globo News. Desde o dia 21, quando Ariano teve um AVC hemorrágico, todos esperavam ansiosos por alguma notícia boa. Mas a Onça Caetana, como ele costumava dizer, passou.

São essas coisas estranhas da vida. Nunca imaginei que um dia estaria num hospital, encarregado de dar a notícia da morte de um dos maiores escritores da língua portuguesa, um dos maiores homens que já conheci.

“Sim, ele morreu. Infarto. Agora há pouco”.

Eu parecia um autômato. Repeti a frase inúmeras vezes.

Depois desci para o saguão do hospital, onde um batalhão de repórteres, cinegrafistas, fotógrafos, esperavam a confirmação. Depois voltei para junto dos familiares e amigos. O celular continuou a tocar por mais de duas horas.

Quando parei, procurei um café e respirei. Tive uma nítida impressão que naquele 23 de julho de 2014, com a Morte de Ariano Suassuna, algo estava terminando. Eu não sabia ainda o que era.

 

5 – Recife, 23 de julho de 2015

Ainda não sei, um ano depois.

Mas deixo o jornalista descansando e falo sobre o que sinto.

É sempre uma memória da alegria, a de ter participado durante cinco anos de uma aventura literária, artística, humana, percorrendo todo o estado, ao lado de um dos grandes homens da humanidade.

No mural que tenho com meus antepassados, aqui em casa, há várias molduras.

Numa delas, estou com Ariano, em alguma das dezenas de cidades que estivemos. Ele, com aquele sorriso terno de sempre. Talvez, por não ter conhecido meus avós paternos, ele tenha ocupado algum espaço ancestral.

No meu coração, há saudade e gratidão – e uma imensa e irrevogável alegria.

**

Texto publicado também (com imagens) no site www.marcozero.org

Postado em Crônicas | 3 Comentários »

Perder tempo

15 de julho de 2015, às 11:34h por Samarone Lima

Sempre achei meio estranho esse lance de velocidade máxima, de informação esborrando dos celulares, smartphones, tablets e outros objetos que já devem existir (e que eu nem imagino o modelo, funcionamento, preço, já que se renovam a cada seis meses).

Na verdade, eu ficava estranhando mesmo era a minha falta de interesse, de paixão pela hiperconectividade, do tempo que se gasta recebendo e reenviando informações.

Mas estranheza faz parte do meu caráter, creio. Apesar de correr três vezes por semana, detesto pressa. Meus livros demoram anos para serem publicados. Posso passar horas aqui na minha mesinha, organizano minha coleção de recortes de jornais, revisando poemas. Depois vou para a sala e me agarro com um bom romance. Um abraço.

De sorte que acompanho de soslaio este outro mundo que nasceu e cresceu, ao longo dos últimos anos. O Orkut (meus alunos de literatura eram enlouquecidos com aquilo), depois o Facebook, depois o zap-zap, que é o apelido popular do whatsup.

Vi amigos começarem a se viciar e são raras as mesas de boteco em que você está falando algo e não tem alguém por debaixo da mesa, cutucando a tela do celular.

Outro dia um amigo me chamou para desabafar seus muitos problemas, reserver um horário só para ele, fiquei todo ouvidos, mas depois da quarta ligação que ele atendeu e da terceira olhada no zap-zap, dei-lhe um esporro. Porra, quem estava sofrendo era ele!

É incrível como sempre tem uma grande novidade, uma grande piada, uma grande cena, uma grande sacada.

O fim da minha solidão filosófica-existencial-comunicacional chegou justamente pela Internet. Silvinha, minha companheira, me mandou (de presente) o link de uma maravilhosa entrevista do filósofo Peter Pal Pelbart, intitulada “Terrorismo poético”. O texto (muito bom, por sinal), é de Heitor Ferraz Melo.

