Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Pequena reflexão sobre “Os Barba”

2 de fevereiro de 2016, às 18:30h por Samarone Lima

Em 2001, sentei num tamborete na venda de Seu Vital, puxei um caderninho e depois de umas conversas regadas a cervejas, fundei, com o artista plástico Maurício Silva e o jornalista Walter Lima, a Troça Carnavalesca Etílica-Mista-Anárquica “Os Barba”.

Nos anos seguintes, a troça rapidamente caiu nas graças dos amigos, da comunidade, e um sábado antes do Carnaval, fazíamos uma festa linda. Dois panelões de feijoada, uma mesa enorme com frutas e um garrafão de Pitú, para quem quisesse se fartar. Fora isso, um estandarte que perdíamos a cada desfile e duas orquestras – uma mais simples, que conseguíamos mandando um ofício para a Fundação de Cultura da Cidade do Recife, e outra, mais afiada, que contratávamos com o patrocínio da Pitú e a venda de camisas.

Um charme dos Barba sempre foi esse – cada camisa era pintada por um artista plástico (ou aspirante a artista), que fazia tudo na base da amizade. As vendas eram num varal, quase uma exposição. A cada ano elegíamos um rei e em 2008, surgiu “Os Barbinha”, que sai aos domingos, com a criançada da comunidade.

E fomos bem felizes com nossa “troça de amigos”, cantando e rindo nas bucólicas ruas do Poço. O detalhe é que só fazemos a prévia. Depois, cada um dos integrantes já se sentia realizado e seguia para seu Carnaval-solo.

Com o tempo, várias outras agremiações começaram a também marcar sua festa no mesmo sábado. Não sei exatamente o ano, mas em algum momento, “Os Barba” deixou de ser de um pequeno grupo de moradores do Poço e passou a figurar nas troças e blocos que são engolidos pela própria beleza. Começaram a chegar milhares de pessoas que não se importam sequer em ver uma orquestra de frevo. Querem apenas fazer parte de um cenário que ficou conhecido, um “point massa”, beber, cair e levantar, produzir seu lixo e depois sair para outro lugar. Assim acabam troças, bares, espaços que são criados com carinho e amor, nesta cidade linda e exagerada.

Sem meias palavras, o Carnaval do último dia 30 de janeiro foi devastador para a troça, que completou 15 anos, e para o Poço da Panela, com sua história de séculos.

Eu, como ex-morador da comunidade, sei bem o impacto que milhares de pessoas representam num sítio histórico como aquele. Falo de acessibilidade, de falta de estrutura para receber tanta gente, falta de sossego, com pessoas botando seus carros em portas de garagem, com aparelhos de som na maior altura, pouco se importando com o entorno. Isso sem falar nos delicados jardins do lugar virando banheiros a céu aberto.

Não foi para isso que criamos esta pequena troça. Foi para pequenas alegrias, que duraram apenas alguns anos.

Aos moradores do Poço, eu só posso mesmo é pedir desculpas. Aquela alegria irreverente contagiante está sendo devorada.

Aos integrantes da Troça, peço que tenhamos a clareza de ver que este não o Carnaval comunitário, irreverente e anárquico que criamos, há 15 anos. As camisas continuam sendo pintadas individualmente, os dois panelões seguem com o mesmo sabor, a mesa com frutas é feita com o mesmo carinho. Elegemos e empossamos, este ano, um rei negro, porteiro de um condomínio do Poço, que completa a renda vendendo côco. É lindo, mas isso já não é mais quase nada para aquela multidão.

Se não tivermos clareza sobre este novo (e devastador) cenário e não tomarmos algumas decisões radicais, poderemos estar alimentando um pesadelo, justamente num lugar que nos fez amigos e irmãos.

E a vida, parafraseando o poeta, não se resume a Carnavais.

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Metáforas carnavalescas

29 de janeiro de 2016, às 7:56h por Samarone Lima

É mais ou menos assim. Surge a idéia, uma brincadeira. Uma farra, um nome, o batismo, às vezes sem nada, apenas a alegria de sair pelas ruas, celebrando algo, numa batucada de latas e um pandeiro. Nasce uma troça, um bloco. Nasce um encontro de amigos, que vai continuar por algum tempo.

