Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Como uma bailarina cega

26 de maio de 2016, às 12:56h por Samarone Lima

A conheci ano passado, e se dizia cega. E era bailarina. E por artes do destino, ficou hospedada em casa, a casa onde eu vivia.

Se chamava Jô, e sempre lembro dela.

Chegou com sua mochila, disse que precisava apenas de algumas informações. Fez sua exploração inicial, construindo mentalmente um espaço novo em sua cabeça. Sala, quartos, banheiro, cozinha. E rapidamente se harmonizou com as paredes, os poucos móveis e os dois gatos, Azeitona e Armorial.

E durante alguns dias, desfrutamos de sua cegueira. Andava naturalmente, achava o banheiro com facilidade e sempre estava conversando e rindo.

Ela disse que foi perdendo a visão aos poucos. Veio para o Recife fazer tratamento. Passou quase um ano fazendo exames, e, ao final, foi informada que seu problema não tinha cura.

“Poxa, um ano para chegar a uma conclusão ridícula como essa?”, disse ao médico.

A visão foi desaparecendo aos poucos. Talvez por isso ela tenha ficado com algo diferente, que a marcava. Sempre que falava com alguém, olhava diretamente nos olhos. Parecia, de fato, ver tudo. Mas era cega.

“Já pedi parada pensando que era o ônibus, mas era o carro do lixo”, disse, sorrindo e tomando um vinho.

Ela era dessas mulheres de riso solto, livre.

Chegava a conversar com aqueles manequins, das lojas de roupa, pedindo informações. Cansou de tentar cortar coisas com a faca ao contrário. E de levar o garfo à boca sem ter nada nele.

“Eu dava mais gafe quando tinha baixa visão, do que agora”.

Na parada de ônibus, pediu informações três vezes a um homem alto, imóvel que nada respondia.

“Senhor, quando vier o 59 o senhor me avisa?”, insistiu.

Depois de se irritar, resolveu tocá-lo e viu que se tratava de um poste.

Certa vez, numa viagem de avião, começou uma conversa maravilhosa com um rapaz. Acabaram namorando durante o vôo. Ele jamais desconfiou que ela era cega. Depois que cada um foi para o seu lado, ele passou a enviar fotos. Ela respondia apenas “maravilhosa!”; “coisa linda!”.

Nas noites regadas a vinho, Jô contava suas histórias e ríamos sem trégua. Eram cenas tão improváveis, contadas com tanta alegria, que enchiam a sala de felicidade. Até os gatos paravam tudo e ficavam prestando atenção.

Chegou a namorar um rapaz durante três meses, e ele não percebeu que ela era cega. No restaurante, fingia que estava lendo o cardápio. Ele pedia uma cerveja, ela pedia um refrigerante. Sempre algo diferente, para que a falsa leitura do cardápio funcionasse. Se a chamasse para dançar, a desculpa era que não sabia. Sem a noção de espaço, nem pensar.

Até que chegou o dia e abriu o jogo.

“Alex, preciso te contar uma coisa e acho que você não vai seguir comigo”.

Ele ficou num silencio tenso.

“Você namorou durante três meses com uma mulher cega”.

O silêncio permaneceu.

“Neste tempo, você não conseguiu me ver”.

“Achei que você era estranha”.

“Eu sou cega!”

Ao final da conversa (e de tudo) ele achou que ela estava mentindo. E foi embora.

Uma vez foi a um piquenique com amigos, para uma praia distante. Lá pelas tantas, se afastou de todo mundo e foi para uma duna, e ficou olhando para o mar. Permaneceu com o olhar fixo em um ponto da praia, sem saber que um homem estava lá, sozinhho, tomando banho. Depois de meia hora, sua esposa chegou.

“Minha filha, dá para você parar de ficar paquerando com meu marido?”, disse a mulher, bastante irritada.

Jô, que de besta não tinha nada, respondeu na lata:

“Ô minha filha, a senhora acha que eu tenho coragem de namorar um cafuçu desse? Não tinha coisa melhor não?”.

