Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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A história do homem que amou demais – Parte I

9 de outubro de 2014, às 14:01h por Samarone Lima

De volta ao passado. Publico uma crônica de 2005, para matar saudades. Depois escrevo crônica nova.

**

Recife, 02 de setembro de 2005.

Estou sentado num banquinho da praça de Casa Forte, lendo o Juan Gelman que ganhei da Fabiana, muito concentrado, quando vem um sujeito de barba branca andando lentamente. Esse daí bebeu e não foi pouco, penso. Ele passa por mim e diz a frase, num tom muito solene:

“amor, só de mãe”.

Fecho o livro e pergunto se ele tem certeza disso, só para iniciar uma conversa. Ele fica sério, diria que meditativo, e completa:

“nada disso que a gente vê, a gente leva. Só a natureza”.

Guardo o livro, pego meu bloquinho de anotações que ganhei de Ana Luisa (é, agosto foi um mês difícil, mas cheio de pequenos agrados) e já sei que vem muita coisa boa pela frente. Meu amigo começa a falar suas coisas. No fundo é isso, somente isso. Ele estava sozinho com tanta coisa acontecendo em sua vida, e precisava falar com alguém. Como um sonâmbulo, se arrastava pelas ruas do Recife à procura de alguém ou à procura de nada. Acho que não precisava nem de uma pessoa com nome, mas que fosse alguém, ou o Zé Ninguém. Dei esperanças a ele com um olhar, creio. A gente nunca sabe a quem dá esperanças.

“Estou mais magro, mas agüento dois dias de fome”, comenta.

Imediatamente, achei que ele estava mais magro mesmo. Olha para o banco, senta e diz, como num desabafo:

“dormi aqui as duas últimas noites, na poluição do tempo”.

Depois se corrige:

“Não, na poluição da terra”.

Me olha assim, com uma cara de cansaço, muito cansaço, e pergunta quase implorando:

“Onde está a humildade?”

Eu lá sei, amigo, eu lá sei, o mundo está repleto é de deuses e famosos, de carros e apressados. Como não sei mesmo onde está a humildade, confesso minha ignorância e vou anotando suas ponderações sobre o mundo.

“Cada árvore dessa aqui, eu acho um Deus”.

Nisso concordamos integralmente. As frases vão pulando de sua boca. Pareciam pequenos animais amordaçados, que ganharam um alvará de soltura.

“O poder é uma ficção”.

Bingo. Ele me olha novamente, agora mais afetuoso e pergunta:

“Agora eu faço uma pergunta ao mestre – qual foi a pessoa que mais pecou no mundo? O homem que botou a primeira gaia no mundo?”

Caramba, sempre fui péssimo em argüições orais. A sorte é que ele não me deu tempo para pensar.

“Foi Deus, que por obra do Espírito Santo, botou gaia em José”.

Informo aos amigos leitores mais católicos apostólicos, que estou apenas transcrevendo uma conversa numa praça do Recife, numa noite de quinta-feira, após um dia atravessado de problemas e chateações, de norte a sul. As afirmações fortes são do meu amigo da barba branca.

“Salomão pediu a Deus inteligência e sabedoria. Deus ofereceu isso tudo e mais uma coisa – dinheiro”.

Anram, como diria uma amiga. Me deu uma inveja integral do Salomão, que teve inteligência, sabedoria, e certamente não atrasou suas contas e pôde viajar sempre, para qualquer canto do mundo, coisa que me fascina.

“Agora me diga: qual foi o homem da fé?”

Pensei em responder um Santo Agostinho, que escreveu lá suas confissões, ou São Francisco, de quem sou inclusive devoto, mas ele se antecipou e cortou o meu barato.

“Foi Abraão”.

Então ele me deu uma longa explicação bíblica, que me pareceu bem fundamentada e pertinente, mas desprovida de fé. Meu amigo informou que Deus pediu o filho de Abraão, Isaac, em sacrifício. Quando Abraão subia a montanha para matar o filho, com um feixe de lenha (ele não explicou para que servia o feixe de lenha), Isaac perguntou, talvez desconfiando do pior:

“Papai, cadê o carneirinho?”

Caramba, essa pergunta me matou. Um singelo carneirinho, à caminho da morte. Cadê o carneirinho, na subida da montanha, é aquele momento da tragédia em que o coro entra em ação e a platéia se arrepia. Ele me olhou e comentou:

“Tu estás anotando, é?”