Depois vem o estandarte. Alguém com mais talento musical vai providenciar o hino, que todos decoram. Surge a necessidade primária de indentificação grupal – a “camisa da troça”. Rifas, bingos, venda das camisas, contatos com maestros, e aluga-se uma orquestra. No segundo ano ou terceiro, a troça se orgulha de dizer que vai fazer sua prévia com “a tradicional orquestra do maestro Abdoral, da Bomba do Hemetério”.

Nos cinco primeiros anos, nada pode ser melhor. Amigos se chegam, a farra reúne pessoas próximas, o bloco ou troça dá uma volta no quarteirão, sob protesto dos sedentários e alérgicos a caminhadas. Se bobear, alguém já providenciou uma “tradicional feijoada”. Se começar a dar muita gente, sai notinha nos jornais. Começa a chegar um pessoal que veio de longe.

Depois começa a chegar mais gente. O bloco começa a ficar conhecido demais. Tem que fazer mais camisa, tem que pensar na segurança, tem que pedir banheiro químico. Busca-se um patrocínio. Se conseguir, o dinheiro já vai ser dado como certo, no Carnaval seguinte.

E vai ter aqueles que pegam no pesado, e os outros que dizem onde está o pesado. E alguém descobre que a Troça está arrastando uma multidão. Começam os rumores de que “a diretoria tem que planejar melhor a prévia do ano que vem”. A Orquestra tem que tem mais músicos.

Surgem as primeiras rusgas. A prestação de contas não bateu. É preciso ter mais profissionalismo. Estou dando meu sangue e tem gente se escorando.

Até que chega o ano em que aquela bela troça, fruto da farra descontraída e irreverente dos amigos, vira outra coisa. A troça já arrasta multidões. A TV manda uma reportagem.

Alguns vão lembrar das origens, que é preciso lembrar da alegria, da farra e da amizade, que não precisa isso tudo. “Temos que fazer uma festa fechada, com ingresso pago, para bancar uma festa à altura”, dirão outros. A “dê erre” (discussão da relação) vai consumir outros carnavais. Em alguns casos, amizades ficarão estremecidas ou sequeladas.

O passo final será chamar uma empresa para “assumir a produção da festa”, dividindo os lucros meio a meio. Quem sabe um show de Otto? 

A essa altura, o espírito original já começou a gorar. É bem provável que surjam os “donos”. Outros pegarão o beco. Querem uma folia, não uma empresa.

No dia em que alguns integrantes usarem o nome “diretoria” e “produção”, nas camisas, a vaca foi para o brejo.

E a vida, em sua misteriosa complexidade, segue…

 

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Manias de leitor: datar, riscar, farejar

25 de janeiro de 2016, às 16:51h por Samarone Lima

Tenho um ritual com livros. Logo que compro, assino, boto a data e cidade. Na página referente à minha idade atual, faço uma rubrica. Cada doido com sua mania, já diz o velho ditado. Graça a isso, sei quais os livros que estava a ler aos trinta anos, ou vinte, já que comecei com esta invenção aos 18.

E também faço um índice, com frases, descrições, diálogos. Meus livros são todos rabiscados, da primeira à última página. Quanto mais rabisco, melhor.

Em alguns, boto um pequeno comentário, abaixo do nome e da data: “No faro”.

São livros que comprei sem nenhuma indicação, sem ter lido qualquer resenha. Foi no olho e na intuição. Já fiz muitos golaços, mas tive algumas decepções memoráveis.

É o caso do livro “Stoner”, de John  Edward Williams (1922-1994), publicado pela editora carioca Rádio Londres, ano passado.

Li a primeira página e fui ao caixa. Golaço.

É a história de um homem que vivia numa pequena fazenda no interior do Missouri, nos Estados Unidos, e virou professor universitário de literatura.

Não poderia ser mais simples. As primeiras turmas, o casamento fracassado, a filha, a morte dos pais, um amor que surgiu e ele não teve coragem de viver, as perdas (muitas), rusgas acadêmicas, doença e morte.

