Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Um passeio pelo IDH

28 de agosto de 2014, às 11:39h por Samarone Lima

Está bem, Samarone, 45 anos, é hora de dar uma geral. Como você gosta de correr de manhã e jogar sua pelada na quarta-feira, que tal ir a um cardiologista? Lembre que em março você passou mal numa corrida em março e acabou conhecendo a UPA da Caxangá. Estavas pra lá de Bagdá, por sinal.

Sim, há três anos tens um Plano de Saúde, por insistência da sua mulher, Silvinha, bendita seja. A Camed, outrora elogiadíssima, caiu na lista das melhores operadoras, esse nome esquisito para o plano de saúde privado.

O Hospital é gigante, cheio de labirintos e a cardiologista, já conhecida, disse que a agenda estava cheia. Sugeriu um encaixe. E assim foi. Às 7h30 estava lá, com meu cartão da Camed e minha cara de leso. Tudo limpo e organizado, funcionando. Até a máquina de café (dos bons) era grátis.

Vinte minutos depois, o aviso para fazer o eletro. Depois, a consulta. A amiga, que eu não via há tempos, olhou meu eletro, que estava normal. A pressão supimpa:  11 por oito.

Exames, uma penca. No laboratório, 23. Outros no hospital mesmo. Ergométrico, ecodoppler, fora um da carótida, que eu nem sabia que tinha tanta importância assim para minha vida cívica e escritural. Comecei a temer pelo antigo refrão, que é título do bloco de Carnaval do Tribunal de Contas do Estado: Quem procura, acha!

No corredor tem uns telefones, você agenda os outros exames direto, disse minha amiga. Este computador que estou usando não tem aspas nem travessão. Mas foi uma frase dela.

Fui lá e em cinco minutos marquei os três exames. De repente estou a Suécia, meu IDH Subiu 77 posições. Tomo outro café na maquininha e tenho tempo de ver uma matéria na TV sobre os grandes clubes do Brasil que completam 100 anos em 2014. Lá está o Santa Cruz e sua massa. Sento, vejo a matéria, termino o café e atravesso os corredores, para ir ao trabalho, no centro do Recife.

Saio do Hospital e meu IDH cai 88 posições. A parada de ônibus é debaixo de um sol brabo (queria saber quem é o gênio que fabrica as paradas de ônibus do Recife, que molha todo mundo quando chove e deixa a turma debaixo de um sol de arrombar, a qualquer hora do dia). Dois queimam a parada. O terceiro está enfadado, sequer responde ao bom-dia.  A parte da frente, aquele gueto reservado aos idosos, está lotado. O restante do veículo está semivazio. Um idoso cede gentilmente o lugar a uma senhora, mais idosa do que ele. Neste ritmo, daqui a alguns dias teremos brigas com argumentos temporais. Eu tenho 78 e você? Eu tenho 73. Então me dá a cadeira, que sou mais idosa.

Sento, penso na vida. O motorista, para minha surpresa, escuta um jazz de primeira linha, destoando do que se escuta nos ônibus do Recife. Acho que é um trompete, algo de Louis Armstrong. Deu vontade de puxar assunto, mas é tarde, já passei pela catraca. Nada como uma boa música em plena manhã, no coletivo.

Desço na última parada da Conde da Boa Vista. Camelôs, buracos, calçadas descalçadas, gente dormindo pelo chão. Súbito, meu IDH cai mais 22 posições. A Conde da Boa Vista é nosso malamanhado, nosso desencontro com a cidade. É uma aorta entupida, uma veia estrangulada num corpo, que é a nossa cidade. Feia, suja, com poucas faixas de pedestres que duram segundos, eu estranho não morrerem duas ou três pessoas por dia, debaixo de ônibus ferozes e barulhentos. Nada tão parecido com um espelho da sociedade que criamos e alimentamos.

Paro numa casa de suco. Resolvo tomar um de beterraba. Deve ser o efeito da consulta, dos exames. Nessas horas, o sujeito fica com vontade de ter mais saúde, para voltar ao médico com bons resultados. É como levar o boletim ao pai : veja como minha notas foram boas. O suco é bom pacas. Dizem que beterraba é ótimo para as hemácias e os glóbulos vermelhos.

Comprei uma pasta na papelaria e botei o nome : Exames/agosto 2014. Serão muitos.