Confirmei. Disse que estava escrevendo um livro sobre os anônimos mais importantes do Recife, e ele abriu um sorriso. Seus dentes eram bem separados um do outro, mas estavam inteiros e polidos. Senti aquele aroma de quem andou bebendo com dedicação, nos últimos 25 ou 30 anos.

Bem, no alto da montanha, Abraão pegou o cutelo para matar o filho, informou meu amigo. Eu já fiquei nervoso, temendo o pior com Isaac, o do carneirinho.

“Sabes o que é cutelo? É para imolar”.

Eu não sabia que cutelo só servia para imolar. Estava preocupado era com o garoto. Mas o bom do meu comparsa é que as perguntas vinham com a resposta. Ah, se eu tivesse perguntas já com respostas já na quinta série…

“Tu sabes dizer o que quer dizer proverá?”

Essa eu sabia, mas ele não deu bola. Se encostou no banco e disse que se sente feliz às três horas da manhã, quando as aves gorjeiam. Lembrei do poema que fala das aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá, mas esqueci o autor. Preciso decorar algumas coisas, nem que seja para impressionar numa conversa de praça.

“Tu sabes qual foi o mártir brasileiro que, para defender sete pessoas, deu sua vida?”

Caramba, eu não sei de quase nada importante da história da humanidade! Ele respondeu:

“foi o alferes da Marinha, Tiradentes”.

O sujeito me ganhou só pelo uso de “alferes”, que é palavra certamente oriunda de outros séculos, e pela história do carneirinho.

“Ele foi guilhotinado e esquartejado, e em cada canto de Minas Gerais, colocaram um pedacinho do seu corpo”.

Eu não sabia que a gilhotina fora utilizada abertamente pelos mineiros. Que esquartejaram o velho Tiradentes, eu sabia.

“Por outro lado… a felicidade está debaixo dos meus pés. Quando eu levanto os pés, ela aparece”.

Fiquei feliz em saber que ele encontrou a felicidade, mas estava mudando os assuntos com uma rapidez impressionante.

“Ela aparece e foge. Não, ela na verdade se apaga”.

E o amor? – perguntei eu, para jogar lenha na fogueira. Na verdade, joguei um balde cheio de gasolina. Ele estremeceu e me disse:

“Eu trabalhei 28 anos na Celpe e possui 22 mulheres”.

Não entendi a questão do trabalho com as mulheres, mas pouco importava, cada um com seu jeito de lembrar as coisas. Ele começou a dizer, como quem escala o time supercampeão de 1973, o nome de todas.

“Zan (Rosana), Tonha, Marleide, Zeza, Lourdes, Beatriz, Bia, Dolores…”

Ele falou os nomes com tanta rapidez, que perdi alguns e fiquei com vergonha de pedir para repetir.

“Foram princesas das quais só uma eu amei: Maria José Ribeiro, a “Zeza”, morena brejeita, cor de canela. Às vezes eu beijava seus próprios pés. A chamava de minha princesa. Ela tinha tudo: era feia, baixinha, gorda, mas o amor não tem isso – não escolhe beleza. Ela pode ser fedorenta, feia, mas no aconchego da vida, a gente é feliz com essa pessoa”.

Respirou fundo e completou:

“O coração se queima. Era o pulsar. O sangue nas minhas veias se expandia…”

***
(A última parte da conversa vem na próxima crônica, ainda hoje. Aguardemos o restante da história de um homem que amou demais.)

Estuário: crônicas do Recife

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É amanhã…

7 de outubro de 2014, às 15:47h por Samarone Lima

Amanhã (quarta, dia 8), será lançada a revista Café Colombo, uma idéia dos idealizadores do projeto homônimo (www.cafecolombo.com.br), que há 12 anos vem levando matérias jornalísticas, entrevistas radiofônicas com escritores (mais de 600), ensaios e outras invenções bacanas.

Ele me convidaram para uma conversa ao vivo sobre meu último livro, “O aquário desenterrado”.

Será na Livraria Cultura, às 19h. Aos meus leitores, compartilho o convite (que por sinal, ficou lindo).

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Perguntas ao vento

3 de outubro de 2014, às 13:53h por Samarone Lima

Há uns três dias, não sei exatamente por qual motivo, me ocorreu a frase – “E se hoje fosse o último dia da minha vida?”

Não se incomodem, caros leitores. Pelo que sei, não tenho tendências depressivas, nunca tomei ansiolíticos e meu terapeuta é muito mais um poeta do que um psicanalista.  No nosso último encontro, ele disse algo do tipo “os lampejos da alma não passam pelo cérebro”.

