Um taxista e suas teorias
Samarone Lima
Não sei o que aconteceu esta semana, deve ser o efeito estufa botando pra gerar, porque senti o maior calor da história do Recife. Eu almoçava com o Inácio na Casa do Estudante (R$ 3,50 por cabeça e bem gostosinho), saía andando pelo Derby até a parada de ônibus, isso lá pelas 13h33, e o sol vinha rachando tudo. Cada passo, um grau célsio a mais no organismo. Na parada de ônibus, do lado do sol, todo mundo era suor puro, dava um desamparo tão grande, uma fraqueza no sentimento, que surgia até uma vontade de chorar. Descia na 17 de Agosto, e para vir caminhando até o Poço, era tudo um deserto quente, árido, eterno e infinito. Quando chegava em casa e ligava o ventilador, o paraíso tinha um nome: Britânia, ligado no três.
Pois bem. Na quarta-feira, olhei para os dois lados e pensei. Vou deixar de pirangagem. Mesmo liso, decidi que voltaria de táxi para casa. Chega de sofrimento! Arre! Dois livros publicados, um mestrado, campeão estadual pelo Santa Cruz, e sofrendo mais que retirante! Decretei a independência. Estendi gloriosamente a mão para o táxi. O carro parou. Não me arrependi, porque gastei R$ 11,20 e cheguei em casa menos cansado, menos suado, menos tudo.
Mas, como ninguém é de ferro, descolei uma historinha para compartilhar com meus leitores.
Eu, quando ando de táxi, vou logo puxando assunto com o motorista, porque acho um saco aquele negócio de cada um na sua. Eu gosto muito de conversar com os amigos, mas conversar com desconhecido, isso é que é bom mesmo, porque tudo é surpresa e a gente nunca sabe o que está por vir, cada ser humano é um grande mistério mesmo. Um dia, eu quase desci do táxi porque puxei assunto três vezes, e o camarada era monossilábico. Um chato, aquele cabra. Não desci por pura preguiça. Em sinal de protesto, vim cochilando o restante da viagem.
Mas na quarta-feira, o taxista que me trouxe era também um exagero. Fiz uma simples pergunta, um comentário sobre o calor, sobre o jogo do Santa Cruz no sábado, e o camarada soltou o verbo. Veio falando do Derby ao Poço da Panela. Conversou R$ 11,20, na bandeira 1. Teve um momento que não resisti. Peguei o bloquinho e anotei: “Um taxista e suas teorias”.
Primeiro, ele serviu ao Exército durante um ano, e só aprendeu duas coisas: matar gente e recolher corpo. “Ah, a gente faz amizade também”, completou. Ainda bem. Fui informado que qualquer país, até o Paraguai, pode invadir o Brasil, porque nossas armas são obsoletas e ninguém sabe nada de guerra.
“É só isso o que a gente aprende no quartel: matar gente e recolher o corpo. Não tem nada de cultura”.
Por sua vasta experiência em quartéis, ele defende a tese que os oficiais, ao invés de ficarem jogando dominó, porrinha, totó, baralho, deveriam assumir as crianças de rua do Recife (que, segundo ele, “não passam de 300”). Cada oficial seria um tutor.
“Está na rua? Então pega. Se está na rua é da nação”.
Nunca mais eu tinha escutado esta palavra, nação.
Ele disse que em várias outras cidades, não tem essa tuia de menino de rua nos sinais.
“Só no Recife tem essa fuleiragem”, completou. Caramba, outra palavra que eu não escutava há muitos anos. Fuleiragem. Acabei de olhar no Aurélio, tem sim.
A idéia do taxista é simples. Como tem gente ganhando um bom salário, sem ter guerra com nehum país (ele não citou nossa guerra civil interna), se não há estratégia nenhuma, se os norte-americanos ainda não cismaram de invadir a Amazônia, o Exército deveria cuidar das crianças de rua do Recife. Ele disse que são 300, e conhece todas. Eu não concordei nem discordei, eu só queria saber onde ele iria chegar.
Ele foi chegando. Disse que os galpões lá do Recife Antigo deveriam ser arrumados (não sei quem faria isso, se a Prefeitura ou o Governo do Estado), para abrigar os mendigos. Detalhe: a partir das 22h, todo mundo já recolhido, banhado e cheiroso, para dormir.
“A cidade ia ficar mais limpa”, assinalou. É cada lapa de doido nessa cidade, pensei.
Ele acha que é preciso mais ordem. Parece que foi assim que o Hitler começou, com esse negócio de limpeza, ordem.
“É um alisado da porra com esse pessoal”, justificou meu colega de trânsito. Pelo que ele vinha falando, o “pessoal” eram os meninos de rua e os mendigos.
Depois ele passou para a questão sexual, com a lapidar frase:
“Eu nunca escutei falar que existe um ex-gay”.
Rapaz, tudo bem que eu gosto de conversar com taxista, mas o camarada também não me deixava respirar. Tinha começado com o Exército desocupado, passou para os mendigos e agora entrava nos temas sexuais. Ele começou com a temática gay, mas não desenvolveu. Saiu falando de suas peripécias com as mulheres, e parece que eram muitas. É casado, tem dois filhos, mas não acredita nesse negócio de camisinha.
“Isso de camisinha não existe, tá ligado? Até hoje, tenho 43 anos, nunca usei camisinha. Facilitou, eu atolo o pé”.
O sujeito falava mais que o homem da cobra. Eu, por minha vez, não tinha tempo nem de dizer um ran ran. Esqueci até de olhar para o taxímetro, para ver o tamanho da bronca. Lá perto do Hiper de Casa Forte, ele parou ao lado de uma praça, que estava com uns cinco vendedores de CD pirateados. Ele olhou e me cutucou:
“Tás vendo? Os caras estão vendendo CD pirateados, tudo bem, eles precisam sobreviver. Agora me diga: eles precisam ocupar a calçada toda?”.
Caralho, que cara arengueiro!
Ele saiu falando que o País não investe em educação, que as escolas do Estado são todas umas tapeações, que não existe preocupação com o “futuro da Nação”, e neste momento, lembrei do Legião Urbana. Já perto da minha casa, ele arrematou:
“Não querem nada de cultura para o povo. Querem a população cada vez mais analfabeta e burra”.
Pela primeira vez, concordei. Desci, paguei meus R$ 11,20 mas esqueci de anotar a placa do carro, para jogar na milhar.
Faz mal não, ganhei uma pequena crônica, nesses dias de tanto calor. Liguei o ventilador no três e dei vivas à Britânia.
ps. o editor deste blog só poderá escrever algo decente amanhã. É que o seu clube, o Santa Cruz, classificou-se ontem para a Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro. É cachaça até umas horas…
Postado em Crônicas |
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