Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Pequenos fascismos

25 de agosto de 2015, às 10:58h por Samarone Lima

O taxista pacato e os jovens ao mar

Outro dia chamei, por telefone, um taxista que trabalha aqui próximo ao prédio onde vivo. É um sujeito pacato, de fala mansa, com as habituais reclamações de todo taxista que se preze. Deve ter mais de sessenta anos, mas tem um carro novinho e sempre fala com orgulho da boa casa que tem.

No dia anterior, por conta de um clássico estadual, torcidas organizadas promveram brigas, arrastões, correria, quebra-quebra, nas ruas do Recife.

Era uma manhã bem bonita, não lembro para onde iria, o assunto da briga surgiu, fomos conversando. Lá pelas tantas, ele saiu com esta:

“O que tinha que fazer era juntar tudinho, botar num navio, levar para o alto mar e jogar lá. Num instante resolvia”.

Fui tomando de surpresa. Onde estava aquele homem pacato, de conversa mansa, que falava dos netos quase puxando a carteira para mostrar as fotos?

Pensei em dizer que esta idéia já fora adotada aqui bem próximo, na Argentina, para se livrar de opositores políticos, no final da década de 1970, que o saldo foi de aproximadamente trinta mil desaparecidos, que gerou um grande trauma nacional, que uma geração de jovens foi liquidada, que isso era uma atitude fascista, insana, mas preferi apenas escutar.

É isso o que ele pensa mesmo.

Pior que isso é saber que ideias desse tipo estão se tornando muito mais comuns do que imaginamos.

“Eu amarraria no poste”

Estava na avenida Conde da Boa Vista, a mais movimentada, feia e suja do centro do Recife.

Tinha ido pagar alguma conta ou ver o saldo do banco, quando ocorreu uma dessas confusões de rua. Uma senhora magra, muito disposta, com uma cara agitadíssima, ficou furiosa porque o motorista do ônibus se recusou a abrir a porta para que entrasse.

Surgiu uma confusão. Ela saiu andando, dizendo palavrões, enquanto alguns ambulantes atiçavam. Creio que era uma pessoa conhecida da região, porque a chamavam pelo nome. Não lembro seu nome. Ela andava agitada e falava sozinha coisas desconexas.

Mais adiante, encontrou uma pedra e ficou ameaçando jogar no ônibus.

“Vai, tia, bota pra torar”, gritou um camelô.

O ônibus saiu, ela jogou a pedra, que era pequena. Bateu na lateral do ônibus, não aconteceu nada, e a rotina da avenida voltou ao normal.

Nesse instante, passa um sujeito por mim, um jovem forte, bem arrumado, cabelo bem baixo, máquina um, sem barba. Ele só diz uma frase:

“Se essa pedra batesse em mim, ela já estava amarrada num poste”.

“Esses Direiros Humanos…”

Estou num clube de classe média, onde nado três vezes por semana. Há um lugar para descansar, com TV. À notinha, os programas sobre crimes são os campeões de audiência.

Uma reportagem mostra, com tons dramáticos, o caso de uma bela jovem que foi estuprada e morta pelo padastro, com requintes de crueldade, num canavial na região metropolitana do Recife. As fotos dela, com seus 18 ou 19 anos, eram exibidas o tempo todo, enquanto surgia, intercalando, a imagem do assassino, que acabara de ser preso.

Um homem de uns 35 anos, que acaba de nadar, está vendo a reportagem. Sempre o vejo por lá.  Vê a matéria e comenta:

“É foda esses Direitos Humanos…”

Penso em perguntar o que os “Direitos Humanos” têm a ver com um crime brutal como esse, mas ele se antecipa.

“Já devem estar lá, protegendo o assassino. Cadê que vão na casa da família da moça que foi estuprada?”

Nem um comentário sobre o machismo, a violência crescente contra as mulheres, as violações constantes. A inversão de valores era tamanha, que os culpados eram justamente os que lutam contra toda esta situação.

Eu poderia conversar com ele longamente sobre o papel dos movimentos de Direitos Humanos, seus objetivos, já que pesquisei e escrevi muito sobre isso. Poderia falar que naquele exato momento algum grupo de Direitos Humanos estaria lutando para que mulheres ameaçadas  de violência fossem protegidas, que a Lei Maria da Penha é resultado da mobilização de milhares dessas pessoas, que..