Não esperou resposta:

“Aproveite e suma daqui com seu cafuçu”.

A mulher deu meia volta, irritada, e só depois ficou sabendo que a moça que estava na duna era cega.

Jô era expansiva, alegre, despojada. Não é a toa que seguiu dançando pela vida. A única coisa que a deixava desorientada era quando chovia. Ela perdia uma espécie de sensor, que a chuva apagava.

“É que eu confundo água com lágrima”. 

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Cadernetas

16 de maio de 2016, às 9:33h por Samarone Lima

Vivo anotando tudo. Deve ter um nome para isso. Se bobear, podem até já ter batizado o negócio como “Síndrome” de alguma coisa. “Sindrome de Bic”. Ou “Síndrome Faber-Castel”.  Tenho centenas de cadernetas.

Peguei uma do ano passado. Vamos ver o que andei anotando. A única metodologia é citar o autor da frase ou do texto.  Quando não tem fonte, é porque foi coisa da minha cabeça. Chamo de Pensamentos Vagos. De vez em quando, sai cada maluquice…

“Em grego, harmonia significa precisamente “junção das partes”". (Junito de Souza Brandão, Mitologia, volume II).

“O cansaço dos pés que ainda vão andar” (Jorge de Lima. “A Invenção de Orfeu”).

“18h. Caminhada do Mercado da Madalena até a rua da Aurora. Pausa apenas para uma sopa. Cansaço e certa tristeza. Mas o que a vida toma, a mesma vida dá”.

“Na vida, nunca se amadurece” (Keith Richards).

“A luta de classes do capitalismo “globalizado” se torna a luta entre os países ricos e as agências reguladoras de um lado e os países emergentes e pobres do outro” (J.C. Marçal, em seu blog www.arsdiluvian.blogspot.com).

Para poema: “tranças no coração”.

“Nasci para a escrita: antes dela, havia apenas um jogo de espelhos; desde o meu primeiro romance, soube que uma criança se introduzia no palácio dos espelhos, considerando o desejo de escrever envolvendo uma recusa de viver, e resumindo: em suma, escrevi para meu prazer”. (Sarte, in As Palavras – citado por Paulo Roberto Medeiros, em “Papéis de Psicanálise e Cultura”, volume 1).

“Vi que isso de gosto de narrar por escrito é caruru que brota entre paralelepípedos, e que as crateras da arte sempre podem subir fogo” (Guimarães Rosa).

“O porvir é algo a ser encontrado nas vísceras do presente”. (Paulo Roberto Medeiros, pagina 201).

“Amor vem de amor. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina”. (Guimarães Rosa. Grande Sertão Veredas).

“A beleza me toca, mas não me assusta tanto como antes”.

“Eu era uma católica – de IBGE, mas era. As freiras me descatolizaram”. (De uma amiga, após trabalhar num colégio de freiras).

“Distração fingida”. (Clarice Lispector).

“Amar, para a Psicanálise, equivale ao mesmo fato que consiste em alguém dar o que não tem a quem não sabe o que quer”. (Paulo Roberto Medeiros).

“Talvez por isso exista o provérbio popular que diz que o amor é cego”. (Ibdem).

Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins: Diadorim.

“O olho de uma pessoa brilha, quando ela vai fazer mal a outra pessoa”. (De uma moça, num café).

“O livro eu não li todo, mas a caixa dele é bem boazinha…” (de um amigo, comentando sobre meu primeiro livro de poesias, que vinha dentro de uma caixa).

Estou no ônibus e vou lendo o jornal. Um senhor senta ao meu lado e fica um tempo em silêncio. Lá pelas tantas, muito timidamente, ele me pergunta se posso lhe ceder o caderno de empregos. Entrego imediatamente e ele me agradece, com uma enorme humildade. “É que a situação tá dificil, sabe…” comenta ele. Eu, que julgava ter problemas, me achei um felizardo.

“Nenhum homem é feliz até morrer”. (Última fala do coro de Édipo).

