Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

Apresentação


Oficinas


Livros


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

dezembro 2017
D S T Q Q S S
« out    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Arquivos


Usuários online

3 Usuários Online
Leitores:

3 Caranguejos

Vida de escritor

10 de outubro de 2017, às 4:49h por Samarone Lima

Fui fazer as contas literárias, deu três livros-reportagem (Zé, Clamor e Viagem ao Crepúsculo), quatro de poesias (A praça azul, Tempo de Vidro, O aquário desenterrado e A invenção do deserto) e quatro de crônicas (A “Trilogia das Cores”, em parceria com o amigo Inácio França e “Estuário – Crônicas do Recife”, em parceria comigo mesmo). Total 11 livros, por diferentes editoras, umas melhores, outras piores.

Francamente, está bom demais, para quem sempre escreveu em meio a redações de jornais, revistas, ou dando aulas, ou trabalhando para diversos projetos, desde sistematizador de tudo que é de encontro, especialmente de ONGs, a consultorias para o Unicef, e mais um monte de coisas que já fiz na vida, que de previsível não tem nada.

Aquele negócio idílico, do sujeito acordar, tomar seu café da manhã, dar uma caminhada, voltar para escrever, no sossego, dia após dia, para ir “construindo sua obra”, como se diz por aí, é bem diferente. Pelo menos no meu caso, só uma vez tive uma boa colher de chá, que foi quando fiz o mestrado, tendo o Clamor como tema da pesquisa, e consegui uma bolsa da Fundação Ford.

Era uma maravilha. Morando em São Paulo, estudando na USP, recebia U$ 750,00 a cada três meses. Na época, para mim, era uma pequena fortuna. Hoje, continuaria sendo.Tinha dinheiro para viajar, fazer pesquisas, não precisava me preocupar com eventuais cortes de água, luz, que costumam ser bastante inoportunos. Parece que em todo lugar do Brasil tem uma Celpe e uma Compesa, esperando aquela sexta-feira, às 16h49, para cortar sua luz ou água.

Os demais livros foram surgindo aos poucos, nunca houve planejamento. Eu vou escrevendo, escrevendo, escrevendo, e tem hora que aquele volume de anotações começa a se empolgar, achando que pode se tornar um livro. Agora mesmo, estou já com um calhamaço de novos poemas e todo dia fico dando uma namorada, penteando os cabelos, ajeitando, botando perfume. Quem sabe.

Como há seis meses virei dono de sebo, aqui em Olinda, pensei que a coisa ficaria mais mansa. Abrir o sebo, organizar livros, receber a clientela, fazer umas vendas e tocar o barco literário. Qual o quê!

É uma luta. Primeiro, porque muita gente olha, acha o sebo lindo, elogia o acervo, mas as vendas ainda estão bem baixas.

O que está compensando é que a casa é enorme, e tem aparecido um monte de coisas interessantes. Lançamento de livros (já foram três), leituras dramáticas de peça teatral (duas), peças de teatro (três), o Curso de Filosofia e Estética, do amigo e filósofo J.C.Marçal (daqueles com PhD e tudo o mais, amigo intimíssimo de Heidegger), e minha Oficina de Leitura Criativa e Escrita, aos sábados. Ah, teve também o encontro do grupo de leitura de mulheres, que discutiu a obra do Paulo Leminski.

Por enquanto, nada de aniversário, batizado, chá de fraldas, bodas de prata, de bronze, de isopor. Com a aproximação do Carnaval (aqui em Olinda, a doideira já começou), a turma da Minha Cobra já trouxe o estandarte e agendou a primeira festa. Seja o que Deus quiser.

Quando tem algum evento, tenho que divulgar, acertar os detalhes, ver se tem água para o povo beber, se paguei em dia as contas, para não faltar água na casa, nem energia. Faxina, eu mesmo faço. Gosto de ver a casa ficando bonita, cheirosa, botar flores, organizar o livro de visitas, dar umas cipoadas boas nas traças e terminar tudo com um incenso. É uma espécie de “faxinação”. Depois, exausto, tomo um banho, um café, à rede, e tudo fica bem bom para as bandas de cá. Quando o negócio aperta, vem o amigo Lucas e dá uma força.