Mas quem sou eu, para me meter numa discussão a cada rasgo de fascismo que surge no meu cotidiano?

Peguei minha toalha e fui tomar um banho, antes de voltar para casa, chutando minhas pedrinhas.

Soube que na última passeata contra Dilma, uma senhora fez um cartaz, reclamando por não terem matado todos os que foram presos, na época da Ditadura.

Por qualquer bobagem, fala-se em pena de morte. Quando escuto um sujeito invoca-la, penso em perguntar:

“Para quem?’

Por aqui, florescem pequenos e incansáveis fascismos verbais.

Às vezes, eles crescem, e se tornam físicos.

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Um forró para Arraes

13 de agosto de 2015, às 14:32h por Samarone Lima

Texto publicado originalmente em 14 de agosto de 2005. Republico, após dez anos, em homenagem a este grande homem brasileiro.

*

Não sei quem me deu a notícia, ou se foi a própria notícia que se deu. Ontem, no final da manhã, Arraes morreu. Me perdoem, mas quando você diz “Arraes morreu”, todos sabem o que aconteceu. Mais que isso, o que significa, neste momento da política nacional em que tudo está perplexo e confuso.

Miguel Arraes de Alencar, 88 anos, ex-prefeito do Recife, três vezes governador de Pernambuco e no terceiro cargo de deputado federal, pelo PSB, sai da cena política e passa a habitar o nosso imaginário, na forma indelével da lembrança.

Não vou aqui fazer a louvação do que merece ser louvado. A história de Arraes foi sendo escrita com um cinzel, nas pedras da vida. Ele foi um homem, uma raça, do início ao fim. É difícil uma pessoa ser tão querida pelo povo, essa gente simples, os menos favorecidos, e ao mesmo tempo ser tão respeitada pelos adversários políticos.

Como sempre, prefiro buscar no cotidiano as marcas e os contornos da trajetória humana em tudo o que a vida leva e traz – alegrias e tristezas, dores e conquistas, vitórias, empates, derrotas.

Ontem à noite, estávamos aqui nesta esquina de seu Vital, no Poço da Panela, quando aconteceu, por obra de nossas vidas e memórias, uma singela homenagem ao velho Arraes.

Estávamos bebendo umas cervejas, logo após o jogo do Santinha, quando nosso Chiló decidiu buscar a sanfona. Começamos então a cantar e dançar várias músicas, até que surgiu das almas a canção que atravessou tantos corações:

“O povo quer/Aquele que fez mais
Arraes/Arraes/Arraes
Em 86 só vai dar Arraes”.

Cantamos vária vezes esta pequena e modestíssima canção, e sempre que escuto os relatos sobre aquele momento histórico de Pernambuco, tenho a sensação esquisita de ter chegado ao recife atrasado em um ano. Também sou do Crato, como Arraes, mas só cheguei aqui em 1987, vindo de Fortaleza.

Ao escutar a música, Emília chorou discretamente. Disse que só viu o pai chorar duas vezes – uma delas foi durante o guia eleitoral de Arraes, então candidato a governador, em 1986. Depois Emília parou de ser discreta e chorou mesmo pra valer, quando cantamos a música-tema daquela famosa campanha:

“Olha nos olhos do povo e vai notando
um brilho novo está voltando”.

Sim, certos momentos na vida de um povo são mesmo para arrancar lágrimas. Lá pelas tantas, embevecidos pelo clima e com a ajuda das muitas cervejas servidas por seu Vital, decidimos ir ao Palácio do Campo das Princesas, fazer uma homenagem musical. De repente, estávamos todos ali, defronte ao Palácio, com sanfona, zabumba e triângulo, dispostos a cantar “Arraes/Arraes/em 86 só vai dar Arraes”. Seria, creio, emocionante. Mas o clima estava muito sério, o povão, a massa, ainda não tinha chegado. Estavam somente políticos, jornalistas e familiares. E aos poucos, fomos minguando nossa homenagem. Não era o momento, pensamos.

