Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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O tempo é minha casa*

6 de outubro de 2005, às 3:38h por Samarone Lima

Recife, 6 de outubro de 2005.

Eu vivia repetindo que o tempo era minha casa, e tudo parecia simples, fácil e bom. Havia saído do amor inteiro, com o sentimento do ciclo que se encerrava, cada um para o seu lado, é a vida, tudo passa, tudo quebra, tudo cansa, como dizem os franceses. Foram poucas as vezes em que não saí ferido do amor.

Fui viver a minha vida, andar pelo mundo, como sempre quis, como sempre desejei, desde menino, a mochila nas costas e os pés avançando para os desconhecidos e remotos lugares, onde eu pudesse encostar e sossegar a alma.

Mas o tempo sempre passa, é como o vento, silencioso e persistente, me diz um amigo que não terminou o segundo grau, mas é o filósofo de beira de esquina mais completo que conheço. Cada casa é um país, repetia ele, são mostruários vivos de nossas transparências. Então ficou tudo frágil, depois que o tempo e a casa se juntaram, como coisas indecifráveis.

Mas há dias, não sei explicar direito, e já não busco explicações, há dias comecei a sentir uma saudade imensa de ti, uma vontade de conversar as longas horas que sempre conversamos, saber de tua vida, o que tens feito, se continuas brigando com a vida como um animal selvagem, que depois se torna quieto, manso, delicado e triste, bem perto de se tornar indefeso.

Não sei de onde me apareceu tua foto no meio dos tantos papéis que me alimentam, e ela veio para o meu mural. Estão aqui teus dentões brancos, marfins que lambi tantas vezes, tua gargalhada ecoando pela casa vazia, este meu país desfigurado, por agora.

É visceral mesmo. Tu criaste raízes muito fundas em mim, e já não é questão de tentar explicar ou entender, somente admitir. E por onde passo, vou rasgando o assoalho com meus pés cansados de tua ausência, vou emudecendo sem tua voz, vou perdendo a delicadeza da penumbra que me acompanhava. Me surgiram mais cabelos brancos e lembrei que percebeste quando apareceu o primeiro fio, ironizando que a maturidade tinha chegado antes dos 40, e me chamaste de saltimbanco tardio.

E me veio a lembrança de algo da minha infância, não sei o motivo. Me veio, como vem um arrepio de emoção por uma flor inesperada na calçada, em plena tarde quente no Recife. Lembro que eu fugia da agitação familiar, dos muitos irmãos sempre brincando, e ficava muito quieto, no quarto principal, onde estava a enorme cômoda, abrigo de tantas roupas e cobertas da família. Eu abria a última gaveta, tirava todas as roupas e ficava procurando algo. Minha mãe chegava à porta e perguntava, amorosa:

“Estás fazendo o que, filho?”

“Procurando uma coisa aqui, mãe”.

E ela saia para cuidar do alvoroço dos outros.

E fica muito quieto, dobrando as roupas, mudando-as de lugar. Só muito tempo depois, descobri que eu buscava algo que não existia, somente para ficar comigo. Foi deste tempo a aproximação terna com a solidão: buscando coisas que não existiam.

Hoje amanheci manco de teu sorriso, de tua voz, de teu corpo, da saliva. E pela primeira vez, senti que o tempo ocupava a minha casa de outra forma. Me veio o sentimento de estar encontrando coisas que nunca procurei.

Não sei qual intuição me empurrou em direção à porta, ainda sonolento da noite cheia de lembranças. Abri a porta sabendo quem estava do lado de fora, ansiosa e sem saber como seria recebida. Olhei para teu sorriso imenso e tímido, o vestido de chita que sempre me alegrou nas tardes de domingo, um vestido que tantas vezes tiramos juntos, para a nudez amorosa, os cabelos tingidos por brancuras do tempo. Estavas mais velha e tantas vezes mais bonita…

“Entre. A casa sempre foi sua”, eu disse, sorrindo.

*Conto a ser publicado no blog “oito nós”, aventura literária com oito escrevinhadores

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