Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

Apresentação


Oficinas


Livros


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

janeiro 2015
D S T Q Q S S
« dez    
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Arquivos


Usuários online

6 Usuários Online
Leitores:

3 Caranguejos
3 Escafandristas

Brincar de viver

28 de janeiro de 2015, às 11:25h por Samarone Lima

Definitivamente, as pessoas estão levando a vida muito a sério.

Não sei o que há, mas sinto, no ar, um certo peso. As discussões políticas se tornam quase impossíveis. As câmaras secretas do egoísmo estão às escâncaras. Discordar, agora, é quase uma blasfêmia. Sei de vários casos fraticidas via Internet, amizades desfeitas por causa de textos publicados. Comentar algo que alguém escreveu é quase como liberar cinismos trancafiados, com palavras que ferem e deixam cicatrizes.

Estou acreditando que precisamos mesmo é errar mais por distração e brincar mais por devoção.

Sempre creditei uma força enorme para pessoas que, acima de tudo (e apesar de tudo), brincam com a vida.

No mundo da literatura, este que fui entrando timidamente, por uma portinha lateral, há batalhas monumentais de egos, gente que se leva mesmo a sério. Eu fico me perguntando: e daí, camarada?

Ah, sim, ganhaste um prêmio literário? E daí, meu velho? Terás a glória de chegar, algum dia, a ser o velho sábio de tua aldeia?

A grande arrogância, no final das contas, é não dar o melhor de si.

Nos lugares que frequento, escuto barbaridades sobre a vida e a morte e trato de olhar para as árvores.

Não, eu não quero ganhar meu ponto de vista nestes debates insanos. Vivemos, por aqui, um mar desamor que vai da insanidade no trânsito a uma reação insana por causa de um brasileiro fuzilado na Indonésia. O rapaz cometeu um erro, mas nunca escutei tantos comentários de apoio ao fuzilamento e à pena de morte, como se isso fosse mesmo solução.

Edgar Morin fala em um de seus livros (mas isso quem me contou foi meu amigo Gustavo de Castro) que há pessoas com a “cabeça cheia” e outras com a “cabeça feita”.

Estamos cercados de “cabeças cheias”. De certezas. De dedos em riste. Um certo orgulho por ser “curto e grosso”. Esquecem que há momentos para silenciar, para falar depois, para simplesmente dizer – deixa isso pra lá.

“Saia de você de vez em quando”, diz o meu velho amigo Barthô. E acho isso de uma leveza fundamental.

Lembrei de outro grande amigo (que ama a vida de norte a sul), o velho e bom Lula Terra:

“Não brigue com a felicidade, porque a tristeza tem sono curto”.

Nessa babel de egos que é a Internet, as avassaladoras “redes sociais”, fico feliz de verdade quando saio com dois ou três amigos e, de fato, conversamos. Escutamos um ao outro, sem que algo bem “engraçadinho” surja a qualquer momento em nossos celulares de última geração, sem que o zap-zap fique gritando a todo momento por um pouco de atenção.

Para que tanto? Por que o tempo livre agora tem que ser ocupado a cada segundo? Chegará o tempo do “coach do tempo livre?” Ou o “gestor das horas vagas”?

Não sei para que estas minhas crônicas servem. Talvez para nada mesmo. Mas, enquanto escrevo, me chegam frases, como sopros.

Eu simplesmente compartilho.

“Faça bem ao seu destino”, me ocorreu agora.

Estou tentando.

Postado em Crônicas | 13 Comentários »

Novos ofícios

19 de janeiro de 2015, às 13:03h por Samarone Lima

Sou um dos sujeitos que tem mais projetos no Brasil. Minhas cadernetas estão cheias. Há maquetes, programas, esboço de narrativas, contos fantásticos, novelas, ensaios, romances incompletos, poemas antigos, seminovos e usados. De vez em quando um dá certo e vou escapando.