Tentei imaginar como teria sido meu desempenho se tivesse feito o percurso na rede pública, mas não consegui. Minha imaginação vai a muitos lugares, mas esbarra em alguns desertos chamados realidade.

Estou de volta, depois de uma temporada mais afastada. A vida segue.

 

 

 

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Dossiê

23 de agosto de 2014, às 20:23h por Samarone Lima

A galera do site www.vacatussa.com preparou um Dossiê sobre este jovem autor que vos escreve semanalmente neste blog. Respondi a uma série de perguntas de Christiano Aguiar, Thiago Corrêa e Hugo Viana, mas não imaginei que eles também fariam uma leitura cuidadosa e crítica de todos os livros que já publiquei, desde 1998.

Quem já leu algum dos meus livros, vai ter oportunidade de saber como foi o processo da escrita, os caminhos escolhidos etc. Além disso, conto um pouco da minha vida, desde que cheguei ao Recife, em 1987, a passagem por São Paulo, os impasses e desafios nesta jornada entre os escritos e a vida.

Boa leitura.

 

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Com licença

19 de agosto de 2014, às 11:56h por Samarone Lima

Caros leitores, saí do pesado circuito recifense de mortes e lágrimas.

Estou bem longe, praticamente sem sinal de satélite, celular ou coisa que o valha.

Uso uma lan house de improviso.

Retornarei segunda-feira que vem com alguma crônica nova.

Samarone Lima

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Jornalismo e (in)sensibilidade

15 de agosto de 2014, às 12:04h por Samarone Lima

São tempos difíceis que vivemos, cá em Pernambuco. A tragédia envolvendo a morte do ex-governador Eduardo Campos e de seus jovens e talentosos assessores, é de comover o mais duro coração. Há dias sinto uma tristeza difusa pelo que aconteceu. Um amigo não consegue dormir direito. As pessoas mais simples choram abertamente.

Lembro especialmente das famílias, que vivem a angústia pela espera dos restos mortais, Só assim será possível iniciar, de fato, o luto.

Falo aqui de todos – Eduardo Campos, Carlos Augusto Ramos Leal Filho (Percol), Alexandre Severo Gomes e Silva e Marcelo de Oliveira Lyra.

Todos jovens, todos cheios de talento, em busca de seus sonhos. Percol, que foi meu aluno de Jornalismo na Católica, sempre animado, com um sorriso de canto a canto. Já na sala de aula, bem moço, era o mesmo. Amava a vida. Nos encontramos pela última vez no Hospital Português, quando ele acompanhava Eduardo Campos na internação de Ariano Suassuna. Só tivemos tempo de um abraço, uma conversa rápida, naquele dia triste, porque foi o da morte de Ariano. Nunca imaginei que seria nossa última conversa, o último abraço rápido.

É impossível não se comover com as vidas ceifadas brutalmente. Gente talentosa como Alexandre Severo ou Marcelo Lyra.

Por mais que falemos, jamais alcançaremos a dor de quem vive isso na carne – os parentes.

Talvez por isso eu não tenha mais ligado a TV ou rádio, depois do acidente.

Os jornalistas estão deixando de lado qualquer rastro de sensibilidade, em busca de algo que não tem nome.

Os amigos de partido estão chocados, muitos arrasados. Em meio às lágrimas, à dor, o repórter pergunta bruscamente:

“Sim, mas como o senhor acha que vai ficar o PSB daqui pra frente?”

Meu Deus, isso é hora de falar nos rumos de um partido?

Será que é preciso detalhar, a cada meia hora, a coleta dos corpos, os estilhaços, tantos detalhes, como se a Medicina Legal pudesse dar conta do sentimento?

Entre as lágrimas dos que sofrem, algumas perguntas chegam a ser uma aberração:

“O senhor me desculpe a ousadia neste momento, mas o senhor acha que pode ter sido um atentado?”

Ontem, para não ficar totalmente alheio a tudo, liguei o rádio. Fiquei alguns minutos, escutando perguntas as mais descabidas para pessoas amigas do ex-governador. Gente que está, verdadeiramente, sofrendo. O locutor perguntava sobre temas os mais diversos, como se estivesse num boteco.

O jornalismo, neste momento, mostra toda a sua insensibilidade. Pior – há traços de crueldade. Certas perguntas, simplesmente aumentam a dor, o sofrimento. Deveria ser criado, nos cursos de Jornalismo, uma disciplina intitulada “introdução ao silêncio”.

