Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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A pequena história de Maria dos Desencontros

19 de outubro de 2005, às 11:16h por Samarone Lima

Ela me disse uma frase que pareceu uma pedrada:

“Hoje, na vida, já não faço tantos planos. É feio o que vou dizer, mas aprendi a viver meio como se estivesse em estado terminal de uma doença, sem muito apego ao futuro”.

Mas depois veio uma pequena frase, um resto de frase, uma sobra de luz que me deixou aliviado.

“O presente já me basta”.

Ah, e seu nome, como ela se apresentou: Maria dos Desencontros.

Não, não é seu nome. Seu nome é muito mais bonito, mas foi assim que ela me contou sua história, há poucos dias. Se considerava contemplada com os desencontros. Viver no tempo presente era sua única realidade.

Quando jovem, muito jovem, naquela meninice que se encanta com a vida enquanto o corpo se prepara para o contato com o mundo, ganhou um presente muito distante. Ele, o amigo, vivia em Angola. Se conheceram nesses programas de intercâmbio, e tudo parecia muito próximo. Ela escrevia com o coração, ele respondia como se fosse o eco, em outro continente. Um eco africano, resvalando em sua pele branca.

Foram dois anos de correspondências, trocas e expectativas, até que um dia ele resolveu visitá-la. Como era surpresa, não avisou. Ela tinha viajado dois dias antes para o outro lado do Brasil. Nunca se viram.

Depois, os desmandos do coração. Aos 15 anos, se apaixonou por um ator e recebeu um “Tchau, guaranau” assim, sem muitas delongas, quando tudo parecia florescer. Era uma menina, talvez fosse ainda muito frágil para aquela morte no peito. Para se machucar bem, foi assisti-lo muitas vezes. Em cena, se tornava maior, mais belo, intenso. Mas havia o grande desencontro entre o palco e a platéia. Para amar, ninguém pode ser apenas espectador, Maria.

Muitos anos depois, já mulher feita, o encontrou no Carnaval, em Olinda. Ah, Olinda, quantos encontros reservaste para tuas ladeiras… Ele se aproximou daquela mulher que não conseguira ver um dia. Agora, ele estava pleno de amor, queria inundá-la com tanta ternura e beleza, mas ela já tinha derramado o sentimento, espalhado suas quimeras pelas calçadas e jardins. Era tarde, pois também florescera. Maria dos Desencontros precisava seguir. Mas registrou o desencontro, mais um. Vira que não tinha mais um brilho nos olhos para presenteá-lo.

Um dia, encontrou um homem, também pleno de desencontros. Mas ele preferia usar outra metáfora para tudo o que vivera. Ao invés do “doente em estado terminal”, ele olhava tudo com uma frase:

“Aceito a fatalidade de cada hora”.

Se inspirara em um amigo artista, que vivia de forma mambembe, andando pelo Brasil encantando crianças e adultos com sua arte. Um vez por dia, o amigo se perguntava:

“E se eu morresse agora?”

Ele contou também suas histórias. Sua alma também era cheia de desencontros. Amara também, desencontrara do amor. Seu coração parecia cheio de ruas que já não mais existiam, casas apagadas, bairros nunca fundados. O pior momento, disse, foi quando buscou tanto o amor que desencontrou de si.

Quando viajou para muito longe, em busca de um velho amigo, ele também já não estava. Perdera-se na neblina do tempo. Contou de seus desencontros não apenas com as almas, mas com objetos e fatos. As muitas cartas postadas que nunca chegaram, a camisa de tricô que a avó deixara, mas que nunca recebera, uma bola da infância que chutara para o vazio da vida. Os desencontros com trens, as plataformas erradas, os dias desencontrados. Ah, e quantas vezes desencontrara da alegria…

E Maria dos Desencontros foi olhando tudo com mais doçura. Se fosse fazer o inventário das dores, perderia de longe para ele. No entanto, ele carregava uma ternura nos olhos, um sorriso de corpo inteiro, como se dissesse que a vida sempre ultrapassa todos os desencontros.

Estavam ali. Ela uma paciente em estado terminal, vendo tudo no tempo presente. Ele, aceitando a fatalidade da morte no próximo passo.

Mas havia algo em comum. Viviam o tempo presente como a grande flor.

Ela abriu um belo sorriso quando ele cantou, timidamente, uma canção de Tom Zé, resgatada de um velho disco empoeirado, no canto da casa vazia:

“Vestir toda minha dor
No seu traje mais azul
Restando aos meus olhos
O dilema de rir ou chorar”.

