Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Pequenas ternuras

30 de agosto de 2005, às 19:16h por Samarone Lima

Gravatá, 30 de agosto de 2005.

O texto abaixo é de Paulo Mendes Campos, mas eu gostaria de ter escrito, estou aqui sem tempo para escrever, prometo minhas pequenas ternuras amanhã, a vida segue, sempre segue, vamos com nossas pequenas ternuras, iluminando a vida…
Samarone.

“Quem coleciona selos para o sobrinho; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma largatixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se se detém no caminho para contemplar a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas ou de já não agüentar subir uma escada como antigamente; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso amoroso; quem procura numa cidade os traços da cidade que passou, quando o que é velho era frescor e novidade; quem se deixa tocar pelo símbolo da porte fechada; quem costura roupas para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar, já quebrando a cerimônia com um início de sentimento: ” Meu pai só gostava de sentar-se nessa cadeira”; quem manda livros para os presidiários; quem ajuda a fundar um asilo de órfãos; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem compra na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias de um amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe derem de presente, a caneta e o isqueiro que não mais funcionam; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque para brincar com amigo ou amiga distante; quem coleciona pedras, garrafas e folhas ressequidas; quem passa mais de quinze minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em ligeiro e misterioso transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se envergonha da beleza do pôr-do-sol ou da perfeição de uma concha; quem se desata em riso à visão de uma cascata; quem não se fecha à flor que se abriu de manhã; quem se impressiona com as águas nascentes, com os transatlânticos que passam, com os olhos dos animais ferozes; quem se perturba com o crepúsculo; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente a pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga perceber o “pensamento” do boi e do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e, mesmo aparentemente livres como os outros, andarão por toda parte acorrentados, atados aos pequenos amores da grande armadilha terrestre”.

Paulo Mendes Campos. “O amor acaba” – crônicas líricas e existenciais. RJ, Civilização Brasileira, 2001.

Para Zi, uma imensa ternura.

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"Tchau, guaranau"

29 de agosto de 2005, às 5:53h por Samarone Lima

Recife, 29 de agosto de 2005.

Foi Sidclay quem disse uma vez, aqui mesmo, na esquina da Vital, e nunca mais esqueci:

“Tchau, guaranau”.

É a forma que ele encontrou para dizer que alguma coisa tinha acabado, ou dado errado, ou sei lá, que algo tinha ido para o brejo. E sempre lembro da frase quando algo está mesmo terminando comigo, seja de trabalho, de sentimentos, afetos, projetos. Ruim mesmo é quando algo está acabando ou já acabou e não sabemos.

Um dos textos mais belos do Paulo Mendes Campos intitula-se “O amor acaba” e é de uma franqueza dolorosa, mas necessária. “O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite voltada à alegria póstuma, que não veio”.

O texto é lindo, dá vontade de copiá-lo inteiro, mas também preciso terminar de escrever minha cronicazinha, antes de mais uma viagem pelo Unicef. Aliás, já posso até ser pai, porque o que estou entendendo de criança e adolescente, não está no gibi.

Pois bem. Onde estávamos? Ah, no “Tchau, guaranau” que Sidclay me disse, uma vez, e que nunca mais esqueci. E andei pensando justamente nisso, no raro momento em que algo quebra, ou erra, ou termina. É de forma silenciosa que as coisas vão mais fundo, seja o amor, a mágoa, a tristeza.

Talvez esteja escrevendo isso porque na tarde do sábado magoei um grande amigo, em meio a uma conversa desajeitada sobre uma empreitada que estamos levando adiante. A conversa estava ruim, é certo, mas a certo momento eu me levantei e fui embora. Assim, no meio do turbilhão de coisas que precisávamos discutir e resolver, eu saí, num rompante. Não, eu não saí num rompante, saí num galope, porque foi uma cavalice, o que fiz. Lembram da expressão “Esse é um cavalo batizado”? Era eu, este cavalo, na tarde de sábado.

Ontem, fui à sua casa com uma cesta de humildades polidas durante a noite, mas ele não estava. Hoje, viajarei e ficarei fora dois dias. Lá para quarta-feira poderei tentar consertar o erro, minimizar o estrago. Não, de forma alguma eu quero receber um “tchau, guaranau” deste grande amigo, e acho que nem é o caso, mas compartilho essa tristeza com meus singelos leitores, que é para doer menos.