Sim, mas onde eu estava mesmo?

Esse negócio de escrever sem um tema definido, deixa o sujeito meio distraído.

É que isso é uma mitologia, o “tempo para escrever”.  Quando quer, o sujeito escreve até em pé, dentro de um ônibus, vai anotando fragmentos. Eu mesmo já escrevi uma peça de teatro, na época da UFPE, no banheiro da Casa do Estudante Universitário (CEU), usando minha velha Remington. Para escrever, vontade é mais importante que o tempo. Inácio, meu velho amigo, escreveu a novela “Terezas” em meio a 12 mil trabalhos, 789 zaps por dia e outras demandas familiares.

A não ser que o camarada tenha pai ou mãe ricos (que não é o meu caso), ou tenha recebido uma fortuna de herança (que não é o meu caso), a vida de escritor é bem parecida com a de todo mundo. Paga contas na lotérica, compra comida para o gato, limpa o quintal. Se for vendedor, vender, se for motorista, dirigir, se for professor, dar aulas. Ir ao supermercado, pegar ônibus, receber uma penca de zap nada a ver (“Bom dia!”, “hoje e o aniversário da Lorena!”, aquela chateação toda), e seguir. Só mesmo quem tem muita grana e tem gente para fazer isso é que tem tempo de sobra. Mas geralmente, quem tem muita grana e tempo de sobra não tem muito esse problema existencial de querer escrever romances, fazer teatro, pintar quadros etc.

A diferença é que, como eu vinha dizendo, de vez em quando, sai um livro novo, e a pessoa que ficou um tempão tomando suas notinhas secretas, sente aquela alegria antiga no coração. Se os leitores gostarem, então o céu fica bem pertinho, dá até para encostar os dedos nele.

Pelo menos comigo, é assim. Não é por acaso que minha nova coleção de poemas se intitula “O céu nas mãos”.

Postado em Crônicas | 7 Comentários »

Olindezas

17 de setembro de 2017, às 20:05h por Samarone Lima
Isabelitta cuidando das minhas leituras.

Isabelitta cuidando das minhas leituras.

No dia 12, completei seis meses como morador de Olinda. Hoje, enquanto faço essas anotações, a cidade ferve, com maracatus e frevos se espalhando pelas ruas, especialmente no Carmo e imediações. Aqui, na rua 13 de Maio, onde moro, o silêncio quase absoluto só foi interrompido pelo velho e bom John Coltrane. De vez em quando, boto o “mute”, ele deixa de tocar seu saxofone e fico desfrutando do silêncio, este amado amigo de tantos anos.

De minha parte, só vou sair daqui mesmo se me obrigarem. E só saio para morar em Montevidéo. Olhei agora de novo o contrato, esfreguei bem os olhos e está lá a data de vencimento: 15 de setembro de 2019. Como tenho sido um bom inquilino (e a dona da casa é tão tricolor, que o sobrenome é Arruda), creio que a estadia vai prosseguir.

Mas vamos ao momento presente, à vida presente – aqui estou tocando minha vida, tocando “Meu Sebo, Minha Vida”, escrevendo bastante e aprendendo a viver numa cidade cheia de mistérios e surpresas.

Uma das muitas surpresas boas foi a chegada de Isabelitta, a gatinha que eu sempre cumprimentava, quando passava na esquina aqui perto. Ela se derretia com meus carinhos, depois passou a se aproximar e um dia entrou de vez, para nunca mais sair. Foi amor às primeiras patas. Ela foi ficando, ficando, até que tivemos uma conversa franca, vi que ela queria se mudar em definitivo, então comprei ração e botei água. Ela tem se especializado em participar de todos os eventos da casa. Em peças, entra na cena e se instala. Nos lançamentos de livro, pode ser vista em cima da mesa onde está o autor, discutindo sobre sua obra. Na foto que separei para esta postagem, ela se debruçou na obra de Antonin Artaud. E ela gosta de vir deitar na minha barriga, quando estou à rede. Ela é demais mesmo.