Uma vida, do início ao fim. E um livro absolutamente tocante.

Economizei cada página até ontem. Deixei de ir para uma troça no Poço da Panela para ler as últimas páginas, em pleno domingo à tarde. Que pena, acabou.

Não sou de ficar torrando a paciência dos meus leitores com “leia isso”, “faça isso”, “assine o manifesto por tal coisa”. Mas este livro vale cada centavo. É um livro bem foda de bom.

Não sou crítico literário, mas acho que Carrero iria se derramar em elogios.

Algumas anotações no meu índice:

“Uma guerra não mata só alguns milhares ou algumas centenas de milhares de jovens. Ela mata algo num povo que nunca pode ser recuperado”.

“A mão de Edith foi levemente até o cabelo dele, e eles ficaram assim por vários momentos, enquanto os outros olhavam. Foi o beijo mais casto que Stoner já vira, e pareceu perfeitamente natural”.

“… e ela parecia feliz, embora talvez de um jeito um pouco desesperado”.

“Então disse: “A senhorita não devia se preocupar. Essas coisas acontecem. Tudo vai se resolver com o tempo. Realmente não é importante”.

“E de repente, ao pronunciar aquelas palavras, ele percebeu que realmente não era importante. Naquele  instante, ele entendeu bem que estava sendo sincero e, pela primeira vez em meses, sentiu-se livre do peso de um desespero cujo fardo não compreendera inteiramente. Zonzo, quase rindo, ele disse de novo: “Realmente não é importante””.

“E assim ele teve o seu caso de amor”.

E para encerrar (porque posso ficar o dia inteiro copiando coisas do livro), vejam que trecho comovente.

“Ocorreu-lhe que estava com quase 60 anos e que devia ter deixado para trás a força de tamanha paixão, de tamanho amor”

“Mas sabia que não era assim, e nunca seria. Sob o entorpecimento, a indiferença, o distanciamento, aquele amor estava ali, intenso e firme. Nunca fora embora. Em sua juventude, ele o dera livremente, sem pensar; dera-o para o conhecimento que lhe fora revelado – quantos anos atrás? – por Archer Sloane. Ele o dera a Edith, naqueles primeiros dias insensatos e cegos de sua corte e casamento. E ele o dera a Katherine, como se nunca o tivesse dado antes. Estranhamente, o dera a cada momento de sua vida, e talvez o tivesse dado mais completamente quando não tinha consciência do que estava dando. Não era uma paixão da mente nem da carne: era mais uma força que abrangia ambas, como se não fossem mais que a matéria e a substância específica do próprio amor. Para uma mulher ou um poema, seu amor dizia simplesmente: olhe! Estou vivo!”

Para quem ler, que tenha a felicidade que tive ao ter o Stoner comigo, nos últimos dias.

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Pessoas, lugares, encontros: anotações de um andarilho no Chile (Parte 2)

17 de janeiro de 2016, às 15:38h por Samarone Lima

(Para situar. Estou no Chile, no final de 1999).

1.

Depois de uma longa caminhada pelas ruas de Santiago, chego ao túmulo de Victor Jara, no Cemitério Nacional.  É uma pequena gaveta, fechada por uma pedra. Ao lado, uma pintura violeta. Há somente seu nome e abaixo, a data trágica para o povo chileno:

“Septiembre 1973”.

Flores vão morrendo e duas novas, colocadas recentemente, fazem brotar o sentimento de uma memória que morre e vive, diariamente.

Sento em um banco e leio dezenas de recados amorosos, mensagens, delicadezas. Ao lado, no tronco de uma grande árvore, muitas outros bilhetes. Desta mesma árvore, caem dezenas de ramas, como uma saudação da natureza, uma elegia a um dos maiores artistas chilenos.

No silêncio absoluto do cemitério, posso escutar sua voz melodiosa, o violão:

“Te recuerdo Amanda

La calle mojada

Corriendo a la fabrica donde trabajava Manuel…”

Se puderem, coloquem este link,  e escutem esta maravilha:

https://www.youtube.com/watch?v=GRmre8ggkcY&noredirect=1

Há uma parte que me comove até hoje:

“São cinco minutos.

