Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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"Se é para fingir que vivemos em uma democracia, vamos fingir direito"

23 de novembro de 2005, às 15:44h por Samarone Lima

Está na capa dos jornais de hoje, no Recife, a foto do comandante do Batalhão de Choque da Polícia Militar, o famoso Coronel Luiz Meira, dando uma gravata em um estudante, que leva a bandeira azul da União Nacional dos Estudantes (UNE). Quantas coisas são ditas, em apenas uma imagem: um jovem dominado pela garganta (de onde sai a voz, a indignação e a revolta), e a expressão transtornada de um coronel (com a boca torta, que range de raiva). Ah, mas quanto ódio desperta na PM de Pernambuco o movimento dos estudantes, dos moços, os Sem-Terra, os Sem-Teto, os Sem-Nada, que só estão esperneando minimamente, no legítimo direito de lutar, de protestar, de tomar as ruas…

É preciso ser meio de pedra, para não sentir raiva dessa polícia daqui, conhecida pela truculência com que enfrenta os movimentos sociais (é só na base da porrada, gás lacrimogênio e spray de pimenta), e famosa pela incompetência em lidar com a criminalidade (que lhe dá um banho de competência, todos os dias, e nós pagamos o pato).

Nessas manifestações, teve vidro de ônibus quebrado, teve exagero sim, mas nem de perto lembrou aquela revolta na França, onde a moçada botou pra quebrar, e incendiou uns 6 mil veículos. Não havia, nas ruas do Recife, um movimento articulado de vandalismo, é sempre aquele negócio de gente que se exalta, enfim. Aqueles carros incendiados na França me dizem muito do que está sendo gestado nos subúrbios das grandes cidades do primeiro mundo, e do que pode estar vindo aí, da periferia do terceiro ou quarto mundo, que é a periferia do Recife.

A impressão que tive, na segunda-feira, quando passei pela avenida Agamenom Magalhães, foi a de que um Batalhão do Ódio partia para cima dos rapazes e moças. Eu nem olhei muito, para não adoecer a alma. São as mesmas cenas que vejo nos estádios, nos acampamentos dos Sem Terra. Os caras batem, e batem bem, com raiva, em todo mundo. Sugiro inclusive a mudança do nome: de Batalhão de Choque para Batalhão de Ódio. Teve de tudo. Prisões arbitrárias, espancamentos, recolhimento de jovens em um quartel (com identificação no próprio quartel).

“A ordem era: teve baderna, a gente mete porrada, se não teve, a gente mete porrada para prevenir”, disse um PM ao jornal Diário de Pernambuco de hoje.

Precisa dizer alguma coisa, depois de um depoimento desse?

O relato da Ana Paula, estudante de Jornalismo (www.aostraeovento.blogspot.com), vale por muitas matérias publicadas nos últimos dias, que tratam os estudantes somente como “baderneiros” e “vândalos”, como se ali não estivessem ali os que sofrem calados ou resignados, fora os que não têm coragem de jogar uma pedra, quebrar um vidro, queimar um carro.

Encerro com uma frase da Ana Paula, quando ela pede que coisas desse tipo não continuem a acontecer.

“Se é para fingir que estamos em uma democracia, vamos fingir direito”.

E de pensar que o governador, Jarbas Vasconcelos, foi, longo tempo atrás, defensor das liberdades democráticas…

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