Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Os dois filhos de Francisco no Cine São Luis

20 de setembro de 2005, às 8:41h por Samarone Lima

Recife, 20 de setembro de 2005.

Estou sem assunto para a crônica de hoje, fico tamborilando no computador, pensando em algo decente, quando vejo no jornal que o filme “2 Filhos de Francisco” está em cartaz no lendário Cine São Luis, ali no centro do Recife, às margens do Capibaribe. Pronto, ganhei o meu pão de hoje. Tomo um banho apressado, e em minutos, estou dentro de um ônibus da Transcol, numa viagem ensandecida para o cinema.

Não sei se Lucimério mandou a moçada correr muito, mas o fato é que o motorista estava alucinado. O ônibus rasgou a Rui Barbosa em questão de segundos, e a sinuosa avenida mais parecia mais uma reta de Fórmula 1. Vum, vum, vum, cada acelerada doida, que eu vou dizer. No banco de trás, dois jovens travavam uma conversa formidável, um deles disse inclusive que duas coisas mexiam muito com ele - a curiosidade e a inquietação - , mas não tive tempo nem jeito de tomar muitas notas. Eu tentava rezar para chegar vivo ao cinema, porque o motorista raspou três postes a mais de 180 por hora, não tenho a menor dúvida. “Mas menino…tem uma vida me esperando lá fora”, comentou o rapaz da cadeira de trás, eu pensei em responder “aproveite, meu filho, que sua vida está já acabando num belo poste”.

“Eu bebi um copo d’água para descer aquilo que estava entalado”, disse o outro, e ainda perguntou umas duas ou três vezes “entendesse?”. Não sei se o outro entendeu e nem o que o entalava tanto, mas quando chegamos ao Derby eu já me dei por satisfeito de continuar com todos os ossos inteiros. “Esses pontinhos de luz são vida pulsando, e a vida é um leque de possibilidades”, arrematou o mesmo rapaz do copo d’água. Foi minha última anotação, antes de me agarrar à cadeira como um desesperado, para não sair voando pela janela e morrer no início da Conde da Boa Vista.

Cine São Luis, não sei quantos anos depois, mais de uma década, com certeza. Já gostei do ingresso (R$ 6,00) e do enorme saco de pipoca na calçada (R$ 1,00), que decidi comer às margens do Capibaribe, ali na rua da Aurora, centro do Recife. A pipoqueira banguela me abriu o mais generoso dos sorrisos, antes de perguntar se queria pipoca era doce ou salgada. Salgada, com manteiga, minha senhora, que de doce já basta a vida, como diria Mauricio. Até agora, vou gastando R$ 8,50 para um cinema, porque a passagem no Recife custa R$ 1,50.

Sento e olho a fachada do belo cinema, cravado na esquina da rua da Aurora com a Conde da Boa Vista. Fico tão contente, que deixo cair a pipoca e perco a metade do saquinho. Faltam vinte minutos, resolvo entrar. Entro com o pé direito, igualzinho aos jogadores de todo lugar do planeta, ao pisarem no gramado. Um senhor vestindo uma bermuda, camisa aberta até o umbigo, de chinelão, espera bovinamente o início da sessão. Tem cara de quem não fez nada hoje e está cansado, o que angaria logo a minha simpatia. Ao lado, um casal se amassa com fé e fome, com beijos tão calorosos que as línguas aparecem, isso eu não acho muito bonito, falta uma certa delicadeza, mas tudo bem, cada qual com seu cada qual.

Entro no São Luis e tomo um susto. De repente, ele ficou imenso, há cadeiras da rua da Aurora até o Derby. Olho para os lados, nada de amigos. Puxa, pensei que iria encontrar um bando de amigos no filme sobre Zezé de Camargo e Luciano, no centro do Recife, numa bela segunda-feira de lua cheia… Ah, já sei – Déa está viajando, César Maia agora cuida do filhote, Emilia viajou de novo e Waldemir está em casa, descansando. Giba deve estar conversando fiado em algum boteco, João Magro está fazendo suas reportagens, Bruno prepara o casamento e Marcel anda lendo muito. Inácio agora deve estar com os filhos ou com seu amor. O que sobrou de amigo está em Vital, tomando uma cerveja e conversando água.