Na verdade, a homenagem já tinha sido feita, aqui na esquina aqui de Vital. Enquanto cantávamos, passei pela minha memória este momento que não vivi, a campanha de 1986, como um estrangeiro que chega a uma cidade e a reconhece pelo coração, como se fosse uma cidade que já viveu, em algum tempo nunca explicável. Senti minha presença no Recife, com 17 anos, distribuindo panfletos e cantando com o povo nas ruas que eu ainda não ousara desvendar, numa cidade que eu ainda não tinha amado. Tive então uma memória retroativa de um passado que me dei de presente, apesar de não tê-lo vivido como queria.

Vi Emília dançando, cantando, se emocionando, e em todos os olhos de uma gente mais moça, havia uma espécie de agradecimento ao velho Arraes, por tudo o que foi, é, e será. Lembrei que Edinaldo Miranda, seu pai, também foi um exilado para sobreviver. À saída do nosso festivo grupo, seu Vital, que nunca fala de política, disse uma curta frase:

“Em todas as eleições que ele concorreu, votei nele”.

Entrei no salão, onde estava o corpo já sem vida, dei meu tímido adeus, o “segue em paz, meu velho”, e voltamos, em silêncio.

Estou aqui com os jornais de hoje, e não há como sentir uma certa emoção ao ler um trecho do seu discurso de posse, no segundo mandato como governador de Pernambuco, em março de 1987, publicado no suplemento do Diário de Pernambuco:

“Sou um homem marcado, mas esta marca temerária entre as cinzas das estrelas há de um dia se apagar”. É a citação de um poema de Joaquim Cardoso (Canto do Homem Marcado, de 1952).

Comentei a frase com minha tia Flocely, há pouco, ao telefone. Ela está com 78 anos, os cabelos branquinhos, e só não vai ao enterro por problemas de saúde.

“E se apagou… ou meu Deus”, disse ela, entre lágrimas.

Para Arraes, na memória do coração.

Estuário: crônicas do Recife

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Sobre gatos e remédios

12 de agosto de 2015, às 14:36h por Samarone Lima

Foi na semana passada. Choviscava, eu estava no ponto de ônibus da rua do Riachuelo, esperando um ônibus para ir ao Arruda. Compraria meu ingresso para ver o retorno de Grafite ao Santa, contra o Botafogo, e ainda tomaria duas ou três cervejas com os amigos Esequias e Gerrá. Inácio pendurou as chuteiras. Só bebe em noivados. Mas hoje em dia, quem tem tempo de ficar noivo?

Várias pessoas esperavam ônibus para a Zona Norte.

No Recife, como se sabe, a parada de ônibus é apenas uma referência simbólica, uma esperança geográfica. O ônibus pode parar exatamente onde você está, ou a vinte, trinta, cinquenta metros. Isso se o motorista não aproveitar o embalo e passar pelo outro lado da faixa, a famosa “queimada”, que chega dá uma dor na gente.

Uma senhora ao meu lado se desequilibrou um pouco, ajudei, segurando-a pelo ombro.

“São os remédios, meu filho”, disse ela, com um sorrisinho tímido de vovó solitária.

Acho que bastou isso – um toque no ombro – para que ela começasse a falar do motivo dos remédios: seus gatos.

“O branquinho era tão lindinho, manoso, sabe? Eu chegava em casa, ele vinha já se deitando aos meus pés. Mas tem tanta gente ruim nesse mundo…”

Por alguns momentos, ela deixou seu ônibus de lado, deixei o meu também.

Ela já perdeu dois gatinhos por causa de uma coisa mais comum do que imaginamos – o envenenamento de animais.

“Deusinha. Eu a chamava de Deusinha”.

“É por isso que estou tomando remédio controlado, meu filho. É tanta maldade, até com os bichinhos…”

Depois ela falou de outro gatinho, amarronzado, mas disse seu nome tão baixo, que não escutei. Era no diminutivo. Muita coisa importante nesse mundo vem no diminutivo.

Ela mexeu na bolsa. Pensei que iria tirar um retrato dos gatos, mas era a receita dos remédios.

“Por isso estou me desequilibrando”.

