Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Coisas que um sujeito faz para sobreviver…

29 de novembro de 2005, às 15:21h por Samarone Lima

Uma leitora pegou o livro “Estuário” e viu na orelha que eu já tinha trabalhado como autor de relatos eróticos para uma revista em São Paulo. Quis saber se foi verdade, e eu já confirmei. Sim, amiga, um sujeito faz muitas coisas nessa vida para sobreviver, e meu amigo Gustavo acompanhou essa história de perto. Ele riu muito com a aventura literária-sexual. Então vamos a ela.

Era o começo de 2000, e tinha acabado minha última fonte de renda, uma bolsa da Fundação Ford. Tinha viajado um bocado, ficara longos períodos no Chile, pesquisando para escrever Clamor, meu trabalho de mestrado, acabei participando de um congresso nos Estados Unidos, de formas que voltei para casa, depois de muitas viagens, liso como um gambá. Não sei se gambá é liso, mas a frase fica boa assim.

Tinha que terminar o trabalho de mestrado, não queria voltar a trabalhar em redação de jornal ou revista, meu amigo Gustavo garantiu o aluguel e o “de comer”, mas não daria para terminar o mestrado sem um tostão no bolso. Foi então que me ocorreu perguntar ao meu amigo Guilherme Salgado, botafoguense ilustre, se ele não conseguia um quebra-galho na editora que em ele fazia bicos. A editora só trabalhava com revista pornográfica. Pornográfica não, era putaria mesmo, com o pê maiúsculo.

No dia seguinte, Guilherme me telefonou.

“Tu topa escrever relatos eróticos?”

“Nunca escrevi isso”, respondi.

“Aprende”.

Fui à tal editora, um casarão encravado num bairro nobre. O dono da empresa me recebeu numa sala luxuosa, perguntou se eu trabalhava no ramo, respondi que não, mas que podia aprender a trabalhar no ramo, desde que não precisasse participar das histórias. Ele me resumiu o problema todo. A revista publicava as cartas dos leitores com relatos de suas sacanagens, mas era difícil chegar um texto razoavelmente bem escrito, pronto para publicação.

“Tem cara que não diz nem como conheceu a mulher, e já está tirando a roupa dela”.

Me deu umas dez revistas e uma tuia de carta, umas 30, acho. “Vê aí as expressões que a turma usa”. Eu ganharia R$ 30,00 por relato. O trabalho era ler as cartas e transformar tudo em coisa legível. “O que não der para aproveitar, inventa uma boa história”, pediu ele. Antes de sair da sala, a advertência.

“Olhe, tinha uma mulher que fazia esse trabalho e era muito competente, mas teve que sair. Depois, contratamos um escritor, mas não deu certo, porque ele queria fazer literatura”.

Me olhou bem sério e completou:

“Não queremos literatura. O negócio é sacanagem”.

Caramba, voltei para casa lendo as histórias. Eu nunca fui nenhum coroinha, mas era cada relato mais exagerado que o outro. Falei para meu amigo Gustavo a história, ele bolou de rir.

Naquela liseira toda, não me restou outra alternativa. Sentei, li todas as cartas dos leitores, li as revistas, fiz um glossário pra lá de imoral e mandei brasa. Varei a noite contando histórias de neguinho que comia gente em tudo que era lugar do Brasil, as cartas inclusive dariam um ótimo estudo sobre o imaginário sexual do brasileiro.

No dia seguinte, estava com dez histórias prontas. Eu só pensava era nos 300 contos que poderia ganhar, para sair da pindaíba. Gustavo olhou algumas. Só fazia rir da cena toda, o velho Jacaré. O dono da editora mandou um motoboy buscar o disquete. Fiquei aguardando, nervosíssimo. Será que eu tinha exagerado? Será que não escrevi coisas muito cruas? Lá pelas tantas, tocou meu bip (sim, esse objeto de comunicação já existiu), com a mensagem:

“Ligar para a editora”.

Liguei. O editor estava eufórico.

