Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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O triunfo da delicadeza

15 de novembro de 2005, às 1:52h por Samarone Lima

Urgente, vá ao cinema. Eu não sou crítico de cinema, não entendo de linguagem cinematográfica, não sei nada de enquadramento, penso em escrever roteiros para curtas brevemente, mas sugiro: desmarque o dentista, a cárie segura até amanhã. Cancele a reunião no condomínio, arranje um atestado médico, a instituição que mais funciona no Brasil. Deixe o bar para depois do filme. Vá sem falta ao cinema, assistir “Cinema, aspirina e urubus”, dirigido por Marcelo Gomes.

A história é simples e reproduzo o que saiu no Diário de Pernambuco, sexta-feira:

“No sertão pernambucano de 1942, um alemão, fugindo da guerra e desbravando o Brasil vendendo remédios, e um nordestino, que sonha em morar no Rio de Janeiro, travam uma relação de amizade”.

Fui à sessão das 20h40, no Cine Boa Vista, que sai mais barato (R$ 11,00). Eu, adoro trailler, fiquei impressionado. Passaram uns oito, pensei até que teríamos uma sessão só de trailler, o que também seria demais. Pois bem. Era tudo filme norte-americano, e os personagens engatilharam umas 30 armas, só para começo de conversa. Foi bala até umas horas. Eita povinho pra gostar de desgraça, meu deus!

Depois de tanta bala e arma, entra na tela a história do alemão, que fugiu da guerra, e viaja pelo Brasil, vendendo Aspirina, essa mesma que todo mundo consome hoje como se fosse água. Lá pelas tantas, o alemão, Johan, conhece o Ranulpho, que sonha em morar no Rio de Janeiro. Da carona, vai surgindo a amizade. E a amizade entre os dois segue prendendo a gente do começo ao fim. Tudo de um jeito delicado, com dois atores simplesmente irretocáveis.

Aviso logo que quem for nordestino e estiver longe de casa, vai se rasgar todo de saudades. O Ranulpho rouba a cena, é um personagem maravilhoso, com seu azedume, sua perspicácia, seus olhares reveladores, seu jeito de falar e se relacionar com o mundo. “Ô seu menino”, diz ele, para chamar um desconhecido. “Sai, tristeza”, fala ele com o alemão, quando está irritado. “Bicho cabuloso”, repete em algum momento.

A amizade entre os dois é construída de uma forma tão delicada e engenhosa, que é impossível não se envolver e emocionar com as duas criaturas. Na verdade, dois mundos acabam dialogando pelos caminhos intermináveis da amizade, em pleno sertão nordestino. Um alemão, que fugiu do seu país porque não queria matar ninguém, e um sertanejo, que fica com os olhos brilhando, quando fala no Rio de Janeiro, e vive esculhambando sua terra, “esse buraco”, “esse fim de mundo”, “esse lugar que nem guerra chega”.

Lembro com especial carinho de duas cenas: Numa delas, o alemão diz que guardou dinheiro por tanto tempo, e agora, não servia de nada. Ele resolve fazer uma grande farra com seu amigo. O motivo?

“Vou comemorar a vida”, diz.

O Ranulpho, por sua vez, toma uma decisão ou fala algo que não me lembro. Era algo que fugia completamente do seu jeito de ser. O alemão questiona a decisão, e o sertanejo responde, na lata:

“Eu mudei. Pode não, é?”

Amizade, comemorar a vida, as mudanças que uma pessoa acaba gerando na outra, por mais diferente que sejam os mundos, essas coisas bestas que o mundo tem perdido, e que um cineasta foi encontrar no calor e na aridez do Sertão.

Não sei escrever sobre cinema, que a Luciana Veras não me leia. Sei apenas quando tem um belo filme passando na cidade. Então, me sinto na obrigação de sugerir. Por sinal, só fui hoje ao cinema porque li um texto lindo da Luciana, na mesma edição do Diário. Em algum momento do belo texto, ela fala do “triunfo da delicadeza”, que acabou sendo o título desta breve crônica.

É só isso: O triunfo da delicadeza, com tanto filme cabuloso em cartaz.

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