Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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A longa segunda-feira na Faixa de Gaza

21 de julho de 2014, às 12:40h por Samarone Lima

Às vezes me pego pensando como deve ser a vida na Faixa de Gaza. Agora, nesta manhã de segunda-feira, com o Exército de Israel bombardeando tudo. Mas logo me vejo, perplexo, sem conseguir imaginar como é a vida num local que passa 12 horas por dia sem luz, onde o consumo diário de água é de 80 litros por pessoa (o padrão da OMS é de 100 litros por pessoa/dia), onde 40% dos hospitais não têm os medicamentos essenciais, onde 58,9% das pessoas entre 25 e 29 anos não têm emprego.

Minha imaginação às vezes sofre de delírios mas o ser humano que escreve crônicas semanais neste blog sofre muito com cada bomba despejada pelo exército israelense, que há 12 dias começou a operação “Margem protetora”, após três adolescentes serem mortos, certamente por militantes do Hamas.

O que alguns chamam de “guerra”, prefiro chamar massacre. Já são 325 palestinos mortos. Do lado israelense, há dois mortos. Um deles, o sargento israelense Eitan Barak, de 20 anos, pode ter sido morto por “fogo amigo”, que é uma morte acidental, provocada por algum companheiro da tropa.

O pior é ler a entrevista da brasileira Ana (nome fictício) publicada na Folha de São Paulo (edição de ontem).

Ela fez parte do comando do tráfego aéreo de Israel em 2008, quando começou a operação “Chumbo Fundido”, quando Gaza foi atacada por 22 dias. Ela diz que grande parte dos militares de Israel desconhece o alvo de seus ataques.

“A gente não sabe quem está atacando, só recebe uma pasta com ordens”, disse.

Os operadores não sabem o que é o alvo, diz o jornal. Só conhecem sua localização, que aparece como um ponto no radar. Uma imagem capturada por um drone mostra, em preto e branco, o caminho do míssil, sem nitidez.

“Eu nunca atirei, porque não conseguiria fazer isso. Eu sabia que tinha uma pessoa ali embaixo e, para mim, isso era muito complicado”, disse.

Ela contou que, às vezes, os millitares faziam uma celebração após o ataque. Ana pediu tratamento psicológico ao Exército ainda durante o serviço militar.

Não sei quanto tempo vai durar a onfensiva, quantos mortos teremos pela frente, incluindo crianças, mulheres, velhos, uma grande parcela de civís, além do incremento do ódio, tristeza e dor.

Um grupo de artistas e intelectuais de diversos países (incluindo seis vencedores de prêmios Nobel da Paz) divulgou uma carta condenando a operação de Israel em Gaza, pedindo também um embargo militar contra os israelenses.

Não sou intelectual, não tenho prêmio algum, só alguns livros publicados, mas assino embaixo, embora saiba que isso de nada vai adiantar e que muitas famílias palestinas serão destruídas até o fim desta longa segunda-feira.

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Minha melhor Copa

15 de julho de 2014, às 10:27h por Samarone Lima

Desde a Copa de 1998, com aquela decisão ridícula contra a França, o xilique de Ronaldo antes do jogo, deixei de sentir qualquer dor por causa da Seleção Brasileira. Terminou o jogo, eu estava em Natal e fui para um boteco, tomar umas e tirar onda.

Para esta Copa no Brasil, minha expectativa era apenas uma – ver todos os jogos possíveis. Se possível, os 64, apesar de saber que seria impossível, já que alguns eram no mesmo horário.

Da nossa seleção, eu não esperava grande coisa. Um bando de meninos mimados, tratados por um suposto pai durão, que mistura psicologia barata com religiosidade e promessas. Quase não acreditei quando ele assumiu o cargo e disse a frase trágica:

“O Brasil tem a obrigação de ganhar a Copa”.

O Brasil tinha obrigação de competir, disputar o título. Obrigação de ganhar é coisa de idiota.

Bem, mas deixando a sociologia de boteco, vamos ao essencial – esta foi a pior participação do Brasill em mundiais e a minha melhor Copa.

Com uma parte das férias a gozar, pude assistir muitos jogos, em vários lugares diferentes. Foi uma Copa espetacular, para os verdadeiros amantes do futebol.

Alguns jogos inesquecíveis.

Brasil 3 x 1 Croácia.

Na casa de Pedoca, meu cunhado, e Emília, minha amiga e concunhada (eu acho essa palavra horrível). Um clima de farra perfeito, uma TV com a imagem com a qualidade Pedoca. No gol do Brasil, dei um grito e Ana, filha do casal, começou a chorar.