A vida é eterna

Em cinco minutos”.

Sempre acreditei nisso.

Não lembro sei tirei uma foto, creio que não. O que me importa mesmo é ter vivido aquele momento, que lembro nitidamente agora, 15 anos depois. Outro dia li sobre o assassinato de Jara, logo após o Golpe Militar. O grande cancioneiro chileno foi simplesmente trucidado.

2.

Vou até o Monumento aos Mortos e Desaparecidos do Chile. No imenso mármore, com dezenas, centenas, milhares de nomes, há um trecho de um poeta:

“Todo mi amor está aqui y se há quedado: pegado a las rocas, al mar, a las montañas”

(Raul Zurita)

3.

Conheço Silvano no albergue. Trabalha na recepção, tem 23 anos. Fala um espanhol muito apressado, engolindo palavras inteiras. Não entendi metade do que disse, mas que “adora futebol” foi fácil. Me convidou para ir ao Estádio Nacional, no dia seguinte, assistir Universidad de Chile x Palestino. Topei, achando que no dia seguinte, o domingo, ele sequer lembraria de mim.

Domingo, 17h, ele chega. Vamos conversando no ônibus. Revela que é filho de exilados. Com um mês e meio de vida, foi  levado para a França. Ao voltar, em 1991, sentiu-se perdido, porque sua língua era a francesa. Começou a encontrar outros francófanos, também filhos de exilados, e as coisas melhoraram.

Perto do estádio, encontramos os amigos de Silvano. Hugo, um francês, e um belo casal, com fortes traços indígenas. Adoro isso, em qualquer cidade do mundo que eu conheça – ir ao estádio com algum amigo e tomar umas, antes da partida.

Chegamos a um boteco não muito grande, as mesas estão abarrotadas de torcedores da “U”, com suas camisas, bandeiras, numa grande festa. Um rapaz de barbicha começa a canta o hino da “Unidad Popular”, que acompanhou toda a trajetória política do presidente Salvador Allende, morto no dia do golpe.

“Si nuestra tierra pide…”

A música começa a ser cantada a plenos pulmões pelos demais torcedores, mostrando que futebol e política têm sim, profundas relações. Neste momento, o que vejo é um exercício da memória, já que a partida será o estádio onde foram mortos dezenas, centenas de militantes da “Unidad Popular”. Ao final, a palavra “Venceremos” é repetida diversas vezes, servindo para o jogo e para a vida.

4.

Na língua quechua, tinha me explicado Wilson (pare saber quem é ele, é preciso ler o texto anterior), “viúva”(uamisapua) quer dizer “demasiado mulher”.

5.

Jaime, o motorista que me levou ao Cajón de Maipo, onde participava de um curso sobre “Memória e Identidade”. O preço oficial seria uns 4 mil pesos, mas ele me fez por mil, porque morava perto.

Foi da Unidad Popular. Acha que Allende foi “bonzinho demais”, e que por isso foi morto, e todo o projeto foi destruído. Me lembrei do presidente João Goulart, também vítima de um golpe, muitas vezes criticado por não ter resistido.

Jaime trabalha também em um hospital, na cidade de Maipo. Tem um sorriso extremamente jovial. Fala de muitas coisas do período e depois de um breve silêncio, começa a cantarolar o hino da “Unidad”.

6.

No meu apartamento, no Cajón de Maipo, um dos lugares mais lindos do Chile, escuto uma rádio que toca música clássica. No intervalo, um locutor muito sério informa:

“Três minutos nos separa das cinco da tarde”.

Foram os três minutos mais solenes que já escutei.

7.

Viajando, viajando, chego a Toconao, a 38 quilômetros de San Pedro de Atacama. Com essa mania de anotar tudo, vejo o registro:

“Bienvenidos a Toconao

550 habitantes”.

8.

Logo nos primeiros dias no Chile, sou absolutamente tomado pela poesia de Vicente Huidobro, que não conhecia, e de um cronista magistral, denso, poético, lancinante, chamado Pedro Lemembel. Anotei uma frase dele, em um de seus livros:

“Porque si queres hacer negócios com el fascismo, no me invites de espectador”.

