Notas de um homem feliz no quase silêncio do anoitecer
Samarone Lima
Estou em casa, no primeiro andar que dá para a esquina da mercearia de Seu Vital, aqui no Poço da Panela. O silêncio do anoitecer só é interrompido pelas batidas secas do dominó – pec, pec, pec – e depois, o barulho das pedras girando no centro do tablado, porque alguém bateu a partida. O entardecer foi embora há pouco, o amarelo do céu passou para o rosa e depois para algo misterioso no firmamento. Restos de penumbra iluminaram paredes muito antigas.
Ando a recolher pedras para um canteiro no quintal que virou jardim. Saio para uma volta no quarteirão, vejo uma boa pedra e trago comigo, sorrateiramente. Só agora entendo a fascinação dos doidos pelas pedras. Elas, as pedras, têm o fascínio da permanência. Junto as pedrinhas e pedronas e, aos poucos, vai nascendo um canteiro de florespedras, em meio às florespétalas.
Há pouco o sino tocou. Blem, blem, blem – e já não sei mais o que seu Jaime quer dizer com essas badaladas secas, se quase não temos missas, e os casamentos têm ficado para os sábados. Não importa o objetivo. Um sino, para existir, deve badalar. Blem, blem, blem.
Daqui a pouco, desço para um café e como aquela pipoquinha salgada da Kinitos. Saberei da vida dos amigos que passam todos os dias, ao anoitecer. Creio que nos amamos muito, porque algo nos atrai para o mesmo lugar, todos os dias, à mesma hora. Tem uma esquina no meio de nossas vidas.
Como sempre, vou dar um palpite aleatório sobre uma eventual jogada no dominó, simulando conhecer o tratado das pedras e dos números. Com o gosto do café na boca, os dedos com restos de manteiga devidamente limpos na barra da calça ou da bermuda, voltarei para casa em fá menor sustenido.
Ultimamente tem sido assim o anoitecer, e é o que me basta. Dou mais uma reparada no quintal, fico muito quieto como aquelas pedras e sinto aquela dúvida existencial me tomar o espírito – quando, deus do céu, aprenderei a jogar dominó?
Volto ao primeiro andar, olho para a esquina e as pedras continuam batendo – pec, pec pec.
Sei que está fora de moda, não combina com a morgação da vida pública do nosso País, mas tenho sido, modestamente, um homem feliz.
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