Há, claro, gafes monumentais, como a decisão maluca, em algum momento da minha vida, de ter bares. Tive dois. Pior – eles viviam cheios, para atazanar ainda mais meu juízo. Não há nada pior do que ser o dono de um bar quando ele está lotado, quando tudo o que o proprietário queria, naquele momento, era estar no fundo de uma rede, com uma pilha de livros ao lado.

Bem, mas um acaba de sair do papel. Vamos ao caso.

Desde o ano passado, eu e meu dileto amigo Inácio França resolvemos fazer um projeto de um programa de rádio, que tivesse como tema a literatura. Fomos tão organizados, que até um estúdio alugamos, chamamos nosso amigo Xico Sá para uma entrevista, o negócio ficou bom pacas, divertido, sem aquela coisa formal dos estudos culturais ou semióticos ou da personalidade ambígua do narrador, enfim.

Apresentamos o projeto a uma rádio local, gostaram muito, mas como eu e Inácio não fizemos cursos de vendas, marketing, investimentos em mídias, o negócio não andou. Mas ficamos com aquela esperança acordada – uma hora vai dar pé. O programa, por sinal, se chama “Para gostar de ler”.

No apagar das luzes de 2014, tivemos um contato com o radialista Marcelo Araújo, da rádio JC FM, que demonstrou interesse. Entregamos a fita, digo, o pênis-drive com o programa que gravamos, ele gostou e o negócio andou.

O fato é que, na última sexta-feira, fizemos a estreia de nosso programa, dentro do programa “Movimento”, do próprio Marcelo, que vai de 20h às 23h. Ganhamos, inicialmente, meia hora (21h30 às 22h) para falar de um assunto que simplesmente adoramos – literatura.

Quando foi chegando nossa hora, deu aquela sede geral. Sim, meus amigos, quando fico um pouco nervoso, me dá uma sede miserável. Ainda bem que não moro mais em São Paulo, porque seria multado direto pelo Alkmin por beber muita água da Sabesp. Boto logo uma garrafinha ao meu lado e vou mandando: glub glub glub e o nervosismo vai passando. Em mesas literárias, falta pouco para passar vergonha. Quando botam uma jarra, vou secando ela na boa, enquanto os outros falam. Vou ver se marco um horário com algum psicanalista, para ver que relação é esta que tenho com sede e água.

Mas… bingo!

Bastou começar o programa, que tudo fluiu. Falamos de livros, leitores, demos dicas de leituras, mostramos algumas coisas que gostamos muito, e tivemos algo maravilhoso que só o rádio permite – o diálogo direto com os ouvintes, ao vivo. Muita gente interagiu, comentou sobre o livro que mais gostou, desejou boa sorte ao programa etc.

Ao final, já saindo da rádio, ligamos para amigos e pessoas próximas de gente, e tivemos um ótimo retorno. Pelo menos a turma que gosta da gente gostou muito. Acham que o programa teve um clima de bate-papo, que foi descontraído etc. Eu não sabia, mas minha mulher disse que Inácio e eu somos meio gagos. Inácio eu já sabia, mas ele tem as fases “mais gago”, “menos gago” e “ultra gago”. Mas eu? Foi a grande novidade. Acho, inclusive, que isso pode prejudicar muito nosso futuro radialístico.

Depois, o melhor. Um amigo nosso da época de Católica (falo da Universidade) ligou para Inácio, para dizer que tinha interesse em patrocinar o “Para gostar de ler”. Ele mora no Rio de janeiro e não o vejo há muito tempo. Está ganhando uma gaita que não é mole. Bem, se ele, que está no Rio, já escutou o programa e quer conseguir patrocínio, o negócio andou mesmo.

Como eu e Inácio estamos envolvidos em outro projeto (mas na qualidade de convidados), que é uma mesa-redonda sobre futebol na Internet (mas comentando os jogos do Santa Cruz), creio que 2015 pode ser um divisor de águas nesta minha jornada pela sobrevivência.

Apresentador de programa literário numa rádio, na sexta-feira à noite, e comentarista sobre futebol, na Internet, aos sábados à tarde.