Mas uma centelha acendeu, quando falou de outros dois gatinhos, que chegaram recentemente.

“Richard e Nenem. Mas não deixo eles saírem, porque dão veneno. Pra que isso, meu Deus, matar bichinhos inocentes que só dão alegria…”

Ela disse que iria pegar o Alto do Pascoal ou Alto Santa Theresinha, não lembro direito, mas fiquei de olho. Voltou a falar dos remédios. Era visível que não gostava, que lhe causava alguns problemas, como o desequilíbrio, sonolência, mas era como se fosse algo importante, para aguentar o tranco, a malvadeza das pessoas.

Havia uma imensa solidão, por trás daqueles olhos.

Depois de um tempo, avistei o ônibus dela, dei a mão, ela disse “muito obrigada, meu filho” e subiu os degraus com dificuldade.

Enquanto escrevo as lembranças deste breve encontro, olho para o lado esquerdo e Azeitona, nossa gatinha pretíssima e manhosa, dorme serenamente.

Mais tarde vai acordar e mordiscar meus papéis, pedindo atenção.

Que bom.

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É possível ensinar alguém a escrever?

4 de agosto de 2015, às 10:53h por Samarone Lima

Sinceramente, não.

Acho que escrever é um processo único, pessoal, que o sujeito constrói a vida inteira.

Mas acho que qualquer pessoa pode, sim, melhorar o que escreve. E pode ter ajuda de alguém de fora que já, digamos, tem uma estrada percorrida e uma boa milhagem de páginas escritas, rasgadas, esquecidas, renovadas, concretizadas.

Falo no meu caso. Já tenho alguns livros publicados (oito, no total).

Os melhores foram, de longe, os que tive apoio externo para o cansativo trabalho de ler com cuidado, dar sugestões que tivessem fundamento, sugerir cortes etc.

A lista aqui seria enorme: Gustavo de Castro, Cremilda Medina, Isa Pessôa, Homero Fonseca, Flávia Suassuna, Inácio França, Mário Hélio, Ronaldo Correia de Brito, Arsênio Meira Jr, Karla Melo e, claro, Silvia Leite.

Devo ter esquecido injustamente vários nomes, porque tenho recebido ajudas generosas desde o meu primeiro livro (“Zé”), publicado em 1998, ao mais recente (“O aquário desenterrado”), publicado em 2013. O próximo, que deve sair em outubro, foi lido e relido no mínimo três vezes, em um café no Paço Alfândega.

Nos últimos 15 anos de escrita, já escutei frases do tipo:

“Se você publicar este poema, favor não me dirigir mais a palavra”;

“Eu cortaria este capítulo inteiro. É frágil e forçado”;

“Aqui está faltando um capítulo de ligação com o próximo. Você topa escrever?”;

“Se você não tem tempo para reescrever todo o original, podemos contratar um gost-writer”;

“Esse título é bem horroroso”.

Bem, os exemplos seriam muitos. Dos mais clássicos, educadíssimos, aos que chuta logo a canela (e não trazem Gelol).

Para meus dois livros de poemas, passei infinitas e maravilhosas horas cotejando palavra por palavra, verso por verso, título por título. Um troço de esgotar qualquer um.

Mas sou grato a todo amigo, simpatizante, editor, revisor, por cada minuto vivido neste processo.

Tenho uma mistura de sorte com gente e abertura para as críticas. Isso facilita muito a vida. Malhem pra valer nos meus originais. Sem pena. Sem alisar. O que não suporto é o texto ruim, publicado na internet, em jornais, revistas, livros.

Então, informo aos meus diletos leitores que minha “Oficina da Palavra”, iniciada no coletivo de jornalistas independentes www.marcozero.org vai continuar a partir da próxima quinta-feira, dia seis de agosto, às 19h.

Tivemos a turma inicial, em julho, que se embrenhou pelas leituras em sala, discussões, primeiros textos, correções, sugestões de leitura etc.

O objetivo essencial é duplo – ler e escrever mais e melhor.

Como parece que os cobaias gostaram (e vão prosseguir), abri mais algumas vagas.

Os encontros semanais acontecerão no espaço cultural CineSeu Luiz, do amigo Lula Terra.

