Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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A história do homem que amou demais – Final

29 de outubro de 2014, às 16:51h por Samarone Lima

A pedidos (e aproveitando a preguiça cronica que me assola), a segunda parte de uma crônica de 2005.

**

Recife, 03 de setembro de 2005.

Onde estávamos? Ah, sim, eu falava das histórias do desconhecido que conheci ocasionalmente na praça de Casa Forte. A última frase da crônica sentimental anterior foi “O sangue nas minhas veias se expandia…” – uma imagem por demais poética e amorosa (quem não leu, faça-me o favor, é o texto anterior, logo abaixo). Meu amigo se referia ao seu grande amor, Zeza, uma criatura feia, baixinha, gorda, mas que ele amava, com o amor não tem isso, não escolhe beleza, palavras do próprio amigo.

Na verdade, quando entramos no delicado tema amoroso, o meu amigo fez confissões as mais duras. Com a retroescavadeira, chafurdou a alma. Sofri junto com ele, quando disse que seu coração pulsava por ela.

“Aquele olhar seguro, humilde, me acalmava. Perto dela eu me sentia feliz”.

“E o que era ela para você?”, perguntei, e imediatamente descobri que arrancara a tampinha da ferida.

“Eu sofri dores angustiantes que me fizeram padecer. Mas sou de sofrer calado. Agora, respondendo à sua pergunta – uma árvore, um pássaro, uma canção, tudo me lembrava ela”.

“Mas se era assim tudo tão perfeito, por que vocês se separaram?”

Essa foi, de fato, uma pergunta estúpida.

“Eu nunca entendi, mas ela separou de mim”, respondeu ele, tristíssimo.

Me olhou muito sério e completou:

“A mulher é uma criatura que ninguém entende”.

Concordei imediatamente.

Sei que tem gente que entende, mas não conheci tal felizardo. Descobri que meu amigo se chamava Luis Antônio Bezerra Tavarêz (com z e acento circunflexo, como me informou), 62 anos. Deu baixa do Exército em 1964. Trabalhou 20 anos na Celpe e saiu em 5 de janeiro de 2000, graças a um Programa de Demissão Voluntária (PDV). Recebeu uma bolada razoável – R$ 78 mil e gastou tudo, absolutamente tudo com Zeza. Passeios, piscina, viagens. Viveram seis anos juntos, me disse ele.

“O pedestal é o edifício mais alto que existe”, completou.

O Tavarêz gostava de sair com frases intempestivas, que alavancavam a conversa.

“No pedestal tem piscina, caviar, pernil, Ballantines 12 anos”, prosseguiu.

“E hoje, na terra tem lapadinha de cana”.

Foi isso. Meu amigo recebeu uma boa grana, torrou tudo com a querida Zeza e depois levou um chega-pra-lá. Veio o famoso tombo. Eu já estava me preparando para encerrar a conversa, tinha sido um ótimo começo de noite, quando o Tavarêz deu uma tossida breve, aquela de quem vai começar um assunto, e me disse que tinha amado uma mulher que o Orlando Silva cantava em prosa e verso. Perdão, fui consultar meu bloquinho agora, e é o Orlando Dias. Me parece que um é mais antigo que o outro, não sei, é só uma intuição.

“Ela se chamava Dolores. Tomei uma cana tão grande, que fui pedi-la em casamento”.

Então caiu o mito do “único amor”, que o Tavarêz tinha alardeado. Teve a Zeza, mas a Dolores também fez estragos.

“Eu era cambiteiro na época e ela disse que eu não podia sustentar ela”. Informo que não sei o que é cambiteiro.

“Foi a mulher que mais amei na vida, Dolores”, disse ele, em meio a um suspiro.

Francamente, Tavarêz, tem hora que eu não entendo mesmo são os homens. Há pouco, a mulher de sua vida era uma morena baixinha, feia etc. Agora me surge, assim do nada, essa Dolores, que me parece ser uma mulata alta, esguia, cabelos até os ombros e lábios grossos, pelo menos foi como a imaginei, pelo olhar de gula dele.

“Depois veio Toinha, Rosângela, Maria, Zefinha… e hoje eu nada tenho, só sofro de saudades”, lamentou ele.

“Espero um dia abraçar novamente a mulher que mais amei na vida”.