México 1 x 0 Camarões

No Princesa Isabel, cá na Boa Vista, com os amigos de sempre. A novidade é que este ano Seu Azevedo surpreendeu a todos, comprando uma TV enorme, com uma imagem melhor que qualquer TV a cabo. Foi a primeira mudança de TV, desde a Copa de 1970. Ou seja, 44 anos, Seu Azevedo fez a alegria da galera.

Espanha 1 x 5 Holanda

Fantástico. A Espanha fez 1 x 0, ficou naquela frescurinha de tic-tac, levou uma enfiada histórica. O Robben só não fez chover, entortando a zaga da espanha de tudo que era jeito. A Fifa ainda teve a coragem de escolher aquele zé ruela do Messi como o melhor jogador da Copa por causa de um gol salvador contra o… Irã!

Brasil 0 x 0 México

Foi o jogo mais complicado, porque foi o dia que a PM desceu a lenha na galera que estava no “Ocupe Estelita”, e minha mulher resolveu ir lá, dar um apoio aos que sobreviveram. Ela e seus amigos. Fui lá dar um apoio a ela e ver o que estava acontecendo, cheguei logo após a segunda rodada de cacetetes. Só pegamos o segundo tempo do jogo, no Princesa Isabel, mas estávamos todos muito morgados com a violência toda. O futebol do Brasil não acrescentou nada às nossas vidas.

Espanha 0 x 2 Chile

Casa do Chupeta de novo (Pedoca). Biritas e “Viva Chile!”

Não vai dar para falar de todos, terei que pular alguns.

Uruguai 2 x 1 Inglaterra

O primeiro tempo foi em Moura, no Mamulengo. Só tinha eu e Inácio no bar. Depois chegou Júlio Vilanova e fomos ver o segundo tempo na Fun Feste. Gente pacas, mas a Budweiser que tinha já era quente. Uruguai desde criancinha.

Argentina 1 x 0 Irã

No Princesa. Sequei a Argentina até o último minuto, mas o miserável do Messi fez um gol no apagar das luzes.

Argentina 1 x 0 Suiça

Mesma coisa. O jogo já seguia para os pênaltis, quando um miserável de um lateral perdeu a bola no meio de campo (fazendo firula). A catita do Messei pegou, saiu correndo feito um camundongo e tocou para o Di Maria. Gol e classificação.

Nota: Dia 02/07, no terceiro jogo da pelada, senti uma contusão na coluna e saí de campo. Era uma premonição. Dois dias depois, Neymar levaria aquela cipoada na terceira vértebra. Até agora estou sem jogar, botando bolsas de gelo para aguentar o tranco. Ou seja, eu estava mesmo vivendo intensamente o clima da Copa.

Brasil 2 x 1 Colômbia

Uma série de combinações me levou a assistir Alemanha 1 x 0 França no apartamento de David, filho de Lula Terra, aqui ao lado. Depois eles foram para um bar e, misteriosamente, assisti Brasil 2 x 1 Colômbia sozinho, na casa do vizinho. “Assisti” é uma versão otimista, porque já tinha tomado várias, e cochilei o segundo tempo inteiro. Bebi um conhaque do Davi, terei que repor esta semana. O Neymar levou a joelhada e começou a choradeira sem fim.

Brasil 1 x 7 Holanda

Não lembro onde assisti. Foi o jogo mais patético da Copa. Nem em pelada a gente vê aquela lambança. A choradeira virou outra coisa. O Brasil tem algo de adolescente que se recusa a ser adulto, embora já caminhe para ser um país velho. Desde esse dia, parei de ligar a TV Globo, que era praticamente a dona da Granja Comari.

Alemanha 1 x 0 Argentina

Onde tudo começou – a casa de Pedoca. Dormi parte do jogo, mas lembro do lance do gol. Era o aniversário de Ana, e fiquei ameaçando levar seu presente comigo. Ela, furtivamente, pegou seu presente (uma camisa do Santa Cruz) e escondeu na gaveta, debaixo de outras 10 camisas.

Foi, de fato, minha melhor Copa. Aproveitamento de 82% dos jogos, pelos meus cálculos iniciais.

Ps. Assisti alguns jogos na “Bodega do Abel”, na rua das Creoulas, mas sobre este boteco, terei que escrever com mais calma, porque é mesmo uma jóia em pleno bairro das Graças.

Peço aos meus leitores que compartilhem suas melhores partidas.

