Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Anotações sobre a morte e a vida, ou vice-versa

23 de fevereiro de 2015, às 11:32h por Samarone Lima

O título da crônica de hoje tem uma relação com a leitura de dois textos, coisas boas, que não consigo ler nos jornais do Recife, obcecados pelos fatos, crimes e redundantes coberturas políticas.

O primeiro foi uma entrevista bem surpreendente, com o médico britânico Richard Smith, publicada na Folha de São Paulo, sábado passado. A manchete chega dava um susto:

Não há melhor forma de morrer do que de câncer - Doença permite se despedir, refletir e fazer pela última vez o que quiser”, afirma médico.

A foto mostra um sujeito de 62 anos, com um largo e bom sorriso, cabelos que parecem ter levado um banho de talco e aqueles dentes amarelados dos ingleses.

Claro que fui ler. Teve gente da minha família que morreu de câncer, pessoas amigas, e a doença é bem dolorosa para quem a vive na pele.

A tese dele (publicada no início do ano), é a de que “você pode dizer adeus, refletir sobre a vida, deixar mensagens, visitar lugares especiais pela última vez, ouvir as músicas favoritas, de acordo com suas crenças, para encontrar seu criador ou curtir o esquecimento eterno”.

Ou seja, o câncer ataca essencialmente pessoas sempre bem de vida, que podem reunir amigos, viajar, sem dores brutais, impedimentos, remédios devastadores, têm à disposição hospitais e ótimos médicos, e a palavra “Dor” sequer aparece.

Segundo o Smith, nós partimos desta para outra viagem de quatro maneiras: morte súbita, demência, falência dos órgãos e câncer, “que ocorre ao longo de semanas, dando tempo para despedidas e toda sorte de preparativos”.

É mesmo algo bem idealizado, mas o que ele diz, ao longo da entrevista, é que devemos nos preparar (ou pensar a respeito) para a morte.

“Os filósofos estóicos, como Sêneca, mostraram claramente que contemplar a própria morte não só leva a uma morte melhor como uma vida melhor. Uma aceitação por inteiro da morte significa uma vida plena. Para mim, a morte dá significado à vida. É um ciclo natural”, a  diz.

Respeito as ideias do médico, mas esse câncer que ele cita é diferente do que eu já vi de perto. Eu prefiro mesmo a morte súbita, sem tempo para despedidas, sem viagens para lugares especiais pela última vez, nem me preparar, pois acho que estar vivo, hoje, batucando esta crônica quase médica, é um verdadeiro milagre. Todo dia, na minha filosofia do desaviso, é o último.

Mas no dia seguinte à entrevista do britânico, a mesma Folha de São Paulo publicou uma bela profunda carta de despedida do neurologista e escritor Oliver Sacks, também britânico. Se intitula “Minha vida”. Vai na linha do “tempo para fazer os acertos”.

Ele tem 81 anos, e até outro dia, nadava 1.600 metros todo dia, tinha o que ele mesmo denomina de “uma saúde de ferro”. Há algumas semanas, descobriu que tinha “múltiplas metástases no fígado”. Há nove anos, já tivera um raro câncer no olho, fez tratamento (que o deixou cego de um olho), e conseguiu seguir a vida. Até que ele retornou, “Estou entre os 2% desfavorecidos pela sorte”, diz.

Agora, ele está cara a cara com a morte. O avanço desse tipo particular de câncer não pode ser impedido.

E agora, Oliver?

“O que me cabe agora é decidir como viverei os meses que me restam. De vive-los da maneira mais rica, profunda e produtiva que puder”, diz o neurologista, encorajado pelas palavras de um de seus filósofos favoritos, David Hume, que teve uma morte por doença, mas seguiu com o espírito elevado. “Possuo o mesmo ardor de sempre pelos estudos, e a mesma alegria na companhia de outras pessoas”, escreveu Hume.

Sacks diz os seus planos para o tempo que lhe resta:

“Sinto-me intensamente vivo, e quero e espero que, no empo que resta, eu possa aprofundar minhas amizades, dizer adeus aos que amo, escrever mais, viajar, se tiver força para tanto, alcançar novos graus de entendimento e de discernimento”.