Vejam o link, mas não sei se vão conseguir acessar por aqui. É a edição número 202 da Revista Cult:

http://revistacult.uol.com.br/home/2015/06/o-terrorismo-poetico-2/

Deitado em sua rede, o filósofo Peter diz algo estupendo:

“Eu tento escapar desse fluxo pseudo-interativo, que é tirânico e despótico. A quantidade de redundância que somos obrigados a deglutir todos os dias é acachapante”.

Terminada a frase, ele vai a um móvel da sala e volta com um abridor de garrafa, que comprou na Finlândia, com o teclado de celular esculpido num tronco de árvore.

“Não é solipsismo, nem tecnofobia. Há uma geração mais jovem que tem a arte de subvertes esses códigos e mecanismos. Eu, do meu jeito um tanto antigo, com a desconfiança dos meios de comunicação, ainda prefiro uma coisa mais arcaica, chamada livro, que tem a sua potência e que explode num outro ritmo”, diz.

“Eu, do meu jeito um tanto antigo…”

Meu Deus, que frase linda. Me senti absolutamente em casa.

Olho em volta, aqui no meu escritório . Estantes de ferro, livros, cadernos, cadernetas, pastas sanfonadas (cheias de papéis), canetas, lápis, cola, tesoura, grampeador. Na parte de cima de cada estante, caixas de plástico compradas no Atacadão dos Presentes, com os nomes: “Originais Clamor”, “Originais Zé”, “Para processar”, “Negativos e fotos”, “Fitas/Entrevistas”, “Originais Guararapes”.

Fora isso, livros e mais livros. No quarto dos fundos, que até tempos recentes abrigava as empregadas domésticas – hoje tratadas eufemisticamente de “secretária” –  há outras prateleiras, agora de madeira, com a parte mais nobre dos meus livros – poesia e clássicos, fora minha gloriosa coleção de máquinas de datilografia.

Como o Peter, creio que o livro tem mesmo a sua potência que explode num outro ritmo.

Estão aqui, bem perto das mãos, Kazantzakis, Montaigne, Octavio Paz, T.S.Eliote, Jung, Alberto da Cunha Melo, Bachelard, Julio Inverso, Pedro Lemembel, Lou-Andreas Salomé, Rilke etc. A lista seria infinita.

Também tento escapar desse fluxo exagerado pseudo-interativo. As pessoas, por outro lado, parece que me entendem.

Hoje de manhã, apenas uma mensagem pelo celular, de um amigo. Teve uma infecção alimentar, após comer um sanduba numa esquina do Bairro do Recife. Tudo bem. Alguns poucos email. Zero zap-zap.

Talvez tenha sido por isso que pude reler a entrevista e tive tempo para escrever neste velho espaço de crônicas sem rumo.

Termino com o próprio Pelbart:

“É preciso permitir-se perder tempo, algo que pode parecer uma aberração, mas que pode nos levar a outras temporalidades, mais flutuantes, até a uma atenção flutuante, que é diferente da atenção absoluta, exaustiva e que tem por objetivo fazer tudo render”.

Os Titãs têm uma música famosa, que diz:

“Só quero saber/Do que pode dar certo/ Não tenho tempo a perder”.

Ao contrário deles (afinal, não sou nenhum Titã), quero saber de tudo o que pode dar certo e não-certo (que nem sempre quer dizer errad0). E nem tudo na vida tem que render alguma coisa.

Perder tempo. Sou bom nisso.

Postado em Crônicas | 5 Comentários »

Miró

10 de julho de 2015, às 14:08h por Samarone Lima

Escrevi um texto enorme sobre o poeta Miró da Muribeca.

Vejam lá:

www.marcozero.org

samarone

Postado em Crônicas | 5 Comentários »

Aleatórias, no bar de Baixa

3 de julho de 2015, às 12:21h por Samarone Lima

Três meninos do Poço se apresentaram ontem no IV Encontro do Programa Mãe Coruja Pernambucana, no Centro de Convenções. Fui lá com Naná, em sua eterna Kombi, ver Dôdô, Richard e Everton, tocando os violinos do projeto Orquestrando Pernambuco, do qual fazem parte, numa parceria com nossa Biblioteca Comunitária.

