Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Cada pessoa é seu próprio rio

17 de novembro de 2005, às 10:11h por Samarone Lima

Foi ontem de manhã, a caminho do trabalho, no Alto Santa Isabel. Ali no Derby, perto do Hospital da Restauração, subiu o rapaz, de uns 25 anos. Negro, com um boné, sorriso farto. Levava uma caixa cheia de canetas. Foi lá para a frente do ônibus, dizendo bom dia a todos com uma alegria inesperada. O camarada acordou o ônibus inteiro. Todos os pensamentos vagos, todos os problemas que estávamos alimentando, foram desviados para ele, o vendedor de canetas.

Ele começou a falar, e me chamou a atenção pela educação. Chamou todos de senhoras e senhores (a tal questão de gênero), pediu licença para mostrar seu produto (um vendedor de verdade), disse que iria tomar somente alguns segundos da atenção de cada um (o cuidado para não encher os outros com muita conversa). Educadíssimo, falava um português gramaticalmente perfeito, fora a articulação das palavras e a fluidez no discurso.

Fiquei preocupado, porque estava quase na hora de descer, e já não me interessava a caneta, mas o ser humano que estava ali. Queria saber onde tinha nascido, onde vivia, como teve a idéia de vender canetas de três cores, andando pelos ônibus do Recife, se tinha família, se tinha filhos, por qual time torcia, onde tinha estudado.

Mas eu tinha que seguir minha vida, ele tinha seu ofício para ganhar o dia. Só deu tempo comprar uma caneta, que me custou R$ 1,00. Estou aqui, com ela. São três cores, uma para cada estado espiritual em que me encontro.
**

Jorge, meu vizinho que é escultor, de vez em quando me chama para almoçar em sua casa, um casarão aqui no Poço. São sempre almoços calmos, sem pressa, arroz integral, salada, legumes, um peixinho etc. Ele manda brasa na birita, fuma um bocado, mas quando almoça, se alimenta bem.

Outro dia, preparei um rango e chamei meu amigo. Ele veio com Machado de Assis debaixo do braço. Nunca li Machado de Assis nem Eça de Queiróz, que parecem ser gigantes. Mas não me preocupo com isso. Então ele leu o seguinte trecho de “Esaú e Jacó”:

“O tempo é um tecido invisivel em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo”.

Ele me olhou com os olhos brilhado e completou:

“Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo e acaso do outro”.

Nem precisamos sobremesa
**

Lucidélia vai se recuperando bem do câncer, estou conseguindo finalmente vender o bar, fui informado ontem à noite que estamos na primavera. Acabou o meu dinheiro, a viagem para Cuba vai ficar para outro tempo, mas estou com aquele estranho e bom sentimento de que a vida está seguindo seu fluxo natural, que cada pessoa é o seu próprio rio.

O meu rio segue graças a essas pérolas que aparecem no cotidiano, essas “ráfagas de felicidade”, como diz o chileno Hernán Rivera Letelier. O vendedor de canetas com seu sorriso, o almoço com Jorge, Machado de Assis na sobremesa, a primavera que eu não sabia, o rio que existe em mim, que me banho sempre, e que às vezes fica seco, um fiapo de água, mas depois enche novamente e transborda.

Essas coisas sem objetividade alguma, que tanto me interessam.

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O triunfo da delicadeza

15 de novembro de 2005, às 1:52h por Samarone Lima

Urgente, vá ao cinema. Eu não sou crítico de cinema, não entendo de linguagem cinematográfica, não sei nada de enquadramento, penso em escrever roteiros para curtas brevemente, mas sugiro: desmarque o dentista, a cárie segura até amanhã. Cancele a reunião no condomínio, arranje um atestado médico, a instituição que mais funciona no Brasil. Deixe o bar para depois do filme. Vá sem falta ao cinema, assistir “Cinema, aspirina e urubus”, dirigido por Marcelo Gomes.