Porque não é só o amor que acaba depois duma noite voltada à alegria póstuma que não veio. A amizade acaba no meio de uma discussão desajeitada, no início de uma tarde de sábado. Desconfio que as coisas mais importantes acabem sem a gente nem perceber.

A gente nunca sabe exatamente quando um governo acaba, mas acaba. Algum de vocês lembra o dia em que a juventude acabou? Não, a juventude acaba a e gente não sabe direito quando foi, nem como, nem onde. Quem conseguiu registrar o dia em que envelheceu? A pessoa se olha no espelho, mexe os cabelos, faz umas caretas e diz para si mesma: “envelheci”. Esse dia nunca é um dia exato, ele vai chegando de mansinho, desde o nascimento, creio. Alguém sabe quando se decepcionou de fato com alguém? Não parece que a decepção é uma soma de pequenas decepções?

Já ganhei muitos “Tchau, guaranau” na vida. Doem como o quê. Mas até a dor tem isso – a gente nunca sabe exatamente quando algo parou de doer. Tive uma separação muito dolorosa, de uma pessoa que amava profundamente, e a dor era tanta, que eu tinha certeza absoluta que nunca iria parar de doer. Não era uma certezazinha qualquer, era certeza absoluta, imensa, irrevogável, dilacerante. Um dia parou de doer, não lembro quando foi, nem como foi, nem onde eu estava. Apenas parou de doer.

Hoje, quando algo dói intensamente, lembro dos muitos “tchaus” que recebi, e inda estou aqui, inteiro, seguindo, me encantando com as pessoas, com as coisas, me recompondo, mesmo sabendo que algumas vezes tudo fica turvo, feio, pesado. Tenho a tendência a levar as coisas numa boa, mas às vezes o bicho pega, e me lasco mesmo, fico gravemente ferido mas escapo vivo.

Então, Davi, você me desculpe pelo sábado, e não venha me dar um “Tchau guaranau”, porque ainda temos muito chão pela frente, eu só estava num dia ruim e obrigado pelo vinho que ganhei antes do rompante, aliás, da cavalice, eu já bebi o vinho todo para tentar me consolar mas não teve jeito, então seguem estas singelas palavras, que é para você não me achar tão feio assim.

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Pequeno tratado da grande tabacudice

26 de agosto de 2005, às 17:09h por Samarone Lima

Recife, 26 de agosto de 2005.

Eu tenho, vocês devem ter, em todo canto do planeta tem – um amigo ou simplesmente um conhecido que é, de fato, um tabacudo. Pode ser de qualquer sexo, idade, profissão, credo, do mais rico ao mais pobre – o tabacudo é uma figura que poderia ser estudada pela sociologia, filosofia, antropologia, endoscopia, fotografia etc.

Mas vamos à explicação que o Dicionário Aurélio nos dá para tabacudo – [de tabaca + udo] Adj.Bras., BA. Pop. Ignorante, bronco, obtuso.

Sinceramente, as últimas vezes que precisei do Aurélio, ele me decepcionou profundamente, e agora repetiu a dose. Outro dia, constatei de forma lamentável que ele não colocou, em suas 1.838 páginas , da edição de 1995 (a que consulto), a palavra “buchuda”. E ainda tem na capa “nova edição revista e ampliada”.

É, só que quem revistou e ampliou a edição, esqueceu de passar pelo Recife para saber o que povo aqui anda falando, desde que o mundo foi criado. Basta você pegar uma pranchetinha daquelas de R$ 1,99 e sair pelo Recife perguntando ao mais desinformado dos seres, à mais inocente criança, ao mais demente dos seres o que é uma “buchuda”, e a resposta será a mesma – “ora, é uma vitória de 6 x 0 no dominó”. Quem nunca levou sua buchuda num domingo à tarde que levante o dedinho!

