Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Viagem ao Crepúsculo – Diário de um lançamento, parte III

26 de janeiro de 2012, às 15:15h por Samarone Lima

Algumas coisas são mesmo incríveis.

Passamos alguns meses, eu e a Editora Paés, editando a segunda edição do “Viagem ao Crepúsculo”. Foi um vai e vem danado, muitos problemas nos arquivos, discussões sobre capa, modelo do livro, formato, a decisão de incluirmos o ensaio fotográfico de Beto Figueirôa, até que ficou pronto.

Agendamos a data para 30 de janeiro, no bar Mamulengo.

Então vejam as coisas, como são mesmo incríveis.

Justo no dia 30, a presidente Dilma Roussef viaja a Cuba.

Hoje, nos jornais, anunciam que o governo do Brasil concedeu o visto de turista para a blogueira e dissidente cubana Yoany Sanchez vir ao nosso país, para a apresentação do documentário “Conexión Cuba-Honduras”, do cineasta Dado Galvão.

Falta apenas a permissão do governo cubano. Ela já tentou 18 vezes e recebeu 18 “não”.

Yoany disse que tentará um encontro com Dilma. Duvido que consiga.

*

Recebi o email de um camarada que vive na Várzea e tem vários amigos cubanos. Eles disseram que pretendem ir ao lançamento, na próxima segunda-feira. Vai ser ótimo conversar com essa galera que mora no Recife já há alguns anos, e saber o que pensam sobre a realidade cubana.

**

Um amigo, grande editor, sugeriu que eu voltasse a Cuba e entrevistasse 100 cubanos, para saber a opinião deles sobre Fidel. Iria como um capítulo extra do livro.

Pode ser uma boa, mas gato escaldado tem medo de água fria. E se vou lá e me dão umas boas botinadas? Eu sei lá. Mas seria uma boa também, voltar e ficar em um hotel, para ver como é a vida de turista em Cuba. Vou ver se o Eike Batista me patrocina.

***

“Eu não queria respirar aquele mesmo ar, só isso”, disse o mesmo amigo, ao não se defender de uma acusação leviana e ser expulso do serviço público no mais absoluto silêncio.

****

Seu Lucas, dono do último Fusca-Táxi do Recife, foi morto por causa de R$ 2,00, há alguns dias. A corrida deu R$ 25,00 e o assassino tinha R$ 23,00. O jovem, de 19 anos, estava em liberdade condicional havia cinco dias. Na discussão, por causa dos R$ 2,00, puxou a faca e matou o taxista.

É quase inacreditável, mas estamos vivendo assim, nos matando por nada.

***

“Levar-se a sério é como exigir coerência de um bêbado”.

(Das minhas anotações inúteis)

 

 

 

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Viagem ao Crepúsculo: Diário de um lançamento, volume 2

25 de janeiro de 2012, às 15:48h por Samarone Lima

Ótima entrevista por telefone com o Hugo Viana, repórter da Folha de Pernambuco. Ontem, ele mandou um email dizendo que ligaria hoje, às 14h. Nem inglês é tão pontual.

Uma conversa inteligente, perguntas bem formuladas, papo bom. Logo nas primeira perguntas, percebi que ele tinha lido o livro inteiro, não era uma conversa a partir de release. Isso faz uma enorme diferença. Educado pacas, tirou várias dúvidas, agradeceu pelas respostas, desejou boa sorte para o livro. Resumindo, o bom jornalismo.

Já dei algumas entrevistas por telefone, especialmente quando lançei o livro “Clamor”. Nas primeiras linhas, a gente percebe se a pessoa leu ou não seu trabalho. Quem não leu, pergunta aleatoriamente, como quem caça borboletas, não instiga o autor, que fez um longo esforço para publicar. Quando isso acontecia, eu cuidava de contar logo a história toda antes.

A matéria sai no dia 30, que é a data de lançamento. Aguardemos. Pela conversa, promete.