A história é simples e reproduzo o que saiu no Diário de Pernambuco, sexta-feira:

“No sertão pernambucano de 1942, um alemão, fugindo da guerra e desbravando o Brasil vendendo remédios, e um nordestino, que sonha em morar no Rio de Janeiro, travam uma relação de amizade”.

Fui à sessão das 20h40, no Cine Boa Vista, que sai mais barato (R$ 11,00). Eu, adoro trailler, fiquei impressionado. Passaram uns oito, pensei até que teríamos uma sessão só de trailler, o que também seria demais. Pois bem. Era tudo filme norte-americano, e os personagens engatilharam umas 30 armas, só para começo de conversa. Foi bala até umas horas. Eita povinho pra gostar de desgraça, meu deus!

Depois de tanta bala e arma, entra na tela a história do alemão, que fugiu da guerra, e viaja pelo Brasil, vendendo Aspirina, essa mesma que todo mundo consome hoje como se fosse água. Lá pelas tantas, o alemão, Johan, conhece o Ranulpho, que sonha em morar no Rio de Janeiro. Da carona, vai surgindo a amizade. E a amizade entre os dois segue prendendo a gente do começo ao fim. Tudo de um jeito delicado, com dois atores simplesmente irretocáveis.

Aviso logo que quem for nordestino e estiver longe de casa, vai se rasgar todo de saudades. O Ranulpho rouba a cena, é um personagem maravilhoso, com seu azedume, sua perspicácia, seus olhares reveladores, seu jeito de falar e se relacionar com o mundo. “Ô seu menino”, diz ele, para chamar um desconhecido. “Sai, tristeza”, fala ele com o alemão, quando está irritado. “Bicho cabuloso”, repete em algum momento.

A amizade entre os dois é construída de uma forma tão delicada e engenhosa, que é impossível não se envolver e emocionar com as duas criaturas. Na verdade, dois mundos acabam dialogando pelos caminhos intermináveis da amizade, em pleno sertão nordestino. Um alemão, que fugiu do seu país porque não queria matar ninguém, e um sertanejo, que fica com os olhos brilhando, quando fala no Rio de Janeiro, e vive esculhambando sua terra, “esse buraco”, “esse fim de mundo”, “esse lugar que nem guerra chega”.

Lembro com especial carinho de duas cenas: Numa delas, o alemão diz que guardou dinheiro por tanto tempo, e agora, não servia de nada. Ele resolve fazer uma grande farra com seu amigo. O motivo?

“Vou comemorar a vida”, diz.

O Ranulpho, por sua vez, toma uma decisão ou fala algo que não me lembro. Era algo que fugia completamente do seu jeito de ser. O alemão questiona a decisão, e o sertanejo responde, na lata:

“Eu mudei. Pode não, é?”

Amizade, comemorar a vida, as mudanças que uma pessoa acaba gerando na outra, por mais diferente que sejam os mundos, essas coisas bestas que o mundo tem perdido, e que um cineasta foi encontrar no calor e na aridez do Sertão.

Não sei escrever sobre cinema, que a Luciana Veras não me leia. Sei apenas quando tem um belo filme passando na cidade. Então, me sinto na obrigação de sugerir. Por sinal, só fui hoje ao cinema porque li um texto lindo da Luciana, na mesma edição do Diário. Em algum momento do belo texto, ela fala do “triunfo da delicadeza”, que acabou sendo o título desta breve crônica.

É só isso: O triunfo da delicadeza, com tanto filme cabuloso em cartaz.

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Pequenos mistérios

14 de novembro de 2005, às 11:41h por Samarone Lima

Olho aqui uma foto que tenho na época em que trabalhei no Diário de Pernambuco, em 1993/1994. Estou saindo da redação com uma pauta na mão, com um sorrisão imenso, usando uma camisa que não sei mais onde está, eu acho sempre um mistério esse: saber onde foram parar as roupas que nos acompanharam durante tanto tempo.

Lembro que uma vez eu e meu irmão abrimos um baú lá em casa, e encontramos umas camisas lindas, com gola, de clubes de futebol de salão que meu pai tinha jogado. Então, descobrimos que ele tinha sido um grande jogador, na época em que o Crato assombrava os clubes do sul com times que eram verdadeiras máquinas. Era o comecinho dos anos 70.