Nos três meses iniciais, tive que fazer um intensivão para que minha janela não virasse um ponto de oferta de produtos os mais diversos, pedidos os mais variados, fora os camaradas que tiram fruta-pão dos quintais olindenses (aqui tem dois pés enormes).

Bastou comprar um berimbau de um sujeito (estava bem bonito, e ele pediu R$ 20,00 – comprei mais porque tinha vendido uns livros, e queria dar uma força). Nos dias seguintes, o sujeito apareceu com obra de arte, uns quadros meia-sola, até que chegou oferecendo um videocassete, então chamei ele na grande, expliquei que estava liso e não queria comprar nada. Ele tentou ainda outras vezes, mas quando é para ser chato, eu capricho.

Os dois sujeitos que foram aprovados para tirar fruta-pão acabaram depois barrados. O primeiro, um sujeito parrudo, incapaz de esboçar um sorriso até num descuido, tirou umas duas sacas de fruta-pão, depois veio com o filho e o tratava quase a pauladas. Queria vir quase toda semana. Não gosto de gente que é bruto com os outros. Abri a vaga com um sujeito mais velho, humilde, que vinha com dois filhos.

Era o contrário. O filho tinha ódio de alguma coisa e transferiu para mim. Entrava com o pai, queria passar a manhã inteira rapando o pé inteiro, tirando até os fruta que estavam verdes. Um dia o pai chegou com ele, eu disse que não podia, porque tinha que sair, escutei quando ele ficou me esculhambando, junto ao pai.

Depois desses breves problemas, a época do futa-pão acabou e acabou sendo bom pra mim. Além disso, eles, por mais brutos que sejam, têm que subir numa altura imensa, eu fico preocupado com algum acidente.

Mas já fiz a minha base. Já tem o mercadinho da minha preferência, no Largo do Amparo. Lá tem também a ração que Isabelitta gosta, a “Max Cat”. Não sei o motivo, mas toda ração acha que nossos amados animais falam inglês. Ao lado, tem um restaurante com uma sopa que se garante, bem quente. No caminho entre o Amparo e a minha casa, tem uma vendinha improvisada, numa casa, que você pode comprar até 22h, basta apenas tocar uma campainha.

Quando estou melhor de grana, vou comprar o pão integral na Chiviteria, da amiga Chivi, na rua de São Bento. Tem meio mundo de coisas deliciosas que ela faz. Na Gráfica Rápida do Varadouro, imprimo as minhas coisas para fazer as correções, porque só consigo ler coisas de verdade se elas estiverem no papel. Mas papel de verdade, daqueles que a gente pega e sente o papel, e risca em cima de trechos ruins, corta poemas ruins, depois encaderna, leva pra todo canto etc. O dono se chama Galego. Perto de Galego tem um restaurante com almoço a R$ 10,00 – generosamente servido. Ao lado do restaurante, tem a barbearia do seu Lula, onde cortei os cabelos há uns quatro meses, mas o negócio foi tão brutal, que ele cortou o próprio dedo.

Mas o que me encanta mesmo, além da cidade, é a beleza do povo de Olinda. Há uma forte presença negra, uma alegria diferente, que é daqui. Um riso mais aberto, mais livre, eu não sei o que é direito – e essas coisas a gente não precisa entender mesmo, só sentir. Muitas vezes fico com uma mesinha na parte inicial da casa, escuto as pessoas passarem conversando. É cada diálogo incrível. É meio difícil não encontrar inspiração por aqui. Tenho escrito menos no Estuário porque é um trabalho danado, mantes a Casa Azul organizada e limpa para os eventos.