Rua Alfredo Lisboa, 507, sala 202, Bairro do Recife.

Quem estiver interessado, mande email para:

oficinadapalavra2015@gmail.com

ou para meu email particular:

samalima@gmail.com

Até lá.

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Memória da alegria – Cinco anos na estrada com Ariano

23 de julho de 2015, às 21:21h por Samarone Lima

“O que foi marcado de estrelas – tudo aqulio que, depois de ser salvo e assinalado, será para sempre e exclusivamente seu”.

(Ariano Suassuna. A Pedra do Reino”)

**

1 -  Garanhus – A última aula

Estamos no dia 18 de julho de 204, uma sexta-feira. Ariano chegou com sua trupe de artistas para a Aula-Espetáculo “Tributo a Capiba”, no Festival de Inverno. A duas horas do início, descobrimos algo importante. Adriana Victor, gerente de gestão da secretaria de assessoria ao governador, que sempre fazia a abertura e o convidava para subir ao palco, tinha saído alguns dias antes para novos desafios profissionais. E agora?

Fui encarregado de realizar este improviso.

Fui ao hotel, tomei um banho, troquei de roupa e escrevi algumas coisas, um balanço do número de aulas, coisas desse tipo. Costumo dizer que sou um tímido raçudo, mas em certas ocasiões, a demanda é muito grande. Quando cheguei ao teatro, estava lotado, com gente do lado de fora. Respirei fundo, fiz a abertura, Ariano já estava na coxia. Entrou e foi ovacionado. Cheguei perto, disse um “boa aula, professor” e desci para a primeira fila. Por sorte tinha levado uma pequena câmera, e gravei toda a aula, que foi monumental. Aos 87 anos, ele passou mais de duas horas no palco, levando o público ao riso, à emoção, ao espanto.

Encerrou falando sobre a raça humana. É o texto que aparece nesta postagem. É que ele tinha falado sobre a questão racial no Brasil. Sempre que podia, citava a beleza plástica e criativa de um de seus bailarinos prediletos, o Mestre Meia-Noite, que é negro. Disse que falava em raça nega mais por uma questão de comunicação, mas tinha a plena convicção de que só existe uma raça – a raça humana.

Foi ovacionado. Encerrou pedindo desculpas pelo desarrumado das conversas e disse um “até a próxima vez”.

Mas foi a última. A aula de número 166, desde 2007. Junto com o Grupo Arraial, Ariano apresentou diferentes espetáculos em 98 municípios do estado.

Compartilho um pequeno trecho desta filmagem caseira, deste último encontro dele com o grande público. Após sua morte, alguns canais de TV me perguntaram se tinha gravado algo, mas preferi guardar em silêncio.

**

2 – Recife, julho de 2008.

Essas geometrias do acaso me fascinam.

Em julho de 2008, a então assessora de imprensa da Secretaria Especial de Cultura, Diana Moura, convidou vários jornalistas para acompanharem Ariano e sua trupe de artistas (músicos, bailarinos e cantores) em uma longa viagem pelo sertão de Pernambuco. O objetivo era mostrar o projeto das Aulas-Espetáculo, que o secretário estava levando para todo o estado.

“É um esquema simples, de viajar com o grupo e ficar no mesmo hotel”, explicou Diana.

Como adoro uma aventura, aceitei na hora. Propus uma matéria para a revista Continente e nem imaginava que estava fazendo uma mudança de itinerário na minha própria vida. Fui o único jornalista nesta empreitada.

Assisti à primeira aula em Araripina, em nove de julho de 2008. Fiquei impressionado com a beleza do espetáculo “Nau”. Entre uma música e outra Ariano falava sobre temas os mais diversos, levando a multidão (tinha mais de 1.200 pessoas na quadra da Fafopa) ao riso, à reflexão, à alegria. Me impressionou também a vitalidade dele, com 82 anos.

Ao final, o fenômeno das fotos e autógrafos. Para sair do palco e chegar ao carro, Ariano demorava uns 40 minutos. Era cercado por uma multidão ávida. Adolescentes, jovens, velhos, policiais militares, pipoqueiros, todos queriam guardar uma lembrança.