“Isso vai requerer audácia, clareza, franqueza: é uma tentativa de acertar as contas com o mundo. Mas haverá tempo, também, para diversão (e até mesmo para um tanto de tolices)”.

E talvez este seja o parágrafo que me fez escrever esta crônica quase médica:

“Sinto uma súbita nitidez de foco e de perspectiva. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso me concentrar em mim, no meu trabalho, nos meus amigos. Não vou mais assistir ao noticiário na televisão toda noite. Não darei mais atenção alguma à política ou ao aquecimento global”.

Hoje, no café da manhã, comentei com a Sílvinha sobre o artigo do Sacks, que ela também tinha lido.

“Mas é preciso estar perto da morte, para que isso aconteça?’

Concordei inteiramente.

É muito bacana ter uma saída poética, com despedidas, poder viver a própria vida e morrer a própria morte, como diz o Sacks, mas isso pode acontecer sem aviso prévio.

Outro dia eu estava num perrengue triste com uma amiga. Começou com uma discussão infeliz, descambou para uma troca de email desafortunada e resultou em hematomas dos dois lados. Depois de uns dias, veio um email gelado, que nos levaria a uma amizade desamparada, triste, quando algo se quebra e não faz mais “clic”, como as melhores caixinhas. Lembrei que a vida é curta para ficar com besteiras. O tal do “orgulho ferido” é um troço triste. Respondi noutro tom, afetuoso e acolhedor. E tudo se desmanchou.

Marquei de tomarmos um bom vinho para conversarmos sobre a vida, que é breve e pede cuidado, e a plantinha da amizade já começou a esverdear.

“Viver é distrair-se da morte”, já dizia o velho e bom Macedônio Fernandez. Não por acaso, uma das frases que mais repito, em momentos diversos, é a do poeta Paulo Leminsky:

“Distraídos venceremos”.

Essas minhas crônicas, realmente, não levam a lugar nenhum, mas vamos em frente…

**

Nota.

Abriram um Facebook com meu nome (Samarone Lima), com foto e tudo o mais. Não sei quem tomou a decisão. Só espero que não coloquem por lá coisas que não escrevi ou  disse. Se algum leitor passar por lá, favor me avise se esse Samarone está se portando bem no “Face”…

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O poeta e o que restou da Revolução Cubana

19 de fevereiro de 2015, às 13:43h por Samarone Lima

Já escrevi sobre Cuba aqui no Estuário, mas volto ao tema por causa de uma entrevista do grande cantor e compositor cubano Pablo Milanês ao jornal “El País”, no sábado passado, quando eu iniciava minha maratona carnavalesca. Vai o link:

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/13/cultura/1423851530_536670.html

A decepção do artista, que durante muito tempo foi um dos defensores da Revolução Cubana, é enorme. Aos 72 anos, tendo passado por graves problemas de saúde (recebeu um rim de sua mulher), o criador da Nova Trova Cubana, ao lado de Silvio Rodriguez, parece ter se dado ao direito de falar abertamente sobre tudo o que viveu e sente.

Uma das partes mais terríveis é quando o jornalista o pergunta sobre as UMAP – conhecidos campos de trabalho forçado, ainda no início do novo regime:

“Nunca me perguntaram tão diretamente sobre as UMAP (ironicamente, Unidades Militares de Ajuda à Produção). A imprensa cubana não se atreve e a estrangeira desconhece a nefasta transcendência que aquela medida repressora de caráter puramente stalinista teve. Estivemos ali, entre 1965 e finais de 1967, eu e mais de 40.000 outras pessoas, em campos de concentração isolados na província de Camagüey, realizando trabalhos forçados desde as cinco da madrugada até o anoitecer, sem nenhuma justificativa nem explicações, e muito menos o perdão que estou esperando que o Governo cubano peça. Eu tinha 23 anos, fugi do meu acampamento — e me seguiram mais 280 companheiros que estavam presos no mesmo território que eu — e fui a Havana para denunciar a injustiça que estavam cometendo. O resultado foi que me enviaram por dois meses à prisão de La Cabaña, e depois fui transferido para um acampamento de castigo pior que as UMAP, onde permaneci até que essas unidades fossem dissolvidas devido à pressão da opinião internacional.