Nos momentos mais tensos, ele assumia uma posição de indiferença presa, como ficam os gatos quando estão defecando. (Pensamentos vagos)

Temperemos os abismos, pois. (ibdem)

Há vagas para metamorfoseados e mamutes. (ibdem)

“Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o, faze-o teu”. (Goethe, citado por Freud em “Totem e Tabu”).

“Hoje dei um drible no tal de Samarone, aquele bicho duro. Ele ficou sozinho, impedido, e segui no lance da felicidade”.

Bar de Giba. Aguardo a hora para ir à missa de sétimo dia do meu grande amigo. Essas coisas estranhas que a pessoa vive. A Igreja do Espinheiro fica defronte a um bar. Logo depois, encontro o amigo Inácio. O padre fala coisas sem sentido. Diz que não entendemos o mistério. Quem disse a ele que não entendemos o mistério? Acho sempre uma estupidez uma pessoa dizer que a outra não entende algo. Só a dor do outro é que eu acho que a gente não entende nunca. Talvez nem a nossa a gente entenda.

“O Elefante Azul é meu amigo” (Olga Ferrário, referindo-se a um poema meu. Isso valeu muito mais do que qualquer prêmio literário).

Amanhã escrevo mais. Ainda não cheguei nem na metade desta cadernetinha…

 

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Errâncias

4 de maio de 2016, às 14:38h por Samarone Lima

(anotações sem rumo em velhos cadernos)

1

Pensando no andar da carruagem

não se vê a viagem.

2

É bem deselegante

ser o próprio cartomante.

3

Devagar, quase pousando.

4

São todos meus

os que entram e saem

em sonhos que um dia

terei.

5

Da claridade que existe

em tudo o que foi ferido.

6

No dorso do poema

há outro sistema.

7

Todas as vezes que minha memória falhou

lembrei de ti.

8

Era mesmo um Osho duro de roer…

9

Existe o golpe de mestre e o mestre dos golpes.

10

Era um coração tão manso

que nem precisava ter esperança.

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As ironias da vida…

20 de abril de 2016, às 17:59h por Samarone Lima

Parece que isso é verdade – quanto mais voce renega alguma coisa, mais ela vai dando suas voltinhas, como um falso cachorro de estimação, e de repente está ao seus pés, latindo e pedindo um cafuné.

Minha bronca com as tecnologias é antiga. Demorei anos para encarar o celular, mas depois ele não me arrancou pedaço algum. Eu só não gosto de atender quando estou  conversando com as pessoas e detesto quando estou numa conversa interessante e a pessoa simplemente atende, faz um “espera aí” com a mão esquerda (na direita está o celular) e passa a conversar sobre temas os mais diversos, como se eu não estivesse ali.

Facebook me aperreava muito, mas uma leitora amiga fez uma Fan Page com meu nome e depois passei a administrá-la. Também não está me arrancando lágrimas, porque o acesso é menor e há menos tumulto. Boto link das coisas que escrevo alhures e um bocado de gente que nem lembrava mais do Estuario.com aparece.

Vinham insistindo para que eu entrasse no zap zap. Segui firme. Até o meu grupo de estudos do Budismo tem zap zap, é o fim dos tempos.Sustentei a pressão, Teria o grupo do Budismo, depois o da família, depois o dos amigos do santa Cruz, depois o da Biblioteca do Poço, depois da turma da pelada, depois eu estaria arrependido.

Até que aconteceu o mistério. O falso cãozinho de estimação da irionia chegou.

Semana passada, fui convidado oficialmente para ser o “Coordenador de Conteúdo” da comunicação do Santa Cruz Futebol Clube, meu time de coração, desde tempos remotos. O meu chefe é o “Diretor de Comunicação”, o velho e bom amigo Inácio França, parceiro de vários projetos, um deles o Blog do Santinha, que já vai com dez anos.

Papo vai, papo vem, terei como missão coordenar a comunicação do clube, que tem como base as seguintes ferramentas: Site, Instagram, Facebook, Twitter, e um troço bem esquisito, um tal de “Soundcloud”. Cada uma dessas coisas tem milhares de seguidores.