A mesma coisa se aplica ao tabacudo. Pela minha vasta experiência no reino da tabacudice, a nossa definição aqui em Pernambuco é um pouco diferente da que veio no Aurélio. O tabacudo nosso de cada dia está mais para um sujeito que é uma mistura de engraçadinho que não é engraçado, sabido que não é sabido, conversador que não tem conversa, uma figura que está mais para o babacão mesmo, do que para o sujeito bronco, obtuso, ignorante.

“Que bicho tabacudo”; “Sai pra lá, tabacudo”; “Meu irmão, como é que tu faz uma tabacudice dessas?”, são frases que escutamos no dia-a-dia. Então, como tenho lido muitas coisas de psicanálise, antropologia e sociodrama, comecei a fazer um levantamento sobre a figura histórica do tabacudo, e finalmente estou terminando. O meu Pequeno Tratado da Tabacudice, em sua fase de revisão final definiu o tabacudo da seguinte maneira:

O tabacudo é um sujeito que espera as coisas acontecerem e depois passa muitas horas reclamando dos outros, porque as coisas não saíram como ele queria;

O tabacudo quer agradar todo mundo. Como diz João Valadares, “todo tabacudo é gente boa”;

Quando está apaixonado, o tabacudo vira uma massa gosmenta, incapaz de fazer outra coisa que não seja falar da namorada e telefonar 458 vezes por dia;

O tabacudo não gosta de Carnaval e faz questão de dizer isso para os amigos que pensam no Carnaval o ano inteiro;

O tabacudo pega a conta no boteco e faz o cálculo milimétrico de quanto cada um gastou individualmente, ao invés de somar tudo e dividir por cinco;

O tabacudo faz a maior confusão para bater o pênalty na decisão do campeonato de peladas, e chuta pra fora;

O tabacudo faz questão de ser o laureado da turma;

O tabacudo pendura o diploma em algum lugar da casa;

O tabacudo leva as visitas para verem o diploma pendurado em sua casa;

O tabacudo entende de todos os assuntos e dá pitaco em qualquer contexto;

O tabacudo explica racionalmente o governo Lula e diz que a esquerda acabou;

O tabacudo enche a caixa de email dos amigos com coisas idiotas que julga engraçadíssimas, e se sente o máximo.

Os amigos do tabacudo não reclamam, para não magoar;

Quando entra no elevador, o tabacudo diz “que calor, né?”;

O tabacudo acha que sabe contar piadas;

Os amigos do tabacudo fingem que acham engraçado;

Quando pára de fumar, o tabacudo descobre que cigarro é a pior coisa que existe no mundo;

Quando pára de beber, o tabacudo descobre que a bebida é a desgraça de todos os relacionamentos, crimes e mortes da cidade;

O tabacudo acha lindo dizer para os colegas que trabalhou até as quatro da manhã, que levantou às seis para correr na Jaqueira, e que às oito já estava no batente;

O tabacudo vai ao boteco sempre atrás de mulher e geralmente volta sozinho;

Não deixa de ser tabacudo um sujeito que tem um blog meia boca e escreve sobre os tabacudos.

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Relatos sobre a vida e a morte no Mercado de Casa Amarela

24 de agosto de 2005, às 11:51h por Samarone Lima

Recife, 24 de agosto de 2005.

Tive o prazer de conhecê-lo há cerca de 15 dias, ali no Mercado de Casa Amarela, aquela cidade de gente, barracas e produtos, onde costumo ir, especialmente aos sábados, dia recomendado por todos os terapeutas do Recife para um divertimento sadio, que é tomar umas cervejinhas e contemplar o povo se bulindo.

O Mercado (perdão, mas é com maiúscula mesmo, em sinal de respeito) é reduto de inúmeros “boêmios do dia”, como é o caso do professor Davi, que pode ser encontrado na barraca de Mary, com a singela e esfarrapadíssima desculpa de que vai “almoçar”. Ora bolas, nunca vi almoço demorar três, quatro horas, nem o sujeito ter o telefone da proprietária do estabelecimento, para reservar a mesa e encomendar suas Brahmas. Mas isso são outros 500, voltemos ao assunto.