Quando ainda estava lá, após ler Um dia na vida de Ivan Denisovich, de Aleksander Solzhenitsyn, que um amigo me enviou, me dei conta de que as ideias de um revolucionário não se desviam por causa dos erros cometidos pelos dirigentes. Então, saí mais revolucionário. A UMAP não foi um fato isolado. Antes de 1966, Cuba se alinhou definitivamente à política soviética, incluindo procedimentos stalinistas que prejudicaram intelectuais, artistas e músicos. Segundo a história, em 1970 começou o que era chamado de o quinquênio cinza, e eu defendo que esse período começou em 1965 e que foram vários quinquênios”.

**

Agora falo um pouco de mim, enquanto escuto o CD “Silvio Rodriguez/Pablo Milanes en vivo en Argentina”.

Fui a Cuba no final de 2007 e voltei no início de 2008 com um esboço de livro na mochila. Ganhou o título de “Viagem ao Crepúsculo” após a delicada leitura de Flávia Suassuna.

O livro trata, essencialmente, do cotidiano do povo cubano. Eu já tinha escutado alguns relatos, de pessoas que viajaram em outras épocas, mas não imaginei um país tão devastado. Não imaginava a fome cotidiana, ao me hospedar na casa dos cubanos. Muito menos o medo que os cubanos têm de falar sobre o regime que, naquele momento, caminhava para os 50 anos. Quando você conhece um lugar em que as pessoas reclamam baixinho, disfarçando, é porque o medo está enraizado. Vi isso inúmeras vezes.

“Se prepare para levar um pau grande da esquerda”, me avisou Homero Fonseca, após ler os originais.

O livro foi publicado em 2009, pela Casa das Musas, e comecei a participar de debates. Era comum ver dedos apontados, uma gente com muita raiva do que eu tinha vivido escrito, fora os comentários irônicos sobre “quem deveria ter financiado a viagem e o livro”, essas coisas.

A comparação com a realidade brasileira era o recurso mais óbvio. Aquela lorota de que “neste instante, não há uma criança cubana com fome”. Eu respondia que era um brasileiro que tinha escrito um livro sobre a vida cotidiana em Cuba, e que não via motivo nenhum para citar aquela realidade como exemplo. O livro é o relato de uma decepção profunda.

Também não gostavam nada quando eu falava dos presos políticos, do jornal único (na verdade são dois), da TV estatal repetindo “Viva la Revolución” a cada intervalo, da absoluta falta de expectativa dos cubanos sobre o futuro, além de uma frase de Fidel Castro, que me causou um engasgo, pintada no muro de um órgão do governo:

“Que somos e seremos, a não ser uma só história, uma só ideia, uma só vontade, para todos os tempos”.

O livro está esgotado e vinha pensando em fazer uma nova edição, atualizada, retornar a Havana para rever os muitos amigos que fiz, ver o que mudou, após seis anos, embora saiba que nada de importante para a liberdade e a vida cotidiana tenha acontecido. As filas devem continuar intermináveis, para buscar a comida racionada com uma carteirinha individual.

Muita gente me pergunta onde encontrar o livro, quando sairá outra tiragem, mas não sei responder. Eu já lutei demais com meus livros. Às vezes dá menos trabalho escrever do que publicar. Vou ver se disponibilizo o conteúdo na Internet.

A entrevista do Pablo Milanes me fez pensar muito sobre essas coisas que nos dizem ser exemplo, mas que muitas vezes são apenas ideologia grosseira e mesquinha. Há quem defenda com unhas e dentes o regime. Eu respeito, mas Cuba, para mim, vive debaixo de uma ditadura brutal, que perseguiu poetas, romancistas, músicos, pensadores e qualquer tipo de oposição, como as “Damas de Branco”, mulheres simples que lutam por liberdade.

“Arrependido não é, precisamente, a palavra. Estou mais decepcionado – e acho que os que pensam como eu também – com dirigentes que prometeram um amanhã melhor, com felicidade, com liberdades e com uma prosperidade que nunca chegou em 50 anos”.

É Pablo Milanes quem fala. Pode ser que aqueles que me apontavam o dedo, um pouco ferozes, escutem.

Pare Celeste, em Havana. Quem leu o livro sabe o motivo.