Como eu já não sabia qual era a mulher que ele queria abraçar, preferi não perguntar, para não ser indelicado. Ficamos conversando mais um pouco, pensei em chamá-lo para uma cervejinha num fiteiro defronte à praça, mas eu tinha que trabalhar, essa minha vida de dono de bar me mata. Falamos umas potocas, mas a conversa deixou de ter percalços bíblicos ou rasgos filosóficos. Percebi que Tavarêz era uma daquelas criaturas que tinha amado demais na vida. Ultrapassara o dique que ele mesmo podia suportar e ficara como Nova Orleans, inundado.

O resultado era que a dor também tinha deixado marcas fundas, sulcos, buracos em sua alma, e talvez não houvesse mais como fazer os tais remendos. Perdera, talvez, as sementes e a colheita. Não havia mais como plantar, nem como esperar brotar. Daí a solução caseira – “amor só existe um, que é o de mãe”, como ele dissera, no início da conversa”.

Sim, Tavarêz, mas é o mais seguro também, porque e é diferente amar uma criatura como a Zeza, que é feia mas fica linda. Se minhas amigas psicólogas te pegarem, estás em maus lençóis. Terás um complexo de presente.

Mas estou conversando água. Tavarêz fez o primeiro silêncio da noite, me olhou fixamente e disse:

“Hoje, só fracasso e solidão”.

Senti uma fisgada no coração. Doeu até em mim.

Ele se levantou, me estendeu a mão direita e completou:

“Mas amanhã é outro dia. Paramos por aqui”.

Ele saiu andando devagar e creio que conheci um homem que amou demais. Há gente assim na vida. É só uma constatação.

Há que se acolher, nem que seja com um olhar, num banco de praça no Recife, uma pessoa que amou demais e rompeu os próprios diques.

Estuário: crônicas do Recife

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Quinze dias fora do ar

24 de outubro de 2014, às 12:27h por Samarone Lima

Tenho vários problemas, e um deles é a desorganização. Foi graças a ela que o estuario.com.br ficou fora do ar desde o dia nove de outubro. Como voltou hoje, foram 15 dias que ele ficou em algum lugar secreto, que só o Obama e a turma dele saberão informar.

Meu amigo Dimas, que tem feito a gentileza de cuidar do “domínio”, já tinha me avisado que era para eu assumir isso, e como não fiz isso (significa: não paguei o valor semestral) o meu blog (ou site, sei lá) ficou nas nuvens.

Agora há pouco, quando ele apareceu na tela, chega senti uma alegriazinha. Vi também como tanta coisa acontece, em 15 dias, na minha vida e na do país. Como a Internet está entupida de informações sobre o país e a emoção das eleições, terei que falar mais mesmo do meu cotidiano, que foi bem movimentado.

No dia 10, almocei com um velho amigo, Marcel Tito, editor do Diário de Pernambuco. Poxa, fazia um tempão que a gente não conversava e trocamos ótimas idéias. O bom de ter sido professor é que alguns alunos seguem a vida e fazem amizade de verdade. Da turma dele tem um bocado de gente boa que até hoje mantém o laço afetivo.

Nesse mesmo dia consegui uma sessão de Shiatsu, aqui na loja “O Templo”, de produtos indianos. Seu Ênio aperta tudo e no final, dá uma esticada na coluna que faz uns “trec” em várias vértebras. O cara fica novinho em folha e, no meu caso, três centímetros mais alto. Aproveitei para comprar incensos.

Dia 11 corri de manhã, mas o Santa Cruz perdeu para a Ponte Preta, um vacilo da zaga. No domingo, algumas biritas e o encontro com a galera da campanha de Dilma no “Acho é pouco”, no Bairro do Recife. Era meio mundo de gente. Na segunda, encontro com o grupo de estudos budistas, sob a regência de Barthô. Ah, corri logo cedo, mas sem relógio. No dia 14 não sei o que aconteceu, tive uma “síndrome de resolver problemas em casa”. Comprei um colchão de primeira linha (Ortobom) para a sala e um fogão novo.

O fogão velho, azul, já foi um presente do João Freire e serviu a vários velhos comunistas. Ele estava pior que a zaga do Santa Cruz. Só duas  bocas funcionavam e o forno apagava 11 vezes, antes de funcionar. O velho amigo Inácio me deu várias dicas de marcas, fez um ranking das melhores há seis meses, mas perdi a lista e ele estava no Uruguai, de modos que comprei um da Esmaltec, não sei se ele vai aprovar. O preço foi bom. Foi o primeiro fogão que comprei na vida.