Maria dos Desencontros guardou isso. Restava aos seus olhos o dilema de rir ou chorar. E sentiu, então, uma espécie de gratidão por aquele encontro, apesar de nunca mais tê-lo visto.

Para Maria dos Desencontros, que me deixou contar sua história.

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Sobre pássaros e eternidades

17 de outubro de 2005, às 11:12h por Samarone Lima

Cada dia com sua lição, já diz o velho sábio chinês que não lembro o nome, mas nem é preciso – sábio chinês sempre cai bem com essas frases.

Domingo de manhã. Aquele solzão lá fora, tenho que ir à Enseada dos Corais, quase em Gaibu, para um encontro com a mãe, antes da viagem dela para Fortaleza. Cansado dos últimos dias de autor-de-livro, dono-de-bar e consultor-do-Unicef, me dou ao luxo de acertar uma viagem de táxi mesmo. Lamento informar, mas não mereço três ônibus num domingo de sol, depois da semana que tive. O motorista é Ricardo, filho de Seu Vital.

O apelido de Ricardo, entre nosotros, é “Limão”, porque é difícil ele chegar sorrindo. É bi-campeão do nosso “Troféu Limão”, um prêmio que oferecemos durante o amigo secreto do final de ano de nossa turma. Lá pelas tantas, faço uma pergunta simples, modesta, para começar a conversa:

“Ricardo, por que Seu Vital tem tanta raiva dos pardais?”

É que outro dia, escutei Seu Vital esculhambar a raça dos pardais, um pássaro que ele considera “um pássaro assassino”.

Então Ricardo começou a falar de um assunto que parece ser o predileto: passarinho. Segundo ele, o Pardal veio com a imigração, possivelmente nos navios, e desde a sua chegada ao Brasil, já eliminou pássaros como o Canário da Terra, Caboclinho, Chorão, entre outros. Se o pássaro for pequeno, ou do tamanho dele, pode ir cavando a cova. Além de matar a bicadas mesmo (sempre atuando em bando de 20 ou 30), o Pardal faz algo barra pesada: vai ao ninho e bica os ovos dos outros pássaros. Isso é que é uma ruindade, deus do céu…

“O cara tem que correr, senão morre”, informou Ricardo.

Fiquei sabendo que aqui no Poço da Panela, onde moro, tinha muito mais Canário. “Na Praça de Casa Forte, chega dava uma alegria”, lembrou Ricardo.

Minha aula sobre os pardais passou pela alimentação, moradia e reprodução. É um pássaro “de cor acinzentada, mariscada com uma parte branca em cima da asa”. O macho tem “uma faixa amarelada, puxando para o avermelhado na cabeça”. Come de tudo (pão , inseto, resto de comida etc), enquanto outros pássaros são mais delicados na alimentação. Faz ninho em qualquer lugar, até nas telhas. O Sabiá, coitado, só se acasala nas mangueiras, e nos mesmos lugares. “Digo isso porque já observei muito”, diz o professor. Então vai a minha sugestão para a mudança no verso famoso:

“Minha terra tem mangueiras/Onde canta o Sabiá”.

Além disso, o Pardal faz a cobertura em várias fêmeas ao mesmo tempo. “Eu já observei isso também”, informa. Não entendi. Então tem pássaro que só ama uma criatura a vida inteira, que é incapaz de ser infiel, mesmo nas alturas, entre um vôo e outro?

Ricardo confirmou. “Tem pássaro que vive 20, 30, 40 anos com o mesmo casal”.

Olhou para mim e confirmou, com um sorriso:

“A mesma mulher, a vida toda, e são fiéis um ao outro, a vida inteira”.

Caramba, a essa altura eu não resisti. Puxei meu bloquinho, porque sou muito esquecido, e a lição dos pássaros estava fabulosa. O amor de certos pássaros, a vida inteira, é mesmo de emocionar. Eu não sabia também que passarinho vive tanto. Segundo Ricardo, um louro raçudo como Dudu, por exemplo, pode chegar a 60 anos. Um passarinho pode chegar aos 80, com a vantagem de nunca precisar ir para as filas do INSS. Fiquei sabendo que Dudu, aqui de Vital, tem uns 7 anos, e que provavelmente veio do Crato, no Ceará, que é a mesma cidade onde nasci. Então está tudo explicado.

Mas voltemos aos pardais, porque eu já estou puto com este pássaro febrento, capaz de sair matando os outros assim, sem mais nem menos. Ricardo disse que o bicho é resistente, predador e rebela-se contra a invenção das gaiolas. Uma vez, ele prendeu um Pardal por engano. À noite, quando foi olhar a gaiola, o bicho estava morto. Se debatera com fúria até o óbito.

