Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Uma sombra de flor na parede

13 de outubro de 2005, às 10:58h por Samarone Lima

Recife, 13 de outubro de 2005.

Esqueci de dizer que teu gosto ficou em minha boca como uma sombra da flor na parede. E assim, meio calado, dentro deste mistério indecifrável que é a vida, sigo lentamente, compondo uma nova sombra a cada dia, feita de fragmentos, lembranças, memória dos momentos em que as almas refletiram a mesma luz. A memória, esse lugar onde sou o mendigo de mim mesmo, como diz o Adolfo Montejo.

Mas tive a intenção de dizer, e isso ficou impresso em minha alma, foi um cordão umbilical que criei, e o desejo me levou tão próximo de ti e de mim, que os corações pareceram, naquele momento, siameses.

E me veio um sentimento de que viver é tanger improvisos, deslocar memórias, guardar talvez a lembrança dos cabelos ou da voz de quem quer que seja. É considerar as pessoas pelos olhos, com suas calmarias e vulcões, suas tempestades e silêncios. Mais que isso, é aceitar que somos catadores de pedaços de beleza, para caminhar com alguma leveza, sabe-se lá que dia.

Quantos hoje sairão de casa com seus punhais nas bocas? Quantos farão do trajeto com o filho para a escola um fardo irreversível, não um passeio amoroso, deixando de mostrar os poemas que se aninham nas garatujas das velhas fachadas? Ah, me dirão, é que não és pai, mas eu direi que fui filho pequeno, e ficou na memória fatigada a punição por ter visto (e anunciado) um elefante azul numa árvore. Data desta época, a primeira poda na árvore da fantasia, mas a planta cresceu, por outros desvãos, e sinto que há poemas nas garatujas das velhas fachadas, há outros elefantes ainda mais coloridos do que o azul da minha infância.

Ah, eu sinto mesmo é que não sei de quase nada. Hoje, menos que ontem. Menos que um, como o título de um livro amado. Parece que estou me esvaziando de todos os conceitos, descolorindo uma tela que vinha sendo pintada com os mesmos tons, o mesmo pincel, no mesmo cavalete. Aos poucos, vou construindo uma tela silenciosa, à espera de sons e luzes, para reinventar as cores.

Vou deixando de procurar a obra acabada, o momento perfeito, “aquele” momento, onde os céus e a terra se entrelaçam, que alguns nomeiam felicidade. Aceito a fatalidade de cada dia, bem como a doçura de cada pupila, o calor de mãos que se entrelaçam como plantas que querem viver junto ao muro da vida. Talvez porque eu goste tanto de chimarrão, a cada manhã, o amargo da vida já não se entranhe tanto em meus ossos.

E lembro de minha mãe, que há muitos anos assinou a separação, depois de 23 anos casada, e saiu do Fórum sozinha, talvez se sentindo nua diante da vida, uma Macabéia solitária, com uma flor nos cabelos. Não chorou, não rangeu por dentro, como tábuas velhas e feridas. Foi às Lojas Americanas, olhar para as pessoas, porque tinha a sensação de que passara vinte anos sem olhar rostos alheios.

É talvez por isso que eu acredite tanto no mistério da vida: há pessoas que às vezes me dão a impressão de estarem paradas, no meio das Lojas Americanas, olhando os rostos alheios, talvez buscando o próprio rosto, um semblante, o seu lugar no mundo. E são tantas as macabéias a passar por nossas vidas…

Esqueci de dizer que teu gosto ficou em minha boca como uma sombra da flor na parede. E assim, meio calado, dentro deste mistério indecifrável que é a vida, sigo lentamente, compondo uma nova sombra a cada dia, feita de fragmentos, lembranças, memória dos momentos em que as almas refletiram a mesma luz.

A memória, esse lugar onde sou o mendigo de mim mesmo, como diz o Adolfo Montejo.

Para Paulinha, pois.

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