No dia 15, não fui à pelada, mas fui ao aniversário do Rafa, na Esquina da Picanha, que agora não é mais em uma esquina. Não sei o que houve, mas os atletas estavam famintos e com sede. A primeira garrafa de uísque não durou trinta segundos na mesa. E comeram a churrascaria inteira. Nos divertimos muito.

Vou pular, porque vai ficar parecendo diário de adolescente (se é que já não está sendo). No dia 19 comemorei cinco anos de casado e foi tudo muito perfeito, exceto os comentários dos amigos, de que eu teria dado um fogão de presente de casamento. Isso é intriga da oposição.

Na segunda, dia 20, fui para a última sessão de hipnose, para tratar do meu medo crescente de altura. Foi ótimo, recebi alta, mas não sei ainda se perdi o medo de altura. Minha mulher está cada vez mais impressionada, porque é o segundo profissional de saúde mental que me dá alta. O outro foi meu terapeuta. Acho que ele cansou de mim. Realmente, o mundo está muito estranho. Na terça, 21, o supergigantesco evento de Dilma no Recife, uma coisa impressionante. Encontrei uma penca de amigos.

Na quarta, reencontrei o velho e bom amigo Valdemir, que agora está correndo. Como ele mora em Boa Viagem, corremos na orla, à noite. Prometemos não conversar durante a corrida, para não cansar, mas ninguém ficou calado. Para um coroa de 45 anos e outro de 53, nosso fôlego não está nada fraco. Fizemos 6,5 km na flauta. Não sei o motivo, mas não tomamos água de coco ao final.

Ontem tomei umas no Princesa Isabel, na minha mesa vermelha (era azul e Seu Azevedo, não sei por qual motivo, a cobriu com uma fórmica vermelha, fica aqui meu protesto). Li jornais, tive idéias inúteis, anotei frases e depois fui pra casa. Também conheci um cliente novo, Laércio, muito boa gente.

Hoje tinha agendado uma nova corrida com Valzinho, mas Boa Viagem é longe da rua da Aurora e tem jogo do Santa, contra o Ceará. Acho que vou assistir na Bodega do Abel com Inácio e Gerrá.

Nesse tempo todo, li centenas e centenas de páginas de livros os mais diversos, escrevi uns poemas novos, trabalhei em poemas usados, cuidei dos dois gatos, aguei as plantas e cumpri meus plantões na Biblioteca Comunitária do Poço da Panela. Ah, sim, cortei os cabelos.

Ou seja, em quinze dias fora do ar e fiz um bocado de coisas, muitas delas bem bestas, mas estou de volta e cheio de novas crônicas na algibeira.

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A história do homem que amou demais – Parte I

9 de outubro de 2014, às 14:01h por Samarone Lima

De volta ao passado. Publico uma crônica de 2005, para matar saudades. Depois escrevo crônica nova.

**

Recife, 02 de setembro de 2005.

Estou sentado num banquinho da praça de Casa Forte, lendo o Juan Gelman que ganhei da Fabiana, muito concentrado, quando vem um sujeito de barba branca andando lentamente. Esse daí bebeu e não foi pouco, penso. Ele passa por mim e diz a frase, num tom muito solene:

“amor, só de mãe”.

Fecho o livro e pergunto se ele tem certeza disso, só para iniciar uma conversa. Ele fica sério, diria que meditativo, e completa:

“nada disso que a gente vê, a gente leva. Só a natureza”.

Guardo o livro, pego meu bloquinho de anotações que ganhei de Ana Luisa (é, agosto foi um mês difícil, mas cheio de pequenos agrados) e já sei que vem muita coisa boa pela frente. Meu amigo começa a falar suas coisas. No fundo é isso, somente isso. Ele estava sozinho com tanta coisa acontecendo em sua vida, e precisava falar com alguém. Como um sonâmbulo, se arrastava pelas ruas do Recife à procura de alguém ou à procura de nada. Acho que não precisava nem de uma pessoa com nome, mas que fosse alguém, ou o Zé Ninguém. Dei esperanças a ele com um olhar, creio. A gente nunca sabe a quem dá esperanças.

“Estou mais magro, mas agüento dois dias de fome”, comenta.

Imediatamente, achei que ele estava mais magro mesmo. Olha para o banco, senta e diz, como num desabafo:

“dormi aqui as duas últimas noites, na poluição do tempo”.

Depois se corrige:

“Não, na poluição da terra”.

Me olha assim, com uma cara de cansaço, muito cansaço, e pergunta quase implorando:

“Onde está a humildade?”