“Se não fosse ele, teríamos muitos pássaros de canto exótico”, lembrou Ricardo.

Fiquei sabendo que o Rouxinol resistiu porque é guerreiro, apesar de ser pequeno, e fiquei profundamente feliz em saber que tem pássaro que canta como uma patativa, mas resiste ao predador. O Sabiá (branco) e o Sabiá Conga (do peito vermelho) sobreviveram, bem como o Bem-Te-Vi e o “Lavadeira”, que é branco e preto e parece “a vestuária de Jesus Cristo” (essa parte eu não entendi, mas tudo bem).

No Poço da Panela, ainda temos o canto do Bico-de-Lata. “Ele é pequeno, com o bico curto e amarelado, tem um carto bem curto, mas é gostoso de escutar”, informa Ricardo. “É acinzentado, meio prateado, do tamanho de um Curió”.

Informo que um Curió mede três polegadas, e pode dar oito repetições no canto. A repetição, explica Ricardo, são oito cantos iguais, e eu devia ter evitado esta pergunta, porque repetição é repetição, ora bolas. Fico sabendo que tem Curió que chega a valer R$ 100 mil, e que Rivelino, o craque da Seleção de 70, é o maior criador de curiós do Brasil. “Ele já saiu até no Globo Rural”.

Descubro que o passarinho que está na gaiola em Vital é um Curió, e que outro dia ele rejeitou R$ 500,00 naquele animalzinho de três polegadas. Já ofereceram R$ 500,00 por Dudu, mas pela graça divina, a proposta indecente foi recusada.

“Ele faz parte do cenário e é membro da família”, explica Ricardo. Concordo imediatamente, e já nem sei por que chamam Ricardo de “Limão”, se o sujeito gosta tanto de passarinho. Fiquei sabendo que Vital chorou muito, quando morreu um Sabiá que era muito querido. “Era um membro da família. A gente abria a porta, ela olhava, mas não saía”, lembra Ricardo.

Então vem a parte mais do caralho. Ricardo começou a explicar que o amor aos pássaros tem uma relação com o povo.

“Isso tem a ver com a cultura de um povo. Para acabar com ela, tem que acabar com a pessoa e o filho dele, que também tem a cultura dele. Isso vem de muito tempo. Só se matasse toda a população”.

Ao final da viagem, ele me saiu com esta reflexão:

“Você nunca é o dono do animal. Ele é que é seu dono”.

A conversa foi longa como a viagem, mas foi a mais rápida das muitas que fiz com Ricardo. Ele me informou que muita gente que cria passarinho em gaiola está ajudando a salvar a espécie. Ele mesmo conhece um senhor que cria Curió, e “tira” em casa (consegue que o animal se reproduza em cativeiro).

“Essas pessoas não são biólogos nem veterinários, mas têm o conhecimento. A gente tem o tempo de vida e o conhecimento. É a vivência dos dias e dos anos, às vezes uma eternidade”.

Às vezes uma eternidade, Ricardo, assim é demais.

Só me resta encerrar com o Adolfo Montejo Navas:

“O tempo é mais rápido do que as coisas, porém mais lento do que a vida”.

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Enquanto vem a próxima crônica…

16 de outubro de 2005, às 10:06h por Samarone Lima

Enquanto vem a próxima crônica, vai uma besteirinha linda, para quem lê um blog dia de domingo…

“E amar é “tornar-se digno”, alegre, é iluminar e também acalmar, conduzir nuances, é se encantar e distribuir esperança, é silenciar quando o pensamento se esquiva e a dor contamina, é ser útil, é estimular uma criatividade coletiva, compreender e realizar proporções, sair da raiva correndo e do ressentimento que lhe abre caminho, ligar metamorfoses, cultivar os jardins, derramar os mares nos oceanos infinitos, pendurar estrelas no céu”.

Beatriz Araujo Lima Coelho, no excelente “Cadernos do Silêncio – pequeno itinerário de sobrevivência de uma intelectual em tempo de crise”.
Ed. Relume Dumará, 2005

A todos os que foram ao delicioso lançamento de Estuário, meu muito obrigado e um grande beijo. Foi uma noite realmente muito aconchegante para a alma.

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Estuário, parte II, agora em versão boteco

14 de outubro de 2005, às 15:17h por Samarone Lima

Amadíssimos leitores e leitoras,

A editora informou que um novo lote de Estuário estará pronto amanhã, às 14h17. Então, com meus amigos músicos, resolvi fazer uma pequena farra no Garraffus Boteco, a partir das 19h03.
Chiló sanfoneiro confirmou presença, Jr Black ainda não deu resposta, Sibigu vai fazer uma seleção musical, SanB está vendo espaço na agenda, Mula Manca e Triste Figura parece estar em tournée, Tom Zé disse que vai só dar uma canja, A Parafusa não atendeu o telefonema, Delta Jam Blues parece que vai aparecer.

