Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Estou com os estudantes e com os que dizem não a tantas coisas silenciadas

15 de junho de 2013, às 11:46h por Samarone Lima

Na sexta-feira passada fui comprar frutas aqui perto, no centro do Recife. Encontrei banana a R$ 12,00 a dúzia, beterraba a R$ 4,50 e cebola a R$ 5,00. Encontrei uma inflação louca e a cidade em transe. É que os motoristas de ônibus, numa determinada hora, estacionaram, fizeram fila dupla, desligaram os motores e desceram. Fim da corrida. Ficou apenas um lado da pista para o restante dos veículos.

Tudo mudou no centro. Pessoas a pé, atrasadas, uma maré de gente caminhando, motoristas e cobradores reunidos em cada esquina e, para minha surpresa, de vez em quando passava alguém dizendo “é isso mesmo!”, “força!” e coisas do tipo. Os que passavam de carro, com os eternos vidros fechados, buzinavam alto, certamente irritados com “esse absurdo” que é parar o trânsito às 8h13 da manhã.

Na volta, conversei com um motorista, um negro de quase dois metros. Ele me explicou que era apenas uma paralisação rápida, até às 9h, para os empresários se ligarem. Na reunião de negociação, tinham oferecido 1% de aumento. A ajuda para alimentação é de R$ 160,00 ao mês. Perguntem quanto cada desembargador de São Paulo recebeu, retroativo, de auxílio alimentação. Daria para alimentar todos os motoristas e cobradores do Recife durante anos.

Ele estava feliz. Andava orgulhoso, inteiro, sorrindo. Mais que isso, estava orgulhoso porque a sua categoria aderiu. Não há nada mais frustrante do que uma greve que é organizada durante a madrugada e os companheiros de trabalho furam. Os que fazem são demitidos e a categoria perde a força. Os pelegos negociam na calada, ganham uma boa grana por fora e assim se fortalecem centrais sindicais que escravizam várias categorias. Perdão por usar “companheiros” e “pelegos”, coisa bem década de 1980, mas existem sim, até hoje, os companheiros e os pelegos.

Cheguei em casa e vi, horrorizado, as imagens da polícia de São Paulo massacrando os estudantes, que lutam contra o aumento das passagens. Ela custa R$ 3,00 e vai passar para R$ 3,20. Balas de borracha, bombas, cacetete, prisões. O prefeito da cidade e o governador do estado, não por acaso, estavam em Paris, achando que tudo está certo.

Os que estão dopados, os que perderam a coragem de questionar, que só pensam em trabalhar, escapar dos engarrafamentos, pagar os juros do cartão de crédito, os que ficam nas filas de bancos reclamando que “só tem dois caixas atendendo”, os que estão morrendo de tédio e só querem que o dia chegue ao fim sem levar um tiro, sem serem roubados, acham essas passeatas uma grande merda, acham que a polícia tem mesmo é que mandar bala e gás lacrimogêneo, tem é que descer o cassete. Seria melhor, para alguns, que descessem “uma camada de pau”, para “acabar com essa anarquia”.

Pois eu, Samarone Lima, 44 anos, morador do Recife, eu que ando pelas ruas desta cidade que amo, que escrevo crônicas semanais e algum livro quando tenho tempo, eu estou com os estudantes.

Eles estão esfregando na nossa cara que são capazes de lutar por algo. Os R$ 0,20 centavos não são o eixo da luta. Eles estão brigando porque há um subsídio milionário de R$ 1 bilhão para as empresas. Estão lutando porque numa cidade como o Recife, quente pra caralho, não temos ônibus com ar-condicionado e as pessoas vão para o trabalho pingando de suor. Estão lutando pelo mesmo motivo que os turcos estão apanhando da polícia de um tirano – porque não deixaram que um parque viesse abaixo para a construção de um shopping center.

Estão dizendo NÃO quando estamos dizendo sim o tempo todo.