Eu lá sei, amigo, eu lá sei, o mundo está repleto é de deuses e famosos, de carros e apressados. Como não sei mesmo onde está a humildade, confesso minha ignorância e vou anotando suas ponderações sobre o mundo.

“Cada árvore dessa aqui, eu acho um Deus”.

Nisso concordamos integralmente. As frases vão pulando de sua boca. Pareciam pequenos animais amordaçados, que ganharam um alvará de soltura.

“O poder é uma ficção”.

Bingo. Ele me olha novamente, agora mais afetuoso e pergunta:

“Agora eu faço uma pergunta ao mestre – qual foi a pessoa que mais pecou no mundo? O homem que botou a primeira gaia no mundo?”

Caramba, sempre fui péssimo em argüições orais. A sorte é que ele não me deu tempo para pensar.

“Foi Deus, que por obra do Espírito Santo, botou gaia em José”.

Informo aos amigos leitores mais católicos apostólicos, que estou apenas transcrevendo uma conversa numa praça do Recife, numa noite de quinta-feira, após um dia atravessado de problemas e chateações, de norte a sul. As afirmações fortes são do meu amigo da barba branca.

“Salomão pediu a Deus inteligência e sabedoria. Deus ofereceu isso tudo e mais uma coisa – dinheiro”.

Anram, como diria uma amiga. Me deu uma inveja integral do Salomão, que teve inteligência, sabedoria, e certamente não atrasou suas contas e pôde viajar sempre, para qualquer canto do mundo, coisa que me fascina.

“Agora me diga: qual foi o homem da fé?”

Pensei em responder um Santo Agostinho, que escreveu lá suas confissões, ou São Francisco, de quem sou inclusive devoto, mas ele se antecipou e cortou o meu barato.

“Foi Abraão”.

Então ele me deu uma longa explicação bíblica, que me pareceu bem fundamentada e pertinente, mas desprovida de fé. Meu amigo informou que Deus pediu o filho de Abraão, Isaac, em sacrifício. Quando Abraão subia a montanha para matar o filho, com um feixe de lenha (ele não explicou para que servia o feixe de lenha), Isaac perguntou, talvez desconfiando do pior:

“Papai, cadê o carneirinho?”

Caramba, essa pergunta me matou. Um singelo carneirinho, à caminho da morte. Cadê o carneirinho, na subida da montanha, é aquele momento da tragédia em que o coro entra em ação e a platéia se arrepia. Ele me olhou e comentou:

“Tu estás anotando, é?”

Confirmei. Disse que estava escrevendo um livro sobre os anônimos mais importantes do Recife, e ele abriu um sorriso. Seus dentes eram bem separados um do outro, mas estavam inteiros e polidos. Senti aquele aroma de quem andou bebendo com dedicação, nos últimos 25 ou 30 anos.

Bem, no alto da montanha, Abraão pegou o cutelo para matar o filho, informou meu amigo. Eu já fiquei nervoso, temendo o pior com Isaac, o do carneirinho.

“Sabes o que é cutelo? É para imolar”.

Eu não sabia que cutelo só servia para imolar. Estava preocupado era com o garoto. Mas o bom do meu comparsa é que as perguntas vinham com a resposta. Ah, se eu tivesse perguntas já com respostas já na quinta série…

“Tu sabes dizer o que quer dizer proverá?”

Essa eu sabia, mas ele não deu bola. Se encostou no banco e disse que se sente feliz às três horas da manhã, quando as aves gorjeiam. Lembrei do poema que fala das aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá, mas esqueci o autor. Preciso decorar algumas coisas, nem que seja para impressionar numa conversa de praça.

“Tu sabes qual foi o mártir brasileiro que, para defender sete pessoas, deu sua vida?”

Caramba, eu não sei de quase nada importante da história da humanidade! Ele respondeu:

“foi o alferes da Marinha, Tiradentes”.

O sujeito me ganhou só pelo uso de “alferes”, que é palavra certamente oriunda de outros séculos, e pela história do carneirinho.

“Ele foi guilhotinado e esquartejado, e em cada canto de Minas Gerais, colocaram um pedacinho do seu corpo”.

Eu não sabia que a gilhotina fora utilizada abertamente pelos mineiros. Que esquartejaram o velho Tiradentes, eu sabia.

“Por outro lado… a felicidade está debaixo dos meus pés. Quando eu levanto os pés, ela aparece”.

Fiquei feliz em saber que ele encontrou a felicidade, mas estava mudando os assuntos com uma rapidez impressionante.

“Ela aparece e foge. Não, ela na verdade se apaga”.

