Notas de um começo de semana
Samarone Lima
Recife, 15 de agosto de 2005.
Estou em casa nesta segunda-feira de chuva fina e constante e chega o carteiro, meio molhado. Traz um Sedex de uma leitora que me acompanha há alguns meses, quando eu ainda escrevia para o JC On Line. Ana descobriu que sou um caso raro de cearense que toma chimarrão, e me mandou dois pacotes com uma erva-mate saborosa. Fiz todo o ritual, preparei minha cuia, botei a água no fogo e fiquei lendo ao sabor do chimarrão, aquele amargo quente que parece limpar o corpo e a alma, bem de leve. O que fazer, a não ser agradecer? Tomo chimarrão desde 1988, quando fui morar na Casa do Estudante Universitário (CEU), e um camarada sempre me oferecia. Quando me perguntam se sou do Sul, respondo que sim - sou do Crato, que fica no Sul do Ceará.
Outro dia, a Magna, minha conterrânea, me fez algo especial. Trouxe de Brejo Santo uma porção de pequi, que minha família adora colocar no feijão, no arroz, em qualquer coisa que sirva para comer. Como estava fora de estação, ela trouxe cuidadosamente em um pequeno isopor, congeladinho. Magna, que conheci também graças a essas crônicas que escrevo, ao sabor dos dias. Levei quase todos os pequis para minha tia Flocely, que já comeu tudo. Ontem fui chamado para um ” baião-de-dois com pequi”, mas não pude ir visitar a tia, agora que o Fusca está baleado na oficina. Tive que acompanhar o enterro de Miguel Arraes com Iramarai e Carmem. Entrevistei gente, olhei o povo, as reações, iria escrever um longo texto de despedida, mas perdi o tempo da escrita. Era para ter trabalhado no texto hoje de manhã, mas me deu preguiça. Fiquei olhando a chuva e tomando chimarrão, depois li um bocado, acho que Arraes não vai ficar chateado. Tenho dado muita atenção à minha preguiça, acho que ela ensina muita coisa.
Tenho conhecido pessoas extremamente carinhosas, que fazem comentários no blog ou mandam email direto. Outro dia, depois de uma boa troca de email, duas irmãs vieram aqui ao Poço: Adriana e Lili, leitoras de longa data. Tomamos café, elas comprara o Clamor e conversamos nossas coisas. É bom conhecer essas pessoas carinhosas.
Marcel me mandou dois poemas cheios de beleza.
De vez em quando recebo um convite para o Orkut, sei que tem um monte de gente participando dessa história, mas minhas viagens pela Internet se resumem mesmo a escrever essas banalidades do Estuário, trocar email com os mais chegados (ou os que estão se chegando) e olhar uma notícia e outra nos sites de informação. Obrigado pelo convite aos que me convidam, mas vou ficar no meu arroz com feijão mesmo. Continuo sem saber baixar uma música na Internet e fiquei admiradíssimo com um amigo que consegue baixar até filmes para o seu computador. Quando vejo gente inteligente assim, fico impressionado e cheio de esperanças no Brasil.
Zeca ficou de vir aqui em casa para uma audição, com as músicas novas que andou garimpando. Pensem num sujeito que tem bom gosto é esse Zeca. Bernardo prometeu chegar também. Como já conheço os dois, melhor esperar sentado. Andréia ganhou novamente o mundo, acompanhada de Barreto e Léo. Está gravando um documentário sobre aquele projeto com o teatro de bonecos do mundo, que passou por aqui no Recife há alguns meses e perdi, por distração. Ela deve estar feliz, fazendo duas coisas que adora - viajando e filmando.
Registro minha simpatia ancestral pelos preguiçosos, os tímidos e os distraídos.
Hoje o telefone amanheceu sem poder fazer chamadas, devidamente informado por uma vozinha chata e fina de uma moça da Telemar. Mais uma vez, esqueci de pagar a conta, justamente no dia em que a Cabo Mais iria instalar um cabo a mais lá em casa, para eu não gastar tanto com o telefone. Estou aqui, em um lugar de Internet 24 horas. Uns camaradas exaltados jogam freneticamente algo no computador. Há gritos, urros, reclamações, estão matando gente adoidado, em algum desses jogos malucos. Impossivel escrever algo razoável com uma guerra de gritos ao lado. A música é um tunti tunti tunti frenético. Detesto gente que grita em lugares públicos e essa música de discoteca, repetida.
No final do enterro de Arrais, vi uma senhora de óculos preto, camisa branca, um colar simples, com bolinhas. A cerimônia já estava no final, ela olhou para o lado, com os olhos marejados, e disse: “já se foi”. Era a pessoa mais triste daquele cemitério repleto de gente, no anoitecer do domingo, e nunca saberei seu nome. Algumas horas antes, escutei um trabalhador rural dizer: “é a primeira vez que entro num palácio”. Ele tinha ido ver o corpo de Arraes.
Chove pra caramba agora, e não sei como vou chegar em casa. Na livraria Cultura, onde passei de raspão, para um chocolate quente, anotei duas frases que encerraram o périplo de hoje:
” Quem ri das cicatrizes nunca foi ferido”
(Shakespeare, em “Romeu e Julieta”)
“Se eu tivesse que escolher entra a dor e o nada, escolheria a dor”.
(William Faulner)
Perdão pela falta de objetividade. Boa semana a todos. La nave va.
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