Outro dia, um corretor de imóveis veio falar comigo. Era para “alugar no Carnaval”. Contou as vantagens, as loas e boas, que eu iria ganhar tanto, e eu só olhando. Falou uma meia hora e eu pensando comigo – mas rapaz, eu passei a vida toda vindo para Olinda como visitante, para alguns jantares na Creperia ou cervas ocasionais, no Carnaval era sempre aquele sujeito a mais que entupia as ruas da cidade com sua imensa cabeleira, e agora que estou morando na cidade, que vou poder passar um Carnaval aqui, como morador, eu vou simplesmente sair e deixar uma galera ficar aqui?

E meus livros, e o cuidado que estou tendo com a casa? E o jardim, que estou começando a plantar no quintal? E Isabelitta? Pra onde vai tudo isso?

Deixei ele falar, falar, falar. Já passei por tanto aperto na vida, nunca me movi por essa gana por grana, perdão pelo trocadilho infame, vou é ficar por aqui mesmo, para ver a loucura passar pela rua. Como sei que até dezembro a conversa vai ser a mesma, acho que vou botar uma placa logo – “Não aluga-se esta casa para o Carnaval”.

Outro dia lembrei de dois detalhes interessantes. Um dos meus primeiros trabalhos como estagiário foi no jornal “O Farol”, aqui de Olinda. Fiz algumas matérias, creio. E quando voltei de São Paulo, em 2000, após seis anos, cheguei a apalavrar uma casa em Olinda, não lembro direito onde. Mas a dona farrapou e acabei indo morar no Poço da Panela, que foi uma coisa maravilhosa.

Então, 17 anos depois, eu cheguei. Eu sou assim mesmo, sem pressa com as coisas. Meu objetivo na vida é ir cada vez mais devagar (apesar de gostar de correr, de manhã). Estou chegando mansamente, amorosamente.

Como nas sextas-feiras à noite temos tido recitais de poesia aqui no Sebo, tomei uma decisão meio ousada – na próxima vou fazer uma leitura dos originais do meu novo livro de poesias. Mas eu não sou homem de recitais. Só sei ler meus poemas, e às vezes me engasgo, quando me emociono. Vamos ver no que vai dar essa leitura.

Eu tinha outra coisa para escrever, mas esqueci agora. Fica para outra crônica.

Postado em Crônicas | 9 Comentários »

No instante em que se vive (texto que não termina nunca…)

13 de agosto de 2017, às 8:21h por Samarone Lima

Largo do Varadouro,  Olinda, domingo à tarde

Venho do Recife, fui ver umas coisas da Biblioteca Comunitária do Poço da Panela, com Gerrá. Desço na parada antes do Varadouro, onde tem um bom galeto assado na brasa, aos sábados, domingos e feriados. Custa R$ 12,00 e ainda dá direito a um saquinho com farofa.

Chega um sujeito malamanhado, sem camisa, a dona do negócio desenrola pra ele duas toscanas assadas. Ele puxa um pão sabe-se lá de onde, aperta aquelas maioneses de saquinho e começa a comer com avidez. A filha da mulher (acho que é a filha) pergunta se ele andou “se metendo em treta”. Creio que já se conhecem de outras estradas.

“Matei um cara ontem”, diz ele, enquanto mastiga. “Só me liberaram para comer, porque minha família está na Delegacia”.

A delegacia fica a trinta metros de onde estamos.

“Tu vai descer?”, segue a moça.

Descer é sair direto para o presídio, especialmente o Cotel.

“Tão vendo lá”.

“Tu já tem passagem?”

“Eu já tenho uma queda lá”.

“Qual foi a bronca com o cara”?”, pergunto, enquanto a mulher corta meu galeto.

“Um safado. Aquilo era um safado. Merecia”.

Estava com a mão direita ralada. Tentou fugir, quando a polícia chegou.

“Livrasse o flagrante?”, sigo.

“Sei não”.

“Olha seu galeto, bênção”, diz a mulher.

Pago, ele limpa a boca e volta para a delegacia.

**

Largo da Encruzilhada, Recife, 16h30.

Espero o Rio Doce/Dois Irmãos ou Rio Doce/CDU, para voltar a Olinda. O horário é meu limite. A partir das 17h, os ônibus só passam lotados. A parada de ônibus, de tão precária, fica sendo na avenida mesmo. Há muitos velhos esperando.