Comecei sexta-feira passada. Na segunda, tive uma reunião com a equipe de jornalistas, a turma do Design. Confessei antecipadamente meu analfabetismo digital e disse que iria aprender muiti com eles, o que causou uma boa repercussão, pelo menos enquanto eu estava na sala.

Hoje, com a ajuda de algum deles, terei que botar o tal do zap zap num celular novo, cheio das mungangas, que o pessoal do Marco Zero me deu (mais um grupo que tem zap zap, por sinal). É um celular da Motorola e todo mundo diz que é “complicadíssimo”. Ou seja, o ideal para a incomunicação.

São 17h, o Santa Cruz joga às 21h45 e já estou no clube, monitorando essas coisas todas. Pelo menos acessar tudo eu já sei. Punk vai ser mais tarde, ali pelas 20h, quando sei que meus amigos de fé meus irmãos camaradas estarão todos em algum boteco por perto, tomando umas cervas geladas, comendo um espetinho maneiro e tocando uma boa conversa fiada.

Vai dar uma inveja danada.

Mas são, como disse, as ironias da vida. Tenho também que sobreviver e adoro desafios.

É bom ficar esperto. Já passei por muitas coisa nessa vida, mas ser demitido por um grande amigo como o França, antes mesmo dos três meses habituais, seria uma pancada.

Quanto ao Soundcloud, fica para a semana que vem,  já que amanhã é feriado e não posso forçar tanto o cabeção assim.

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Pequenas biografias poéticas*

15 de abril de 2016, às 16:15h por Samarone Lima

I

O poeta russo Joseph Brodsky viveu com os pais

Em Leningrado.

 

O cômodo e meio da família

Media 40 metros quadrados.

 

Sempre considerou aqueles metros

Os melhores de sua vida.

 

Mais tarde foi condenado ao exílio

Sob a acusação de ser “parasita social à margem

Da literatura”

(não tinha o Certificado Oficial

Do governo russo

Que lhe assegurava o direito

De ser poeta).

 

Depois de deixar seu país

Se dizia poeta

Desde o amanhecer.

 

Nome?

Poeta

 

Profissão?

Poeta

 

Estado civil?

Poeta

 

Idade?

Poeta

 

Residência?

Poesia.

 

Precisava do substantivo

Para vingar

Para viver.

 

II

 

Wislawa Szymborska

Tinha 73 anos e era praticamente desconhecida

Fora de seu país

A Polônia.

 

Quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura

Acreditou que o telefonema, de Estocolmo

Era um engano

Uma brincadeira

Um trote.

 

Depois que notícia foi oficializada

Foi para o alpendre de sua modesta casa

Fumou mais um de seus incontáveis cigarros

E pensou, com um sorriso irônico:

“mas vejam como são as coisas…”

(E logo dormiu uma longa sesta).

 

Meses depois

Seguia para o lançamento de um livro seu

E viu uma longa fila.

 

Perguntou a um amigo

Se aquela multidão estava a caminho

De algum jogo de futebol.

 

Uma de suas frases prediletas era

“não sei”.

 

III

 

O russo russo Óssip Emilievitch Mandeslsthám

Era, de fato, um homem feio.

 

Usava costeletas

Para disfarçar as orelhas de abano

A cabeça era grande demais

Para um pescoço tão fino.

 

Mas bastava subir ao palco

Com seus velhos papéis caindo das mãos

Para que todo o semblante

Se transfigurasse.

 

Lia pausadamente os poemas

E as orelhas deixavam de ser de abano

A chama sagrada crepitava

E o rosto banal, insignificante

No meio de tantos rostos russos de seu tempo

Se transfigurava

No espanto visionário de um poeta

De seu tempo.

 

Os aplausos desmesurados

Estremeciam sua alma

E as musas se aproximavam invocando

seu nome.