Passamos a usar as tais camisas do baú, e os amigos ficaram loucos, querendo saber onde tínhamos conseguido aquilo. Por muito tempo, usamos essas camisas, que eram relíquias do meu pai, até que elas foram rasgando, se perdendo, e nada mais restou, apenas a lembrança.

Então fica o primeiro mistério: por que as camisas dos clubes dos anos 70 eram tão lindas, todo mundo adora, e não fabricam mais? A beleza tem que ser coisa do passado?

Outro grande mistério que me intriga há muitos anos é o seguinte: por que o poder é tão destruidor?

Não sei o que é, mas algo no poder destrói muitas vidas, e desconfio que muita gente seria mais feliz se tivesse (ou desejasse) menos poder. Poder não, mas o desejo dele, o objetivo do poder, sustentando a vida. O sujeito, para ser governador, deveria a princípio não desejar ser governador, mas ir chegando, naturalmente, ao cargo.

Não sei se é uma coisa muito pessoal, mas na época em que trabalhei em redação de jornal, eu nunca quis ser editor, que ganhava bem melhor e tinha poder. Eu gostava mesmo era de ir à rua, escrever, ver a matéria publicada e sentir que tinha feito algo bacana. O editor tinha o poder dele, mas eu fazia o que mais gostava, que é mesmo o grande poder.

Mais um mistério: por que as pessoas brigam tanto?

Basta olhar o trânsito, para ver que as pessoas estão brigando por segundos. Se alguém está saindo da garagem e você para, para que a pessoa tenha tempo de sair, alguém atrás buzina feito louco. Mas se ele estivesse na garagem, diria: nossa, que pessoa gentil, me dando uma colher de chá em plena manhã de segunda feira!

Tive um bar defronte a um colégio de classe média, que é bem bacana, a forma de educar é cheia de coisas bonitas, as crianças estão realmente tendo uma chance maravilhosa de serem pessoas doces, educadas, de cultivarem inteligências e talentos. Mas nem queira estar na porta da escola ao final de cada turno. Os pais fazem da buzina armas poderosas, estão sempre berrando com suas buzinas, e acho que a escola bem que poderia chamar os pais para um workshop sobre “como pegar seu filho na escola sem fazer um escândalo”. Pior: quanto maior e mais luxuoso o carrão, menor a paciência. Será que esperar no ar-condicionado com um carrão luxuoso cansa?

Vai a minha sugestão para hoje: saia dez minutos mais cedo, e faça gentilezas com todo mundo no trânsito.

Outro mistério: por que tiraram a Fanta Uva do mercado?

É questão pessoal mesmo, perdoem. Eu adorava Fanta Uva e Grapette. “Quem bebe Grapette, repete”, era a propaganda.

Mistério número cinco: por que quase não tem mais circo visitando as cidades?

Tudo bem, teve um festival de circo aqui no Recife, coisa grande, convidados do mundo inteiro, mas a impressão que tenho é que o velho circo, com palhaços mal vestidos e divertidíssimos, com Globo da Morte e domador de leões, acabou. Os circos agora não são mais na periferia, para as pessoas de riso fácil, mas coisas muito gigantescas, para quem tem grana e pode pagar.

Mistério número seis: por que os encontros de ONGs têm que ter a famosa “integração?”

Não sei o motivo, mas tudo que é de encontro de ONGs, de gente que trabalha no terceiro setor, tem que ter uma história de abraços, histórias, confissões, a tal da “integração”. Não sei por que as pessoas não podem ir se conhecendo aos pouco, num cafezinho, sem alarde, num sosseguinho básico. Fico pensando nos tímidos, na hora da integração. Eles sofrem, creio.

Sétimo mistério: sumiu das prateleiras as geléias de mocotó Colombo. Francamente, a vida ficou mais difícil sem as tais geléias, e seus copinhos admiráveis.