Dizemos sim às prisões superlotadas, às torturas de hoje, à polícia que leva para a delegacia o sujeito que tem um baseado no bolso, dizemos sim à destruição de qualquer meio ambiente em troca de uma indústria, dizemos sim a um sujeito que sai de casa, para passear com o cachorro e morre eletrocutado, dizemos sim aos 32 indivíduos que morreram eletrocutados nas ruas de Pernambuco, em 2013, dizemos sim às madrugadas sem médicos em hospitais, aos abortos clandestinos em nome de uma falsa moral, enfim.

Estamos vivendo numa sociedade do sim.

Estou com os estudantes. Um povo que luta contra um aumento de R$ 0,20 centavos em seu terror diário nos transporte público ônibus do Brasil, que luta contra a destruição de um parque para que construam um shoppin center, ainda não morreu. Neste caso, nossos estudantes são os mesmos turcos que lutam pelas árvores, a milhares de quilômetros.

Encerro esta crônica com uma imagem que me chegou pelo email.

Uma amiga estava no centro da confusão, no Rio de Janeiro. Viu dez mil estudantes mobilizados contra os aumentos e desceu. Caminho no meio da multidão, anônima e tão indignada quanto, emocionada. Andou sozinha no meio da multidão, sem medo, guiada por um sentimento de inteireza.

Os dez mil seres humanos que lotaram a avenida Rio Branco protestavam não só contra o aumento da passagagem de ônibus. Lutavam contra a política de transporte público, contra o projeto da cidade-balcão-de-negócios, contra o atual modelo de desenvolvimento.

“É tão fácil fingir que nada está acontecendo, é tão cômodo dizer : isto não me diz respeito”, disseminha amiga.

“No entanto, agora lembro minhas primeiras aulas na Faculdade de Filosofia, aos 17 anos, já era alertada”:

“O preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior”.

**

Debate na livraria Cultura

Para quem gosta de futebol e literatura, fui escalado para um debate hoje (17.06), às 19h, na livraria Cultura. Estarei em campo ao lado do triatleta Inácio França , do escritor Paulo Santos, com a mediação do médio volante Homero Fonseca.O debate, promovido pela Companhia de Eventos, é um aquecimento par a Bienal Internacional do Livro, em outubro.

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Dois larápios em perfeita harmonia (Memórias de um larápio II)

12 de junho de 2013, às 9:06h por Samarone Lima

Estávamos  de férias em Salvador, eu o Jacaré Gustavo. Perambulamos pacas, passamos horas conversando sobre as coisas mais inúteis do planeta, não vimos quase nenhum ponto turístico até que entramos numa livraria.

Olhamos tudo, farejamos, fiscalizamos ausências, anotamos possíveis aquisições futuras, estudamos o ambiente. Lá pelas tantas o Jacaré Potiguar viu um livro, creio que era algo de Hegel (é o único amigo que já leu Hegel e sabe comentar).

“Esta edição está realmente fenomenológica”.

Não sei se o comentário foi esse, mas fica sendo, ficou bacana.

Fui para o outro lado, futuquei vários livros, ponderei, averiguei preços, observei os que mais me interessavam, até que o Jacaré se aproximou. Mostrei um livro.

“Olha que coisa mais estupenda”.

Eu nunca uso esta palavra, “estupenda”, mas fica boa para a crônica, já que voltei de férias e preciso fazer uma frente com meus leitores.

Circulamos, creio que tomamos um café. Ele tomou umas notas, observamos mais livros, até que resolvemos ir embora.

Na parada de ônibus, como quem não quer nada, pegamos o ônibus que nos levaria para o Pelourinho. A nossa pousada era lá.

Sentamos. Ele abriu sua mochila e me entregou o livro que eu tinha gostado muito.

“Presente de viagem”, disse, dando aquela risadinha mansa de quem fabrica arco-iris.

“Não seja por isso”, respondi.

Abri minha mochila e tirei o livro que ele tinha gostado, o mais puro Hegel.

Foi realmente uma ação coordenada do mais alto nível.

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A dama e o cachorrinho (Memórias de um larápio de livros) I

7 de junho de 2013, às 15:49h por Samarone Lima

Foi um dos episódios mais brutais da minha vasta e já quase finalizada carreira de larápio de livros.