Além disso, amados leitores, vocês já perceberam que eu penso muita besteira. Principalmente na parte da manhã, quando meu cérebro funciona mais devagar. É a melhor hora para pensar coisas desnecessárias, escrever poesias, anotar coisas, ler ou ficar fazendo nada.

Mas fiquei com a frase. Ela aparecia de vez em quando. Ao invés de me incomodar, ficou sendo motivo de inspiração.

O que mudou?

Não sei. Talvez tenha me lembrado com mais clareza de que a vida é finita. Às vezes, bruscamente finita. Imensa e precária. Tudo pode acabar em alguns segundos. Tanta coisa que parecia tão importante, vira nada. Só vai restar mesmo o pó e, quem sabe, a lembrança.

Talvez a morte de duas pessoas queridas, este ano, tenham despertado esta pergunta. Uma, me ligou pouco antes de fazer o que seria “uma cirurgia besta”. Outra, por causa de um câncer devastador.

Estou me fazendo esta pergunta agora, mas está me fazendo bem. Me dá um sentido mais amplo dos instantes.

Outro dia um grande amigo, com quem tenho encontros semanais de aprendizado, disse algo que me pareceu uma reinvenção da própria vida:

“Tive vidas passadas nesta vida”.

Algo como a lembrança de que as vidas passadas não precisam ser as que vivemos em outras eras, antes de nascermos. Quem de nós (especialmente os de mais idade), não lembra do ser que fomos, há 15 anos, hoje praticamente um desconhecido? Ou, quem sabe, até irreconhecível?  O Samarone que fui aos 25 anos, é o mesmo de hoje, aos 45? O que nele nasceu e o que morreu?

Quantas vidas devo ter tido nesta vida?

Algo na frase fica balizando o cotidiano com uma intenção – viver melhor e mais plenamente este dia, que pode ser o último.

Mas que, se tudo correr bem, não será, porque amanhã é sábado, e adoro o sábado. É o dia da semana que eu já estou sorrindo antes mesmo de acordar.

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Despedida

30 de setembro de 2014, às 7:50h por Samarone Lima

O Oswaldo me ligou ontem à tarde, a ligação estava péssima. Após tanto tempo sem nos encontrarmos, tudo ficou meio entrecortado. Primeiro, algo como “não tenho uma boa notícia” e cortes, e silêncios. Mudei de lugar duas vezes, e surgiram as primeiras palavras que doem. Tany, nossa amiga de tantos anos, morrera de madrugada. O enterro tinha sido às 15h, e tentaram me avisar, mas meu celular parecia desligado, ou com problemas, não conseguiram.

A tristeza, numa hora dessas, é como um vazio. Acho que cada pessoa responde à morte de alguém muito querido de uma forma diferente. Eu sinto como se me esvaziasse. Não é propriamente uma dor, é um vazio que me deixa mudo.

Ainda conversamos um pouco. Um câncer devastador, que  a levou em três meses. Deixou dois filhos, de cinco e três anos.

Então lembrei da última vez que nos vimos, há alguns meses, quando fui conversar com seus alunos da UFRPE, aquele seu jeito contagiante de se relacionar com as pessoas. Ao final, me avisou que tinha feito uns exames, e que iniciaria um tratamento, mas parecia confiante. Já tinha superado outro problema de saúde, tempos antes. Neste período, mandei email perguntando como estava o tratamento, mas não tive resposta. Achei que era a sua travessia, que talvez quisesse fazer com seu companheiro, com os filhos, Valentina e Francisco.

Após o telefonema do Oswaldo, fui para a piscina do Português e dei longas braçadas lembrando de Tany, de nossa turma da UFPE, no final dos anos 1980, já início da década de 1990. Lembrei de tanta gente. Eu, que estudava Educação Artística, no Centro de Artes e Comunicação, mas só vivia com o pessoal das Letras. Nadei até sentir uma certa exaustão, para depois ficar quieto e calado, sentindo a morte de uma pessoa que se quer tanto bem.

Como nosso aniversário era no mesmo dia (3/05), tenho uma foto de 1989 (ou 1990), ali no “Bigode”, numa divertida farra, com direito a balões e tudo o mais. Tany era mais nova que eu uns três anos, creio. Acho que é a única foto que tenho dela e de nosso grupo.

Oswaldo me disse que nos próximos dias, os amigos vão se encontrar, para celebrar sua vida.

Vinte e cinco anos depois, nosso antigo ritual terá uma súbita ausência para desvelarmos.

Como uma carta ainda por abrir. Com uma saudade ainda por entender, Tany nos deixou.