Umas trinta pessoas no cinema, quase todas acompanhadas. Ao lado, uma bela morena com cabelos castanhos até os ombros, mas eu, com minha pipoquinha, não vou a lugar nenhum. Sou absolutamente incapacitado para chegar a uma criatura do sexo oposto e puxar assunto, como se nada estivesse acontecendo. Pensei em ir ao banheiro, ver “o banheiro do Cine São Luis”, mas me deu aquele medo histórico de perder os trailler, parte que considero das mais importantes da história do cinema. Filme sem trailler é como amor sem beijo.

Olho o telhado, procurando uma goteira. Não estava chovendo, então só vi mesmo o telhado descascado, mas nada decadente. Oba, lá vem trailler. São uns três, e me esbaldo. Caramba, esse tal de Harry Potter é feio pra chuchu. A casca do amendoim ficou presa no dente, pego a tampinha da Bic e resolvo a parada. No Cinema da Fundação, tirar a casca do amendoim com tampinha de Bic é absolutamente arriscado, sugiro não tentar, porque vão notar e vai pegar mal. Fiz nas entocas, por precaução.

O filme

Muita gente cabeça não vai nem passar na calçada do cinema, porque o filme é a história da dupla sertaneja Zezé de Camargo e Luciano, mas eu gostei e recomendo, é muito melhor que muito filme cabeça. Meu amigo Inácio França, que leu Dostoievski de cabo a rabo (me informou ontem, como quem faz um gol de escanteio), também tinha assistido e me recomendou.

Deixando os preconceitos musicais de lado, o filme é bem feito e mostra a história de uma família nas brenhas de Goiás, no início dos anos 60. O pai da dupla, Francisco, ganhou minha simpatia desde a primeira cena. Teve uma hora que a família do seu Francisco já tinha sofrido tanto, que eu já estava com os olhos marejados, implorando por uma cançãozinha de sucesso, para desafogar o peito.

A música que levou a dupla para a fama se chama “É o amor”, e quem nunca escutou a dita cuja, ou é surdo ou é cínico. “Eu não vou negar que você é meu doce mel/Meu pedacinho do céu/Eu não vou negar”. Nunca escutou? Não conhece? Então, meu nego, ou minha nega, você nunca passou por um mercado público, nunca entrou num boteco, nunca viu um programa de auditório na TV, no domingo, nunca viu uma faxineira cantando durante o trabalho. Você morou na Iuguslávia, nos últimos 15 anos.

A cena mais comovente do filme acontece quando eles finalizam o primeiro disco, e a gravadora não lança no mercado, porque falta um sucesso. Seu Francisco, sempre ele, pega a fita com “É o amor”, leva para uma rádio da cidade, e começa a ligar, pedindo a música. Na construção onde trabalha, sai espalhando fichas (lembram da ficha telefônica?) com os operários, para que eles peçam a música. Parece um menino, fazendo peraltice. Todo mundo começa a ligar para a rádio, até que a música emplaca os primeiros lugares em Goiânia, e obriga a gravadora a lançar o disco, que vende um milhão de cópias. Eu, que adoro os malucos, achei o seu Francisco a jóia do filme.

Tem de tudo no filme. Fome, pobreza, miséria, a busca de um sonho, generosidade, falta de terra para trabalhar, êxodo rural, uma mulher raçuda cuidando dos filhos (ai, aquela Dira Paes me mata), fome, desespero, morte, ganância etc. Tem um momento em que o pai lê algo para os filhos, e um deles pergunta o que quer dizer “Nação”. Ele não sabe, fica em silêncio, e responde:

“Ora, vamos pra frente”.

Peguei o Casa Amarela/Nova Torre para voltar, e o motorista corria três vezes mais que o primeiro, além de conversar pelos cotovelos, olhando para a cobradora. Pensei em anotar alguns trechos da conversa, mas é coisa de tabacudo querer anotar tudo da vida. Na descida do viaduto da Torre, a 250 por hora, pensei em rezar para São Francisco, pedindo que ele intercedesse, no uso dos freios, mas não deu tempo. Cheguei vivo sabe-se lá como.

O passeio todo me custou R$ 10,00 (passagens + cinema + pipoca), matei saudades do velho Cinema, sujei a rua da Aurora com pipoca e descolei uma crônica novinha. Como disse o Eduardo Carvalho, em um blog que li outro dia, “escrever exige trabalho de campo”.

Não sei se sonhei com a Dira Paes, mas acordei com esta belezoca na cabeça – “Eu não vou negar que sou louco por você…”

Inté.

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