“Rapaz, do caralho. Muito bom, muito bom mesmo. Tem certeza que nunca trabalhou no ramo?”
“Não”, respondi. “Eu só estou é muito liso e fiz o que tu pediu”.

Depositou o dinheiro no mesmo dia e mandou mais uns 50 relatos. Paguei a conta de Nabuel, o bar defronte, e acho que fiz alguma farra com Gustavo.

Durante alguns meses, a minha reta final em São Paulo, esse foi o ganha-pão. De manhã cuidava da dissertação de mestrado. À tarde, lia as histórias de sacanagem de um Brasil meio desdentado mas cheio de tesão, e transformava tudo em histórias com início, meio e fim. A revista se chamava “Brazil”, com “z” mesmo, e vendia como água. Outro dia vi numa banca do Recife. Teve tudo o que o ser humano possa imaginar no aspecto da sexualidade. É cada lapa de doidice, que eu vou dizer.

Com o dinheiro, consegui sobreviver, comprei a passagem de volta para o Recife, e sobrevivi bem, até chegar o primeiro salário da Universidade Católica. O editor queria que eu continuasse, mas pendurei as chuteiras.

Acho que escrevi uns 100 relatos. Estão todas arquivadas no meu computador. São totalmente impublicáveis. Se lessem, os leitores deste blog não me chamariam nem de safado, mas de tarado. São essas coisas que a gente faz na vida para sobreviver.

Tem a história do dia em que assinei TV a cabo, mas não tinha TV em casa (para instalar o cabo, lógico) e de como ganhei o visto para ir aos Estados Unidos mesmo estando desempregado, com o nome no Serasa, mais liso que o porteiro consulado dos Estados Unidos. Qualquer dia escrevo. São histórias divertidas, para a gente relaxar um pouco.

(Para o Guilherme Salgado, o maior botafoguense que pode existir no globo terrestre).

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Um taxista e suas teorias

25 de novembro de 2005, às 6:24h por Samarone Lima

Não sei o que aconteceu esta semana, deve ser o efeito estufa botando pra gerar, porque senti o maior calor da história do Recife. Eu almoçava com o Inácio na Casa do Estudante (R$ 3,50 por cabeça e bem gostosinho), saía andando pelo Derby até a parada de ônibus, isso lá pelas 13h33, e o sol vinha rachando tudo. Cada passo, um grau célsio a mais no organismo. Na parada de ônibus, do lado do sol, todo mundo era suor puro, dava um desamparo tão grande, uma fraqueza no sentimento, que surgia até uma vontade de chorar. Descia na 17 de Agosto, e para vir caminhando até o Poço, era tudo um deserto quente, árido, eterno e infinito. Quando chegava em casa e ligava o ventilador, o paraíso tinha um nome: Britânia, ligado no três.

Pois bem. Na quarta-feira, olhei para os dois lados e pensei. Vou deixar de pirangagem. Mesmo liso, decidi que voltaria de táxi para casa. Chega de sofrimento! Arre! Dois livros publicados, um mestrado, campeão estadual pelo Santa Cruz, e sofrendo mais que retirante! Decretei a independência. Estendi gloriosamente a mão para o táxi. O carro parou. Não me arrependi, porque gastei R$ 11,20 e cheguei em casa menos cansado, menos suado, menos tudo.

Mas, como ninguém é de ferro, descolei uma historinha para compartilhar com meus leitores.

Eu, quando ando de táxi, vou logo puxando assunto com o motorista, porque acho um saco aquele negócio de cada um na sua. Eu gosto muito de conversar com os amigos, mas conversar com desconhecido, isso é que é bom mesmo, porque tudo é surpresa e a gente nunca sabe o que está por vir, cada ser humano é um grande mistério mesmo. Um dia, eu quase desci do táxi porque puxei assunto três vezes, e o camarada era monossilábico. Um chato, aquele cabra. Não desci por pura preguiça. Em sinal de protesto, vim cochilando o restante da viagem.