Estava de olho na publicação recente do Tchékhov, “A dama e o cachorrinho”. Morava em São Paulo, na Santa Cecília, com o velho e bom amigo Gustavo, que fazia doutorado na PUC, em Higienópolis. À noite, teria lançamento do livro de algum amigo dele, o risco de ter vinho, quitutes e algum bom papo era enorme. Além disso, em noite de lançamento, toda a livraria fica meio dispersa, é o momento ideal para o bote.

Lá pelas tantas, entre um vinho e outro, avistei o alvo tão cobiçado. A edição da “A dama e o cachorrinho”, do Anton, perdão pela intimidade. Dei a volta, sentei ao lado de alguém, puxei conversa e quando saí para ir ao banheiro, já estava no meu matulão.

Tudo seria perfeito, salvo por um detalhe grotesco. Aquele era o único exemplar disponível numa das gôndolas principais e alguém chegou no momento seguinte para procurar o livro. Iniciou-se uma investigação na livraria. Os vendedores não entendiam como o livro estava no sistema, até segundos atrás e de repente, zapt! – sumira. Como estava ao lado do livro, deixei pistas. Pistas não, um outodoor na bolsa dizendo “eu peguei”!

Já com alguns vinhos a mais, combinei com o Gustavo de sairmos. Um dos vendedores deixou que saíssemos e se aproximou. Foi educado. Disse que o livro estava comigo, já sabia, mas não tinha problema. Tudo se resolveria de forma simples. Eu iria ao banheiro, deixaria o livro num canto, ele pegaria e o caso encerraria.

Ele foi tão astuto, tão engenhoso, que nem usei argumentos fajutos de que isso é um absurdo, vou chamar meu advogado, até porque na época não tinha advogado. Hoje tenho amigos advogados, que pode ajudar na hora da morte.

Então cometi o crime fatal. Concordei. Fui ao banheiro. Pior que isso. Fiquei um pedacinho e voltei com o livro na bolsa. Quebrei um pacto de confiança.

Saí andando com o Gustavo.

Andamos uns cem metros e fomos abordados por uma turba de vendedores. Eram uns cinco, seis, enlouquecidos, atrás do livro. Tchékhov, por certo, vibrou.

“Tá me tirando, mano, tá me tirando? Quer apanhar?”, gritava um vendedor novo, cabelo raspado, parecia um neonazista que trabalhava numa livraria. Queria bater em mim, um reles cearense que afanava um livro ou outro, e no Gustavo, um potiguar manso e aéreo, que era incapaz de maltratar uma jaguatirica bêbada.

“Calma. Tudo se resolve”, disse.

Não sei se disse isso, mas hoje até que cairia bem, a frase, naquele instante.

Os outros cercavam, mas Neonazista queria pau, confusão, sangue.

“Vai para a delegacia! Vai levar pau”.

Tá com a gota. Isso tudo por causa de uma dama e seu cachorrinho, pensei.

A confusão durou uns cinco minutos e não sei como acabou. Acho que tinha um vendedor mais calmo, que ficou contornando, viu que não éramos pilantras, apenas querendo fazer uma gracinha no plantão deles.

Dei o livro pra ele. Acho que ele disse “vão embora” e fomos.

Sei que fomos para o bar mais próximo e respiramos aliviados. Não lembro o que bebemos, mas bebemos rápido.

Chegamos em casa, na Canuto do Val, e ficamos rindo daquilo tudo.

Mas fiquei um pouco chateado. Foi um dos piores momentos da minha brilhante carreira de larápio de livros.

**

Bem, depois das férias obrigatórias, estou de volta.

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Férias

14 de maio de 2013, às 11:52h por Samarone Lima

Acabo de decretar 21 dias de férias,

Até breve,

Samarone

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Morrer de graça

7 de maio de 2013, às 8:40h por Samarone Lima

Conheci Peixe há alguns anos, quando morava no Poço da Panela e embarquei na aventura do gordinho Naná, que tinha (e tem) uma Kombi e resolveu levar a meninada para a escola, gratuitamente. Peixe, já virando adolescente, achava aquilo muito infantil. Seguia de bicicleta, tinha um corte radical no cabelo e um olhar que acenava para o perigo.