E o amor? – perguntei eu, para jogar lenha na fogueira. Na verdade, joguei um balde cheio de gasolina. Ele estremeceu e me disse:

“Eu trabalhei 28 anos na Celpe e possui 22 mulheres”.

Não entendi a questão do trabalho com as mulheres, mas pouco importava, cada um com seu jeito de lembrar as coisas. Ele começou a dizer, como quem escala o time supercampeão de 1973, o nome de todas.

“Zan (Rosana), Tonha, Marleide, Zeza, Lourdes, Beatriz, Bia, Dolores…”

Ele falou os nomes com tanta rapidez, que perdi alguns e fiquei com vergonha de pedir para repetir.

“Foram princesas das quais só uma eu amei: Maria José Ribeiro, a “Zeza”, morena brejeita, cor de canela. Às vezes eu beijava seus próprios pés. A chamava de minha princesa. Ela tinha tudo: era feia, baixinha, gorda, mas o amor não tem isso – não escolhe beleza. Ela pode ser fedorenta, feia, mas no aconchego da vida, a gente é feliz com essa pessoa”.

Respirou fundo e completou:

“O coração se queima. Era o pulsar. O sangue nas minhas veias se expandia…”

***
(A última parte da conversa vem na próxima crônica, ainda hoje. Aguardemos o restante da história de um homem que amou demais.)

Estuário: crônicas do Recife

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É amanhã…

7 de outubro de 2014, às 15:47h por Samarone Lima

Amanhã (quarta, dia 8), será lançada a revista Café Colombo, uma idéia dos idealizadores do projeto homônimo (www.cafecolombo.com.br), que há 12 anos vem levando matérias jornalísticas, entrevistas radiofônicas com escritores (mais de 600), ensaios e outras invenções bacanas.

Ele me convidaram para uma conversa ao vivo sobre meu último livro, “O aquário desenterrado”.

Será na Livraria Cultura, às 19h. Aos meus leitores, compartilho o convite (que por sinal, ficou lindo).

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Perguntas ao vento

3 de outubro de 2014, às 13:53h por Samarone Lima

Há uns três dias, não sei exatamente por qual motivo, me ocorreu a frase – “E se hoje fosse o último dia da minha vida?”

Não se incomodem, caros leitores. Pelo que sei, não tenho tendências depressivas, nunca tomei ansiolíticos e meu terapeuta é muito mais um poeta do que um psicanalista.  No nosso último encontro, ele disse algo do tipo “os lampejos da alma não passam pelo cérebro”.

Além disso, amados leitores, vocês já perceberam que eu penso muita besteira. Principalmente na parte da manhã, quando meu cérebro funciona mais devagar. É a melhor hora para pensar coisas desnecessárias, escrever poesias, anotar coisas, ler ou ficar fazendo nada.

Mas fiquei com a frase. Ela aparecia de vez em quando. Ao invés de me incomodar, ficou sendo motivo de inspiração.

O que mudou?

Não sei. Talvez tenha me lembrado com mais clareza de que a vida é finita. Às vezes, bruscamente finita. Imensa e precária. Tudo pode acabar em alguns segundos. Tanta coisa que parecia tão importante, vira nada. Só vai restar mesmo o pó e, quem sabe, a lembrança.

Talvez a morte de duas pessoas queridas, este ano, tenham despertado esta pergunta. Uma, me ligou pouco antes de fazer o que seria “uma cirurgia besta”. Outra, por causa de um câncer devastador.

Estou me fazendo esta pergunta agora, mas está me fazendo bem. Me dá um sentido mais amplo dos instantes.

Outro dia um grande amigo, com quem tenho encontros semanais de aprendizado, disse algo que me pareceu uma reinvenção da própria vida:

“Tive vidas passadas nesta vida”.

Algo como a lembrança de que as vidas passadas não precisam ser as que vivemos em outras eras, antes de nascermos. Quem de nós (especialmente os de mais idade), não lembra do ser que fomos, há 15 anos, hoje praticamente um desconhecido? Ou, quem sabe, até irreconhecível?  O Samarone que fui aos 25 anos, é o mesmo de hoje, aos 45? O que nele nasceu e o que morreu?

Quantas vidas devo ter tido nesta vida?

Algo na frase fica balizando o cotidiano com uma intenção – viver melhor e mais plenamente este dia, que pode ser o último.

Mas que, se tudo correr bem, não será, porque amanhã é sábado, e adoro o sábado. É o dia da semana que eu já estou sorrindo antes mesmo de acordar.

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