Até domingo, milhões de pernambucanos serão entupidos de imagens, falas, exageros, repetições.

Uma pequena homenagem que faço a Eduardo, Percol, Alexandre Severo e Marcelo Lyra é desligar a TV, o rádio, não me deixar dopar de imagens terríveis, de entrevistas brutais com especialistas em acidentes, em resgate de corpos.

Acendo um incenso e, em silêncio, desejo paz aos que partiram.

Aos que ficaram, que tenham força para suportar o que, neste momento, é insuportável.

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Um homem realizado

29 de julho de 2014, às 13:16h por Samarone Lima

Republico na íntegra a entrevista que dei ao jornalista João Valadares, publicada no jornal Correio Braziliense, no último domingo (27.07). Foi a melhor forma que encontrei para homenagear Ariano Suassuna – falar sobre ele, na vida cotidiana.

Samarone.

**

Entrevista/Samarone Lima

UM HOMEM REALIZADO

O jornalista e escritor Samarone Lima, assessor de imprensa do mestre Ariano Suassuna, o acompanhou durante os cinco últimos anos de vida. Em entrevista ao Correio Braziliense, relata o despojamento completo do autor paraibano e como ele conseguia transformar a vida de quem estava por perto. “Mesmo em silêncio, porque seus gestos sempre eram profundos”, lembra Samarone, que trabalha atualmente num livro sobre as aulas-espetáculos de Ariano. Sobre o Jumento sedutor, livro que Ariano estava escrevendo há mais de 30 anos, Samarone diz que, ultimamente, o escritor não tocava no assunto. “Ele tinha deixado de falar porque toda entrevista queriam saber se tinha terminado”.

Você é escritor, apaixonado por literatura, e teve a oportunidade de conviver com
Ariano Suassuna nos seus últimos cinco anos de vida. Imagino que as conversas sobre literatura e seus personagens eram frequentes. Que memória você guarda dessas conversas?

Eram conversas maravilhosas. Quando tinha alguns pedidos de entrevista eu
levava numa pastinha e resolvíamos com uma certa facilidade, já que ele não tinha
como atender tudo que pediam. Depois disso, bastava eu perguntar sobre o livro
que ele estava lendo, que seus olhos brilhavam. Era uma felicidade.

Ariano costumava conceder muitas entrevistas. Ele ainda tinha paciência para jornalistas?
Era uma relação difícil, por um motivo simples. Ele tinha uma agenda com várias demandas,e o jornalismo era voltado essencialmente para entrevistas. Se você for pesquisar, vai ver que há muitos anos Ariano dava as mesmas entrevistas, com perguntas que se repetiam. Há, claro, exceções como um Geneton Moraes, que se prepara com extremo rigor para encontrar o entrevistado, sabe cada vírgula da vida da pessoa. A entrevista se torna uma descoberta, um encontro. Mas os jornalistas, regra geral, perguntavam sempre as mesmas coisas. Nossa profissão, de certa forma, precisa se reinventar.

Como era a rotina de trabalho com Ariano?
Era bem simples. Eu recebia semanalmente dezenas de pedidos de entrevista, depoimentos para documentários, imprimia e botava numa pasta. Quando tinha muita coisa, acertava com ele e despachava os pedidos. Ele lia e dizia o que aceitava. Depois, era ver a agenda dele e encaixar. A melhor hora era quando ele dava as entrevista e eu acompanhava. Ficava me coçando para perguntar algumas coisas.

Imagino que Dom Quixote seja uma referência para Ariano. É a obra literária que ele
mais admirava?
Dom Quixote era sempre citado, mas Tolstói e Dostoievsky sempre chegavam. Foi graças a ele que passei a ler Tolstói, especialmente “Guerra e Paz”, que ele já releu inúmeras vezes. Bastava comentar um capítulo, que ele lembrava de detalhes inacreditáveis.

Ariano tinha uma alma-sertão, mas era um sujeito que vivia nessa maluquice chamada
Recife. Como ele convivia com isso?

Ele era um homem absolutamente caseiro. Saía mais para viagens, que eram muitas.

Assim como ele construiu um sertão ao seu modo, inventanto personagens e narrativas maravilhosas, de que maneira ele se alimentava desta cidade conturbada de hoje?
Desconfio que ele se alimentava mesmo era de suas origens mais remotas. Falo do Sertão.