Na volta, passamos na escola de Everton, para conversar com a professora dele e explicar a falta. Chegamos ao Poço no final da manhã e a chuvinha fina persistia.

Fomos entregar o dinheiro do aluguel da Biblioteca e passamos na casa de Dôdô, para informar a mãe dele que o jovem já tinha conseguido vaga para estudar no Conservatório Pernambucano de Música. Um detalhe: enquanto os demais colegas agora estão chegando à terceira música, Dôdô já vai na quinta, disparado.

“Ele não larga esse violino por nada. É o sonho dele”, disse a mãe.

Quando entramos na casa, para dar a notícia a Dôdô, ele ja estava tocando.

“É o dia inteiro”, completou a mãe.

Eu e Naná fomos comemorar no Bar de Baixa, que fica quase ao lado da casa de Dôdô.

Baixa estava em baixa, perdão pela redundância.

Sem dinheiro para movimentar seu comércio, ficou fechado durante uma semana, até que foi salvo por um empréstimo de Naná. Trezentos mangos, sem juros. Melhor muito que o BNDES.

Quando reabriu seu comércio, Baixa acertou em cheio no bicho (galo), na extração do meio-dia e na Federal, à noite. Mordiscou R$ 1.800,00. Aproveitou e pagou o empréstimo de Naná.

Pedimos uma cerva. Naná trouxe um caldo de peixe feito por Maria. Depois chegou Neno Testão, que é pedreiro, e Márcio, que faz um pouco de tudo. A conversa, debaixo da chuva, foi sobre todos os assuntos possíveis. Amores, mulheres, violência policiail, vida em comunidade, aventuras, impressões, derivações, assombros.

Neno, inspirado (já tinha tomado umas Pitú no “Sindicato”, ponto de encontro de outra turma), defendeu a candidatura de Naná a vereador, que ele, modestamente, declinou.

Lá pelas tantas, Neno disse que “a maior virtude do homem é a humildade. O homem humilde atravessa fronteiras sem brigar”.

Depois, definiu seu trabalho na vida:

“Eu sou pedreiro: não tenho nada e começo do zero”.

Baixa, sentado ao lado, sem camisa, tomava uma cervejinha e ria.

“Baixa, de onde vem esse teu apelido?”, perguntei.

“Tu não sabe que a turma aqui do Poço adora botar apelido nos outros? Botaram Baixa quando eu era pequeno e ficou”.

De fato, o Poço é um mar de apelidos: Calango, Neno Testão, Naná, Duda a Milhão, Corre Nu, Mudo, Batman, Gato, Carne de Vaca, Ciço Boi, Boy, Ninha etc.

Pouco depois, chega Corre Nu. Estava molhado e chateado. É uma longa história, que vou escrever depois. Foi preso há coisa de 20 anos, com três baseados na bolsa. Ficou preso, ou “hospedado no presídio”, como ele diz, depois saiu. O processo correu, e outro dia ele foi condenado a fazer trabalho em uma ONG, em Paulista.

Tinha dado uma bela viagem perdida. A ONG estava fechada.

“Podiam pelo menos ter me ligado, avisando”.

Não sei quando a conversa derivou para relacionamentos. Foi quando Márcio soltou essa:

“Deus só não ajuda no amor”.

Naná só fazia rir. Estava feliz, com a apresentação dos meninos. É um sonhador diário.

Teve uma hora que o gordinho foi ao banheiro, e Neno disse a verdade daquele início chuvoso de tarde:

“Esse aí tem mais força do que a gente tudinho”.

**

Ps. Semana que vem (07/07), inciarei uma “Oficina da Palavra”, para quem quer trabalhar sua escrita. Mais informações no site: www.marcozero.org

Postado em Crônicas | 3 Comentários »

« Artigos anteriores