Se esses negócios derem certo, acho que vou realizar um velho sonho, que é o de ir para a praia todo dia, mesmo sem ter casa na praia. E também vou escrever e ler três vezes mais do que escrevo e leio. E, quem sabe, abra finalmente uma página no Facebook, para saber o que anda se passando na cabeça das pessoas que não encontro nem para remédio.

Aguardemos o desenrolar dos novos ofícios, pois.

Nota: Na sexta passada (23/01) o entrevistado foi o escritor Sidney Rocha. Inácio não pôde ir, por causa de uma pequena cirurgia. Sidney, como é um sujeito acima da média nacional, já me mandou o link. Vejam o programa:

http://radiojornal.ne10.uol.com.br/noticia/2015/01/23/escritor-sidney-rocha-fala-um-pouco-sobre-carreira-36988

Postado em Crônicas | 7 Comentários »

A sorte é que os pernambucanos não invadiram as praias da Paraiba…

10 de janeiro de 2015, às 10:55h por Samarone Lima

Amigos leitores, a sorte é que as maravilhosas praias da Paraíba ainda não foram invadidas pelos pernambucanos, que continuam preferindo Boa Viagem, Porto de Galinhas, Gaibu, Enseada dos Corais, Tamandaré, fora outras que não lembro agora e não vale a pena ficar fazendo pesquisas, já que estou de férias.

O fato é que minha amada Silvia insistiu para irmos ao pequeno pedaço de praia de Tambaba onde é regulamentada uma área de “naturismo”, que é a coisa mais simples e besta do mundo – o sujeito só pode entrar no trecho da praia se aceitar o despojamento de suas vestes. Fora as crianças, todos são obrigados a ficar desabrigados de si. É uma lei. Se você for pego vestido, é convidado a se retirar. Não sei se pode dar cana. Já pensaram, o sujeito ser preso pelo crime de “estar vestido em local impróprio”?

Nunca imaginei que um simples pedaço de pano, uma reles Zorba de três anos, velha e cansada, fosse tão importante.

Mas o fato é que sou chegado a aventuras e preciso ter histórias para contar aos meus leitores, então topei, pela segunda vez na vida.

Na primeira, há uns dois anos, minha preocupação maior era ficar nu ao Deus-dará, como vim ao mundo, coisa que foi solucionada com uma besteira – o comportamento alheio. Ninguém, mas absolutamente ninguém estava preocupado comigo, nem ficava olhando para “suas partes”, como dizem por aí. Todo mundo peladão numa boa, como se nada de anormal estivesse acontecendo. Isso foi um alívio tremendo.

Desta vez, mal dei os primeiros passos, comentei com minha mulher:

“Garota, e se a gente encontrar alguém conhecido?’

Ela deu uma gargalhada, mas isso me gelou a espinha.

Vai que estou andando no maior falso sossego e vejo, por exemplo, um ex-aluno meu da Católica vem com sua mulher e dois filhos? O que fazer? Fingir que não o vi, apesar de saber que ele me viu e eu o vi, e que nós dois sabemos que nos vimos? Detesto essas coisas falsinhas.

E mais adiante, se esbarro no advogado que me defendeu em duas audiências em que fui arrolado como alguém que “impediu o trabalho da Polícia”, e que hoje tem alto cargo no governo? Acenar de longe, dar um sorriso amarelo e seguir ou simplesmente fazer de conta que estou com uma bela bermuda e a camisa do Santa Cruz? Ele, no mínimo, comentaria com sua companheira – “esse Samarone é um ingrato. No aperreio, ligou pra mim várias vezes. Agora, nem cumprimenta”.

Mas outras situações poderiaM ser piores – encontrar amigos íntimos, de longas datas, acompanhado de suas respectivas. Lá vou eu, peladão, com minha companheira nua da cabeça aos pés, e vem Inácio, meu velho amigo Inácio França, com sua amada. Ou vejo de longe Gerrá, com sua digníssima e as filhas. Ou Valzinho, meu velho amigo da TV Jornal? Ou Betânia Santana, que não vejo há anos? Como tenho muitos amigos, a lista seria enorme. O nome disso é “situações em que não sei o que faria”.