*

No final da manhã, Dr Edmilson Cardoso, cardiologista, olhou a minha bateria de exames. Fibrinogênese normal. Creatinina não menos. Colesterol na medida. Deu uma bronca nas “aminotransferases”, nada complicado. Só embolou mesmo porque as “gama glutamil transferase” também derrapou. Ele pediu outro exame, mas estou tentado a não fazer.

Sim, porque tem o bloco de Carnaval do Tribunal de Contas do Estado. Sabem como é o nome do bloco?

“Quem procura acha”.

Se dos sete exames, apenas um deu uma derrapada, para que inventar complicação? Vou pensar.

Devia ter levado um livro para o doutor, isso sim. Foi mal, doutor Edmilson!

**

Na volta do exame, passo no escritório do Unicef, para pegar uma citação. Editei um livro intitulado “A Vitória da Vida”, numa consultoria, saiu uma foto e um camarada me “botou na Justiça”, como dizem por ai. Quer R$ 17 mil de indenização. Vou ter que consultar o Arsênio Jr. Além de consultor poético, consultor jurídico. Agora… R$ 17 mil por uma foto? Pela mãe do guarda.

***

No ônibus para o centro do Recife, puxo a carteira, o cobrador diz:´

“Igual ao meu, né?”

Mostra um anel de prata. É parecido, mas não é igual.

“Uso por causa da Maniconia”.

“É o que mesmo?”

“Passa aí, que te mostro”.

Pago os R$ 2,15 (já com o reajuste), ele começa a tirar o anel do dedo. É um esforço terrível, porque está mais gordinho que um ano atrás ou dois, creio.

“Tás vendo com está rachado por dentro? Quando dá raiva, ele segura”.

A explicação foi longa, mas resumamos. Ele usa o anel de prata porque sofre de “Maniconia”. Se o nome não for esse, fica sendo, até alguém da área de saúde me corrigir.

“Tu quando tem raiva, não fica com manchas roxas pelo corpo não?”

“Que eu veja, não”.

“Pois é. Eu fico cheio de ronchas. É um líquidozinho que se espalha pelol corpo. Se bater no coração, já era o cara”.

Segundo ele, o anel de prata segura o liquidozinho.

Olhei o anel. Estava rachado mesmo.

“Foi cinquenta e cinco reais, lá em Casa Amarela”, completou.

Sentei lá atrás. Por precaução, peguei meu anel e olhei por dentro. Estava bem inteirinho.

Fica a dica. Quem tem raiva demais, use um anel de prata, que segura a onda.

****

Falei há pouco com o Muller, da Livraria Cultura. Depois de idas e vindas, o “Viagem ao Crepúsculo” começa a ser vendido a partir de hoje. Já está à venda na livraria Jaqueira. Hoje, levo exemplares para a livraria Poty.

*****

Dona Hilda, do meu trabalho, disse que fez até o quinto ano de Fisioterapia (são dez, no total). Informou que “hoje em dia, quase ninguém quer trabalhar com fisioterapia respiratória”, depois fechou a porta.

Não entendi o que ela quis dizer, mas fica a informação.

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Dica cultural: “Noite de Performances Corpos Compartilhados”, do Coletivo Lugar Comum. São quatro solos instigantes e cheios de poesia. Programação do “Janeiro dos Grandes Espetáculos”.

Local: Casa Mecane, na Visconde de Suassuna (não sei o número), às 19h. 

Entrada: R$ 10,00.

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Diário de um lançamento (Parte 1)

24 de janeiro de 2012, às 13:16h por Samarone Lima

24 de janeiro (terça-feira).

Segunda-feira que vem (30/01), lanço a segunda edição de “Viagem ao Crepúsculo”, livro de viagem sobre a vida cotidiana em Cuba, quando a revolução completou 50 anos. Fiz a viagem entre 2007 e 2008, o livro foi publicado em 2009, pela editora Casa das Musas. Vendeu as duas primeiras tiragens de mil exemplares. Vamos para uma nova edição.

**

Local: Bar Mamulengo (Praça do Arsenal, Bairro do Recife)

Horário:  A partir das 19h05.