9. San Pedro de Atacama

Conheço Eduardo. Olhos amendoados, alma generosa como o vento. É descendente de italiano, alemão, brasileiro, judeu e outros povos do mundo. Sua árvore genealógica parece mais uma reunião da ONU. Apreciador da vida, viaja pelo mundo com sua parelha, Kátia, que estuda Filosofia em Porto Alegre. Talvez, a mulher mais bela que conheci em toda a viagem. Uma beleza serena, atravessando o deserto.

Sentamos em um café. Ele me conta que é um “caçador de cemitérios”. Encontrou um grande cemitério indígena na região de Atacama. Vários túmulos já foram violados, e como era possível ver os restos mortais, ficou surpreso com o estado de conservação dos corpos, como se tivessem sido mumificados. Depois encontrou cadáveres de chilenos que foram escravizados, possivelmente por ingleses, e se mataram. No peito, amarravam uma carta de despedida. Algo como “melhor a morte que a escravidão”.

Mas tudo isso é informação de Eduardo. Eu entendo muito pouco de cemitérios.

10.

No entardecer inesquecível do deserto de Atacama,me vem uma pergunta do I Ching:

“Como é possível querer manter a luz do sol poente por muito tempo?”

Até hoje eu também não sei de onde veio esta pergunta do I Ching.

11.

“Peluqueria (cabeleireiro) Crespos”. Ideal para mim.

12.

Volto a lembrar do meu amigo Wilson, líder indígena da região. Viajamos junto muitas vezes, de Calama a San Francisco de Chiu-Chiu. Sua barraquinha de artesanatos ficava em Toconao.

Depois de uma longa conversa, perguntei qual era a sua religião.

“A natureza. Os pássaros. A terra. A lua. Esta é a minha religião”.

E ficamos em silêncio.

**

Ps. Vi agora. Este é a postagem de número 900.

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Pessoas, lugares, encontros: anotações de um andarilho (parte 1 – Chile)

13 de janeiro de 2016, às 11:32h por Samarone Lima

1.

Marquito, um amigo chileno. Ficamos amigos na primeira viagem que fiz a Santiago, em 1999. Bebemos, andamos e conversamos muito. Ele me contou que tinha uma coisa que adorava na vida.

Quando ficava absolutamente sozinho em casa (era casado e tinha um filho), fechava todas as portas, apagava as luzes e se trancava no quarto com Totó, seu simpático vira-latas preto. Fumava um enorme baseado “un pito”, como diziam os chilenos) e ficava zapeando a TV. Olhava dezenas de canais, dando enormes baforadas. O cão olhava tudo, meio perplexo.

Lá pelas tantas, Marquito se irritava com algo e começava a discutir com a TV. Soltava palavrões terríveis, aproveitava para esculhambar Augusto Pinochet. Depois olhava para Totó e o botava para fora do quarto.

“Saia, seu puto”.

E Totó saia, sem entender nada.

2.

“Se recibe escombros”.

(Placa em um terreno na cidade de La Serena).

3.

Saio companhando Wilson, um velho índio que vive entre uma cidade perto do deserto de Atacama, e seu povoado, Chiu-Chiu. É o último dia de 1999. Na primeira casa que entramos, recebemos leite quente de cabra. Na segunda, Coca-Cola. Na terceira, pão amassado. Até que nos servem um prato de arroz com carne de cordeiro.

Dori, a prima de Wilson, gosta de mim. Diz que vai me arranjar uma namorada. Fico sabendo que ela se chama Tiná, e tem 70 anos.

Não rolou a velha “química”.

4.

Manuel de Jesus, 78 anos. O conheci num ritual ao pôr do sol, com sua amorosa mulher, Joana.Para os habitantes de Chiu-Chiu, seguindo uma herança indígena, o ano termina sempre no último entardecer. Ele tem um rosto comprido, lembra uma pedra esculpida e lisa. Usa óculos escuros com a haste emendada com esparadrapo. Após a cerimônia, prometeu ir para uma festa com seu violão, para uma apresentação.