Não tenho dúvida – daria um flecheiro em direção ao mar, e ficaria lá nadando até o entardecer. No máximo acenaria, para não parecer antipático.Prefiro encontrar os amigos vestidos, nem que seja numa samba-canção.

Vamos e convenhamos. Uma coisa é ver seu amigo em bares, carnavais, churrascos, nas batucadas da vida, ou desabafando suas broncas e tristezas, mas amparados pela invenção da roupa, coisa inaugurada pelos índios há milênios. Outra é ver o sujeito no esplendor de sua nudez, quando você só o vê, há vinte anos ou mais, com uma reles calça jeans e uma camisa.

Para arrematar, posso dizer que passei no teste civilizatório da ausência de pudor. Tivemos que almoçar no único restaurante que funciona na área do nudismo, porque aceitava cartão de crédito.

“Se o garçom vier pelado, estou fora”, avisei.

Os garçons, ainda bem, trabalhavam vestidinhos da silva.

É cada coisa nesta vida. O sujeito senta com sua mulher, olha para o lado, há uma penca de mesas e cadeiras com todo mundo sem roupa. Eu, particularmente, não sinto emoção nenhuma em andar pelado.

Tudo deu certo. Tomei minhas caipiroskas, comemos peixe assado, pagamos a conta e nada de amigos, sequer meio-amigos ou conhecidos. Além disso, os garçons estavam tão ocupados, que não tinham tempo nem de olhar para a gente.

Ao final desta epopeia, dei mil graças pelo fato de os pernambucanos não terem, ainda, invadido as praias da Paraíba. Bastou dizer isso, que no outro dia, em nossa pousada, chegou uma amiga que Silvinha não via há um bom tempo. Animadíssima, com seu namorado novo, ela comentou, no café da manhã:

“Estamos indo para Tambaba agorinha!”.

O namorado dela olhou para mim com uma cara de quem está fazendo algo por amor, no início do namoro, e deve ter ficado aliviado quando eu disse:

“É, fomos ontem e é bem legal”.

Amigos pernambucanos, fiquem onde estão, ou inventem uma praia de nudismo, digo, naturismo, em Tamandaré. Vai ser um sucesso.

Ps. Botei na minha lista das prioridades de 2015 atualizar mais as crônicas deste Estuario.

Postado em Crônicas | 17 Comentários »

Anotações inúteis sobre o “Selfie”

5 de janeiro de 2015, às 19:31h por Samarone Lima

Até bem pouco tempo atrás, o único selfie que eu conhecia, nessas conversas cotidianas nossas, era o tal do “self-service”, mas a maior parte da galera do Recife das camadas populares já chama “serve-serve”, num desses processos de canibalização linguística que não me vem ao caso explicar.

Mas imagino que “selfie” tenha a ver com “self”.

Eu já vinha notando um negócio meio maluco, que era gente tirando foto e si mesmo em tudo que era canto. Como tivemos muitas mortes de gente importante, em 2014, ficaram bem conhecidos os casos de pessoas que tiravam um selfie na fila para visitar um morto ilustre, dando um sorrisinho, fazendo aquele sinal dos surfistas, enfim. Em cinco segundos, a foto já está no Facebook.

Mas eu não sabia, confesso, que o negócio estava tão barra pesada assim. Desculpem minhas mal traçadas linhas, mas é que sou um escritor latino-americano de 45 anos que fez curso de datilografia e taquigrafia na adolescência, que começou a trabalhar no Diário de Pernambuco quando este era movido a máquina de datilografia, papel mata-borrão (o original do texto ia para o editor, a cópia para o  revisor) e que, portanto, está sempre atrasado uma década em relação à média nacional para muitas coisas. Quando tomo ciência da importância de um negócio desses, já saiu de moda e fica por isso mesmo.