Um deles, com uma sacolinha de supermercado, está impaciente, irritado. Seu ônibus não passa. Ele então solta um desabafo irritado:

“Tenho nojo do Brasil. Nojo!”

Silêncio geral.

“Tenho nojo deste País! Se eu pudesse, me mudava pra qualquer lugar, mas não tenho dinheiro. Tenho é nojo!”.

O silêncio é profundo. Era algo visceral.

Meu ônibus aparece e não sei como seu desabafo terminou.

**

Ônibus Rio Doce/CDU, rumo a Olinda. Noitinha.

Uma mulher gorda, de voz potente e conversadeira, conta à amiga como foi a morte do marido, num acidente de moto, uma curva malfeita, a queda num descampado. O ônibus todo acompanhava, tal era a riqueza de detalhes.

Viúva, ela passou por inúmeras dificuldades, porque não tinha nada assinado com ele, com quem viveu um ano.

“Nessa hora, o que faz falta um papel com uma assinatura… No começo foi difícil. Qualquer barulho na porta, eu achava que era ele voltando pra casa. Isso é o psicológico da pessoa, que fica imaginando. Eu sentia o cheiro dele dentro de casa. O psicológico da pessoa é muito forte”.

Voltou a falar do acidente.

“Eu vivia dizendo pra ele ter cuidado com aquela moto, mas ele era daquele jeito dele. Eu sei que tem aquele velho ditado, que todo mundo tem o seu dia, mas as pessoas, às vezes, apressam a morte”.

**

Onibus Rio Doce/Dois Irmãos, voltando para Olinda, umas 22h.

Sento ao lado de uma senhora. Deve ter uns 55 para 60 anos, tem uma roupa simples, florida, uma leve olhada para seu rosto revela um profundo cansaço, uma quase exaustão, como grande parte das pessoas que trabalham o dia inteiro e dependem de transporte coletivo.

Ela cochila, mas acorda ao toque do celular. Alguém fala sobre sair para algum lugar, pelo que percebi, e também é sexta-feira.

“Ah, minha filha, a gente não tem mais esse negócio de dinheiro para sair não. Esse negócio de passear é coisa do passado. Não é para a gente não, é pra quem pode”.

Ela escuta a pessoa falar, possivelmente insistindo,

“Não dá pra gente. Sem dinheiro, a gente vai pra onde, Adelaide?”

**

Rua 13 de maio, 121, defronte à minha janela.

Tuite, um camarada que passa o dia andando pelas ruas de Olinda e falando sozinho, veio aqui à janela e pediu uma camisa. Ele fala assim, direto:

“Ei, me arranja uma camisa!”

Eu já vinha separando umas roupas para doar, peguei uma preta que é bem legal e protege no frio.

Ele agradeceu e no dia seguinte vi que estava usando.

Ontem de manhã bateu palma.

“Tem alguma comida?”

“Rapaz, por enquanto só tem fruta”.

“Ôx, fosse ao menos uma fava com um guisado”, respondeu, e foi embora, visivelmente contrariado.

**

Ônibus Alto Santa Isabel, vindo do Poço da Panela para a “cidade”, como se diz popularmente.

“Mas também, minha filha, só podia estar com depressão mesmo”, diz a cobradora, com uma amiga, que está ao lado da borboleta. Sei que o nome é catraca, mas borboleta é mais poético.

“A pessoa ser assaltada oito vezes nessa cadeirinha aqui, não é fácil não”.

“Oito?”

“Ou foi oito ou foi nove. Tá em casa, com depressão, a coitada”.

“É lasca…”

“O pior é que todo assalto levavam o celular dela. Celular eu sei que foram oito”.

