Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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A história do homem que amou demais- Parte I

2 de setembro de 2005, às 8:02h por Samarone Lima

Recife, 02 de setembro de 2005.

Estou sentado num banquinho da praça de Casa Forte, lendo o Juan Gelman que ganhei da Fabiana, muito concentrado, quando vem um sujeito de barba branca andando lentamente. Esse daí bebeu e não foi pouco, penso. Ele passa por mim e diz a frase, num tom muito solene:

“amor, só de mãe”.

Fecho o livro e pergunto se ele tem certeza disso, só para iniciar uma conversa. Ele fica sério, diria que meditativo, e completa:

“nada disso que a gente vê, a gente leva. Só a natureza”.

Guardo o livro, pego meu bloquinho de anotações que ganhei de Ana Luisa (é, agosto foi um mês difícil, mas cheio de pequenos agrados) e já sei que vem muita coisa boa pela frente. Meu amigo começa a falar suas coisas. No fundo é isso, somente isso. Ele estava sozinho com tanta coisa acontecendo em sua vida, e precisava falar com alguém. Como um sonâmbulo, se arrastava pelas ruas do Recife à procura de alguém ou à procura de nada. Acho que não precisava nem de uma pessoa com nome, mas que fosse alguém, ou o Zé Ninguém. Dei esperanças a ele com um olhar, creio. A gente nunca sabe a quem dá esperanças.

“Estou mais magro, mas agüento dois dias de fome”, comenta.

Imediatamente, achei que ele estava mais magro mesmo. Olha para o banco, senta e diz, como num desabafo:

“dormi aqui as duas últimas noites, na poluição do tempo”.

Depois se corrige:

“Não, na poluição da terra”.

Me olha assim, com uma cara de cansaço, muito cansaço, e pergunta quase implorando:

“Onde está a humildade?”

Eu lá sei, amigo, eu lá sei, o mundo está repleto é de deuses e famosos, de carros e apressados. Como não sei mesmo onde está a humildade, confesso minha ignorância e vou anotando suas ponderações sobre o mundo.

“Cada árvore dessa aqui, eu acho um Deus”.

Nisso concordamos integralmente. As frases vão pulando de sua boca. Pareciam pequenos animais amordaçados, que ganharam um alvará de soltura.

“O poder é uma ficção”.

Bingo. Ele me olha novamente, agora mais afetuoso e pergunta:

“Agora eu faço uma pergunta ao mestre – qual foi a pessoa que mais pecou no mundo? O homem que botou a primeira gaia no mundo?”

Caramba, sempre fui péssimo em argüições orais. A sorte é que ele não me deu tempo para pensar.

“Foi Deus, que por obra do Espírito Santo, botou gaia em José”.

Informo aos amigos leitores mais católicos apostólicos, que estou apenas transcrevendo uma conversa numa praça do Recife, numa noite de quinta-feira, após um dia atravessado de problemas e chateações, de norte a sul. As afirmações fortes são do meu amigo da barba branca.

“Salomão pediu a Deus inteligência e sabedoria. Deus ofereceu isso tudo e mais uma coisa – dinheiro”.

Anram, como diria Benira. Me deu uma inveja integral do Salomão, que teve inteligência, sabedoria, e certamente não atrasou suas contas e pôde viajar sempre, para qualquer canto do mundo, coisa que me fascina.

“Agora me diga: qual foi o homem da fé?”

Pensei em responder um Santo Agostinho, que escreveu lá suas confissões, ou São Francisco, de quem sou inclusive devoto, mas ele se antecipou e cortou o meu barato.

“Foi Abraão”.

Então ele me deu uma longa explicação bíblica, que me pareceu bem fundamentada e pertinente, mas desprovida de fé. Meu amigo informou que Deus pediu o filho de Abraão, Isaac, em sacrifício. Quando Abraão subia a montanha para matar o filho, com um feixe de lenha (ele não explicou para que servia o feixe de lenha), Isaac perguntou, talvez desconfiando do pior:

“Papai, cadê o carneirinho?”

Caramba, essa pergunta me matou. Um singelo carneirinho, à caminho da morte. Cadê o carneirinho, na subida da montanha, é aquele momento da tragédia em que o coro entra em ação e a platéia se arrepia. Ele me olhou e comentou:

“Tu estás anotando, é?”

Confirmei. Disse que estava escrevendo um livro sobre os anônimos mais importantes do Recife, e ele abriu um sorriso. Seus dentes eram bem separados um do outro, mas estavam inteiros e polidos. Senti aquele aroma de quem andou bebendo com dedicação, nos últimos 25 ou 30 anos.

Bem, no alto da montanha, Abraão pegou o cutelo para matar o filho, informou meu amigo. Eu já fiquei nervoso, temendo o pior com Isaac, o do carneirinho.

“Sabes o que é cutelo? É para imolar”.

Eu não sabia que cutelo só servia para imolar. Estava preocupado era com o garoto. Mas o bom do meu comparsa é que as perguntas vinham com a resposta. Ah, se eu tivesse perguntas já com respostas já na quinta série…

“Tu sabes dizer o que quer dizer proverá?”

Essa eu sabia, mas ele não deu bola. Se encostou no banco e disse que se sente feliz às três horas da manhã, quando as aves gorjeiam. Lembrei do poema que fala das aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá, mas esqueci o autor. Preciso decorar algumas coisas, nem que seja para impressionar numa conversa de praça.

“Tu sabes qual foi o mártir brasileiro que, para defender sete pessoas, deu sua vida?”

Caramba, eu não sei de quase nada importante da história da humanidade! Ele respondeu:

“foi o alferes da Marinha, Tiradentes”.

O sujeito me ganhou só pelo uso de “alferes”, que é palavra certamente oriunda de outros séculos, e pela história do carneirinho.

“Ele foi guilhotinado e esquartejado, e em cada canto de Minas Gerais, colocaram um pedacinho do seu corpo”.

Eu não sabia que a gilhotina fora utilizada abertamente pelos mineiros. Que esquartejaram o velho Tiradentes, eu sabia.

“Por outro lado… a felicidade está debaixo dos meus pés. Quando eu levanto os pés, ela aparece”.

Fiquei feliz em saber que ele encontrou a felicidade, mas estava mudando os assuntos com uma rapidez impressionante.

“Ela aparece e foge. Não, ela na verdade se apaga”.

E o amor? - perguntei eu, para jogar lenha na fogueira. Na verdade, joguei um balde cheio de gasolina. Ele estremeceu e me disse:

“Eu trabalhei 28 anos na Celpe e possui 22 mulheres”.

Não entendi a questão do trabalho com as mulheres, mas pouco importava, cada um com seu jeito de lembrar as coisas. Ele começou a dizer, como quem escala o time supercampeão de 1973, o nome de todas.

“Zan (Rosana), Tonha, Marleide, Zeza, Lourdes, Beatriz, Bia, Dolores…”

Ele falou os nomes com tanta rapidez, que perdi alguns e fiquei com vergonha de pedir para repetir.

“Foram princesas das quais só uma eu amei: Maria José Ribeiro, a “Zeza”, morena brejeita, cor de canela. Às vezes eu beijava seus próprios pés. A chamava de minha princesa. Ela tinha tudo: era feia, baixinha, gorda, mas o amor não tem isso – não escolhe beleza. Ela pode ser fedorenta, feia, mas no aconchego da vida, a gente é feliz com essa pessoa”.

Respirou fundo e completou:

“O coração se queima. Era o pulsar. O sangue nas minhas veias se expandia…”

***
(A última parte da conversa vem na próxima crônica, ainda hoje. Aguardemos o restante da história de um homem que amou demais.)

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