As cartas postadas e escritas à mão, cadê? Não, aí não tem mistério, é o e-mail mesmo, ocupando todos os espaços. É a pressa com algumas perfeições, mas semana passada recebi uma carta do meu irmão, e adorei.

Mistério nove: por que as comissárias de vôo andam tão enjoadas?

Não sei o que é, mas há dez anos, as comissárias de vôo eram umas deusas, delicadíssimas, amorosas, que nos amparavam de qualquer medo. O sujeito estava com medo da altura, elas abriam aquele sorriso, quase nos colocavam no colo, e tudo ficava ao pé do chão, parecia que estávamos num carrinho de roliman. Hoje, elas são duras, bravas, se você não pegar logo o sanduba, perde o rango, e quando elas mandam botar a cadeira na posição vertical, você tem que obedecer rápido, sob o risco de levar um cascudo.

Décimo mistério: por que essa fantasia em torno da velhice?

Eu não entendo. Chamar a pessoa de velha, para mim, é um elogio. “Velho” é uma palavra muito mais digna e bonita do que essa invenção amena da “terceira idade”. Pior: agora, inventaram o troço da “boa idade”. De quantas idades é feita uma pessoa? Quantos anos envelheci desde que cheguei ao Recife, em 2000? Quantos jovens envelhecidos no espírito não conheci? Quantos velhos amargos não estão por ai? Por que o sujeito que nunca dançou na vida tem que começar a dançar, depois de velho, numa nostalgia pálida do que não viveu por uma simples questão de opção? Boa idade pode ser qualquer idade.

Último mistério: o mistério do amor.

Por que, quanto mais você deixa livre a pessoa que você ama, mais ela é fiel ao sentimento, e mais te respeita?

Talvez esse mistério tenha uma mínima resposta, e vem do Humberto Maturana:

“O que é especialmente humano no amor não é o amor, mas o que fazemos no amor enquanto humanos”.

Para encerrar:

“O amor é inimigo da apropriação”.

**
ps. não deixem de assistir “Cinema, aspirina e urubus”, de Marcelo Gomes. Um belo filme.

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Louvação aos que brincam

11 de novembro de 2005, às 9:49h por Samarone Lima

Outro dia, já chegando na avenida 17 de Agosto, vi dona Fátima, a gerente de organização da minha casa, caminhando em minha direção, com a cabeça baixa, talvez triste. Não tive dúvida: me escondi detrás de uma árvore, esperei um bocadinho ela se aproximar e dei-lhe um baita susto. Ela deu um pulo formidável, pareceu a Daiane dos Santos, e me soltou um carão:

“Ôx, tás doido Samarone? Tu não sabe que eu detesto susto?”

Eu sei que ela detesta susto, mas é que em certos momentos, não resisto à tentação. Levei uns carões, mas depois ela falou do filho que descolou um trabalho e prometeu me levar um suco de maracujá, à tarde. Saiu do susto rindo, e acho que fiz bem. Ela fez o tal suco, que adoro, e vou bebericando enquanto escrevo.

Uma amiga que mora na Inglaterra disse que seria complicado uma brincadeirinha desse tipo em Londres. Estranhariam muito. Creio que seria aquele famoso negócio de “perturbar a ordem pública”. Então eu fiquei pensando como seria difícil, para mim, morar numa cidade assim, tão séria, sem lugar para essas tabacudices essenciais para o bem viver, sem este verbo saborosíssimo: brincar.

Sim, porque apesar das broncas da vida, dos problemas, da falta de esperança nos rumos do País, da violência toda, nós aqui no Recife, brincamos pra caramba. Eu mesmo, posso me denominar um brincalhão, e tenho uma penca de amigos do mesmo tipo.

Brincar com a morte, aqui onde moro, já faz parte da vida, perdoem o trocadilho barato. Outro dia, duas amigas de São Paulo chegaram de viagem (ela se hospedaram aqui umas quatro vezes) e perguntaram pelo Walter, nosso grande amigo e vizinho, o sujeito que inclusive foi o primeiro rei do nosso bloco “Os Barba”.

