Sobre pipocas e flores
Samarone Lima
Outro dia eu passava ali pelo bairro do Rosarinho (eu adoro esse nome de bairro), e vi um sujeito no telhado, um negão imenso, pendurando as lâmpadas de piscar do Natal, que cada vez estão mais baratas. Perdão, agora tem que chamar “afro-descendente”, mas era um baita de um negão mesmo, inclusive meio pesado para aquele teto franzino. Quanto às lâmpadas, não sei que mistério é esse, mas cada dia estão mais baratas, acho que é o trabalho escravo na China. Acho que daqui a uns dias, a caixinha vai custar R$ 1,99. Quando eu era pirralho, essas coisas eram mais caras e difíceis.
Acho que a humanidade anda vivendo numa pressa dos diabos. O sujeito que em outubro já está se arrumando para o Natal, definitivamente está com pressa. Daqui a pouco vai começar aquela frescura das lojas do Recife: um calor de entortar concreto, e os funcionários daquelas lojas do centro usando o gorro do papai Noel. É pra derreter o juízo. Caramba, hoje eu só estou falando besteira!
Nem sei por que comecei a falar sobre o negão e o pisca-pisca do Natal. Ah, sim, lembrei. É que em meados de novembro já começa mesmo aquele clima de fim de ano, e a gente pensa nas besteiras que fez, nas que deixou de fazer, e nas que não deveria ter feito. São os tais balanços do ano. Olha eu, falando dos outros e me apressando…
Então me ocorreu que este ano está sendo muito atribulado, mas tive algumas boas idéias, que passo a relatar, na esperança de retribuir as bondades que têm me chegado dos meus poucos mas insistentes leitores.
Uma delas surgiu de uma longa caminhada com meu amigo Iramarai. Eu tinha saído do JC On Line, estava meio morgadão, largado, escrevendo só nos meus cadernos, com saudade daquela troca com os leitores, quando ele me deu um safanão espiritual e sugeriu a criação de um blog. Depois veio a Macksandra e me ensinou a fazer tudo direitinho. E vejam só o resultado: me comunico na hora que eu quero, lê quem quer, tenho escrito muito mais, e tenho adorado esta brincadeirinha.
Ontem mesmo eu estava numa fossa danada, macambúzio e sem animação, botei minha cronicazinha sobre o tema, e o que aconteceu? Um bocado de email na minha caixa postal, com palavras bonitas e animadoras, fora os telefonemas. É como uma gemada para o espírito.
Outra boa idéia deste ano foi o “momento Kinito’s”, que criei para mim mesmo, e me resultou em importantes e fundamentais decisões. Kinito’s, para quem não sabe, é uma pipoca salgada deliciosa, feita, obviamente, pela fábrica Kinito’s, perdão pela redundância. É um troço saborosíssimo, não sei o que eles colocam dentro, que dá até barato, é melhor que ópio, apesar de não ter ainda provado ópio, a não ser do futebol, que os intelectuais de meia tigela insistem em dizer que é o ópio do povo. Custa R$ 0,25 aqui em Seu Vital, mas a tal pipoca é vendida em toda esquina do Recife, dizem até que o dono da empresa está riquíssimo, deve estar mesmo e no fundo, bem que merece, porque o cara se garante no que faz.
Uma vez por dia, paro tudo o que estou fazendo, puxo da minha bolsa uma pipoca dessas e como bem devagar, tentando não pensar em nada, somente saboreando cada pipoquinha, que é bem crocante. É preciso exagerar no barulhinho, para ficar mais saboroso, e jogar para algum passarinho, se ele aparecer.
Nem sempre dá para ficar sem pensar nada, porque a cabeça da gente é uma máquina de produzir coisas, é impressionante. Mas o “Momento Kinito’s”, especialmente nas praças do Recife, foi uma das grandes idéias de 2005. Agora vai o alerta: tem que ser a pipoca salgada, que é realmente do outro mundo, muito melhor que aqueles biscoitinhos que o Proust comeu, e que rendeu uns sete livros em busca do tempo perdido. Tomei muitas decisões maravilhosas e pensei muita besteira também, mastigando o citado produto.
Outra boa idéia para 2005 foi deixar de fazer um bocado de coisas que tinha programado, obedecendo a uma lei natural da existência que se chama preguiça, já caminhando para a vagabundagem, porque adoro os vagabundos, ainda chegarei lá.
Sim, amigos, este ano finalmente introduzi a preguiça na minha agenda, apesar de ter sido atrapalhado bastante pela figura fantástica de um bar. Mas reduzi as idas ao cinema (porque está caro demais e são quase todos longe de onde moro), fiz menos exercícios, desisti de ser boxeador com o titio Jaime, aceitei que não nasci fisicamente preparado para beber whisky e quase não conheci boteco novo. Uma noite, me levaram ao tal do Borracharia, mas de longe, vi aquela multidão, tive um faniquito e dei meia volta.
Mais uma vez, não compareci a vários aniversários, batizados, noivados, chás de bêbê, bodas, despedidas de solteiro e casamentos, pela questão elementar da preguiça. Melhor, preguiça sem culpa. Ao casamento de Bruno Fontes eu só não fui porque estava em São Paulo, acompanhando o Santa Cruz, mas a culpa é dele, do Bruno. Não sei como o sujeito, em sã consciência, é capaz de marcar o casamento para o dia do jogo do Mais Querido.
Em 2005, assisti 90% menos de telejornais, e julgo que foi muito bom para minha saúde física e mental. Deixei para ver só o finalzinho, que tem as notícias do futebol e os gols da rodada. Descobri que estar mais desinformado não me atrapalhou em nada a vida. Pelo que sei, ninguém andou me chamando de burro por ai, porque eu não sabia os nomes de quem foi cassado e de quem roubou mais. Em troca, dei umas olhadinhas básicas nas novelas. Vi o primeiro capítulo dessa “Belíssima”, achei um barato, mas no segundo dia, já começou aquela baixaria previsível da mulher velha, rica e rabugenta ficar arrasando a menina bonita e gostosinha que já foi pobre, então já vi que não dá para o meu bico. Desliguei a TV e fui cuidar do meu jardim do quintal, que foi elogiado até por dona Fátima, a minha gerente de organização da casa.
Informo que pela primeira vez, em muitos anos, escapei do crediário que a dona Ermira faz todo ano, para comprar roupas novas para mim. Em compensação, estou com cada camisa que é de doer. Mas não canto vitória antes do 31 de dezembro. Ela pode chegar a qualquer momento, com a famosa frase: “Meu filho, fiz essas comprinhas pra você”.
Uma das melhores idéias de 2005 foi uma ação besta, mas que me fez um bem danado. Cuidei com um zelo imenso do jardim do quintal e da frente da casa. Todo dia, um pouco, sem pressa. Quando menos notei, o jardim estava florescendo. Descobri que adoro ficar nesta leseira de aguar, plantar, mudar planta de lugar, enfim. Travei uma batalha heróica contra umas lagartixas (reptis lacertílios, de pequeno porte, especialmente da família dos geconídeos), que estavam detonando uma planta belíssima. Venci pelo cansaço, mas o que matei de lacertílios em 2005, não está no gibi.
A Kinito’s que me perdoe, mas cuidar do jardim é melhor que o “Momento Kinito’s”. Ah, já sei o que fazer quando terminar de vender o bar: vou botar uma cadeira no quintal, e comer uma pipoquinha olhando para as flores. Se aparecer passarinho, melhor.
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