Estava eu quietinho, bebericando de leve, mansamente, qual um bem-te-vi em seu galho, quando ele sentou ao lado, pediu um quartinho e dois pedaços de passarinha. Para quem não sabe, quartinho é um copo americano repleto de aguardente. Não sei de onde, nem como, nem onde, nem por qual o motivo, mas a conversa nasceu, cresceu e vicejou, até que ele me falou do Cemitério de Casa Amarela, que fica por detrás do Mercado, cemitério este que só tive oportunidade de entrar duas vezes – uma no enterro do amigo Barrabás, e outra para colocar uma florzinha em seu túmulo, tudo no ano passado, que Deus o tenha.

“O cemitério fechou de novo”, lamentou meu amigo. Depois de um silêncio pesaroso, completou. “Tá foda, visse? O que está morrendo de gente, não está no gibi”. Na seqüência, deu uma bicada de com força naquela garapa que passarinho não bebe, e mordiscou a passarinha, oleosa como o quê. É assim: quando o cemitério enche, fecha para evitar transtornos. Ah, sei lá, não pedi muitos detalhes.

Meu amigo se chamava Adão Pinheiro de Carvalho, (pelo menos foi o que me disse) e trabalhava num escritório de contabilidade, além de ganhar um extra fazendo as declarações de renda dos amigos. “Sei como funciona isso tudo. De leão eu entendo melhor que domador de circo”, completou, com um sorriso de convencimento.

Mas qual foi a minha surpresa, quando Adão Pinheiro me confessou que tinha como principal atividade, aos sábados, acompanhar os enterros no cemitério de Casa Amarela. Achei esquisito, mas da espécie humana espero tudo.

“Não é nenhuma obsessão, eu sou normal”, contou ele, com uma cara meio triste e aquele bigode a la Cantinflas, mal pintado e mal aparado. Eu realmente nasci para escutar essas histórias malucas, foi o que pensei. “Mas é que eu gosto de ver o último capítulo da vida. Ao final do dia, volta para casa muito mais humilde”, completou.

Ele me olhou nos olhos, acendeu seu Oscar, um cigarro que, segundo Vital, é falsificado no próprio Paraguai, e me disse assim em segredo:

“Professor, a vida é por um triz”.

Ele sabia os detalhes do funcionamento do cemitério, conhecia os coveiros pelo nome e apelido, explicou os setores, informou sobre as mulheres que cuidavam dos túmulos muitos anos após a morte dos respectivos maridos, enfim. Sabia de muitas histórias.

“Um dia, cinco coveiros botaram uma farinha no almoço e estava envenenada. Os cinco morreram horas depois, inclusive um que estava no primeiro dia de trabalho. Desse foi que eu tive pena. A imprensa não publicou uma linha, eu não entendo esses jornalistas”, disse.

Ele sabia também os preços das coroas de flores, o tempo que a família tem para desocupar uma gaveta, as taxas do cemitério. Depois de muitos anos de convivência com o mundo dos mortos, disse que o enterro mais triste de sua vida aconteceu há coisa de cinco anos, num sábado de chuva forte. Até desabamento de casa teve. O que chamou a atenção do meu amigo, naquele dia, foi que o carro da funerária levou o caixão e o deixou em cima da pedra. Nenhum parente ou amigo fora ao velório.

“A gente acha tanta coisa ruim na vida, mas ruim é morrer só, professor”.

Fiquei paradinho. Ele bebeu mais um gole, pediu outro quartinho e afastou a passarinha. “Perco até a fome quando lembro disso”.

Ele percebeu meu interesse e se aproximou.

“Fiquei ao lado, para dar uma força, esperando chegar alguém. Mais de uma em pé, ao lado do morto, e ninguém”.

“E ai?”, perguntei.

“E aí, professor, o senhor deixaria uma pessoa ser enterrada sozinha?”

Bem, ele tinha razão. Ligou para a irmã, Jésssica, que morava por perto, ali na avenida Norte. Explicou a situação, pediu que ela também acompanhasse o enterro, era um ato de compaixão.

“Estás ficando é doido”, respondeu a irmã, antes de desligar o telefone.

Quando o coveiro chegou, perguntou se meu amigo era o irmão do morto. Adão não soube me explicar o motivo, mas, num impulso, respondeu que sim. O coveiro, de nome Venceslau, também chamado de Lalau, disse que iria terminar logo, porque estava chovendo muito e teria tempo de jogar um dominó ali perto. Adão pediu cinco minutos e comprou uma coroa de flores, dessas de vinte e cinco reais. Acompanhou em silêncio o cortejo solitário até a gaveta (2234, jogou no bicho, mas não deu).