E pequenos acenos distantes, feitos de pontos azuils como seus olhos eternos, ficam.

Para Tany Mara Monfredini

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O que pensa um coronel da Aeronáutica sobre a ditadura

23 de setembro de 2014, às 16:19h por Samarone Lima

Frequento um clube do Recife duas ou três vezes por semana. Depois tomo uma boa ducha, há lugar para relaxar, aquelas cadeiras de beira de piscina, e geralmente nesse lugar, os homens conversam. E muito. Sobre todos os temas, mas alguns são mais recorrentes. O trânsito, os engarrafamentos, alguma rusga futebolística, política. Como é um clube de classe média, num bairro de classe média alta, o governo Dilma é atacado com um ódio visceral. É a pior coisa que já aconteceu ao país. Juntados os governos Lula e Dilma, é quase como se tivessem destruído o país. Somos a nova Venezuela. O Judiciário está amordaçado. Eu escuto e bebo minha água, ou leio algo. Nunca me meto.

Há pouco dias apareceu um senhor que eu nunca tinha visto, de uns 65 anos. Incansável no julgamento. Aquele sujeito que fala, que tem explicação para tudo. Um homem de convicções patológicas. Descascou o governo Dilma, “o mais corrupto da história”. Tinha explicações para tudo, era incapaz de ficar um segundo em silêncio. Marina é sua grande esperança para “tirar essa corja que domina o país”. Se ela não vencer, acredita ele, “estamos perdidos”.

Não sei exatamente de onde surgiu o tema, mas ele falou que entrou na Aeronáutica em 1969. Um sujeito que estava calado, bem quieto, disse uma frase banal:

“Ah, eu tinha seis anos nessa época da ditadura”.

O falante, que não sei o nome, encheu-se de uma ira monumental. Começou uma longa aula de história, dizendo que o Marechal Castelo Branco, um homem digno, um democrata, que “assumiu a presidência para ficar dois anos e acabou tendo que ficar mais tempo”. Explicou ao homem que tinha seis anos em 1969, que nunca houve uma ditadura, que a cada quatro anos havia um novo presidente, eleito legitimamente pelo Congresso Nacional.

Fiquei escutando, mais pela curiosidade. Depois passou a falar que os militares foram praticamente obrigados a ficar 21 anos no poder, porque havia os guerrilheiros, uma gente que, segundo ele, “não era gente, não era brasileiro”.

Em outras palavras, os 21 anos sem liberdades, com cerco à imprensa, aos jornalistas, sindicatos, com direito ao Ato Institucional número cinco, que tirou inclusive o habeas corpus do mundo jurídico, foi quase uma gentileza das Forças Armadas. Os mortos e desaparecidos não entram nessa conta. Claro, se não eram gente, para que contar suas mortes?

Nessa hora, pensei em me meter, em dizer que nasci em 1969, ano em que ele entrou na Aeronáutica, que pesquisei muito sobre este período, que entrevistei dezenas de pessoas que foram presas, torturadas, que conversei longamente com familiares de mortos, desaparecidos, mas o sujeito me parecia alguém com um grau de fanatismo. Ele estava ali e precisava de gente que escutasse suas histórias, sua versão de uma parte da história do Brasil. Eu também tenho minha herança jornalística. Era uma oportunidade muito boa de saber o que pensa um coronel da Aeronáutica, possivelmente reformado, vivendo de sua aposentadoria.

Contou que fez cursos no SNI, que trabalhou num cargo importante, no último mandato de um general-presidente, o de João Batista Figueiredo. Seu trabalho prosseguiu em outros cargos importantes, já na redemocratização. Ou seja, ele seguiu como praticamente todos os militares que fizeram parte da ditadura brasileira – da conspiração à democracia, sem problemas com a Justiça, sem julgamentos, sem que as violações que cometeram resultassem em punições.

Depois de um bom tempo, juntei minhas coisas, guardei no armário e fui embora. O que lamentei não foi escutar aquilo de um ex-integrante da Aeronáutica falou sobre parte da história do Brasil. Nem saber que o que ele pensa, o que ele defende, é praticamente o mesmo que uma parcela importante das Forças Armadas ainda pensa – e acredita. Que fizeram algo “pela democracia”. Talvez seja por isso que os comandos das três forças se neguem a entregas documentos para as Comissões da Verdade. Seria olhar demais no espelho.

O mais duro mesmo foi escutar sua definição para os opositores:

“Não eram gente, não eram brasileiros”.

A frase diz tudo.

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