**

Agora com novo projeto gráfico, o livro tem o selo da Editora Paés. Todo mundo que viu gostou muito. A Maura Lins Dourado fez a revisão, tem um ensaio do Beto Figueirôa e um capítulo final, que ampliei. Falo sobre a repressão política, enfocando também a morte do preso de consciência Orlando Zapata Tamoyo, em 23 de fevereiro de 2010, justo quando o então presidente Lula visitava Cuba. Zapata fez uma greve de fome que durou 85 dias, e não resistiu. O caso ganhou repercussão mundial, especialmente após as tráficas declarações de Lula, comparando a greve de Zapata com criminosos brasileiros.

***

O filme parece se repetir. A presidente Dilma Roussef agendou visita a Cuba para dia 31 de janeiro. No último dia 19, Wilman Villar, de 31 anos, morreu de uma infecção generalizada e pneumonia, após 50 dias sem comer, em protesto contra sua prisão. Foi pego pela polícia cubana dia 14 de janeiro, quando participara de um protesto da União Patriótica de Cuba, na cidade de Boatswain, onde vivia, e condenado a quatro anos de prisão por “desprezo e violação da autoridade”.

***

A idéia era acrescentar vários capítulos (que já estão até escritos), mas não deu tempo. Se tivermos uma próxima, vai dar sim.

***

Vários jornalistas já receberam seu exemplar. Alguns começam a dar retorno. Vamos ver. Silvinha, minha mulher, está ajudando muito, já que tem uma assessoria de comunicação, a Íntegra. Flavinha e Aninha, jornalistas da Íntegra, sempre ajudaram.

***

A única coisa ruim é que amanheci com um pouco de dor de dente.

**

Quem vive no Recife e gosta de coisas lindas, vai uma sugestão: A peça “Heróis – o caminho do vento”. Será reapresentada no teatro Hermilo Borba Filho, hoje, às 19h. Faz parte da excelente programação do “Janeiro dos Grandes Espetáculos”. Custa R$ 10,00 a entrada. Vale muito a pena. Fui ver ontem. É daquelas peças para rir, se emocionar e pensar na vida. Telefone do teatro (para não dar viagem perdida): 3232.2030.

***

Da minha coleção de frases:

“Afasto-me daquele que sou quando aprendo a tratar de outro modo a mesma vida” (Erri de Luca, em “Três Cavalos”).

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Amanhã continuo.

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Tem praga que é triste

20 de janeiro de 2012, às 13:24h por Samarone Lima

Isso aconteceu há alguns anos, quando resolvi comprar um Fusca, com a ajuda do meu velho e inseparável amigo Naná.

Fiquei usando minha lupa nos anúncios de jornais, visitei inúmeros donos de carro que ofereciam Fuscas horríveis, deformados, com aqueles pneus talalarga de péssimo gosto, equipamento de som, vidro fumê, essas besteiradas toda, com o papo de que “é quase tudo original”.

Encontramos um azulzinho lindo, ano 1968, até as calotas eram originais, o parachoque de ferro fundido, brilhava pacas. Tive muitos bons momentos e aventuras neste Fusca, mas algo me encafifava.

Bastava eu chegar no bar de Seu Vital, no Poço da Panela, que Sibigu imediatamente soltava o comentário:

“Este carro não te pertence, Xaman (ele e seu irmão, Jorge Bandeira, só me chamam assim, Xaman). Este carro é meu. Você está usando somente por um tempo, mas o carro é meu, fique sabendo disso”.

Depois de uma baforada em seu cigarro, continuava.

“Aliás, você sabe disso, mas vou perdoá-lo por enquanto pela ofensa que está cometendo, essa usurpação. Porque isso, Xaman, é uma usurpação”.