Enquanto o coveiro fazia seu trabalho, olhou pela primeira vez o rosto do morto. O que teria feito para ser enterrado sozinho? Mesmo sem crenças, ele rezou duas ave-marias. Aprendeu que se reza aos mortos. Depois, sentiu uma tristeza imensa, como se tivesse de repente alguém da família morrendo, e comentou com o coveiro:

“Ninguém merece morrer sozinho”.

“Ruim mesmo é viver sozinho”, respondeu Lalau.

Adão voltou do enterro, encostou numa barraquinha e mandou ver na sua garapa. Me contou que na época do enterro do solitário, estava intrigado do irmão mais velho, por causa de uma confusão envolvendo um dinheiro emprestado. “Coisas de família”, disse.

Saiu do mercado e resolveu telefonar para o irmão.

“Eu tinha perdido alguém que nem conhecia, então achei que era justo reencontrar um irmão que estava perdendo”, contou. O irmão de Adão ficou surpreso com o telefonema, mas também disse que vinha pensando em fazer um contato. Dois dias depois, se encontraram e tudo ficou resolvido. O irmão morreu ano passado, mas sem intrigas, graças ao morto de ninguém.

Depois de me contar sua história, Adão fez um silêncio, acendeu outro cigarro e ficou olhando para o nada, longe, com aqueles olhos perdidos, talvez lembrando que a morte é mesmo por um triz.

“Sei que é ruim viver sozinho, mas ninguém merece morrer sozinho, professor. Escreva o que eu digo, ninguém merece morrer sozinho”.

Então, eu escrevi.

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Lembranças de um militante

21 de agosto de 2005, às 22:18h por Samarone Lima

Recife, 21 de agosto de 2005.

Nunca fui filiado a nenhum partido, apesar de ter tido, desde muito moço, esta simpatia visceral com o PT. Recordo da primeira campanha, em Fortaleza, nem lembro o ano direito, talvez 1984, eu sei lá, eu tinha uns 15/16 anos, mas lembro que a Maria Luisa era uma mulher, muito guerreira, altiva, falava bem como o quê, e nossa família, de centro-esquerda, creio, guinou para deliberadamente para a esquerda. Eu estava no segundo ou terceiro ano do segundo grau, e vivia nas mobilizações, distribuia panfletos, assistia comícios, inclusive o lendário “comício da virada”, uma explosão de esperanças adormecidas, ao som de “Maria/Maria”. No dia da eleição, eu e meu irmão, Tonho, fizemos uma boca de urna raçuda, ganhamos votos pra caramba dos indecisos, e tinha aquela mística no ar, de que poderíamos ser presos fazendo boca de urna, infelizmente não aconteceu esta emoção toda, minha prisão outro dia foi menos poética, é a vida.

Lembro também do meu pai, voltando de São Paulo, com as camisas “oPTei”, que usei logo de primeira e fiz o maior sucesso, porque ninguém em Fortaleza tinha aquelas camisas e eu já tinha optado antes de todo mundo, achei demais. Maria Luisa Fontenele foi eleita numa campanha meio mítica, com todo mundo juntando os tostões, artistas improvisando camisas, bandeiras do próprio bolso e, principalmente, uma boca de urna que tornou o dia da eleição uma espécie de final de campeonato (o que, de fato, toda eleição é). O detalhe é que ela não tinha chance nenhuma de se eleger, e o “viramos”, usado no finzinho da campanha, ficou associado, em minha vida, com a superação de qualquer dificuldade, a mais difícil. Sempre dá para a gente virar o jogo, quando estamos perdendo.

Vim para o Recife em 1987, e sempre participei das eleições, neste trabalho que acho precioso de distribuir santinhos, perguntar ao taxista se já tem candidato ou candidata, conversar, discutir, tentar mostrar alternativas, enfim. Eleição pra mim tem muito isso, da conversa, esse trabalho miudinho que é voluntário e, portanto, gratuito. No período em São Paulo (1994-2000) repeti a dose, eu sou assim mesmo, gosto de participar das coisas, escolho um candidato e meto as ventas, trabalho de graça, todas as campanhas trabalhei de graça, é a minha contribuição, o mínimo, não me arrependo de me apaixonar pelas coisas e pessoas.