Ariano sempre disse, em suas entrevistas, que não temia a morte. O que o assustava de verdade? Ele falava sobre os seus medos?
Não. Havia o mito de que ele tinha medo de avião, mas ele sentia era um profundo tédio. Numa das poucas viagens de avião que fizemos, para Petrolina, o avião sofreu uma queda repentina de altitude e fiquei apavorado. Quando olhei para trás, Ariano estava sossegado, como se nada estivesse acontecendo.

Após o infarto do ano passado e os recorrentes problemas de saúde, a relação dele com a morte mudou?
Creio que não. Ele falou algumas vezes, nas aulas, sobre o infarto e o aneurisma com o bom humor de sempre. Numa entrevista recente, ele disse que, se tivesse que morrer, queria morrer no palco. Não havia drama nenhum.

Você é um anotador compulsivo de frases. Imagino que, no seu caderninho, tenha um capítulo inteiro com frases de Ariano. Quais as melhores frases anotadas nesses últimos cinco anos?
São tantas frase maravilhosas que ele disse. Teria que pegar meus caderninhos, que não estão aqui comigo. Mas guardei a última frase de sua última aula. Ele disse o seguinte, após elogiar muito Gilson Santana, um bailarino negro que ele adora: “Eu falei aqui várias vezes da raça negra. A gente fala assim, estou  consciente, só por uma facilidade de comunicação. Eu tenho a absoluta consciência de que só existe uma raça no mundo, que é a raça humana”. Depois disso, o teatro mergulhou numa ovação completa, e terminou a aula.

Pela devoção com que produzia suas obras, penso que Ariano era um perfeccionista. A busca pela perfeição pode explicar os longos períodos para escrever seus livros? Ele até hoje mantinha o mesmo processo de produção?
Ele escrevia todos os dias, na parte da manhã. Era uma busca pela perfeição aliada a uma criatividade sem fim. Ele sempre tinha novas histórias para acrescentar ao seu livro.

Por falar nisso, como andava o Jumento sedutor? É verdade que o livro está pronto?
Ultimamente ele tinha deixado de falar do livro, porque toda entrevista queriam saber se ele tinha terminado. Às vezes eu achava isso uma chatice, porque bastava os jornalistas terem feito uma breve pesquisa, para saber que aquele livro era um projeto de longo fôlego. Não acho que havia inquietude, mas uma vontade de sempre continuar, pelo prazer monumental que sentia no ato de escrever. Ele sempre dizia que a literatura era missão, vocação e festa.

Ele falava sobre outros projetos além do Jumento sedutor?
Não acredito. Era seu principal projeto, e acho que ele não se desviava um minuto dele.

O mestre, à distância, me parece um gozador de primeira linha. Um sujeito que faz piada até com a sombra, aquele humor ferino do nordestino. Ele era assim na convivência diária?
Ariano era um homem que gostava de rir, e fazer rir, mas nem de longe um contador de piada ambulante. Gostava da boa conversa, sobre temas os mais diversos. Na convivência diária, era de uma gentileza profunda, de uma humildade inimaginável. Mas uma coisa é a vida, outra um teatro e uma aula-espetáculo. Havia um lado silencioso dele profundo, que sempre era respeitado.

Você viajou com ele agora nessas últimas aulas-espetáculos. Como ele estava?
Quando tinha aula-espetáculo em Pernambuco, em qualquer cidade, era meu dever de ofício acompanhar, colocar o programa atualizado em sua mesinha, ver se algum jornalista queria entrevistá-lo, enfim. A última aula foi dia 18 de julho, em Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, num teatro lotado. Ele tinha vindo de uma aula no teatro Castro Alves, em Salvador, dois dias antes. Tinha sido ovacionado por 1.600 pessoas. Ele chegou a Garanhuns exultante. Deu uma aula maravilhosa, exuberante, que  durou mais de duas horas. Fez o público rir, recitou poemas e se emocionou em alguns momentos. Ao final, o público ovacionou longamente. Depois de tirar várias fotos, no camarim, foi para o carro. Estava com um sorriso de menino. Este sorriso é a imagem de um homem realizado, feliz, pleno. Ele veio ao mundo e realizou sua missão. Quantos de nós conseguimos isso? Quantos países são capazes de produzir um Ariano? É o que levo comigo, esta bênção de ter vivido isso tudo, que mais parece ter sido parte de um sonho que durou cinco anos – e que talvez não termine, até que minha memória esteja viva.

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