“Misericórdia…”

**

Postado em Crônicas | 13 Comentários »

Os corpos dos que sofrem são os que mais incomodam

26 de julho de 2017, às 1:20h por Samarone Lima

Sou jornalista e escritor, agora vivendo em Olinda, depois de uma longa temporada no Recife, primeiro no Poço da Panela, depois na rua da Aurora. Sempre andei de ônibus, a pé e eventualmente de táxi. Tive um Fusca 68, mas depois da primeira e única batida num Honda Civic, vendi o que sobrou do meu azulzinho e voltei a ser como a maior parte dos habitantes das grandes cidades brasileiras – um usuário do transporte público ou das calçadas públicas.

Ou seja, todos os dias pego ônibus, saindo de Olinda para algum canto do Recife. Conheço quase como um camundongo as rotas dos ônibus, as conexões, os melhores horários de não pegar ônibus, os melhores lugares para descer. Sei que camundongo não pega ônibus, mas ele sabe se mover em qualquer canto. E a palavra camundongo é bem simpática.

Todos os dias, a humilhação desfila generosa nas paradas de ônibus feitas por algum engenheiro com cérebro de camundongo. Quando chove, todos se molham. Quando faz sol, a sombra fica do lado de fora do abrigo. O material é feito de ferro. Nas horas de calor, não tente sentar.

É comum (e natural) que às 7h da manhã você tenha que enfrentar um ônibus que saiu da garagem imundo. Ou com um barulho horrível, cada vez que o motorista pisa no freio – e isso vai acompanhar todos os usuários durante a viagem, e o motorista e cobrador, durante todas as viagens que fizerem.

Os idosos, como não pagam mais a passagem, ficam empoleirados na parte da frente do ônibus, antes da catraca, onde estão seis cadeiras. Alguns motoristas aceitam que o idoso mostre a carteirinha e entre pela porta traseira, para não aumentar aquele aglomerado na entrada. Outros motoristas sequer olham para eles.

Nessas horas, dá para ver duas coisas – como o Brasil está com uma população visivelmente mais velha, e como eles são maltratados pelo simples fatos de terem o direito a não pagar passagem.

Não, eles não recebem um cartão para passar na roleta e se acomodar onde quiser, como o restante dos passageiros. Eles entram, mostram a identidade e ficam confinados ali na frente. Por ali entram, por ali saem. Muitos têm problemas para subir os degraus, que parecem ter sido feitos para atletas olímpicos. Já é comum um idoso dar uma das cadeiras disponíveis para outro idoso com mais problema de saúde.

Nos últimos meses, as empresas do Consórcio Grande Recife inovaram. No lugar de seis cadeiras, os ônibus agora têm apenas três cadeiras para os idosos. É um escândalo. Algum promotor poderia se interessar por isso, mas transporte coletivo não interessa a ninguém – só a governos e donos de empresa – e à Imprensa, quando tem greve, para mostrar o “sofrimento do trabalhador”.

Eu tenho uma teoria que deve ter dono, mas eu não sei quem é – maltrate um povo, humilhe ele diariamente, obrigue-o a esperar no sol ou na chuva para conseguir entrar num ônibus sujo, barulhento, caro e quente, faça isso todos os dias, durante meses, anos – que este povo, aos poucos, vai sendo dominado e vai se acostumar a sofrer calado.

Ele não terá mais força para lutar por nada, sequer para reclamar. Seu sonho diário é apenas um: chegar no trabalho no horário de bater o cartão, e chegar em casa após as oito horas de luta.

Não queira estar dentro de um coletivo caso surja alguma manifestação nas ruas. Logo surgirão frases como “isso não dá em nada”, “lá vem essa merda de protesto de novo”.

Uma viagem simples, aqui do Carmo, na parte histórica de Olinda, até o Derby, um ponto central de cruzamento de ônibus de todo o Recife, custa, em média, R$ 4,40, valor do passe B. A distância é de 7,6 km.

Ser dono de empresa de transporte coletivo, nas grandes metrópoles, é um negócio milionário, envolve milhões de pessoas todos os meses, mas é uma terra de ninguém.