Mas na quarta-feira, o taxista que me trouxe era também um exagero. Fiz uma simples pergunta, um comentário sobre o calor, sobre o jogo do Santa Cruz no sábado, e o camarada soltou o verbo. Veio falando do Derby ao Poço da Panela. Conversou R$ 11,20, na bandeira 1. Teve um momento que não resisti. Peguei o bloquinho e anotei: “Um taxista e suas teorias”.

Primeiro, ele serviu ao Exército durante um ano, e só aprendeu duas coisas: matar gente e recolher corpo. “Ah, a gente faz amizade também”, completou. Ainda bem. Fui informado que qualquer país, até o Paraguai, pode invadir o Brasil, porque nossas armas são obsoletas e ninguém sabe nada de guerra.

“É só isso o que a gente aprende no quartel: matar gente e recolher o corpo. Não tem nada de cultura”.

Por sua vasta experiência em quartéis, ele defende a tese que os oficiais, ao invés de ficarem jogando dominó, porrinha, totó, baralho, deveriam assumir as crianças de rua do Recife (que, segundo ele, “não passam de 300”). Cada oficial seria um tutor.

“Está na rua? Então pega. Se está na rua é da nação”.

Nunca mais eu tinha escutado esta palavra, nação.

Ele disse que em várias outras cidades, não tem essa tuia de menino de rua nos sinais.

“Só no Recife tem essa fuleiragem”, completou. Caramba, outra palavra que eu não escutava há muitos anos. Fuleiragem. Acabei de olhar no Aurélio, tem sim.

A idéia do taxista é simples. Como tem gente ganhando um bom salário, sem ter guerra com nehum país (ele não citou nossa guerra civil interna), se não há estratégia nenhuma, se os norte-americanos ainda não cismaram de invadir a Amazônia, o Exército deveria cuidar das crianças de rua do Recife. Ele disse que são 300, e conhece todas. Eu não concordei nem discordei, eu só queria saber onde ele iria chegar.

Ele foi chegando. Disse que os galpões lá do Recife Antigo deveriam ser arrumados (não sei quem faria isso, se a Prefeitura ou o Governo do Estado), para abrigar os mendigos. Detalhe: a partir das 22h, todo mundo já recolhido, banhado e cheiroso, para dormir.

“A cidade ia ficar mais limpa”, assinalou. É cada lapa de doido nessa cidade, pensei.

Ele acha que é preciso mais ordem. Parece que foi assim que o Hitler começou, com esse negócio de limpeza, ordem.

“É um alisado da porra com esse pessoal”, justificou meu colega de trânsito. Pelo que ele vinha falando, o “pessoal” eram os meninos de rua e os mendigos.

Depois ele passou para a questão sexual, com a lapidar frase:

“Eu nunca escutei falar que existe um ex-gay”.

Rapaz, tudo bem que eu gosto de conversar com taxista, mas o camarada também não me deixava respirar. Tinha começado com o Exército desocupado, passou para os mendigos e agora entrava nos temas sexuais. Ele começou com a temática gay, mas não desenvolveu. Saiu falando de suas peripécias com as mulheres, e parece que eram muitas. É casado, tem dois filhos, mas não acredita nesse negócio de camisinha.

“Isso de camisinha não existe, tá ligado? Até hoje, tenho 43 anos, nunca usei camisinha. Facilitou, eu atolo o pé”.

O sujeito falava mais que o homem da cobra. Eu, por minha vez, não tinha tempo nem de dizer um ran ran. Esqueci até de olhar para o taxímetro, para ver o tamanho da bronca. Lá perto do Hiper de Casa Forte, ele parou ao lado de uma praça, que estava com uns cinco vendedores de CD pirateados. Ele olhou e me cutucou:

“Tás vendo? Os caras estão vendendo CD pirateados, tudo bem, eles precisam sobreviver. Agora me diga: eles precisam ocupar a calçada toda?”.

Caralho, que cara arengueiro!

Ele saiu falando que o País não investe em educação, que as escolas do Estado são todas umas tapeações, que não existe preocupação com o “futuro da Nação”, e neste momento, lembrei do Legião Urbana. Já perto da minha casa, ele arrematou:

“Não querem nada de cultura para o povo. Querem a população cada vez mais analfabeta e burra”.