 

Mas logo ele voltava ao abandono

À solidão de todas as horas

De um simples homem russo que tinha apenas

Palavras para oferecer.

 

“Não sei como é em outros lugares, mas aqui, neste país, a poesia é algo que cura e devolve a vida, e as pessoas não perderam o dom de beber nela o que lhes restaure a força interior. Aqui, pode-se matar as pessoas por causa da poesia – um sinal de respeito sem paralelo – porque as pessoas ainda são capazes de viver por causa dela”, disse certa vez.

 

Em 2 de maio de 1938

Mandelsthám foi detido

Acusado de “atividades contrarrevolucionárias”

E levado para Kolyma, na Sibéria.

 

Exaurido pelas torturas e privações

Morreu em dezembro.

Tinha 47 anos.

 

Seu corpo foi jogado

Em uma fossa comum.

 

IV

O poeta maranhense Ferreira Gullar

Passou dez meses clandestino

No Rio de Janeiro

Após o golpe militar de 1964.

 

Não era guerrilheiro, não conhecia armas

Era apenas mais um comunista na hora da caçada.

 

Sentia saudades das noites do Rio de Janeiro

Das conversas nos bares

Das manhãs de sol na praia

da cerveja gelada,

da casa

dos filhos, livros

da poesia

e do seu gatinho Camilo.

 

Fugiu para Moscou.

 

No Intituto Marxista-Leninista

Passou a ser chamado de Claudio.

Teve aulas de Revolução

Aprendeu a metodologia de “O Capital”

O materialismo dialético

O materialismo histórico

Mas nada daquilo o interessava.

 

No intervalo de uma das aulas

Deparou-se com dois olhos verdes, oblíquos

Uma mulher ruiva, com os cabelos presos na nuca

E um sorriso que o incendiou por dentro.

 

Elôina, o seu nome, soube depois.

 

Quando o viu, ela teve um susto.

“Meu Deus, que homem estranho é esse?”, pensou

(acreditava que Mefistófeles

Acabara de chegar a Moscou).

 

Uns amigos tinham avisado, dias antes

Que chegaria em breve

Poeta brasileiro.

Quando avistou aqueles olhos

Ela adivinhou

“Este é o poeta”

(mas achava que ele tinha a aparência

Do diabo).

 

A primeira frase que ele disse, em russo

Foi “ótin craciva”

(que a achava muito linda)

E seu rosto perdeu a cor.

 

Se amaram loucamente

Certos de que haveria uma data

Para acabar.

 

No dia de ir embora

Ela pediu que ele prometesse

Que um dia voltaria.

 

Ele prometeu

E desceu as escadas como um autômato.

Na rua, escutou o grito:

“Já começo a te esperar!”

 

Ele apressou o passo

Dentro da noite veloz

E logo escutou sues passos

(ela vinha correndo e se jogou em seus braços e passou a beijar sua boca, seus olhos, repetindo que o amava).

Depois ela disse

“Vai, vai embora!”

 

Ela ficou, ele apressou o passo.

“Estou cada vez mais longe dela”, pensava.

“Como pode? Estou caminhando deliberadamente

Na direção contrária à minha felicidade!”.

 

Na última curva da alameda

Ele olhou para trás e já não a viu.

Sabia que nunca mais a veria.

 

Na manhã seguinte, como um autômato

Estava em um avião, rumo à Itália.

 

Em Roma, na cama de uma pensão ordinária

O poeta tirou os sapatos

e ainda vestido

disse a si mesmo, numa explosão de lágrimas e soluços:

“Eu nunca mais vou vê-la”.

E repetiu o que o tempo tornaria verdade:

“Nunca mais”,

 

Ao acordar, de madrugada

E Gullar era um homem vazio, morto, conformado.

 

Quando retornou ao Brasil, anos depois

Os amigos o aguardavam em festa.

Entre os tantos abraços

Perdeu a bolsa de viagem.

Entre outras coisas

Estava o único retrato de Elôina.

**

* Projeto literário em desenvolvimento. Após cada minibiografia, haverá um poema de cada poeta.

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