Na segunda fase recifense, que começou em 2000 e segue até agora, pela graça de Deus, me envolvi ainda mais, participei de tantas coisas, tantas feijoadas-para-arrecadar-dinheiro, aqueles bingos, rifas, os improvisos para enfrentar uma luta tão grande, para tentar eleger gente bacana, ética, digna, gente que ama a vida, que vai cuidar da cidade, das plantas, da saúde das pessoas, que vai ajudar a cultura a vicejar, que vai democratizar acessos aos bens coletivos, enfim.

Acho que nesta vida de militante, nestas duas décadas de participação efetiva, ajudei a eleger muita gente boa (sem contar que sou um pé quente do caralho), umas pessoas que honraram os compromissos, que sempre deram retorno às minhas esperanças. Raramente eu vou para a posse. Tomo geralmente um porre gigantesco, esse tal porre de felicidade, e volto para casa com aquele sentimento de ter dado aquela bicuda de fora da área lá na gavetinha, sem chance para o goleiro, é algo maravilhoso isso.

O que sempre me encantou nessas campanhas foi um certo clima de festa, de improviso, de fazer coletivo. As feijoadas, as camisas pintadas tomando uma cervejinha, as reuniões na casa dos amigos para organizar algum panfletaço, a troca de email. Não sei, sempre tive a impressão de que estávamos crescendo junto com o País, sempre achei que estávamos aprendendo a superar expectativas, a criar coisas novas, a compartilhar sentimentos, sonhos, esperanças, e achava lindo as pessoas nas ruas, lutando pelo que acreditavam, voluntárias, intensas, cheias de uma beleza diferente. Havia uma gratuidade, um júbilo, uma felicidade. Estávamos lutando pelo que acreditávamos, como me disse uma vez, um velho sábio da esquerda que já nos deixou. Estávamos exercitando a Democracia, esta garota que já levou muita sova neste nosso País.

Mas aconteceu isso tudo o que está acontecendo. O marketing parece que venceu nosso suor, nossa beleza, nossa construção paciente, nosso trabalho de formiguinhas. Caramba, e o que dói mesmo é saber que estávamos elegendo umas pessoas bacanas, que devagar as coisas estavam andando, que a esperança estava dançando uma ciranda com a gente. Sabíamos que tinha gente ética, que a trajetória de vida contava, que havia, de fato, uma forma diferente de fazer política.

E fico pensando na próxima eleição, que já é no ano que vem. Não sei como vai ser. Eu como torço pelo Santinha, passei aí meus nove anos de jejum, voltando para casa com a bandeira enrolada, o coração frio. Mas começava outro campeonato no ano seguinte, e eu sabia que o Santinha era o meu time, e voltava aos estádios, cheio de esperança e alegria. Um dia seremos campeões, eu tinha certeza, e aconteceu justamente agora, em 2005. Mas com a política, com tudo o que está acontecendo, eu só tenho mesmo é um receio – de que as campanhas fiquem cada vez mais nas mãos dos profissionais do ramo, e que as pessoas deixem as ruas, as praças, usando o refrão trágico do ” são todos iguais”.

Como me considero um cidadão de esquerda, confesso que estou naquela morgação básica que o sujeito sente depois de ter escutado aquele melancólico “acabou” da namorada ou da mulher que amava (mas pior que o “acabou” é o insuportável “te cuida”). Mas já aviso aos amigos de velhas campanhas e batalhas – no ano que vem, não vou ficar morgado em casa abatido, desencantado da vida, como diz a canção. Vou olhar o candidato ou candidata que chegue mais próximo dos meus sonhos, dos meus códigos de conduta, das minhas esperanças, e vou de novo suar a camisa, pegar santinhos, levar para conversar com meus amigos.

Ora bolas, vocês já ouviram falar no “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”? Eu sou dessa turma.

Para Luciana Azevedo, vereadora do PT que ajudei um pouquinho a eleger, e está horando nossas esperanças.

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