Pela primeira vez, concordei. Desci, paguei meus R$ 11,20 mas esqueci de anotar a placa do carro, para jogar na milhar.

Faz mal não, ganhei uma pequena crônica, nesses dias de tanto calor. Liguei o ventilador no três e dei vivas à Britânia.

ps. o editor deste blog só poderá escrever algo decente amanhã. É que o seu clube, o Santa Cruz, classificou-se ontem para a Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro. É cachaça até umas horas…

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"Se é para fingir que vivemos em uma democracia, vamos fingir direito"

23 de novembro de 2005, às 15:44h por Samarone Lima

Está na capa dos jornais de hoje, no Recife, a foto do comandante do Batalhão de Choque da Polícia Militar, o famoso Coronel Luiz Meira, dando uma gravata em um estudante, que leva a bandeira azul da União Nacional dos Estudantes (UNE). Quantas coisas são ditas, em apenas uma imagem: um jovem dominado pela garganta (de onde sai a voz, a indignação e a revolta), e a expressão transtornada de um coronel (com a boca torta, que range de raiva). Ah, mas quanto ódio desperta na PM de Pernambuco o movimento dos estudantes, dos moços, os Sem-Terra, os Sem-Teto, os Sem-Nada, que só estão esperneando minimamente, no legítimo direito de lutar, de protestar, de tomar as ruas…

É preciso ser meio de pedra, para não sentir raiva dessa polícia daqui, conhecida pela truculência com que enfrenta os movimentos sociais (é só na base da porrada, gás lacrimogênio e spray de pimenta), e famosa pela incompetência em lidar com a criminalidade (que lhe dá um banho de competência, todos os dias, e nós pagamos o pato).

Nessas manifestações, teve vidro de ônibus quebrado, teve exagero sim, mas nem de perto lembrou aquela revolta na França, onde a moçada botou pra quebrar, e incendiou uns 6 mil veículos. Não havia, nas ruas do Recife, um movimento articulado de vandalismo, é sempre aquele negócio de gente que se exalta, enfim. Aqueles carros incendiados na França me dizem muito do que está sendo gestado nos subúrbios das grandes cidades do primeiro mundo, e do que pode estar vindo aí, da periferia do terceiro ou quarto mundo, que é a periferia do Recife.

A impressão que tive, na segunda-feira, quando passei pela avenida Agamenom Magalhães, foi a de que um Batalhão do Ódio partia para cima dos rapazes e moças. Eu nem olhei muito, para não adoecer a alma. São as mesmas cenas que vejo nos estádios, nos acampamentos dos Sem Terra. Os caras batem, e batem bem, com raiva, em todo mundo. Sugiro inclusive a mudança do nome: de Batalhão de Choque para Batalhão de Ódio. Teve de tudo. Prisões arbitrárias, espancamentos, recolhimento de jovens em um quartel (com identificação no próprio quartel).

“A ordem era: teve baderna, a gente mete porrada, se não teve, a gente mete porrada para prevenir”, disse um PM ao jornal Diário de Pernambuco de hoje.

Precisa dizer alguma coisa, depois de um depoimento desse?

O relato da Ana Paula, estudante de Jornalismo (www.aostraeovento.blogspot.com), vale por muitas matérias publicadas nos últimos dias, que tratam os estudantes somente como “baderneiros” e “vândalos”, como se ali não estivessem ali os que sofrem calados ou resignados, fora os que não têm coragem de jogar uma pedra, quebrar um vidro, queimar um carro.

Encerro com uma frase da Ana Paula, quando ela pede que coisas desse tipo não continuem a acontecer.

“Se é para fingir que estamos em uma democracia, vamos fingir direito”.

E de pensar que o governador, Jarbas Vasconcelos, foi, longo tempo atrás, defensor das liberdades democráticas…

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"O desconhecido é nosso bem" – parte final da entrevista com o poeta Rainer Maria Rilke

21 de novembro de 2005, às 16:24h por Samarone Lima

Somente ao entardecer desta segunda-feira (e me parece que o entardecer é um ótimo horário para encontrar poetas), reencontrei o meu querido Rainer Maria Rilke, no mesmo lugar da conversa anterior – ali num box do mercado de Casa Amarela.