Eu achava engraçado, porque comprei o carro numa demorada negociação. Bastou Naná saber que o dono do carro era torcedor do Santa Cruz para, para usar nosso amor ao clube na negociação. Passou a rememorar gols históricos, títulos, escalações, lances improváveis, e o dono do carro foi pegando ar, se animando, contando suas histórias, onde assistia jogo no Arruda, o resultado é que ganhamos um belo desconto no preço final, aquelas coisas que o cara só vai perceber a merda que fez no dia seguinte.

Ma sempre que eu encontrava Sibigu, a mesma ladainha.

“Estás usando o meu carro, heim? Cuidado com ele”.

Até que um dia, espatifei meu Fusca num Honda Civick. Foi uma coisa triste, o acidente. O meu azulzinho ficou meses numa oficina, numa época em que eu estava mais duro que meio fio. Um dia, o dono deu a porra e despejou meu azulzinho na rua, acabei vendendo-o para o dono de uma concessionária por uma merreca. Poxa, hoje estou usando mesmo o linguajar popular, heim? Mas vamos em frente.

Soube por alto que o sujeito gastou um bom dinheiro e deixou o azulzinho novo em folha. Mas não  fui atrás do carro, porque minha tia estava doente no Cabo, e não dava para ficar atrás de Fusca com a tia cheia de broncas.  

O tempo passou, saí do Poço, não teve mais Fusca nem nada, morei três anos no Cabo de Santo Agostinho, minha tia morreu, casei, vim morar na rua da Aurora. Nas vezes em que vou a Seu Vital, não encontro mais Sibigu. Encontro seu irmão, Jorge Bandeira. São as circunstâncias da vida e da geografia das pessoas.

Semana passada, parei naquele Pescadero, na entrada do Poço da Panela, para olhar uns vinhos. Quando desci do carro vi um Fusca azul, lindíssimo, brilhante, entrando na mesma rua. O carro deslizava como uma musa. O motorista foi encostando devagar, do meu lado. O motor fazia um barulho lindo. Barulho de motor que está todo afivelado nos experimentos e no azeite de oliva, cada acelerada era uma sinfonia.

O motorista parou ao meu lado, abriu um sorrisão e me cumprimentou.

“Fala Xaman!”

Sim, amigos, era Sibigu, com o velho Fusca que fora meu um dia. Era um sorriso de corpo inteiro, ao lado da mulher, o que ele tinha. Era uma mistura de satisfação, orgulho e certeza.

“Eu não disse que esse carro era meu, e que você era um usurpador? Peguei meu carro de volta”, disse ele, dando uma acelerada para se amostrar.

Gelei dos pés ao último fio de cabelo.  

Ele comprou o carro há algum tempo, mas nunca teve a chance de me mostrar. Deu uma arrumada geral, está todo cuidado, ficou um belo de um carro, isso é verdade. Não fiquei com inveja nem nada, porque não sei nem onde eu iria estacionar o velho Fusca, e acho que certas coisas fazem parte de uma época da vida da pessoa, não adianta querer ficar repassando as velhas emoções para atualizar o presente. São os princípios do meu Budismo de boteco.

Fiquei pensando mesmo foi na praga que Sibigu jogou, isso sim, não recomendo a ninguém.

 

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Livro novo na praça

16 de janeiro de 2012, às 15:33h por Samarone Lima

Sossegados leitores,

Na última sexta-feira 13, contrariando todas as mandingas relacionadas à data, recebi a ligação de Sushi, dono da editora Paés.

“O livro está pronto”.

Ele estava saindo da FacForm com a segunda edição do meu “Viagem ao Crepúsculo”, lançado em 2009 e agora relançado, com novo design, um ensaio de Beto Figueiroa e um capítulo extra.

O lançamento, salvo engano, será dia 31 de janeiro. Penso em fazer naquele bar defronte ao bar Central. Uma mesinha na calçada fica ótimo para fazer as dedicatórias.

A obra começará a ser distribuída nas livrarias de hoje para amanhã.

Quem quiser receber em casa, mande comentário com endereço que peguei a manha dos Correios, de tanto comprar livros pela Estante Virtual.

Amanhã posto a capa do livro. É uma operação que exige muito dos meus parcos neurônios.

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