Se não aparecer nenhum músico, não esquentemos: trata-se de um livro, não do Grammy. Nos encontraremos por lá, quem sabe…

Garraffus Boteco
rua Conselheiro Nabuco, 21
Casa Amarela
(indo pela estrada do encanamento, entre no segundo sinal à direita, e depois na segunda rua à direita. O bar fica no fim da rua).
F: 3269.6769

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Uma sombra de flor na parede

13 de outubro de 2005, às 10:58h por Samarone Lima

Recife, 13 de outubro de 2005.

Esqueci de dizer que teu gosto ficou em minha boca como uma sombra da flor na parede. E assim, meio calado, dentro deste mistério indecifrável que é a vida, sigo lentamente, compondo uma nova sombra a cada dia, feita de fragmentos, lembranças, memória dos momentos em que as almas refletiram a mesma luz. A memória, esse lugar onde sou o mendigo de mim mesmo, como diz o Adolfo Montejo.

Mas tive a intenção de dizer, e isso ficou impresso em minha alma, foi um cordão umbilical que criei, e o desejo me levou tão próximo de ti e de mim, que os corações pareceram, naquele momento, siameses.

E me veio um sentimento de que viver é tanger improvisos, deslocar memórias, guardar talvez a lembrança dos cabelos ou da voz de quem quer que seja. É considerar as pessoas pelos olhos, com suas calmarias e vulcões, suas tempestades e silêncios. Mais que isso, é aceitar que somos catadores de pedaços de beleza, para caminhar com alguma leveza, sabe-se lá que dia.

Quantos hoje sairão de casa com seus punhais nas bocas? Quantos farão do trajeto com o filho para a escola um fardo irreversível, não um passeio amoroso, deixando de mostrar os poemas que se aninham nas garatujas das velhas fachadas? Ah, me dirão, é que não és pai, mas eu direi que fui filho pequeno, e ficou na memória fatigada a punição por ter visto (e anunciado) um elefante azul numa árvore. Data desta época, a primeira poda na árvore da fantasia, mas a planta cresceu, por outros desvãos, e sinto que há poemas nas garatujas das velhas fachadas, há outros elefantes ainda mais coloridos do que o azul da minha infância.

Ah, eu sinto mesmo é que não sei de quase nada. Hoje, menos que ontem. Menos que um, como o título de um livro amado. Parece que estou me esvaziando de todos os conceitos, descolorindo uma tela que vinha sendo pintada com os mesmos tons, o mesmo pincel, no mesmo cavalete. Aos poucos, vou construindo uma tela silenciosa, à espera de sons e luzes, para reinventar as cores.

Vou deixando de procurar a obra acabada, o momento perfeito, “aquele” momento, onde os céus e a terra se entrelaçam, que alguns nomeiam felicidade. Aceito a fatalidade de cada dia, bem como a doçura de cada pupila, o calor de mãos que se entrelaçam como plantas que querem viver junto ao muro da vida. Talvez porque eu goste tanto de chimarrão, a cada manhã, o amargo da vida já não se entranhe tanto em meus ossos.

E lembro de minha mãe, que há muitos anos assinou a separação, depois de 23 anos casada, e saiu do Fórum sozinha, talvez se sentindo nua diante da vida, uma Macabéia solitária, com uma flor nos cabelos. Não chorou, não rangeu por dentro, como tábuas velhas e feridas. Foi às Lojas Americanas, olhar para as pessoas, porque tinha a sensação de que passara vinte anos sem olhar rostos alheios.

É talvez por isso que eu acredite tanto no mistério da vida: há pessoas que às vezes me dão a impressão de estarem paradas, no meio das Lojas Americanas, olhando os rostos alheios, talvez buscando o próprio rosto, um semblante, o seu lugar no mundo. E são tantas as macabéias a passar por nossas vidas…

Esqueci de dizer que teu gosto ficou em minha boca como uma sombra da flor na parede. E assim, meio calado, dentro deste mistério indecifrável que é a vida, sigo lentamente, compondo uma nova sombra a cada dia, feita de fragmentos, lembranças, memória dos momentos em que as almas refletiram a mesma luz.

A memória, esse lugar onde sou o mendigo de mim mesmo, como diz o Adolfo Montejo.

Para Paulinha, pois.

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