“Soubesse não?”, completou Nana.

Elas:

“O quê?”.

“Morreu”.

Elas ficaram pálidas, tristes. Eu e Nana entabulamos uma conversa imensa, séria, com semblante triste, falando do problema que levou nosso amigo desta para a pior, e quanto mais mentíamos, mais ficávamos sérios. Por dentro, estávamos dando gargalhadas.

Fomos dormir e esquecemos de desmentir o óbito. Elas amanheceram arrasadas.

“Puxa, não conseguimos dormir pensando no seu Walter”.

“Coisas da vida”, respondi, quase com uma lágrima escorrendo, uma lágrima de cinema.

Quando elas encontraram Walter, à noite, mais vivo que todo mundo, tomaram um susto e ficaram bravas comigo. A brincadeira custou uma noite de sono para elas, mas não deu para resistir. Não sei quantos já matamos, e somente uma vez deu errado. Vamos aos detalhes.

Nosso amigo Severino “barrabás” fora internado às pressas, em um hospital. À noite, nossa turma foi visitá-lo e ele já estava quase recebendo alta. Quando todos retornaram, começou o converseiro. Quem chegava e perguntava por Barrinha, respondíamos quase chorando que ele tinha embarcado, que morreu mesmo, que o enterro seria no dia seguinte, um fuzuê danado. Ficamos nisso até umas 11h da noite, e esquecemos de desmentir.

O fato é que nosso amigo morreu de verdade, acho que umas 9h da noite, de um infarto. Quando começamos a dizer que nosso amigo tinha morrido, todo mundo acho que era brincadeira e somente quando o filho de Barrinha chegou chorando, acreditaram.

Informo que ninguém ficou com remorso de nada. É do espírito de quem brinca, brincar sem culpa.

Brincamos muito no dominó, esse esporte que cada vez me cativa mais, e merece uma boa tese de doutorado, eu queria muito saber quem foi o inventor do dominó, este gênio esquecido da humanidade. Tem gente que fica enfezada, se irrita muito com uma buchuda (uma derrota por 6 x 0), mas o bom do jogo é a brincadeira, aquela encenação toda, os blefes, as artimanhas de cada dupla, que refletem a personalidade de cada um. Quem fica do lado de fora, comentando o jogo, é o famoso “Peru”. Lucidélia, já quase boa do câncer, é a maior “Peru” aqui do Poço. Nunca ouvi ninguém chamar a pessoa de “Perua”.

Ontem mesmo, eu e Guga Mota fizemos um estrago nos adversários, só na base da brincadeira. Ganhamos três partidas seguidas. Me disseram que eu estava jogando muito bem, e me deu vontade de rir, porque eu só demoro a jogar para fazer a munganga mesmo. De dominó eu só entendo que tem que pegar seis pedras e ir jogando, e quando não tem a pedra, o sujeito toca. Sigamos.

Brincamos muito com as crianças. Não sei como é nos outros estados da Federação (incrível, o Brasil é uma Federação), nos demais países e continentes, mas aqui, quando chega um pirralho, vai ter sempre gente brincando, tirando onda, ensinando algo, mostrando o papagaio, ensinando uma palavra ou puxando a sardinha para ver se a criatura torce para o seu time. Fico me perguntando: será que na Croácia é assim? Será que nos Estados Unidos, que meio mundo de gente quer ir morar lá, as pessoas brincam no cotidiano? A impressão que tenho, assim de longe, é que se você botar a mão na cabeça de um pirralho norte-americano, pode rolar um processinho básico por assédio sexual. Botar no colo, então, algemam na hora e mandam para a prisão.

Eu só sei que nossa última brincadeira com Luisa, a adorável Lulu, de um ano e meio, foi ensiná-la a dar tchau com o pé direito. Então, quando alguém dá tchau, ela levanta o pé e fica balançando. Nana também ensinou Lulu a colocar areia no sapato das pessoas, e ela adorou.