Um dia, a bicicleta quebrou e ele foi com a gente. Naná, sabiamente, colocou ele no banco da frente, para ir conversando e, principalmente, para demonstrar afeto. Melhor, dar afeto.

Peixe foi algumas vezes até o Nilo Pereira, escola municipal comandado pela valente Damaris, na estrada do Encanamento. Nunca dizia obrigado. Descia e sumia dentro da escola. Certa vez ele desceu, olhou para mim e Naná e disse uma palavra que parecia arrancada a fórceps do seu peito:

“Obrigado”.

Ali começou a mudar o jeito. Pouco tempo depois, fez amizade com Gustavo, que é um mecânico de primeira no Poço e passou a aprender os primeiros caminhos da profissão. Dava gosto quando passava e Peixe estava deitado, debaixo de um carro, consertando algo complicado. Bastava perguntar, e ele explicava a peça, o que estava fazendo.

Da geração dele, que foi com a gente de Kombi, Peixe foi um dos poucos que abraçou uma profissão. Virou mecânico, com carteira assinada, salário em dia, fora os extras, em uma oficina na Avenida Norte.

Há dois anos, inauguramos a Biblioteca Comunitária do Poço da Panela. Um dos irmãos de Peixe, Rafael, passava longe, talvez achando esse negócio de livro, leitura, coisa de criança. Um dia, chegou um professor de violão e Rafael entrou na biblioteca. Nunca mais saiu. Todo sábado está lá, aprendendo novas músicas com o voluntário Gustavo.

De vez em quando encontrava Peixe. Sempre com um sorriso bom, tinha moto, virou papai, estava com 21 anos, a vida inteira pela frente.

No domingo, comemorava a vitória do Santa Cruz com amigos, no Poço, quando recebeu o telefonema de uma mulher, sua namorada. Teria levado dois tapas de um sujeito, ex-namorado, ex-presidiário. Peixe resolveu ir lá. Essas coisas de honra que eu não entendo bem. Os amigos tentaram fazê-lo desistir. Peixe ligou a moto, que não pegou. Ficaria por ali. Tomaria mais umas cervas com os amigos, iria dormir e no outro dia a coisa se resolveria até com uma conversa. Ele pegou outra moto emprestada e foi lá, resolver algo insolúvel. Não teve tempo de nada. Um tiro na cabeça e o fim da vida que mal começava.

Ontem foi o enterro. Não pude ir. Todos aqueles meninos que levamos dezenas, centenas de vezes para a escola, estavam lá, com rostos amarrotados, chorando a morte do amigo, do irmão. Cada morte dessa mata um pouco a comunidade inteira.

À noite, fui ao Poço. Conversei com Gustavo, seu professor de mecânica. Estava arrasado. O que sinto é um vazio aqui dentro, me disse, triste como um irmão que cultivou ao longo de vários anos.

Lá pelas tantas, chegou o ônibus que levou a comunidade para o enterro. Os olhares para o chão, os pés arrastados. Nessa hora, não há muito o que dizer. Veio Rafa, irmão de Peixe, demos um abraço. Agora, vamos ter que cuidar deste menino, foi o que pensei. “Colar”, como diz sempre Naná. Que a música o conforte.

“Morreu de graça”, foi o que mais escutei.

Em todo este processo, nenhum dos envolvidos buscou agentes da lei para solucionar o que poderia ser apenas uma confusão de domingo, pós-bebedeira, pós-jogo, pós-tudo. Nem a mulher agredida registrou a agressão, nem o que foi buscar justiça por conta própria passou numa delegacia. A solução veio de um revólver fácil. Apertar o gatilho é um dos gestos mais fáceis criados pela humanidade – e um dos mais dolorosos.

Para quem ama a vida, essa estupidez gratuita é nossa chaga diária.

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