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Cronista à deriva e um aviso inútil

8 de julho de 2014, às 10:34h por Samarone Lima

Amigos leitores, as crônicas semanais sumiram, durante a Copa. É que este velho marujo é louco por futebol, e está tentando, na medida do possível, assistir todos os jogos do torneio. Até a final, creio, terão sido 60 partidas, e devo ter assistido no mínimo 50.

A partir da semana que vem, retorno às atividades.

O aviso inútil é o seguinte:

Recebo várias mensagens de pessoas conhecidas, amigos e forasteiros, perguntando se eu quero fazer parte da rede do Linkedin de uma tal criatura. Já fui várias vezes, na maior boa intenção, dizer que faço parte da rede, mas tenho que confirmar que conheço a tal pessoa. Quando clico em cima, aparece o aviso:

“Ao clicar em Fazer parte da rede de Sandro, você estará concordando com o Contrato do Usuário, a Política de Privacidade e a Política de Cookies do LinkedIn”.

Desculpem a ignorância, mas nunca estou com paciência para ler integralmente o “Contrato do Usuário” do Linkedin, muito menos com a política de privacidade deles. Nem imagino o que sejam os “Cookies”, muito menos sua política.

O mais chato é que eles colocam “Fulano está esperando sua resposta”.

Parece que sou chato, mas é que não quero fazer parte de nenhuma rede. Por enquanto, o famoso e já envelhecido email vai quebrando os meus galhos.

Termino com um trecho de um poema do colombiano Raúl Gómez Jattin:

“Se meus amigos não são uma legião de anjos

clandestinos

que será de mim?”

Sou mesmo da idade da pedra lascada. Prefiro os amigos ao vivo.

Até breve.

 

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Conversas da Copa…

25 de junho de 2014, às 10:35h por Samarone Lima

Segunda-feira, 23 de junho de 2014. O Brasil vai jogar às 17h contra Camarões, já estou concentrado, mas não custa nada manter meu alto nível de participação copista. Já assisti, pelos meus cálculos, 87,9% dos jogos. Aproveito as definições dos amigos e do lugar da farra para ver Holanda X Chile, no Mercado da Madalena. Uma boa cerva gelada me acompanha.

O detalhe é que no mesmo dia, na Arena Pernambuco, teríamos Croácia X México.

Está tudo bem, um dia chuvoso, tudo bem calmo, o jogo segue seu ritmo nervoso de Copa, o bebinho contumaz já descolou seu quartinho, para beber de gut-gut (a turma adora fazer essas coisas), ele saiu parecendo uma Rural velha, tremendo todo para pegar no tranco. O vendedor de DVD pirata ainda não pintou, é a Copa. Um torcedor com a camisa do México almoça na mesa atrás, mas fala português bem. Deve ser um admirador.

Início do segundo tempo. Chegam três torcedores, dois homens e uma mulher. Sentam na mesa ao lado. Estão todos cobertos com capas de chuva, pois o tempo está fechado mesmo e já choveu um bocado. Sentam, a garçonete vem com um cardápio.

“Diga moço”.

“Pescado. Hay pescado?”

A garçonete gorduchinha olha para a dona do box e repete:

“Eles querem pescado. Deve ser peixe, né?”

“Tem não”

“Tem não, meu filho”.

Os três se olham.

“Camarón?”

“Também não tem”.

Ela pega o cardápio, que está plastificado e começa a dizer o que tem:

“Arrumadinho, carne guisada, bife ao molho, fígado acebolado, macaxeira com charque…”

Os mexicanos se entreolhavam e nada parecia funcionar. Pensei em dar uma ajuda como tradutor, mas iria perder a chance de ver como aquela conversa se desenrolava.

“Macaxeira… disse um dos homens, coçando a cabeça”.

“Sim, macaxeira. Macaxeira muito bom”, repetiu Garçonete Gordinha, abrindo um sorriso e fazendo o sinal de positivo com as duas mãos.

A mulher, de dentro do box avisou:

“Espera aí que vou mostrar a eles”.

Ela vem, com um pedaço de macaxeira cozida. Os três olham e ninguém decide nada. Parece que não simpatizaram com o que viram.

“Tem arrumadinho também. Arrumadinho muito bom, ó! Com carne de sol e feijão”

Feijão, em espanhol, é “frijol”.  Não sei como iria traduzir “carne de sol” para o espanhol. Teria que ligar para o amigo Mário Hélio.

Nada funcionava.

Havia vários outros boxes abertos, ali precisava de alguém mais desenrolado para dar uma geral, até encontrar algo.

Voltei a me concentrar no jogo. A Holanda fez 1 x 0 no Chile. Se o Brasil ganhasse de Camarões, Chile seria nosso adversário.

