Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Cada homem tem sua legião de palavras para amar e proteger

11 de setembro de 2005, às 4:21h por Samarone Lima

Recife, 11 de setembro de 2005.

Há muito tempo, talvez minha eternidade inteira, as palavras me seduzem e definem meus caminhos. Trato-as como se vivas fossem. Percebo quando estão ansiosas, depressivas, tristes. Sei, por algum pacto com elas, quando resplandecem, quando estão a desabrochar. Sinto a claridade de cada uma, a claridade que me ilumina.

Como as coisas que estão vivas, as palavras podem mudar de destino a cada instante, a cada diálogo. Uma palavra abençoada pode tornar-se amaldiçoada em uma fração de segundos. E o tirano pode dizer, enquanto contempla cadáveres, a palavra que também estava destinada à morte. Há sim, palavras que escapam de forcas, cadeiras elétricas, fuzilamentos. Eu mesmo, em silêncio, tentei salvar algumas palavras, não sei se consegui.

Talvez seja por isso o meu amor aos dicionários, de todas as línguas, que guardam, naquele momento da língua, as palavras possíveis. Todo dicionário é um réquiem. Nele, as palavras descansam, repousam. Mas não é um réquiem de morte. Réquiem de beleza. Talvez seja por isso que eu escreva, há tantos anos, meus silenciosos diários, que enchem uma estante. São estantes repletas dos meus instantes…

Me custaria muito viver, não fossem as palavras que aprendi e carrego, não sem uma certa humildade. É que vejo o mundo não pelos olhos, mas pelas palavras.

O poeta Juan Gelman me ensinou a amar o amor com suas palavras, que parecem tocar todos os corpos e almas do mundo. Em um de seus poemas sobre a chuva, ele diz que lhe custa escrever a palavra amor, “porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa/e somente a alma sabe onde os dois se encontram”.

É isso. O amor é uma coisa, a palavra amor é outra coisa. Mas não haveria o encontro na alma se a palavra não tivesse realizado aquilo que o coração teceu, tantas vezes sozinho e em silêncio. E não esqueçamos de louvar também os amores silenciosos, decifrados somente com este contato silencioso do dedo com a pele, no braile que os amantes reescrevem a cada encontro.

Há, segundo Gelman, palavras que naufragam, palavras “que não sabem que há sol porque nascem e morrem na mesma noite em que se amou/ e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá, como o silêncio que há entre duas rosas”.

Sim, palavras prematuras, que nascem e morrendo. Talvez seja por isso que a palavra “prematuro” seja sempre a do meu irmão, Lúcio Flávio, que morreu com cinco dias de vida, talvez menos, e nós, os três irmãos, como reis magos sem presentes, fomos impedidos de vê-lo, em uma pequena capela de um hospital, quando a minha infância estava na metade. O que ficou, de sua curta passagem pela terra? Terá ele esboçado um sorrido ao ver o rosto de sua mãe, pela primeira vez? Sequer escutei seu grito inicial, que parece inaugurar nosso primitivo rompimento com o silêncio uterino.

E descubro que Lúcio Flávio não teve tempo de aprender a falar. Quais as palavras que meu irmão teria trazido ao mundo? Quais as palavras ele ressuscitaria? Porque sinto que cada ser humano vem ao mundo não apenas para viver, amar, construir coisas, belezas, ter uma história, mas também para trazer palavras, emudecer outras, ignorar muitas. Alguns poucos conseguem o milagre de ressuscitar palavras, mas cada homem tem sua legião de palavras para amar e proteger.

Meu irmão, que não disse uma palavra em sua passagem por este mundo, me trouxe a palavra “prematuro”. Desde então, tudo o que é prematuro me leva ao meu irmão, que jamais vi, mas tenho e sei.

E me lembro que o nome dele, as duas palavras “Lúcio” e “Flávio”, causaram um certo rumor familiar, que jamais consegui decifrar inteiramente. Era como uma nuvem escura, em torno de um nome de uma criança que não tinha sequer nascido. Lúcio Flávio era o nome de um famoso criminoso nos anos 70, e meu irmão nasceu em 1975, salvo engano. A história do criminoso resultou em um livro (e depois em filme) que tinha um título épico: “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia”. Certamente, se o chamassem de Lúcio não haveria problema. Flávio, somente o Flávio, seria aceito a contento.

Mas havia um problema – as duas palavras estavam juntas.

Então me veio este sentimento, ao longo da vida, de que certas palavras, juntas, mudam completamente de sentido, se tornam “outra palavra”, que não é também uma terceira palavra.

Haveriam palavras destinadas à mais completa solidão? Palavras que nunca poderiam sequer se aproximar das outras, sem causar feridas?

Não sei se o meu irmãozinho viveu sua agonia, se passou os poucos dias de vida dentro de uma incubadora, se sentiu frio, se teve fome. Não sei sequer se ele pôde tocar o peito de sua mãe, que também é a minha, para os primeiros goles do leite ancestral da vida, para o acolhimento maternal dos primeiros minutos no mundo. Não sei a cor dos seus olhos, se tinha muitos cabelos, não sei sequer se ele foi registrado, e morreu levando o nome que tantos quiseram lhe negar.

Não sei se ele trouxe a palavra “prematuro” ao mundo, ou somente ao meu mundo. Mas há uma ironia nisso tudo. Ele também foi um passageiro rápido demais neste mundo, e também viveu sua agonia.

Ficou esta esperança gravada em mim - a de que toda agonia seja sempre passageira.

Ficou esta certeza em mim - cada homem tem sua legião de palavras para amar e proteger.

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