Ele me pareceu ainda mais cansado do que no dia anterior. Seu semblante me passou uma impressão contraditória. Por mais que visse tristeza em seus olhos, exalava de sua alma uma certeza de que a vida estava em sua forma mais inteira, como se ele soubesse arrancar pontos de luz em sua escuridão mais profunda. Seu rosto transmitia uma bondade generosa, uma tranqüilidade que fazia da pressa, qualquer pressa, quase um desregramento dos sentidos.

Estava em silêncio, quando cheguei e o saudei. Usava um terno simples, puido, com aquele elegância sóbria que se reflete em seus poemas. Ele abriu um sorriso tímido, ofereceu-me a cadeira e fechou seu caderno, em sinal de respeito. Eu, por outro lado, abri meu caderno, também em sinal de respeito. Não poderia conversar com ele, talvez pela última vez, sem tomar notas para compartilhar com os meus leitores. Foi assim nossa última conversa.

Eu: Perdão pela intromissão, mas há algo de triste em teu semblante…
Rilke: Verias também a tristeza como algo negativo para a alma?

Eu: Não. Trata-se apenas de um comentário.
Rilke: Quase todas as nossas tristezas são, acredito, estados de tensão que experimentamos como que tolhidos, assustados por já não nos sentirmos viver. Pelejamos como se lutássemos com uma corrente de que tivéssemos de suportar as ondas. A tristeza também é uma onda. O desconhecido uniu-se a nós, penetrou no âmago do nosso coração, e já nem sequer está no nosso sangue, pois se mesclou com o nosso sangue e assim ignoramos o que se passou.

Eu: E como enfrentá-la?
Rilke: Quanto mais silenciosos, pacientes e recolhidos formos nas nossas melancolias, de forma mais eficaz o desconhecido penetrará em nós. O desconhecido é o nosso bem. Metamorfoseia-se na carne do nosso destino, ligando-nos a este quando foge de nós para se realizar, isto é, para se projetar no cosmo. E é preciso que assim seja. É preciso – e é nisto que consiste a nossa evolução – que jamais encontraremos nada que não nos pertença há muito tempo.

(Ele abriu o caderno, buscou entres as folhas algum poema e começou a recitar, de forma muito mansa, quase num sussurro)

“As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.

E a terra, só, na noite de cobalto,
Cai de entres os astros na amplidão vazia.
Caímos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.

E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
Todas as coisas que vão caindo”.

Eu: E para quem quer escrever, como eu, quem peleja com a escrita, o que o senhor sugere?
Rilke: Uso uma velha expressão que cunhei há muitos anos – “Levar a termo e dar à luz” – eis tudo. É necessário deixar cada impressão, cada germe de sentimento, amadurecer em si, na treva, no inexprimível, no inconsciente – essas regiões herméticas ao entendimento. Espere com humildade e paciência a alvorada de uma nova luz.

Eu: O tempo, neste caso, se conta de outra forma…
Rilke: O tempo, neste caso, não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir. O verão há de vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade.

Ele me olhou com atenção e falou quase como quem recita um mantra:

Aprendo todos os dias, à custa de sofrimentos que abençôo: a paciência é tudo.

Eu: Que conselhos terias a mais para quem segue pela vida, em busca de encontros mais profundos com a humanidade?
Rilke: Alegre-se da sua marcha em frente: ninguém poderá acompanhá-lo. Seja bom para os que ficarem atrás, senhor de si e tranqüilo perante eles. Não os atormente com suas dúvidas; não os assuste com a sua crença, com o seu entusiasmo, porque não poderiam entende-lo. Procure comungar com eles na simplicidade e na fidelidade: esta comunhão que não tem necessariamente de passar pelas mesmas metamorfoses por que passa a sua alma. Seja tolerante para aqueles a quem a idade faz temer essa solidão a que se abandona. Evite alimentar o drama sempre pendente entre pais e filhos, esse drama que exaure a força dos filhos e cansa o amor dos velhos, que não precisa de compreender para agir e para esquecer. Não lhes peça conselho. Renuncie a que o compreendam. Acredite somente nesse amor que lhe pertence como um bem de raiz. Tenha a convicção de que há nesse amor uma força, uma bênção que podem segui-lo tão longe quanto seus passos o levarem.