Explico. Cheguei ontem a Tambaba, no litoral da Paraíba, para o gozo de alguns dias de férias com minha amada Silvia. Deu tudo certo, viemos de ônibus mesmo, o TIP continua uma imundície, a cadeira dela no ônibus não tinha cinto e segurança, mas chegamos vivos e encontramos a Pousada, que tem o singelo nome de “Estalagem Aldeia dos Ventos”.

Hoje fomos praticar um esporte nacional – caminhar na praia deserta, o mar azulzinho, sol no ponto. Só cruzamos com um casal de franceses, que estão na mesma pousada. Ele fumam pacas.

Quando chegamos à praia de Coqueirinho, notamos umas criaturas passando para todo lado com uma barrinha de ferro e um celular na ponta. As pessoas olhavam a paisagem, procuravam o lugar mais lindo e “clik”, fotografavam a si mesmas. Quanto mais andávamos, mas gente com o ferrinho do selfie.

Aos poucos, percebi que estava presenciando mais um desses episódios da vida nacional em que algo vira uma obsessão, quase uma doença. Não sei onde vendem esses ferrinhos (nem quanto custam), mas os donos devem estar faturando uma grana. Voltamos a Tambaba, e outra multidão andava para todos os lados, fotografando a si mesmas.

A única coisa que pensei foi de uma inutilidade pecaminosa – mas será que somos mesmo assim tão interessantes? Melhor – será que todo momento merece uma imagem de si próprio?

Continuo gostando mesmo é de pedir a desconhecidos para bater uma foto minha com minha companheira (ou amigos). Sempre tem algo interessante, uma pequena troca de cumprimentos, de sorrisos. Sempre haverá alguém muito boa gente para dizer “Xis!”

Já me pediram isso algumas vezes e sempre dou um jeito de cortar um pedaço da cabeça, do rosto, enfim. Fica bem engraçado.

Num desses carnavais, há alguns anos, um artista bem conhecido de Pernambuco namorava uma atriz para lá de linda, da TV Globo. Estava eu em Olinda, numa quarta-feira de cinzas, chapadinho da silva, quando eles saíram de uma casa, mais chapados que eu, e ele me pediu para tirar uma foto dos dois. Me entregou a câmera e se abraçaram, naquele gesto romântico ancestral de colar as bochechas.

Botei para quebrar. Cortei a cabeça dos dois. Quando eles foram conferir, eu já estava longe. Uns tempos depois, ele se separaram, e fiquei com um remorso retroativo. Será que aquela foto foi um mau agouro?

Ah, eu não sei. O fato é que comecei 2015 com a mesma falta de assunto habitual.

Para encerrar.

Minha mulher sugeriu hoje à tarde que fôssemos a um restaurante “naturista” aqui em Tambaba, onde tem um pedaço da praia para a turma andar pelado. No trecho em questão é proibido, por lei municipal, andar até de Zorba.

Imaginem, caros leitores, o sujeito pedir uma cerva gelada, um caldinho, enquanto está sentado ao lado de sua dileta companheira, na forma que veio ao mundo. Daqui a pouco chega um garçom, nu em pelo, para nos atender. O garçom, obviamente, estará de pé, eu sentado. O que verei, no esplendor de 2015? Sua clavícula? E vai que alguém na mesa ao lado resolve tirar um selfie?

Declinei do convite de imediato, pois.

Postado em Crônicas | 5 Comentários »

Grandes seres humanos de 2014

22 de dezembro de 2014, às 13:21h por Samarone Lima

Um velho amigo que não vejo há muito tempo sempre se refere às pessoas como “ser humano”. E é, na verdade, o que somos – seres humanos. Não importa a cor, time, sexo, preferência eleitoral, ideologia, sabedoria, esperteza, todos somos seres humanos.

Estava aqui nas minhas meditações evasivas sobre este ano que vai se encabulando, pensando em algo para compartilhar com meus cada vez mais raros leitores, quando cheguei à conclusão que este foi um ano pródigo em gente boa no entorno. Vou citar alguns desses seres humanos que fizeram minha vida melhor.