Em oito dias, assisti aulas em Triunfo, São José do Belmonte e Quixaba. Percorremos, ao final de oito dias, cerca de 1.500 quilômetros.

Como eu teria tempo para ver outras aulas, preferi não molestar Ariano com entrevistas. Uma ou duas conversas rápidas. Lembro que na segunda, ele escreveu um trecho de um poema em que fala do seu “espelho de cristal”, uma referência à sua arte. Tenho comigo, esta relíquia.

Mas já naqueles primeiros encontros, havia algo em Ariano que chamava atenção.

Aliás, várias coisas.

Uma absoluta dignidade, uma simplicidade livre de complicações. Um dos maiores escritores do país, reverenciado em qualquer feira literária que participasse, ovacionado nos maiores teatros, andava pelo interior de Pernambuco acompanhado de uma humildade que parecia ser sua própria sombra.

Uma das poucas exigências que fez, ao iniciar as viagens, foi a de que o grupo de artistas ficasse hospedado sempre no mesmo hotel que ele. E um copo de água de coco na mesa, durante as aulas. Nos demais, uma gentileza no trato, uma elegância nas conversas, a animação com a vida. Ou, uma frase que gostava de dizer:

“Sou um velho animoso”.

Acompanhei várias aulas e acalentei o sonho de escrever um livro sobre as Aulas-Espetáculo. Para isso, comecei a acompanhar a trupe de Ariano. De alguma forma misteriosa, estava me embrenhando em seu mundo, sua mitologia. Me aproximava com cuidado, com uma certa timidez, e não sabia que a vida preparava uma surpresa – dessas que mudam roteiros para sempre.

3 – Espaço Pasárgada. Um convite improvável

Foi em julho de 2009. Um telefonema para ir ao Espaço Pasárgada com certa urgência. Como na época eu era coordenador de Literatura da Fundarpe e tinha realizado um sarau na sexta-feira à noite, pensei que alguma coisa dera errado. Os poetas, como se sabe, bebem pacas.

Fui informado por Adriana Victor (gerente de gestão), que Diana Moura tinha sido convidada para retornar ao Jornal do Commercio, e a vaga dela ficara aberta. que tinham sugerido meu nome para seu lugar. Fiquei aliviado porque não era nenhum problema com o espaço, mas ainda não tinha entendido se era uma sondagem ou uma ótima notícia.

Em seguida, ela disse que Ariano tinha aprovado.

Mesmo sendo jornalista de ofício, às vezes sou lentíssimo para processar informações. Ela foi mais objetiva e disse que dentro de dois dias, quando meu nome saísse no Diário Oficial, começaria o trabalho.

Saí de lá sem entender direito o que estava acontecendo. Fui falar com Luciana Azevedo, então presidente da Fundarpe. Eu precisava pedir demissão do cargo. Ela ficou eufórica, me deu abraços efusivos e antecipou que seria uma experiência de vida inesquecível. A ficha começou a cair.

Aos poucos fui me adaptando à nova rotina. – era receber as dezenas de pedidos mensais de entrevistas, documentários, teses de mestrado, doutorado, tudo que envolvesse o mundo de Ariano, das Aulas-Espetáculo etc.

Fora isso, preparar e enviar para os municípios, o material de divulgação das aulas no interior do estado. E o melhor – acompanhar todas as entrevistas e aulas. Acho que o nome disso é sorte, mas deve ter outro nome melhor.

Adriana Victor e Josafá Mota (chefe de gabinete) foram me dando orientações sobre como encaminhar as coisas com Ariano, levando em conta sua agenda, que era muito movimentada.

Eu imprimia as demandas, marcava um dia e despachávamos. Havia o pequeno ritual de ligar antes, dizer que era Samarone, da Secretaria, Ariano vinha, atendia e agendávamos. Eu só o chamava de professor, ele me chamava de Sama.

Ariano, na verdade, já não queria mais dar tantas entrevistas. Sua agenda nacional era repleta de convites, viagens, e ele também percorria o estado, precisava de tempo para terminar seu derradeiro romance, “O jumento sedutor”, um projeto de muitos anos.