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Errâncias literárias e outras derivações

10 de fevereiro de 2015, às 11:06h por Samarone Lima

Sempre que encontro alguém com o sonho de se tornar escritor, me pergunto se ele vai mesmo topar a parada, porque viver do que se escreve é algo que começa bem antes da decisão, é uma vida inteira. Mais que isso, implica numa relação extrema e íntima com a solidão. Num mundo cheio de demandas e estímulos, o escritor luta com unhas e dentes para conseguir ficar só. Ou seja, é uma luta para conseguir tempo. Pelo que sei, é bem difícil escrever no supermercado, nos engarrafamentos, ou trabalhando em alguma coisa (para sobreviver), que não tenha nada a ver com a escrita.

Agora mesmo, estou mergulhado num livro que venho perseguindo há anos. Ele não me larga, nem eu o abandono. Consegui fazer umas economias e, se tudo der certo, até julho estarei concentrado só nele. Nessa longa jornada, outros projetos foram surgindo, e fui dando conta. Vai uma pequena autobiografia literária:

“Zé – José Carlos da Mata Machado, reportagem biográfica” (1998), nasceu do meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, na Universidade Católica de Pernambuco, em 1993. No ano seguinte, me mudei para São Paulo e continuei a pesquisa. Escrevi o livro lutando braçalmente pelas manhãs livres. Primeiro como free lancer, depois na animadíssima redação do Diário Popular, onde trabalhava na editoria de Polícia. Levei cinco anos para concluir, e quando mandei os originais para algumas editoras, a mineira Mazza se antecipou. Eu estava com 29 anos e nem nos meus sonhos mais ousados, imaginaria ter um livro publicado antes dos trinta.

“Clamor” (2003) foi, certamente, o livro em que tive mais sorte. Primeiro, porque passei no mestrado da USP (1999), depois de ter sido rifado na Unicamp e na PUC. Segundo, porque consegui uma bolsa de pesquisa da Fundação Ford para pesquisar sobre as ditaduras do Chile, Uruguai, Argentina e Brasil. Com o dinheiro para a pesquisa, que durou um ano, pude conhecer -e bem – a América Latina. Além disso, a minha co-orientadora, Cremilda Medina, uma das grandes mestras do jornalismo, me deu aquele empurrão rumo ao desconhecido, permitindo que eu escrevesse a dissertação do jeito que eu queria. Nunca olhei sequer as normas da ABNT. Quando terminei o trabalho e fui aprovado pela banca, mantive o ritual do “Zé” – imprimi cinco volumes, encadernei e mandei para cinco editoras.  A Objetiva deu um retorno rápido e graças à maestria editorial da Isa Pessoa, o livro ficou mais encorpado. Trabalhei duro uns quatro meses para ampliar alguns capítulos e refazer outros, aproveitando o dinheiro da demissão da Católica (valeu, Fradique!), onde ensinava “Técnicas de Reportagem”.

Foi um período e tanto. Morava no Poço, trabalhava duro de manhã e depois encostava na venda de Seu Vital perto do almoço. Muitas vezes, o almoço que dona Severina me servia se tornava o tira-gosto, compartilhado com o gordinho Naná. Escrevia minhas crônicas à noitinha e voltava para o mesmo lugar à noite. O livro foi lançado em 2003 e é bem fácil encontrá-lo nos sebos e na estante virtual.

Como eu já tinha um bom traquejo com as crônicas, publiquei “Estuário”, em 2005. Foi um livro bem caseiro, feito com a ajuda de amigos, especialmente o Edelry Júnior. Primeiro, pela “Livro Rápido”, de Tarcísio Pereira, depois uma edição mais caprichada, pela Bagaço, após a insistência do amigo Ricardo Melo. As duas edições venderam fácil e não tem mais nem para remédio. Como esta postagem é a de número 856, dá para fazer uma seleção e tanto, para um novo livro.

Mas alto lá. Se você quer ser escritor, não adianta sentar e escrever qualquer coisa ou “de tempos em tempos”. O leitor não é nada besta. Se ele perceber que você está enrolando, não volta mais. Quantos sites e blogs fui deixando, ao longo dos anos, quando via que o autor estava ficando relapso ou repetitivo? Muitos. É preciso também cuidado com nossa língua. Escrevo, publico, depois leio para ver se tem erro. Se sai algum errinho, a turma dá logo uma cacetada.

