Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Pequenas histórias de amor - volume II (ou: o moço da bicicleta verde)

31 de outubro de 2005, às 8:37h por Samarone Lima

Ela era casada, mas sempre que ele passava, geralmente de bicicleta, ela sentia aquela fagulha, ou aquela “coceirinha no coração”, como me disse outro dia um grande amigo. Olhava o rapaz, seu jeito de pedalar meio manso, como se estivesse saboreando cada sopro daquele vento. Achava lindo ele e aquela bicicleta verde. Ele, por sua vez, tinha reparado nela, mas sabia que era casada, tinha um filho, então seguia pedalando, pedalando, por outros caminhos.

O tempo passou, ela separou. Um dia, foi a uma mercearia, próximo da sua casa, encontrou um amigo. Tomaram uma cerveja, mataram saudades, até que o rapaz chegou, em sua bicicleta verde. Ela teve um susto, perdeu o rumo da conversa. O amigo conhecia o rapaz e a apresentou. Ele morava ali próximo, ela nem desconfiava, mas era quase seu vizinho.

Mas foi tudo rápido. Ele comprou um saco de bolachas e saiu pedalando. Ela guardou, deste dia, seu sorriso de corpo inteiro. Descobriu também que adorava as bolachas que ele comprara.

O tempo passou. Há alguns dias, ela me contou que o encontrou. Saiu de casa para comprar uma melancia, numa tarde de sábado. Quando passou pela venda, ele estava tomando uma cerveja com um amigo e a convidou para sentar. Ela, assustada, deixou a melancia para depois.

Foi uma conversa boa, cheia de sorrisos e pequenos esboços de luz. O bêbado que passou, falando de futebol, o dominó à sombra de uma grande árvore, cães mansos cochilando em plena tarde. Quando ela estava para sair, ele a convidou sem muito pudor.

“Vamos tomar a saideira lá em casa?”.

Ela foi. Sempre quis ir.

Sabe-se que se amaram a tarde inteira. Já era noitinha, quando ela cheirou os cabelos dele. Não, não cheirou, ela respirou profundamente os cabelos dele.

“Eu sempre quis cheirar teus cabelos”, disse.

Foi assim, tudo bem simples, como quem compra uma melancia, numa tarde de sábado.

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