O despacho dos pedidos, portanto, era rápido e simples. Aceitava uma ou outra coisa, que fizesse sentido. Aceitava, por exemplo, dar uma longa entrevista à revista Ocas, que é feita por uma ONG e vendida por moradores de rua em São Paulo.

Depois dos temas burocráticos, bastava perguntar qual o livro que ele estava lendo, que Ariano abria imediatamente um cenário literário com as palavras. Falava de Tolstói com rara felicidade. Era capaz de citar trechos inteiros dos seus livros prediletos.

Graças à influência dele, comecei a ler Tolstói e outros autores que não tinham entrado na minha biblioteca. Mas a convivência acabava se espalhando por outros aspectos da vida. Ariano era um homem da palavra, mas ele influenciava muito pelos pequenos e silenciosos gestos.

E a cada viagem (quando podia conviver um pouco mais com ele), surgia aquele homem simples, que parecia irradiar uma onda energética de mansidão. Um respeito perpétuo e irrevogável pelo outro, de qualquer classe social. Uma gentileza nos mínimos gestos, com as pessoas mais simples. Jamais recusava um pedido de foto, um autógrafo (sempre com o nome da pessoa, um texto e a data, com enorme paciência).

Ao avistar os artistas de rua se apresentando em algum semáforo, imediatamente dizia:

“Meus amigos artistas”.

Então tirava uma cédula de vinte, às vezes cinquenta reais.

Com o passar dos anos, Ariano parecia cada vez mais feliz, realizado. Vivia num estado de espírito elevado, como se estivesse cheio de júbilo. Uma mansidão  animosa. Um homem que gostava de rir e de fazer os outros rirem. E o profundo amor por sua mulher, Zélia Suassuna, era exaltado em cada espetáculo que ela estava.

“Eu namoro com esta mulher desde vinte de agosto de 1947. Não acabou ainda e não vai acabar nunca”, dizia ele sempre. E acrescentava – “Nem com a morte”.

Acredito nisso.

 

4 – Hospital Português, 23 de julho de 2014.

Era já tardinha, quando minha amiga Bebeth, que é médica e sobrinha de Ariano, passou por mim e disse:

“Acabou de morrer, Sama . Um infarto. Estava segurando na mão dele”.

Não tive tempo de assimilar a informação. Meu celular começou a tocar alucinadamente. Jornalistas de todo o Brasil queriam a confirmação da notícia, que acabara de ser anunciada na Globo News. Desde o dia 21, quando Ariano teve um AVC hemorrágico, todos esperavam ansiosos por alguma notícia boa. Mas a Onça Caetana, como ele costumava dizer, passou.

São essas coisas estranhas da vida. Nunca imaginei que um dia estaria num hospital, encarregado de dar a notícia da morte de um dos maiores escritores da língua portuguesa, um dos maiores homens que já conheci.

“Sim, ele morreu. Infarto. Agora há pouco”.

Eu parecia um autômato. Repeti a frase inúmeras vezes.

Depois desci para o saguão do hospital, onde um batalhão de repórteres, cinegrafistas, fotógrafos, esperavam a confirmação. Depois voltei para junto dos familiares e amigos. O celular continuou a tocar por mais de duas horas.

Quando parei, procurei um café e respirei. Tive uma nítida impressão que naquele 23 de julho de 2014, com a Morte de Ariano Suassuna, algo estava terminando. Eu não sabia ainda o que era.

 

5 – Recife, 23 de julho de 2015

Ainda não sei, um ano depois.

Mas deixo o jornalista descansando e falo sobre o que sinto.

É sempre uma memória da alegria, a de ter participado durante cinco anos de uma aventura literária, artística, humana, percorrendo todo o estado, ao lado de um dos grandes homens da humanidade.

No mural que tenho com meus antepassados, aqui em casa, há várias molduras.

Numa delas, estou com Ariano, em alguma das dezenas de cidades que estivemos. Ele, com aquele sorriso terno de sempre. Talvez, por não ter conhecido meus avós paternos, ele tenha ocupado algum espaço ancestral.

No meu coração, há saudade e gratidão – e uma imensa e irrevogável alegria.

**

Texto publicado também (com imagens) no site www.marcozero.org

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