O livro sobre Cuba (“Viagem ao Crepúsculo”) foi o mais inesperado. Nasceu de uma viagem à Ilha, entre 2008 e 2009. Fiquei tão impressionado com tudo o que vi e vivi, ficando hospedado nas casas dos cubanos, que fui enchendo meus cadernos de histórias e situações. Na volta, ofereci à Objetiva, que recusou (a Isa estava de férias, creio). Mandei os originais para outras editoras, que não deram a menor bola, diziam que se Fidel Castro morresse, o livro perderia a validade, então publiquei pela pequena e modesta Casa das Musas, dos meus amigos Gustavo de Castro e Florence Dravet, de Brasília. Fidel segue vivo até hoje.

Foi um barato. Gustavo me mandava lotes do livro, pela Itapemirim Cargas, eu pegava com Naná e levava para a livraria Cultura. Eles ficam com 50% do valor da venda (que acho um exagero), mas como têm lojas em várias capitais, era uma forma de fazer o livro circular. Virei figurinha carimbada na Livraria Cultura daqui. Vendemos inacreditáveis 2.000 exemplares. Depois fiz outro lote (de 500) pela Paés, que também esgotou.

Neste caso, o livro foi o resultado de uma viagem (que fiz na raça), da decisão de ficar na casa dos cubanos, também à sorte de ter conhecido o Martin (brasileiro) e o Pedro (venezuelano), que estudavam Medicina por lá. Eles me abriram portas e janelas de uma Cuba que dificilmente eu teria acesso, sozinho. Depois conheci Celeste, uma figura admirável, que todos os leitores comentam até hoje.

Mais que isso, eu tive fé no livro, acreditei nele, e joguei minhas forças. Eu queria mostrar uma Cuba bem diferente do que muita gente fantasiava. A realidade dos cubanos me acertou em cheio. Estou com planos de voltar, para ver o que mudou, após cinco anos. Pelo que sei, dos poucos contatos que mantenho, quase nada.

Bem, mas havia um problema interno, de enormes proporções. Escrevo poesias desde os 13 anos. Meus diários estão repletos de poemas ruins, péssimos, ridículos, alguns razoáveis. No meio desse vendaval de cadernos, poemas que me pareciam dizer algo. Fui publicando meio na surdina num blog (www.quemerospoemas.blogspot.com).

O problema era terrível. Eu nunca acertava a mão na seleção dos poemas. Imprimia, lia numa noite e achava uma maravilha. No dia seguinte, cortava boa parte deles e achava uma parte horrível, e desistia. E cá entre nós – não há nada tão desagradável, do ponto de vista literário, que a má poesia. Se for de um amigo, eu sofro ainda mais.

Eu já estava quase beijando a lona, quando surgiu a figura inesperada de um leitor que era amante da poesia, o velho em bom Arsênio Júnior. Graças a ele, que topou ler e selecionar tudo o que tinha no blog, surgiu, no final de 2012, um livro duplo – “A Praça Azul” e “Tempo de Vidro”, novamente pela Paés, num esquema de co-edição. No final de 2013, fruto desta pareceria e com o olhar da editora Karla Melo, nasceu “O Aquário desenterrado”, pela editora Confraria do Vento.

Já estou com um novo lote de poemas e devo lançar outro livro no segundo semestre. Não sei nem de onde surgiu esta ideia de falar sobre os meus livros. O texto ficou até grande demais. Inicialmente, pretendia falar sobre o trabalho do escritor, e que estou muito animado com este momento. Que continuo escrevendo, que minha escolha é esta mesmo, que assim sou mais feliz. Essas coisas desaprumadas que costumo compartilhar com meus leitores. Agora mesmo, são 12h36 e nem pisei na calçada, aqui engalfinhado com meus escritos.

Outro dia, uma amiga me contou que, após ler o poema “O elefante azul”, passou a ter mais cuidado com o que diz para as crianças.

Ganhei dois prêmios literários ao longo da vida, mas esta pequena e singela confissão valeu muito mais.

Até porque já fui criança e sei bem que os adultos, às vezes, dizem coisas devastadoras.