Na mesa ao lado, silêncio. Depois, o grupo foi embora.

Garçonete Gorduchinha ficou olhando de longe e comentou:

“E é um povo tudo enrolado nuns sacos de plástico…”

A Holanda arrematou no último lance do jogo – 2 x 0.

Espero que os três mexicanos não tenham decidido almoçar na Arena…

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Nosso espelho brilha no “Novo Recife”

18 de junho de 2014, às 13:52h por Samarone Lima

Meus planos para ontem, dia 17 de junho de 2014, era ir ao trabalho, encaminhar umas coisas, depois sair para casa, ver Bélgica x Argélia, tomar um banho, vestir minha camisa amarela e ver Brasil x México no bar Princesa Isabel, aqui no centro, já que o Papa Francisco já realizou seu primeiro milagre – Seu Azevedo, milagrosamente, comprou uma TV nova. Outro milagre – está pegando bem.

Mudou tudo quando passei no Princesa, às 13h, e já tinha vários amigos prontos para o jogo do Brasil. Iriam também assistir à primeira partida do dia. Mal sabia eu que esta leve parada também mudaria todo o dia. A gente nunca sabe de nada mesmo. As cartas vão sendo traçadas em outro baralho, invisível.

No intervalo, recebi um telefonema de Silvinha, minha mulher. Ela tinha ido para seu grupo de dança, para um ensaio, e foi informada que e a tropa de choque da PM havia entrado no Cais José Estelita, às 4h30 da manhã, onde dezenas de pessoas estavam acampadas, desde 21 de maio, num movimento pacífico contra a construção de 12 torres no local. O grupo que está à frente do projeto imobiliário foi batizado, ironicamente,  de “Novo Recife”. Todo mundo foi tirado na base do cacetete, bomba de gás lacrimogêneo, balas de borracha etc. Ela estava mesmo muito aflita. Muitos amigos nossos fazem parte deste movimento.

“Decidimos ir lá, Barba, para ver o que está acontecendo mesmo e dar apoio ao pessoal”.

“Então me espere, que vou com vocês”.

“Não sei se vai dar, porque já está quase todo mundo pronto para ir”.

Apressei o passo. Quando cheguei, ela estava a ponto de sair. Eu queria pelo menos tomar um banho, botar minha camisa da seleção e comer algo. As informações também eram de que a turma havia sido retirada, mas havia um movimento muito bonito do lado de fora, as pessoas apenas juntas, em solidariedade. Decidimos que ela iria na frente, de carona com as amigas.

“Tenha cuidado, fiquem sempre juntas. Chego já”, foram minhas orientações de ex-quase-futuro guerrilheiro aposentado.

Meia hora depois, quando liguei para saber como estava, ela me atendeu:

“Barba, por aqui está tudo tranquilo, todo mundo de mãos dadas, mas de madrugada foi terrível, foi uma violência enorme e …”

A ligação ficou repentinamente confusa, com barulhos, gritaria. Liguei no exato instante que a PM passou a atacar a galera que estava do lado de fora, de mãos dadas. A ligação caiu e fiquei com o coração na boca.

Sempre passo pelo Cais José Estelita nas minhas corridas, mas um carro seria mais rápido. Foi o que fiz. Peguei um táxi.

“O pau está comendo no Estelita”, disse o taxista.

Todos os acessos estavam fechados. Só consegui chegar ao Forte das Cinco Pontas. De lá, subi ao viaduto e segui em passos rápidos até o local da ocupação. No caminho, consegui finalmente falar com ela de novo pelo celular. O grupo estava de um lado, a PM do outro, e, provisoriamente, havia uma trégua na brutalidade.

Quando a encontrei, estava aflita e com raiva de tudo o que presenciara. Ela escreveu um texto irado em seu facebook (Silvinha Goes).

Resumido tudo: a PM chegou às 4h30 da manhã e deu cinco minutos para que os integrantes do movimento Ocupe Estelita deixassem o local. Desceu o sarrafo na galera, uma truculência que contrastava com tudo o que eu tinha lido nos jornais, no dia anterior – que havia uma mesa de negociações, que caminhava bem, com vários participantes, até do Consórcio que está à frente do projeto. Isso dito pelo próprio prefeito, Geraldo Júlio.

A notícia foi se espalhando, a mobilização cresceu durante o dia, e muita gente foi ao local, dar apoio, solidariedade – e se informar melhor sobre os feridos. Houve uma manifestação belíssima, com centenas de pessoas de mãos dadas, e quando estava tudo tranquilo, a tropa de choque simplesmente iniciou mais uma rodada de truculência.

Bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha, cassetete. Foi cada um correndo para um lado, tentando se safar. Minha companheira se escondeu atrás de uma marquise com as amigas, e uma bomba de gás caiu de cima, quase em sua cabeça. Começou a sentir o corpo todo ardendo. Teve sorte. Um rapaz gritou:

“Não respira! Não respira!”

Ela segurou a respiração e depois saiu dali. Ninguém do seu grupo foi atingido.

Cheguei logo após essa onda de brutalidade.

Estávamos pensando no que fazer, quando um grupo passou correndo. Resolvemos ficar. Nessas horas de correria acontecem grandes merdas.

Um grupo ficou numa área central, cheia de árvores. Estavam fazendo uma assembleia, para definir os rumos do movimento. Uma coisa tranquila. Não havia Black Blocs, ninguém quebrando nada, só gente conversando. A tropa de choque se alinhou do outro lado e começou de novo a atirar e soltar bombas. No fundo, pareciam se divertir com aquilo. Sempre achei que esse negócio de ser da “tropa de choque” envolve uma certa perversão, uma espécie de “posso tudo” quando vestem aquelas roupas, aqueles cassetetes fálicos gigantescos. É como uma escola de violência que leva a um degrau abaixo. Sem identificação, dar tapa em gente desarmada, jogar bombas, dar tiros, vira uma espécie de exercício do puro ódio.

Descer o sarrafo em uma multidão formada principalmente por jovens, a maior parte de classe média, espancar meninas, mulheres grávidas, como aconteceu ontem, faz parte desta escolinha de perversão, com a bênção do próprio Estado.

Todo mundo se espalhou, a confusão era pior porque as rotas de saída estavam todas fechadas. Aguardamos mais um bom tempo. Depois dessas ações violentas, surge um silêncio de expectativa. É como se todo mundo pensasse – qual a merda maior que os caras vão fazer? Sempre há vagas para mais.

Fizemos uma pequena assembleia. Houve um consenso quase geral que o fato político já existia, que a notícia da ação truculenta da PM seria repercutida nas mídias sociais, e que já era o momento de sairmos. Somente Cyro resolveu ficar. Dissemos para ele ter cuidado, demos água e uma toalha e voltamos devagar, mas ainda com medo de alguma truculência.

Na metade do caminho, vinha o ex-prefeito e agora deputado federal, João Paulo (PT). Agora ele é candidato ao senado. Outro dia, defendeu o projeto “Novo Recife”, que pretende encher aquela área de espigões.

“João Paulo!”, gritei.

Ele me acenou com um sorriso de candidato.

“Que bom que o senhor chegou, depois que todo mundo já apanhou!”, gritei.

Ele seguiu com uma assessora, creio, sua cara de candidato que nunca mais terá meu voto.

Me deu vontade de gritar outras coisas, que o projeto foi aprovado no apagar das luzes do ex-prefeito João da Costa, também do PT, indicado por ele, e que ele mora em um apartamento de luxo em uma das famosas “Torres Gêmeas”, construídas no método mais recifense possível – iniciamos a construção, a obra será embargada, conseguimos liminares e vamos construindo, até que a obra esteja pronta.

Mas deixei ele pra lá. Soube depois que os manifestantes deram um recado mais caprichado. E de pensar que ele, João Paulo, começou a crescer na política quando teve uma costela quebrada numa desocupação pela PM, há muitos anos, quando ele era um jovem magricela, líder operário,  e o PT ainda não tinha virado outra coisa.

Chegamos no bar Princesa no início do segundo tempo. Todo mundo estava bem indignado, alguns nem quiseram ver o jogo. A seleção também estava outra porcaria.

Após a partida, o NE TV, da Rede Globo, exibiu uma matéria escandalosamente tendenciosa, ofensiva a qualquer pessoa razoavelmente informada. Era quase como se aquela galera fosse muito violenta e os fatos, meio que inevitáveis. Algumas pessoas xingaram a matéria, defronte à TV. As supostas “armas”, exibidas pela polícia, eram apetrechos que os integrantes do movimento usavam para capinar o mato, para construir espaços comuns, tinha até uma pequena biblioteca funcionando.

Hoje de manhã, Silvinha contou tudo a Dona Cremilda, que vem uma vez por semana fazer uma faxina aqui em casa. Ela escutou atentamente, fez um silêncio e depois completou:

“É, minha filha, nesse país, quem fala mais alto é o dinheiro”.

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