Recife, 25 de outubro de 2005.
Talvez uma das coisas mais impressionantes no ser humano, a que mais me intriga e me encanta, seja a memória. Ela parece ganhar vida própria, com o passar dos anos, às vezes é cheia de sutilezas, é como o amor, uma boa malandrinha, que nos pega de surpresa. Depois de ter estudado tanto sobre o assunto, uma vez escutei a seguinte frase de Letícia Lins:
“Memória é reconhecimento”.
A frase definiu meus dois anos de mestrado. Nem precisava ter lido tanto, ter pesquisado tanto, se memória, no final de tudo, é como o amor: reconhecimento.
O assunto apareceu depois que cheguei de São Paulo, onde passei seis anos intensos (1994-2000). Foi um período singular da vida. Cheguei um garoto, com 24 anos, e saí já mais arejado para os rumores da vida, com 30. Neste período aconteceu de tudo. Trabalhei em ONGs, no jornal da Igreja Católica, sob o comando de Dom Paulo Evaristo Arns, passei por redações da grande imprensa, sinto que virei jornalista de verdade, encontrei os mistérios do amor, e depois de tanta intensidade, me veio um cansaço e a vontade de fazer outras coisas, coisa que sempre me ocorre na vida. Então fui fazer o mestrado.
E veio a outra fase, que foi de muito sossego, leituras, um apartamento silencioso e calmo, compartilhado com o meu amigo e irmão Gustavo, que vira e mexe, manda sinais neste blog. Viajei muito para vários lugares do Brasil, mas principalmente para o Chile, Uruguai e Argentina. Morávamos na Santa Cecília, um bairro simpático, com muitos nordestinos trabalhando nos bares e restaurantes, os “Mombaça”, porque parecia que a cidade inteira tinha migrado para Sampa.
Foram seis anos de alegrias e muitas tristezas também. Não foram poucos os momentos em que me deparei pensando:
“O que estou fazendo aqui, neste frio do caralho, longe de casa, sozinho?”
São perguntas que a gente faz na hora da grande tristeza, achando que a vida é assim, explicável. Somente o tempo, este Deus, vai responder, na hora certa.
Se eu for olhar meus diários deste período, encontrarei muitas coisas surpreendentes, talvez fatos que eu não lembre, conversas com desconhecidos que nunca viraram crônicas, farras que se perderam nas brumas da memória.
Voltei algumas vezes a Sampa, sempre de passagem, sempre sem tempo para ver os velhos amigos, os que compartilharam coisas importantes, como aniversários, batizados, amigo-secreto-do-final-de-ano, essas coisas que vivo faltando sem culpa, mas que são importantes, embora não sejam fundamentais. Não encontrei Bernardete, minha chefa no Jornal O São Paulo; não encontrei Josmar Josino, o “Valente”, que considero o maior jornalista do Brasil; não encontrei minha prima Érika, a super super, sempre com aquele sorriso largo, aquela conversa intensa, cheia de vida; não encontrei Maria, a dona do mercadinho na esquina onde eu morava, uma cearense com olhos tristes, que tinha perdido um irmão assassinado em Sampa e me parecia infeliz naquele lugar; não encontrei “Tomatinho”, uma senhora da banca de revista que sempre vestia vermelho e logo de manhã me sorria dizendo “ô meu filho…”; não encontrei Camila, que morava num prédio ao lado e já começava a trocar o jornalismo pela dança, pela graça divina.
Passei ao largo. No último dia, saí com minha câmera para tirar as fotos do bairro onde morei. Iria fotografar o velho Manoel, que só me chamava de “Jacaré”, bem como ao Gustavo. Iria fotografar Maria e Tomatinho, bem como os Mombaça. Iria tirar fotos dos três lugares onde morei, além das ruas, de algumas pessoas, do clima de Sampa.
Mas a caminho da Santa Cecília, desisti. Não sei o que houve. Guardei a máquina e fiquei no bairro da Liberdade, vendo os japonezinhos passarem, naquele passo manso. Eu, com meu passo manco, eles, com os passos mansos. Cada um com seu caminhar, foi o que pensei. Entrei num boteco, o “Amigos da Liberdade”, pedi uma cerveja e fiquei ruminando minhas besteirinhas. Atrás de mim, um velhinho japonês que usava óculos escuros, disse bem alto:
“Quando eu melhorar, a Brahma que se cuide!”.
Pensei que velhinho japonês só dizia filosofia Zen. Bem, não deixa de ser uma filosofia, avisar à Brahma que vai entrar rasgando, quando ficar recuperado de algo. Ou seja: agora eu me resguardo, fico quietinho, mas depois, vou cair na gandaia com meus amigos.
Fiquei ali, olhando, ruminando e anotando algumas coisinhas. Não anotei nada de especial. Lembrei de uma frase de Gelman, “com la lágrima seca sobre el pômulo”, e nada mais. Fiquei olhando, quieto e silencioso. Senti uma paz imensa, uma espécie de regozijo. Não havia mais a necessidade de tocar as coisas do passado, para transformá-las. Fiz o meu encontro silencioso. Tudo segue, eu sigo, o bairro que morei segue, os amigos seguem com suas vidas, as lembranças do que vivemos.
Foi uma espécie de armistício. Voltei de Sampa sem saudades, sem lembranças dolorosas, sem cobranças do passado. Encontrei algo que talvez nunca tivesse perdido, mas que ainda queimava. E foi tudo simples, manso, terno. Peguei outro caminho, que me levou talvez mais para dentro de mim. Acho que reconheci algo.
Talvez me tenha saído uma lágrima seca sobre o rosto, eu não sei, desculpem pela crônica tão pessoal e sentimental, a vida segue, a vida sempre segue, como a memória, que é irmã siamesa do amor.