(Eu já não tinha mais condição alguma de comentar nada, diante daquela jorro de palavras e belezas, ditas de uma forma tão calma, quase como se estivessem tatuadas em sua alma. Ele me olhou, já como que se despede, e completou):

Quanto ao resto, tenha confiança na vida. Creia, a vida tem sempre razão.

Depois, segui-se um longo silêncio. A tardinha começava a migrar para a noite, em Casa Amarela. Ele bebeu o que restava do seu conhaque, pegou no meu braço direito e disse, como uma profecia:

“Seja alegre e tenha fé”.

E então partiu, com seu passo silencioso, e o vento da tarde assanhou levemente seus cabelos e espalhou folhas na calçada. Então percebi, ali, que nunca mais encontraria o senhor Rainer Maria Rilke em Casa Amarela. Então peguei o pequeno livro dele, “Cartas a um Jovem Poeta”, e comecei a ler novamente, e me pareceu que tudo o que ele tinha dito, estava no livro. Então fiquei na dúvida se tivemos ou não este encontro, se foi apenas um sonho imenso e muito real, se tudo não passou da minha imaginação.

Voltei para casa sem querer definir isso claramente, e a frase ficou reverberando aqui comigo:

“O desconhecido é nosso bem”.

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Entrevista com o poeta Rainer Maria Rilke – Parte I

19 de novembro de 2005, às 13:11h por Samarone Lima

Encontrei ontem, ao final da tarde, com o poeta alemão Riner Maria Rilke. Ele estava sentadinho, numa mesa do mercado de Casa Amarela, com aquele seu bigode bem assentado num rosto que me pareceu suave, apesar de marcado por golpes da vida. As sobrancelhas eram mansas e seu olhar exalava uma perplexidade feliz, diante daquele movimento intenso no mercado.

Ele bebericava um conhaque, e não tive a ousadia de interroga-lo sobre a marca, porque cada um com seu cada qual. Como ficamos bem próximos, vi que ele anotava pequenas coisas em um caderno grosso, sempre pontuando as anotações por silenciosas e demoradas pausas. Eu também comecei a tomar notas esparsas, para completar o primeiro volume da minha coleção “Divagações e inutilidades”.

Lá pelas tantas, nos falamos sobre algo que não lembro, talvez um comentário sobre o calor, essas coisas que iniciam conversas. Ele perguntou se eu escrevia poemas, respondi que sim, mas para guarda-las em minhas gavetas, porque a poesia não poderia ser ferida pela indelicadeza da escrita ruim. Ele abriu um sorriso e me chamou para sua mesa. Depois de muitos conhaques, já com a tarde trespassando para a noite, perguntei se podia fazer uma entrevista para um blog na Internet. O Rilke me abriu um sorriso e disse que não tinha muito a dizer. Mesmo assim, me respondeu às seguintes perguntas:

Eu: O Senhor diz, em seus escritos, que a gente deve preferir o difícil. Nos dias de hoje, é um contra-senso, porque as pessoas querem cada vez mais o amor fácil, não querem enfrentar a dificuldade de construir coisas coletivas, enfim. Continuas a pensar assim, depois de tantos anos?

Rilke: Primeiro, faça-me o favor de não me chamar de senhor. Somos iguais, nesta grande aventura da humanidade. Respondendo à tua pergunta, diria que os homens possuem, para todas as coisas, soluções fáceis e convencionais, as mais fáceis das soluções fáceis. Entretanto, é evidente que sempre se deve preferir o difícil: tudo o que vive lá cabe. Cada ser se desenvolve e se defende à sua maneira e tira de si próprio, a todo o custo e contra todos os empecilhos, essa forma única que é a sua. Conhecemos muito poucas coisas, mas a certeza de que devemos sempre preferir o difícil nunca deve nos abandonar. É bom estar só, porque a solidão é difícil. Se uma coisa é difícil, motivo mais forte para a desejar.

