Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Essas criaturas que são massacradas e nos devolvem pássaros…

14 de setembro de 2005, às 0:56h por Samarone Lima

Recife, 14 de setembro de 2005.

Tenho aqui em casa, emoldurada, uma foto de Juan Gelman, o grande poeta argentino. Vou buscá-la para ver melhor.

Os olhos são de uma tristeza infinita. A mão esquerda está erguida, à altura do queixo, e entre os dedos, queima um cigarro, com um filete de fumaça subindo para um teto que não posso ver. O farto bigode é bem aparado. Há muitas rugas no rosto, mas não posso ver seus cabelos, porque a foto está muito centrada em seu rosto. É um rosto, diria, repleto de palavras. Me parece um homem triste, com olhos que vazam dor, mas não infelicidade. São duas coisas diferentes. Há pessoas que passam por dores terríveis, mas não se tornam infelizes. É um mistério.

E deste poeta que aprendi a amar, muitas histórias de sobrevivência pela palavra tornaram-se conhecidas. Uma delas me comoveu.

Durante a ditadura da Argentina, que arrancou do país milhares de vidas, ele foi para o exílio na Espanha. Precisava escapar, porque as ditaduras não gostam das palavras alheias. Estava em Barcelona e escutou a história de uma mulher, que teve seu filho preso. Ela contou a Gelman que seu filho pediu à irmã “os livros de Gelman publicados no exterior”. A irmã atendeu ao “pedido poético” de uma forma disfarçada. Como os livros eram proibidos, ela teve que decorar os poemas. A cada visita, levava, na cesta da memória, dois ou três poemas. Era o alimento do irmão.

Fico a pensar que, ao invés de conversarem sobre as coisas da vida, a realidade política opressora e devastadora, as coisas da família, a doença de um vizinho, os dois passavam o tempo a dizer, repetir, e lembrar. Palavra por palavra, linha por linha, até que o irmão guardasse na memória o poema. E então, algum soldado avisava com seu fuzil que a hora da visita tinha encerrado. Adiós, hermana.

Ao retornar da sala de visitas para a cela, o próprio irmão levava um alimento para os demais prisioneiros: dois ou três novos poemas de Gelman, que naquele momento, estavam circulando pela Europa. Quantos prisioneiros não foram alimentados por aquelas palavras?

“Eu ficava sabendo dessas coisas e isso, além de ser comovedor, ajudava na hora de enfrentar a batalha da solidão, da folha em branco”, lembraria o poeta, muitos anos depois.

Palavra e memória sempre me lembrarão Gelman. A ausência de pessoas muito queridas na vida do poeta, certamente o fizeram seguir por este caminho, que é o de confrontar a dor e desesperança com o fulgor das palavras.

Em 1976, a ditadura Argentina levou seu filho Marcelo e sua esposa, Cláudia, que estava grávida. Em 1989, os restos mortais de Marcelo foram encontrados. A neta, que poderia ter ou não nascido, foi encontrada somente em 2000. Estava com 23 anos. Os restos mortais de Cláudia nunca foram encontrados.

Usar a palavra, para Gelman, é essencialmente lembrar.

“Eu não vou me envergonhar de minhas tristezas, minhas nostalgias. Sinto falta da ruazinha onde mataram meu cachorro, e eu chorei junto à sua morte, e estou grudado no calçamento com sangue onde meu cachorro morreu, existo a partir disso, existo disso, sou isso, a ninguém pedirei permissão para sentir nostalgia disso”.

Existo a partir disso, existo disso, sou isso. As confissões de um poeta, às vezes, são como testamentos da própria humanidade, inscrições em lápides que ficarão para uma eternidade que jamais saberemos contar.

“Acaso sou outra coisa? Vieram ditaduras militares, me tiraram os livros, o pão, o filho, desesperaram minha mãe, me puseram para fora do País, assassinaram meus irmãozinhos, meus companheiros foram torturados, desfeitos, rasgados. Ninguém me tirou da rua onde estou chorando ao lado do meu cachorro”.

Em um de seus poemas, Gelman diz que seu coração “tornou-se belo como o sol que sai”. Seu coração voa e canta. “De manhã cedo é um passarinho e depois é teu nome”.

Fazer o que, com essas criaturas que são massacradas e devolvem pássaros na manhã?

Para Tany.

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