Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Coisas para fazer durante uma CPI

18 de agosto de 2005, às 14:04h por Samarone Lima

Recife, 18 de agosto de 2005.

Não sei o que tem acontecido comigo, mas desde que começou este grande lamaçal de CPI, mensalão, Delúbio, Valério, a podridão vindo à superfície, me dei de presente um raríssimo prazer – não gasto mais que dez ou quinze minutos para olhar as coisas feias de Brasília, ver o pior sempre piorar, e dedico meu tempo a outras coisas.

Não sei o que tem acontecido comigo, mas acho que passar mais de meia hora vendo os noticiários, gastar o tempo assistindo intermináveis sessões da CPI, na TV Senado, é o mesmo que pegar o tempo e jogá-lo numa lata de lixo.

Não sei o que tem acontecido comigo, mas ultimamente estou me deliciando com outras coisas, especialmente agora, que meu velho Fusca 68 está na oficina, avariadíssimo, sem dinheiro para cuidar de seus ferimentos, após o fatídico cochilo na 17 de agosto, que me levou de encontro a um Honda Civic.

E nas minhas constantes viagens dentro do ônibus da Transcol, rumo ao Derby, onde funciona o escritório do Unicef, tomo minhas notas sobre a vida que vai andando, vai seguindo, vai se mexendo, enquanto a mídia deixa no ar a impressão de que o País está parado, e que vamos todos sucumbir, que nossos sonhos acabaram.

Vou me encantando com essas besteiras que fazem parte do cotidiano menos trágico, vou achando que a vida é bem mais que isso que sai nos jornais, esses depoimentos repletos de mentiras e conchavos. Fico pensando mesmo é no abismo que existe entre tantas pessoas, numa árvore imensa que foi cortada perto lá de casa, e o sol inesperado que bate naquela parede escurecida. Penso em plantas que se apegam as muros, à procura de uma sobrevida, como tanta gente que se apega aos muros alheios, à espera do mínimo afeto. Vejo as folhas que caem, acho que são pequenos sinais da natureza para algo que não compreendo, mas pouco importa. Lembro daquele cheiro poucos segundos antes da chuva cair, e penso que este é mesmo um cheiro importante, que vem da infância, pelo menos a minha.

E súbito, lembro que o ônibus da madrugada, no Recife, se chama “Bacurau”, não sei exatamente o motivo, mas quem o vê apontando ao longe, às três da manhã, cheio de bicada, sente a alegria de já estar próximo de casa. E uma toalha branca dependurada na janela do Hospital da Restauração, semana passada, a quem pertence? Eu não sei tantas coisas da CPI, mas gostaria de saber mesmo quem batizou algumas ruas e bairros do Recife, como por exemplo o bairro chamado “Rosarinho”, eu acho lindo quem diz “moro no Rosarinho”, me parece uma coisa fraterna, a vida ali deve ser mais calma e doce, não sei.

E hoje, enquanto a política torna o Brasil mais feio, alguém perdeu o ônibus por descuido, talvez tenha prestado atenção na capa da revista, pendurada na banca, com a bunda da “Grazi”, que custou R$ 700 mil, creio, não sei ao certo, são tantas bundas com tantos preços. Uma freira passa com sua sombrinha, ainda tem gente sendo freira, nos dias de hoje, mas está cada vez mais difícil mesmo é ver um padre com aquela roupa, um certo ar de quem está sempre em contato com Deus.

Então isso é o mais importante para mim hoje. Esta vida no cotidiano, estes encontros e desencontros. Aquela fila imensa na porta do INSS de hoje, aqueles milhares de maltratados, me dói mais que todos os flagelos do atual governo, dos governos passados e futuros. A vida é pegar o ônibus, é conversar alguma lorota na fila do banco, com os infinitos desconhecidos de todos os lugares, são estes vendedores de quinquilharias nas paradas de ônibus, o vendedor de capa para celular com seu boné da Nike, a moça que parece tão sem esperança na calçada.

É o cansaço, o suor do final da manhã, a tarde que ainda vem, inteira, esta planta que nasce em meio ao cimento, é uma lembrança que tenho do Recife antes de mim, que não conheci, são os cartazes mal colados em paredes que mal se mantêm de pé, já arrasados no momento seguinte.

Há tanto para se fazer durante uma CPI. Há casinhas serenas, com jardim na frente para se olhar, há uma senhora com passo manco e cabelos desgrenhados tentando chegar a algum lugar, há o magro soldado do Exército, segurando um fuzil imenso, talvez menor que seus sonhos.

E lembro que nunca mais vi uma vendedora da Avon, que nunca mais escutei a palavra “resguardo”, a frase “fulana está de resguardo”, que era tão importante, tão séria, me pergunto finalmente por que as camisas dos clubes de futebol eram tão lindas, nos anos 70, e agora são apenas lembranças em fotos emolduradas, e me vejo tentando imaginar como tem sido a vida do Agenor, aquele meu colega da 5ª série que nunca mais encontrei, tanta gente que encontro e desencontro.

Rilke fala de “amor ao insignificante” e talvez seja isso o que ando sentindo. Eu vou por aqui, desviando meu olhar, não vou deixar CPI nenhuma me deixar infeliz, triste, solitário, há uma vida pulsando fora das TVs, ao largo de toda esta miséria midiática, e é algo mais rico, mais belo, com cara de gente, essa gente que, no final das contas, faz este País seguir, existir, resistir, e é preciso lutar não somente com mobilizações, passeatas, discursos, promessas, mas invocando ou reconhecendo a beleza, acima de tudo caminhando com beleza, acreditando neste mistério que é a vida, apesar de tanta feiúra que teima em vicejar, eu acredito mesmo é na vida até a última fibra.

Para Eleonora, que também acredita na beleza.

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