Eu: Você fala sobre isso, naquele seu famoso livro, “Cartas a um jovem poeta”, e fala muito sobre as dificuldades da vida, com uma certa tranqüilidade, quase como se tivesse uma certeza antiga de que é este o caminho…
Rilke: Se construirmos a nossa existência sobre o lema de que devemos sempre dar preferência ao mais difícil, tudo o que ainda hoje nos parece singular se tornará familiar e fiel. Como olvidar esses mitos antigos que se encontram no início da história de todos os povos, os mitos dos dragões que, no momento supremo, se transformam em princesas?

(neste momento, Rilke olhou para mim com uma expressão muito serena, e completou)

Todos os dragões da nossa existência são talvez princesas que esperam ver-nos, um dia, belos e audazes. Todas as coisas assustadoras não são mais, talvez, do que coisas indefesas que esperam que as socorramos.

Eu: E no amor, a gente deve ir pelo mais difícil?
Rilke: Amar também é bom, porque o amor é difícil. O amor de um ser humano por outro é talvez a experiência mais difícil para cada um de nós, o mais superior testemunho de nós próprios, a obra absoluta em face da qual todas as outras são apenas ensaios. É por isso que os seres bastante novos, novos em tudo, não sabem amar e precisam aprender.

Eu: É preciso aprender a amar?
Rilke: Sim. O amor é a oportunidade única de sazonar, de adquirir forma, de nos tornarmos um universo para o ser amado. É uma alta exigência, uma cupidez sem limites, que faz daquele que ama um eleito solicitado pelo mais largo dos horizontes. Quando o amor aparece, os novos apenas deveriam enxergar nele o dever de trabalhar em si próprios. A faculdade de nos perdermos noutro ser, de nos entregarmos a outro ser, todas as formas de união, ainda não são para eles.

Primeiro, é preciso ajuntar muito tempo, acumular um tesouro. Quantos jovens existem que não sabem amar, que se limitam a entregar-se, como sucede habitualmente (e decerto a maioria limitar-se-á sempre a isto), e inclinam-se depois sob o peso do seu erro!

Eu: Amar é algo que vamos mesmo aprendendo durante a vida?
Rilke: Denomino o amor de “uma dura aprendizagem”. Em vez de nos dispersamos em brinquedos fáceis e levianos que permitem que os homens se furtem à seriedade da vida, talvez um progresso sutil, um certo alívio, possa então resultar para aqueles que nos acompanharem, muito tempo ainda depois do nosso trespasse. Isso já seria bastante.

Eu: E qual sua expectativa sobre o futuro do amor?
Rilke: O amor deixará de ser o comércio de um homem e de uma mulher para ser o de duas humanidades. Mais próximo do humano, será infinitamente amável e cheio de atenções, bom e claro em tudo o que realizar ou desfizer. Este será o amor que, combatendo duramente, agora preparamos: duas solidões que se protegem, se completam, se limitam e inclinam uma para a outra.

Os sexos estão talvez mais próximos do que se pensa e talvez seja a chave da grande renovação do universo: o homem e a mulher, libertos de todos os seus erros, de todas as suas dificuldades, não tornarão a procurar-se como contrários, mas como irmãos e como parentes. Unirão suas humanidades para suportar juntos, gravemente, pacientemente, o peso da carne difícil que lhes foi propiciada.

Neste momento, vendo já o poeta Rilke demonstrar um certo cansaço, perguntei se poderíamos continuar no dia seguinte. Ele aceitou, e será a segunda parte desta entrevista, que publicarei segunda-feira, se tudo der certo. Mas gostei muito disso, do “Unirão suas humanidades”. Sim, foi uma bela tarde com o poeta. Espero que o segundo encontro seja também cheio de beleza e intensidade como foi o primeiro.

Informo que não o deixei pagar a conta.

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