Ninguém sabe o nome dos donos das empresas, nem seus vínculos políticos. Nunca vi um fiscal do Estado dentro de um ônibus, tomando nota da quantidade de lâmpadas queimadas, registrando os ônibus que circulam lotados, na semiescuridão, sujos, velhos. Um motorista pode queimar vinte paradas durante o dia, que não acontece nada, a não ser nossos tradicionais muxoxos ou comentários irritados com o vizinho. Ou a reles indiferença, que é soberana.

Outro dia,os motoristas paralisaram quase toda a fronta de ônibus da Região Metropolitana para conseguir um aumento. Foram três dias de caos, confusão, mais sofrimento, até porque estava chovendo muito. Os motoristas conseguiram 6% de aumento.

Qualquer dia desse, vai ter uma reunião do Consórcio Grande Recife para discutir o aumento das passagens. Ela vai aumentar de novo, mas a frota vai continuar velha e suja e quente.

Quem decide, não anda de ônibus. Se for idoso, quem decide deve ter no seu carro aquela autorização para garantir sua vaga em qualquer estacionamento. Não vai importunar ninguém com seu corpo. Um carro não incomoda tanto quanto um corpo dentro de um ônibus, na área destinada aos idosos.

Os corpos dos que sofrem são os que mais incomodam.

Postado em Crônicas | 5 Comentários »

Anotações de um dono de sebo em Olinda

11 de julho de 2017, às 9:13h por Samarone Lima

Acordo sempre muito cedo, a primeira coisa que faço é abrir as duas grandes janelas e as janelinhas da porta, para entrar sol e aquecer um pouco os livro, já que as duas primeiras salas da casa são destinadas ao sebo Casa Azul.

Mas a impressão que tenho, desde que cheguei, é que estou em Macondo, não lembro direito se é a cidade inventada por Gabriel Garcia Márquez, onde começou a chover e não parou mais. O fato é que acordo, está chovendo. Quando dá uma trégua, boto as roupas para pegar sol, volta a chover. Saio de casa, está chovendo.Volto, está chovendo. Enquanto escrevo esta crônica, chove. Quando não está chovendo, o céu está carregado.

Os moradores de Olinda é que são safos. Em qualquer comentário nas ruas sobre o possível “excesso” de chuvas, a frase que mais escuto resume tudo:

“É o tempo dela”.

Quanta simplicidade e sabedoria em apenas uma frase.

Como é um sebo e as janelas estão sempre abertas e tem uma placa dizendo “para entrar, bata palmas – se eu não aparecer, é porque não estou”, aparece todo tipo de gente.

Nos primeiros dias aqui (amanhã completo quatro meses), houve uma batalha em torno dos dois pés de Fruta-Pão que tem aqui no quintal. Como são vendidos nas feiras por valores entre R$ 3,00 e R$ 5,00 e os pés estão carregados, entrar aqui no quintal com um ajudante (geralmente o filho), sair com 40 unidades (não sei como se escreve Fruta-Pão no plural) em uma manhã deve dar um bom dinheiro.

A coisa complicou porque todo dia aparecia um candidato a ser o “coletor-mor”. Deixei um senhor entrar, mas teve uma hora que eu estava aqui no quarto, escrevendo, olhei para o pé, o homem estava no cocoruto da árvore, uma altura que me deu calafrios, sem proteção alguma, só com uma vara e uma faquinha, enquanto o filho ficava com um saco, aparando a bolinha verde, para não machucar.

Como faço estudos sistemáticos de engenharia, sei que um andar tem, em média, três metros. Ele, o homem, estava a uns seis, sete andares de altura. Bastaria um movimento em falso e estaria estatelado aqui no quintal. Só sosseguei mesmo quando ele desceu.

Tentei dar uma chace a outro senhor, mas foi como abrir concorrência para um cavalo batizado. Um homem rude, que trouxe o filho adolescente para ajudar. Acho que só não trouxe um chicote para ficar açoitando o menino porque percebeu que eu não deixaria. Rapou o pé, depois foi grosseiro comigo e acabou demitido. Vou ficar com o primeiro. Dá pena ver os frutos caírem no quintal, sabendo que pode dar uma renda para alguém, e que é um alimento.

