Para uma amiga com câncer
Samarone Lima
Recife, 27 de setembro de 20005.
Estamos acompanhando há semanas, já são meses, creio. Lucidélia, ou Lucinha, ou “a professora”, nossa vizinha e amiga, estava com um nódulo no seio, o troço cresceu, inchou muito, e foi diagnosticado: câncer. Ô palavrinha complicada de dizer e escutar, deus do céu…
Por conta de nossa amada Luisa, de um ano e três meses, eu e Lucidélia nos aproximamos muito, nos últimos meses. É a tal força dos afetos, especialmente quando chega uma criança com aquele sorriso, que desfaz todos os nódulos. Diante de uma criança, tudo parece mais simples, menos atribulado e doloroso. Era quase um ritual de dois tios abestalhados. Eu tomava um cafezinho em Vital, depois passava na casa da professora e dava um grito:
“Lucidélia!”.
Ela aparecia na janela com um sorriso e eu completava:
“Menos, professora, menos”.
Tenho umas manias esquisitas mesmo, uns rituais que fazem parte da alma, um jeito de falar que incorporo como uma espécie de código. Eu só falava esse “menos”, Lucinha abria um sorriso e saía de casa, para começar o dia brincando com Lulu. Eu, de 36 anos, e Lucidélia, de 60, parecíamos dois doidos, fazendo estripulias para ver Lulu sorrindo. E Lulu sorrindo é mesmo uma bênção, então viva.
Veio a primeira sessão de quimioterapia. É uma surra na alma da pessoa. Lucinha ficou quebrada mesmo, daqui a pouco os cabelos já não estavam, veio aquela vontade de não fazer nada, dificuldade para se alimentar etc. Ao invés de sair para o dia, ela me pedia para entrar em sua casa. Numa das visitas, reparei nas muitas fotos dela quando jovem. Era uma mulher bonitona, vistosa, os cabelos claros, rosto afilado e sorriso generoso. Conversamos muito sobre a vida dela, o que tinha feito e deixado de fazer, com um bom humor danado, tratando o câncer como uma espécie de visita chata, na hora do cochilo ou no meio da sessão da tarde.
Depois veio uma certa dificuldade em cuidar do jardim. As manhãs começaram a ter este gosto de cuidado com o jardim, do molhar as plantas, com Luisa aprendendo a manejar o regador, o que não deixa de ter aquele sentido da vida sempre renascendo. Da última vez, ganhei de presente várias mudas de rosas, e a professora se furou com um espinho. Me deu um carão, ficou chupando o dedo sangrado, mas me deu flores. Luisa ficou só olhando. Eu queria ter tido isso na infância sim - gente que dá plantas e se fere, mas vai sorrindo.
Veio a segunda quimioterapia. Antes de sair, ela me deixou um bilhetinho:
“Samarone, não deixe minhas plantas morrerem. Conto com você. Te adoro, Lucinha”.
Ela está agora na casa da irmã. Ontem à tarde, fui com Nana fazer uma visita. É pau. O corpo sente a carga. Mesmo assim, debilitada, ela não escondeu a preocupação com o resultado do jogo do bicho da tarde. A vida é mesmo este mistério mesmo do câncer por vencer e o resultado do jogo do bicho por conferir.
Na quinta-feira, ela completa 61 anos. Estamos preparando uma visita-surpresa, na Kombi de Nana, com bolo e tudo. Acho que vamos todos, os mais chegados, e vai ser uma boa farra, movida a guaraná e bolo de chocolate.
Ainda vai ter a cirurgia e mais umas três quimioterapias. Lucinha vai ter que ter uma força muito grande para atravessar este deserto que é o câncer.
Não deixarei as plantas morrerem, Lucinha, mas veja se volta logo, para o dia amanhecer melhor.
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