Oração a dois
Samarone Lima
Este texto me chegou nos comentários do Blog. É sempre lindo uma oração a dois. Compartilhemos.
Samarone.
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Salvador, 26 de maio de 2005
Como assim descobriste o amor?
- Sim, parece que o encontrei. Não sei onde tinha andado por todo esse tempo, mas estou reconhecendo suas primeiras dores.
Cicinha descobriu o amor. Àquela altura de sua vida, já tinha escutado e visto muita coisa; o amor sempre fora um pálido receio, o maior dos mistérios. Há anos que a vida seguia como devia ser. Filha da solidão, vez ou outra ela era assaltada por um frio desconcertante a que chamava de paixão. Mantinha-se distante das minúcias características da vida amorosa, e nem sequer poderia mensurar o significado de uma vida a dois. O casulo sempre se mostrou mais confortável do que a noite lá fora. Acreditava ser o amor sinônimo de uma calma e tranqüilidade abstêmia, como uma mesma reza compartilhada por duas pessoas.
Com a paixão ela já andava de mãos dadas fazia tempo. Adorava se apaixonar e vivia se apaixonando. Gostava da forma como manifestava a paixão. Por vezes, um olhar derretia seu corpo até desmanchá-la bruscamente numa poça d’água, ou então a novidade de um pequeno gesto trazia consigo a dificuldade de uma escalada: buscava e não encontrava ar… Esse arrebatamento trazia leveza aos seus passos, quase sempre pretensos demais.
Seguia sua vida entre um café e outro, um parceiro e outro, uma ou outra canção. Com o tempo as situações, ou pelo menos o impulso delas, iam se repetindo aos olhos de Cicinha. Vivia dias de vitória-régia. Ao mesmo tempo que superficialmente bela, banhando-se ao sol, ela escurecia tudo abaixo de si. Intimamente escurecia. Estava privada da luz das causas e finalidades. Por isso, voltava-se para dentro, onde permanecia sentada, simples e calmamente no seu negro interior. O tempo passava cada vez mais rápido. Os olhares e pequenos gestos ficavam cada dia mais distantes: a vida estava rarefeita. Na sua noite longa e interminável, Cicinha não esperava pelo amor.
Até que um dia, em fração de segundos, o seu coro desafinou. Uma nota dissonante. A nova melodia ergueu-a num sobressalto e espalhou suas certezas pelo ar. Não conseguia suportar a beleza dos novos ares. Por mais que respirasse, achava que nunca conseguiria acomodar tudo o que sentia. Em cada pedaço de si que o vento soprava longe pulsava um desejo imenso de ter aquele homem. A tranqüilidade que pensara passava longe do que sentia agora.
Em pedaços, suspensa, planava entre os cômodos lotados, sentia ausência de sentido nas palavras que conhecia até então. Não encontrava nada que pudesse expressar tamanho sentimento. Pensou em fabricar novas palavras, mas todos os alfabetos juntos reduziam demais as possibilidades. Não conseguia mais falar. Sua boca lhe fugia. Só se ouvia o silêncio. Qualquer coisa que dissesse lhe aprisionaria. Sentia-se como um cofre que não se pode fechar de tão cheio.Não-ser e Ser, para a mesma pessoa, só se diferencia pelos nomes. Da escuridão em que vivia, passou às trevas. A ligação às coisas e a desordem que dali provinham lhe deixavam cega.
Se pudesse falar, talvez dissesse que sentia uma saudade imensa dele. De sua pele, do seu cheiro, dos seus lábios, de sua voz, de sua língua… diria que ele lhe encantou a vida, que seus olhos lhe decifraram, que gostou de sua pele, da sua respiração. Diria que era facil amá-lo, gostar dele, que não iria abandonar o sentimento, que queria tê-lo conhecido antes para gostar ainda mais.
Mas ouvindo, nada disso faria sentido. Ele precisava se ver dentro dela. Tomar o seu corpo, desvendar sua alma. Ela se debatia na mesma escuridão que a acalmava. Precisava desesperadamente ser possuída por ele. Ser o próprio embaraço dos seus cabelos, a cegueira dos olhos embaçados, o embaralhar de suas veias.
Quando finalmente se encontraram, Cicinha lembrou-se da oração a dois. Como não sabia mais rezar, ofereceu o seu olhar.
Zi.
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