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Brincar de viver

28 de janeiro de 2015, às 11:25h por Samarone Lima

Definitivamente, as pessoas estão levando a vida muito a sério.

Não sei o que há, mas sinto, no ar, um certo peso. As discussões políticas se tornam quase impossíveis. As câmaras secretas do egoísmo estão às escâncaras. Discordar, agora, é quase uma blasfêmia. Sei de vários casos fraticidas via Internet, amizades desfeitas por causa de textos publicados. Comentar algo que alguém escreveu é quase como liberar cinismos trancafiados, com palavras que ferem e deixam cicatrizes.

Estou acreditando que precisamos mesmo é errar mais por distração e brincar mais por devoção.

Sempre creditei uma força enorme para pessoas que, acima de tudo (e apesar de tudo), brincam com a vida.

No mundo da literatura, este que fui entrando timidamente, por uma portinha lateral, há batalhas monumentais de egos, gente que se leva mesmo a sério. Eu fico me perguntando: e daí, camarada?

Ah, sim, ganhaste um prêmio literário? E daí, meu velho? Terás a glória de chegar, algum dia, a ser o velho sábio de tua aldeia?

A grande arrogância, no final das contas, é não dar o melhor de si.

Nos lugares que frequento, escuto barbaridades sobre a vida e a morte e trato de olhar para as árvores.

Não, eu não quero ganhar meu ponto de vista nestes debates insanos. Vivemos, por aqui, um mar desamor que vai da insanidade no trânsito a uma reação insana por causa de um brasileiro fuzilado na Indonésia. O rapaz cometeu um erro, mas nunca escutei tantos comentários de apoio ao fuzilamento e à pena de morte, como se isso fosse mesmo solução.

Edgar Morin fala em um de seus livros (mas isso quem me contou foi meu amigo Gustavo de Castro) que há pessoas com a “cabeça cheia” e outras com a “cabeça feita”.

Estamos cercados de “cabeças cheias”. De certezas. De dedos em riste. Um certo orgulho por ser “curto e grosso”. Esquecem que há momentos para silenciar, para falar depois, para simplesmente dizer – deixa isso pra lá.

“Saia de você de vez em quando”, diz o meu velho amigo Barthô. E acho isso de uma leveza fundamental.

Lembrei de outro grande amigo (que ama a vida de norte a sul), o velho e bom Lula Terra:

“Não brigue com a felicidade, porque a tristeza tem sono curto”.

Nessa babel de egos que é a Internet, as avassaladoras “redes sociais”, fico feliz de verdade quando saio com dois ou três amigos e, de fato, conversamos. Escutamos um ao outro, sem que algo bem “engraçadinho” surja a qualquer momento em nossos celulares de última geração, sem que o zap-zap fique gritando a todo momento por um pouco de atenção.

Para que tanto? Por que o tempo livre agora tem que ser ocupado a cada segundo? Chegará o tempo do “coach do tempo livre?” Ou o “gestor das horas vagas”?

Não sei para que estas minhas crônicas servem. Talvez para nada mesmo. Mas, enquanto escrevo, me chegam frases, como sopros.

Eu simplesmente compartilho.

“Faça bem ao seu destino”, me ocorreu agora.

Estou tentando.

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Novos ofícios

19 de janeiro de 2015, às 13:03h por Samarone Lima

Sou um dos sujeitos que tem mais projetos no Brasil. Minhas cadernetas estão cheias. Há maquetes, programas, esboço de narrativas, contos fantásticos, novelas, ensaios, romances incompletos, poemas antigos, seminovos e usados. De vez em quando um dá certo e vou escapando.

Há, claro, gafes monumentais, como a decisão maluca, em algum momento da minha vida, de ter bares. Tive dois. Pior – eles viviam cheios, para atazanar ainda mais meu juízo. Não há nada pior do que ser o dono de um bar quando ele está lotado, quando tudo o que o proprietário queria, naquele momento, era estar no fundo de uma rede, com uma pilha de livros ao lado.

Bem, mas um acaba de sair do papel. Vamos ao caso.

Desde o ano passado, eu e meu dileto amigo Inácio França resolvemos fazer um projeto de um programa de rádio, que tivesse como tema a literatura. Fomos tão organizados, que até um estúdio alugamos, chamamos nosso amigo Xico Sá para uma entrevista, o negócio ficou bom pacas, divertido, sem aquela coisa formal dos estudos culturais ou semióticos ou da personalidade ambígua do narrador, enfim.