Chegou à casinha de Wilson aos trinta minutos do dia 1 de janeiro de 2000, acompanhado da mulher e de sua “guitarra”, o violão inseparável, desde 1953. Usava um paletó branco, gravata, os cabelos estavam meio prateados e tinha jogado em seu corpo rios de perfume. Era, de fato, um artista chegando para um concerto. Tocava com força, arranhando as cordas com força e soltando uma voz desconsolada e triste. Só parou às quatro da manhã. Se recusava a sentar. Mientras tanto, tomávamos “Cola de Mono”, uma bebida forte feita por Wilson.

5.

O dia estava amanhecendo quando fui despertado por Wilson.

“Vamos conhecer Kamuri”, disse ele.

Pensei que se tratava de uma mulher. Fazia muito frio, estava enrolado numa grossa manta. Me levantei, só fiz calçar os sapatos e vestir o agasalho. Em poucos minutos, estávamos andando sob um céu estrelado que parecia estar a poucos metros de nossas cabelças. Como sempre, meu amigo caminha calado.

Chegamos a uma lagoa verde-esmeralda junto com o sol e uma neblina. Wilson me conta a lenda.

“Kamuri era uma princesa linda, com olhos verdes, nascida na região. Apaixonou-se por um “Inca” (peruano), que foi guerrear  e a deixou grávida. Entre um combate e outro, arranjou outra mulher e nunca mais voltou.

Meses depois, com o filho nos braços, desgostosa, Kamuri se jogou na lagou e nunca mais foi vista.

Por isso a lagoa é verde-esmeralda. É da cor dos seus olhos”, conta meu amigo.

Ele nunca se banhou nessas águas.

“Há que se respeitar o que é sagrado”, me diz o velho índio.

6.

“Mi tristeza no alcanza a hermosear mi rostro”.

(Frase de Wilson).

7.

Leio o primeiro jornal chileno de 2000. O maior assalto do ano, em Santiago, aconteceu em uma empresa que fabricava alarmes.

8.

“Cilindro nicotinoso”.

(Descrição de Wilson do cigarro).

9.

Após vários dias em Chiu-Chiu, conheço várias pessoas da comunidade. Fico muitas horas na barraca de artesanato de Wilson, conversando. Às 15h, um menino chega com seu almoço. Ele me oferece, quer dividir comigo, mas digo que pode comer, pois estou sem fome.

Saio para fumar um cigarrito. Quando volto, meia hora depois, Wilson não está. Pensei que ele tinha ido buscar água quente para seu delicioso chá.

Olho pela estrada empoeirada. Ele traz, num prato fundo de alumínio – era meu almoço. Tem um largo sorriso.

“Fome é ruim. Enfrqauece o espírito”, diz.

E como a sagrada comida lentamente.

10.

Os guerreiros atacamenhos (Panuri, Tupac-Amaru) eram seleicionados e levados para o deserto, me explica Wilson. Passavam por muitas privações, em uma dura preparação. Quando íam para a guerra, já tinham longos cabelos negros.

“Foram os primeiros guerrilheiros da América latina”, diz.

11.

Missa na Igreja de São Francisco, a única de Chiu-Chiu, construída por volta de 1675. Assisto a celebração ao lado de gente simples, especialmente camponeses, descendentes de índios, donas de casa. Pela primeira vez, em muitos anos, resolvo comungar. Me senti como um pagão, que não se salva de nada.

12.

A cada dia, desta longa viagem, minha amizade com Wilson vai se fortalecendo. Aos poucos, vamos nos descobrindo, falando mais de nossas vidas. Ele se chama Osvaldo Wilson Galleguillos Martinez. Me dá as primeiras lições de atacamanho. Descubro que o nome da cidade vem de “Tchiu-Tchiu”, “lugar dos pássaros”.

“Lickan-Antani” = Atacamenho.

Erm 15 mil Antes de Cristo e já povoavam esta região. Segundo ele, é a quarta língua mais antiga do mundo. Por fim, um batismo inesperado.

“Sahckli” = Amigo.

“Kuro” = Vento calmo.

Wilson me batiza de “Sahckli-Kuro”. Amigo-Vento-Calmo.

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