É normal passar, todos os dias, um sujeito que não sei o nome ainda, mas o apelidei de “Tuita”. No meu tempo, era aquele auto-falante dos sons. Negro, estatura de media para alta, cara de gente boníssima, anda mais de bermuda e passa o dia caminhando por Olinda, falando sozinho.

Tuita tem assunto pacas. Às vezes estou na sala da frente, arrumando preços dos livros, ele encosta na janela falando, eu tomo um susto. Fala sobre vários assuntos sem ponto ou vírgula. Isabelita, que de manhã dorme no sofá da frente, levanta a cabeça, se espreguiça, olha pra mim como quem diz “é ele de novo, né?” e volta a dormir.

Ontem à tardinha uma moça bateu palmas, perguntou se era verdade que eu estava dando livros. Expliquei que era um sebo, eram livros com preços mais em conta, perguntei se ela queria entrar para ver. Ela, meio constrangida, perguntou se eu tinha algum alimento, porque a mãe estava desempregada, a situação estava braba mesmo. Abri a porta, pedi para ela entrar, perguntei se ela estava estudando, ela disse que iria fazer o ENEM, perguntei para que, ela quer fazer Letras.

“Dê uma olhada nos livros, que vou ver se tenho algo”.

Uma vergonha, minha despensa. Era para ter feito compras domingo, mas uma virose braba me deixou na lona, com febre e uma coisa que quase nunca tive na vida, a tal da sinusite, então só encontrei um pacote de pão de milho e uma fatia grande de um bolo de chocolate, que Flávia trouxe para o lanche do curso de Filosofia do sábado.

“Só tenho isso mesmo, desculpe. Gostasse de algum livro?”

Ela, para minha surpresa, estava com um livro de Maquiavel.

“Pode levar, é presente”.

Ela saiu com um pouco mais animada, creio.

Outro dia, à noite, chegou um sujeito com cara de agoniado. Cabelos brancos, agitado, tinha quatro livros, queria trocar ou vender, expliquei que estava no começo, não trabalhava com troca ou compra, ele não me deixava falar direito, abri a porta, ele foi olhar o acervo, perguntou pelo segundo volume de Xogum, putz, fazia tempo que eu não escutava sequer o nome do livro. Ele ficou cutucando tudo, não gostava de nada. Meu modesto sebo, cá entre nós, tem um acervo que não é fraco não.

“Quero dar um presente para uma amiga”, sugeri dois bons livros, ele pegou um sem nem olhar direito, quando fui dizer o preço ele me entregou o saco de livros que tinha trazido. Estranhamente, entre quatro livros péssimos, tinha “O homem e seus símbolos”, do Jung. Peguei esse em troca dos dois que ele levou.

Antes de sair, ele falou umas coisas como “eduque, para não construir presídios”, insistiu para que eu encontrasse Xogum, depois pediu que eu anotasse seu número, porque está rodando no Uber e depois saiu, com a mesma pressa que chegou.

Todos os dias passa gente por aqui, algumas figuras bem legais, que adoram livros. Outro dia, dois rapazes vieram e ficaram um tempo enorme. Um deles, que estuda letras, comprou cinco exemplares daquela coleção do Oto Maria Carpeaux. Deu para perceber que ele tinha guardado um dinheiro para isso, e que ficou bem feliz.

Lembrei da história do amigo Inácio França, que durante vários meses, em alguma fase da sua vida, ficou guardando o dinheiro da merenda, digo, do lanche (merenda é minha herança cearense), para comprar a coleção “Tesouros da Juventude”. Imagino a felicidade no dia em que, finalmente, chegou em casa com ela.

Ontem encontrei, num almoço aqui perto, a Lorena e o filho Francisco. Ele tem oito anos, creio. Disse que está separando uns livros que já leu para levar para o sebo.

Por essas e muitíssimas outras está valendo muito à pena ter aberto este espaço em Olinda.

Está sendo mesmo um Sebo Azul. Vertiginosamente azul. Azul.

Postado em Crônicas | 6 Comentários »

« Artigos anteriores