Cada pessoa é seu próprio rio
Samarone Lima
Foi ontem de manhã, a caminho do trabalho, no Alto Santa Isabel. Ali no Derby, perto do Hospital da Restauração, subiu o rapaz, de uns 25 anos. Negro, com um boné, sorriso farto. Levava uma caixa cheia de canetas. Foi lá para a frente do ônibus, dizendo bom dia a todos com uma alegria inesperada. O camarada acordou o ônibus inteiro. Todos os pensamentos vagos, todos os problemas que estávamos alimentando, foram desviados para ele, o vendedor de canetas.
Ele começou a falar, e me chamou a atenção pela educação. Chamou todos de senhoras e senhores (a tal questão de gênero), pediu licença para mostrar seu produto (um vendedor de verdade), disse que iria tomar somente alguns segundos da atenção de cada um (o cuidado para não encher os outros com muita conversa). Educadíssimo, falava um português gramaticalmente perfeito, fora a articulação das palavras e a fluidez no discurso.
Fiquei preocupado, porque estava quase na hora de descer, e já não me interessava a caneta, mas o ser humano que estava ali. Queria saber onde tinha nascido, onde vivia, como teve a idéia de vender canetas de três cores, andando pelos ônibus do Recife, se tinha família, se tinha filhos, por qual time torcia, onde tinha estudado.
Mas eu tinha que seguir minha vida, ele tinha seu ofício para ganhar o dia. Só deu tempo comprar uma caneta, que me custou R$ 1,00. Estou aqui, com ela. São três cores, uma para cada estado espiritual em que me encontro.
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Jorge, meu vizinho que é escultor, de vez em quando me chama para almoçar em sua casa, um casarão aqui no Poço. São sempre almoços calmos, sem pressa, arroz integral, salada, legumes, um peixinho etc. Ele manda brasa na birita, fuma um bocado, mas quando almoça, se alimenta bem.
Outro dia, preparei um rango e chamei meu amigo. Ele veio com Machado de Assis debaixo do braço. Nunca li Machado de Assis nem Eça de Queiróz, que parecem ser gigantes. Mas não me preocupo com isso. Então ele leu o seguinte trecho de “Esaú e Jacó”:
“O tempo é um tecido invisivel em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo”.
Ele me olhou com os olhos brilhado e completou:
“Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo e acaso do outro”.
Nem precisamos sobremesa
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Lucidélia vai se recuperando bem do câncer, estou conseguindo finalmente vender o bar, fui informado ontem à noite que estamos na primavera. Acabou o meu dinheiro, a viagem para Cuba vai ficar para outro tempo, mas estou com aquele estranho e bom sentimento de que a vida está seguindo seu fluxo natural, que cada pessoa é o seu próprio rio.
O meu rio segue graças a essas pérolas que aparecem no cotidiano, essas “ráfagas de felicidade”, como diz o chileno Hernán Rivera Letelier. O vendedor de canetas com seu sorriso, o almoço com Jorge, Machado de Assis na sobremesa, a primavera que eu não sabia, o rio que existe em mim, que me banho sempre, e que às vezes fica seco, um fiapo de água, mas depois enche novamente e transborda.
Essas coisas sem objetividade alguma, que tanto me interessam.
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