Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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O murmúrio de Hurbineck

12 de setembro de 2005, às 23:47h por Samarone Lima

Recife, 12 de setembro de 2005.

O texto anterior me fez lembrar de Hurbinek, uma criança de aproximadamente três anos, que vivia e morria em Auschwitz, no início de 1945. A guerra, ela própria, também agonizava, e os prisioneiros do campo de concentração assistiam os moribundos partindo ou simplesmente aguardavam algo. A morte já tinha atravessado a todos.

O escritor italiano Primo Levi era um deles. Ele percebeu a existência de Hurbinek e o salvou com suas palavras. Salvou na memória.

O próprio nome do menino fora escolhido pelos prisioneiros. De Hurbinek, nada se sabia. Não aprendera nenhuma palavra e nem tinha nome. Estava paralisado dos rins para baixo, e tinha, como lembraria Primo Levi tempos depois, “as pernas atrofiadas, tão adelgaçadas como gravetos”.

Graças às palavras de um italiano que jamais conheci, posso ver Hurbinek. Ele, neste momento, está vivo e seus olhos “perdidos no rosto pálido e triangular, dardejam terrivelmente vivos, cheios de busca e asserção, de vontade de libertar-se, de romper a tumba do mutismo”.

Hurbinek está me olhando com seu desamparo. Quem cuida dele, nestes dias de frio e fome, é Henek, “um robusto e vigorosa rapaz húngaro de quinze anos”. Minha simpatia com Henek torna-se, portanto, visceral.

Certo dia, Henek avisa com seriedade que seu amigo, seu pequeno Hurbinek, “dizia uma palavra”. Todos os prisioneiros foram tomados por uma expectativa. Assistimos, neste momento, o parto de uma palavra. Que palavra? Algo como “mass-klo”, “matis-klo”. Mas eram palavras também prematuras. Ainda não sabiam o que dizer ao mundo.

“De noite, ficávamos de ouvidos bem abertos: era verdade, do canto de Hurbinek vinha de quando em quando um som, uma palavra. Não exatamente a mesma, para dizer a verdade, mas era certamente uma palavra articulada; ou melhor, palavras articuladas ligeiramente diversas, variações experimentais sobre um mesmo tema, uma raiz, sobre um nome talvez”.

E sinto a angústia de Levi por não conseguir, escutar a palavra de Hurbinek. Posso escutar apenas seu murmúrio, seus esboços de palavras, em uma língua que não é a minha, e que talvez seja apenas a sua língua, inventada em meio aos escombros.

Alguns presos suspeitaram que as palavras do menino quisessem dizer “comer” “pão” ou “carne”, em boêmio. Mas os falantes de várias línguas da Europa jamais conseguiram decifrar aquele murmúrio de Hurbinek. E se ele estivesse tentando dizer somente “vida” ou “adeus”?

As palavras de Primo Levi, no entanto, salvam este menino, mesmo com a morte. São palavras de ressurreição:

“Hurbinek, que tinha três anos e que nascera talvez em Auschwitz e que não vira jamais uma árvore; Hurbinek, que combatera como um homem, até o último suspiro, para conquistar a entrada no mundo dos homens, do qual uma força bestial o teria impedido; Hurbinek, o que não tinha nome, cujo minúsculo antebraço fora marcado mesmo assim pela tatuagem de Auschwitz; Hurbinek morreu nos primeiros dias de março de 1945, liberto mas não redimido. Nada resta dele: o seu testemunho se dá por meio de minhas palavras”.

As palavras, testemunho da presença humana na terra. Graças a elas, muitas vezes saio do meu desamparo, supero tristezas, encontro novos mundos. Estendo os braços a Hurbinek e a Lucio Flávio, e caminhamos juntos por uma estrada que sequer existe, mas que acabei de criar.

Uma estrada feita de murmúrios e silêncios.

ps. O livro de Primo Levi se chama “A Trégua”, e é lindo.

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