Naná – Um dos coordenadores da Biblioteca Comunitária do Poço da Pela, comigo e com Ninha. Um sujeito e tanto, um irmão que ganhei da vida. Com sua Kombi já bem sambada, remendada, faz verdadeiros milagres. Faz mudanças de todo jeito, cuida da biblioteca, dá ótimas sugestões para o trabalho com os meninos da comunidade e há poucos meses virou presidente de um dos clubes de futebol do Poço, o “Cervejeiros F.C”. Além de ser pau pra toda obra, Naná é de um humor e de uma gentileza ímpar. Sem ele, a biblioteca não existia.

Seu Biu – Uma espécie de “faz tudo”, do edifício Capibaribe, onde moro. Baixinho, atarracado, deve ter uns 60 anos e tem uma característica – vive rindo. Basta encontrar Seu Biu, qualquer hora do dia, que ele abre um sorriso e conta alguma coisa, com a simples desculpa de sorrir. Nunca o vi reclamar da vida, nem mesmo quando teve que se submeter a uma cirurgia de hérnia. Seu Biu é ouro em pó.

Karla Melo – É uma editora de mão cheia e rapidamente virou minha amiga. Entrou em contato comigo após ler uma entrevista (e não sei o que disse de tão interessante assim) e rapidamente vimos que éramos do “mesmo pavilhão”, como ela costuma dizer. É uma das sócias da Confraria do Vento e foi responsável pela publicação do meu segundo livro de poesias, “O Aquário desenterrado”. Sua empolgação com o bom texto, o cuidado com os detalhes, as releituras constantes, sugestões, são tudo o que um autor precisa. Nunca imaginei, aos 45 anos, ter uma editora me instigando a escrever e publicar.

Arsênio – Descoberta recente, grande amante da literatura, com o problema existencial de morar em Setúbal, que fica a léguas e léguas aqui do centro, onde vivo. Além disso, é muito ocupado. No segundo semestre foi o farrapeiro oficial dos encontros que tínhamos com o Stefan Zweig da Zona Norte, o senhor Inácio França. Mil e uma desculpas etc. Mas nos comunicamos sempre por email, e qualquer poema novo ele recebe e comenta de bate pronto, com as impressões mais sinceras. Reza a lenda que vamos conhecer o filho dele, José Vicente, quando o menino for servir ao Exército.

Inácio França – A passagem do tempo só fortalece certas amizades. Cometeu uma gafe brutal, que foi a de não ter me nomeado como padrinho de Bruno, seu filho. Mas, como trata-se de um ser humano, é passível de erros. Como o filho é bem mais inteligente que o pai, só me chama de tio, e já fez alguns desenhos do seu quase-futuro-padrinho, que coloquei no meu mural.

Josafa – Chefe de gabinete no meu trabalho com Ariano Suassuna. Ótima conversa, com um detalhe intrigante – costuma repetir o assunto no dia seguinte. A coisa ficou tão feia, que fiz uma plaquinha com os dizeres “essa você já contou, Josa”, que levanto sempre que ele inicia uma conversa repetida. Ele inventou de comentar isso em casa e foi pior – os filhos fizeram uma plaquinha do mesmo jeito. Eu disse que iria cobrar R$ 0,25 por cada vez que usassem a plaquinha (direito autoral), e a mulher de Josafá disse na hora – “então Samarone vai ficar milionário”. Josa também implica com os escritores cearenses que vivem em Pernambuco. Qualquer matéria publicada nos jornais, ele guarda e vem me mostrar. “A máfia do côco-catolé está cada vez mais forte”, diz. Acho melhor chamar de “Máfia do Pequi”. Também usa uma expressão interessante para tomar uma biritas a valer – “encher a caveira”. É um praticante bastante disposto da “caveirice” e este ano tomou uma medida radical – entrou no Facebook.

Daqui a pouco completo minha lista.

Postado em Crônicas | 7 Comentários »

« Artigos anteriores