Apresentamos o projeto a uma rádio local, gostaram muito, mas como eu e Inácio não fizemos cursos de vendas, marketing, investimentos em mídias, o negócio não andou. Mas ficamos com aquela esperança acordada – uma hora vai dar pé. O programa, por sinal, se chama “Para gostar de ler”.

No apagar das luzes de 2014, tivemos um contato com o radialista Marcelo Araújo, da rádio JC FM, que demonstrou interesse. Entregamos a fita, digo, o pênis-drive com o programa que gravamos, ele gostou e o negócio andou.

O fato é que, na última sexta-feira, fizemos a estreia de nosso programa, dentro do programa “Movimento”, do próprio Marcelo, que vai de 20h às 23h. Ganhamos, inicialmente, meia hora (21h30 às 22h) para falar de um assunto que simplesmente adoramos – literatura.

Quando foi chegando nossa hora, deu aquela sede geral. Sim, meus amigos, quando fico um pouco nervoso, me dá uma sede miserável. Ainda bem que não moro mais em São Paulo, porque seria multado direto pelo Alkmin por beber muita água da Sabesp. Boto logo uma garrafinha ao meu lado e vou mandando: glub glub glub e o nervosismo vai passando. Em mesas literárias, falta pouco para passar vergonha. Quando botam uma jarra, vou secando ela na boa, enquanto os outros falam. Vou ver se marco um horário com algum psicanalista, para ver que relação é esta que tenho com sede e água.

Mas… bingo!

Bastou começar o programa, que tudo fluiu. Falamos de livros, leitores, demos dicas de leituras, mostramos algumas coisas que gostamos muito, e tivemos algo maravilhoso que só o rádio permite – o diálogo direto com os ouvintes, ao vivo. Muita gente interagiu, comentou sobre o livro que mais gostou, desejou boa sorte ao programa etc.

Ao final, já saindo da rádio, ligamos para amigos e pessoas próximas de gente, e tivemos um ótimo retorno. Pelo menos a turma que gosta da gente gostou muito. Acham que o programa teve um clima de bate-papo, que foi descontraído etc. Eu não sabia, mas minha mulher disse que Inácio e eu somos meio gagos. Inácio eu já sabia, mas ele tem as fases “mais gago”, “menos gago” e “ultra gago”. Mas eu? Foi a grande novidade. Acho, inclusive, que isso pode prejudicar muito nosso futuro radialístico.

Depois, o melhor. Um amigo nosso da época de Católica (falo da Universidade) ligou para Inácio, para dizer que tinha interesse em patrocinar o “Para gostar de ler”. Ele mora no Rio de janeiro e não o vejo há muito tempo. Está ganhando uma gaita que não é mole. Bem, se ele, que está no Rio, já escutou o programa e quer conseguir patrocínio, o negócio andou mesmo.

Como eu e Inácio estamos envolvidos em outro projeto (mas na qualidade de convidados), que é uma mesa-redonda sobre futebol na Internet (mas comentando os jogos do Santa Cruz), creio que 2015 pode ser um divisor de águas nesta minha jornada pela sobrevivência.

Apresentador de programa literário numa rádio, na sexta-feira à noite, e comentarista sobre futebol, na Internet, aos sábados à tarde.

Se esses negócios derem certo, acho que vou realizar um velho sonho, que é o de ir para a praia todo dia, mesmo sem ter casa na praia. E também vou escrever e ler três vezes mais do que escrevo e leio. E, quem sabe, abra finalmente uma página no Facebook, para saber o que anda se passando na cabeça das pessoas que não encontro nem para remédio.

Aguardemos o desenrolar dos novos ofícios, pois.

Nota: Na sexta passada (23/01) o entrevistado foi o escritor Sidney Rocha. Inácio não pôde ir, por causa de uma pequena cirurgia. Sidney, como é um sujeito acima da média nacional, já me mandou o link. Vejam o programa:

http://radiojornal.ne10.uol.com.br/noticia/2015/01/23/escritor-sidney-rocha-fala-um-pouco-sobre-carreira-36988

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