E ainda dizem que invento histórias…
Samarone Lima
Recife, 8 de setembro de 2005.
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Estou aqui na esquina de seu Vital, no Poço da Panela, acompanhando o entardecer no tronco cortado de uma árvore, o céu é amarelo-magnífico, se não existe esta cor, acabo de inventar. Seu Vital conta as loas e boas de uma viagem espetacular ao Juazeiro do Norte, feita recentemente. Seguia sua prosopopéia nos mínimos detalhes, o tamanho do ônibus, o quarto em que ficou hospedado, o amigo secreto no ônibus, enfim. Jorge, enquanto fazia um desenho na mesa única e principal, escutava tudo em silêncio. Lá pelas tantas, sentenciou:
“É, mas faltou o chato da viagem”.
Seu Vital emendou, sem respirar:
“É, faltou você na viagem”.
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Estou conversando com Massahiro, um menino que mora aqui ao lado. O nome dele é esse mesmo e ele deve ter uns sete anos. Então, faço aquela pergunta estúpida que os adultos estúpidos adoram fazer para as crianças:
“Massahiro, o que tu vai ser quando crescer?”
“Power Rangers”, responde ele, sem hesitar.
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Um amigo está contando uma história de dois homens que encontram um urso, e eles acham que vão morrer, porque o urso vai correr e devorá-los.
“Um urso corre mais que um homem?”, pergunto estupidamente.
“Na minha história corre”, completa meu amigo, e a história segue, claro.
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Converso longamente com um amigo que nunca aceitou, em hipótese alguma, essa história de “força da gravidade”, que nos ensinam no colégio e acreditamos sem saber direito o motivo. Meu amigo arregala os olhos e diz, num tom de profecia:
“Não existe força da gravidade, Samarone, o que existe é o embalo”.
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Longa discussão em um bar sobre o governo Lula e a crise do PT. Graças a Deus, a discussão não tem questão de ordem, mas o negócio vai ficando interminável, as avaliações são as mais profundas possíveis, todos gastam mesmo o verbo sobre as verbas que torraram para acabar com um sonho coletivo. Depois de escutar tudo em silêncio, um dos camaradas solta o brado mais importante da noite:
“O problema mesmo é que meu copo está vazio!”.
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Estou aparando a cabeleira com Eliete, minha cabeleireira do Alto José do Pinho, e vou escutando as conversas das comadres sobre amor, desamor, paixões e ciúmes, isso não tem preço. Lá pelas tantas, uma das mulheres solta sua definição amorosa:
“Eu não fico me preocupando em dominar não, minha filha. Eu me preocupo é de cuidar”.
Olha para as outras no salão e repete:
“O importante é cuidar”.
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Chego ao bar de seu Biu, no Alto José do Pinho, depois de aparar os cabelos, e reencontro meu amigo Ailton, ou “Peste”, baterista da banda Matalanamão. Conversa vai, conversa vem, Peste me dá seu email:
“Mas Peste, e este email…”
“Já tinha tanta peste no mundo, que botei bulbônica mesmo”.
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Xuxa, nosso amigo aqui do Poço, chega em Vital e pede um quartinho. Fica quieto, bebericando silenciosamente, diria que serenamente. Bebe, bebe,bebe sua cachacinha, o quartinho desaparece no organismo, Xuxa pede mais um e vai amansando. Lá pelas tantas, ele interroga ao bar inteiro:
“Por que a hora só passa quando eu largo?”
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Dona Fátima, que faz a faxina e me dá carões homéricos a cada quinze dias, chega muito séria e fala de um amigo que indiquei para ela também fazer a faxina. O amigo começou agradando muito, depois farrapou com ela, até que desistiu.
“Olhe, seu Samarone, aquele seu amigo era indo e voltando, só que agora ele foi e não voltou mais”.
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Um amigo muito simpático, boa gente, encontra outro amigo muito sisudo, sério, no dia dos pais, e fala com uma certa euforia.
“Rapaz, hoje é dia dos pais, meus parabéns!”
“Obrigado. Só que você não é meu filho”.
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Acordo, vou ainda sonolento em seu Vital e peço um café. Beberico o produto e olho para o relógio: nove horas da manhã.
“Puxa, seu Vital, já são nove horas!”, digo alarmado.
“Se preocupe não, Samarone, que o dia hoje começou mais tarde”, responde ele sem pensar.
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E ainda tem amigo meu dizendo que invento histórias.
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