Para quem gosta de brincar com crianças, vai a sugestão: aquela brincadeirinha de se esconder e aparecer, por mais patética que seja, faz o maior sucesso.

Brincamos muito com as palavras, isso é mesmo delicioso. Ontem fiquei aqui na venda de Seu Vital, sentado, bebericando uma Brahma e vendo o entardecer, essa coisa que adoro. Fiquei com meu bloquinho, anotando eventuais pérolas e a quantidade de pessoas que entravam na venda. Das 17h40 às 18h, entraram e saíram (lógico) na mercearia, 22 pessoas, para comprar pão, vela, fósforo, cerveja, cana, pirulito, queijo, mortadela, big-big (é antigo ping-pong, não sei porque chiclete tem que ter sempre duas palavinhas). Todo mundo fala com todo mundo, é incrível, e muita gente brinca com desconhecidos. Teve uma hora que a mulher perguntou se tinha pão e Vital respondeu, na lata:

“Você quer só do François Campeux ou do Califórnia também?”

Pelos meus cálculos, François Campeux é o pão doce, e o califórnia, o pãozinho francês. Posso estar equivocado, mas é que de pão eu não entendo quase nada, só entendo que um sujeito com a fama de brabo de seu Vital é um brincalhão de primeira linha, e vive fazendo pérolas com a língua portuguesa. “Lá vem o Capitão Sem Fronteiras”, diz com o filho. “Foi para a Iuguslávia”, diz, quando alguém morreu. A lista é grande.

Nos ônibus do Recife, a coisa mais comum do mundo é encontrar motorista inspirado, que gosta de brincar. Quando o motorista e o cobrador são amigos, prepare-se para a viagem. O ônibus todo acompanha a conversa, e tirar onda é com eles mesmo. Brincam com tudo. Quando para um amigo motorista ao lado, vem “arriação”, como dizemos aqui. Cuidado com a gaia, cadê teu urso, enfim, coisas da vida e dos chifres que ocorrem de vez em quando, e se o cara for levar a sério, endoida.

Fico imaginando os casais que não brincam, que ficam sérios. Eu não suportaria. Lamento muito, mas sem brincar, não dá para amar, eu penso que o amor deve ser uma grande e maravilhosa brincadeira, um passeio de bicicleta num sábado à tarde, como sugeriu outro dia uma criatura adorável. E aqueles casamentos sérios? Quando conheço alguém que tem a fama de ser “sério”, já fico amuado. Não sei porque os políticos usam tanto isso em campanha: “Seriedade e competência”; “Um homem sério”. Deveriam brincar mais e foder menos a gente.

Penso no sujeito que é sério, que não brinca, que não desarma. Caramba, como eu sofreria, se não pudesse brincar, se não tivesse aprendido a brincar. Pior, se tivesse vergonha de brincar.

Talvez seja por isso que eu goste tanto de uma canção que fala em “Brincar de Viver”, onde diz que ninguém é o centro do universo, assim é maior o prazer.

Informo aos meus distintos leitores que escrever essa crônica de hoje foi uma grande brincadeira, depois de uns dias meio complicados que andei tendo.

E dona Da Luz, uma senhora aposentada, que ganha uma pensão de um salário mínimo, acabou de me avisar que passasse na sua casa lá pelas 11h, para pegar um omelete que ela vai fazer. Vou almoçar omelete com luz, o que não é pouco.

Esta crônica vai para dona Da Luz, claro.

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Sobre pipocas e flores

9 de novembro de 2005, às 5:10h por Samarone Lima

Outro dia eu passava ali pelo bairro do Rosarinho (eu adoro esse nome de bairro), e vi um sujeito no telhado, um negão imenso, pendurando as lâmpadas de piscar do Natal, que cada vez estão mais baratas. Perdão, agora tem que chamar “afro-descendente”, mas era um baita de um negão mesmo, inclusive meio pesado para aquele teto franzino. Quanto às lâmpadas, não sei que mistério é esse, mas cada dia estão mais baratas, acho que é o trabalho escravo na China. Acho que daqui a uns dias, a caixinha vai custar R$ 1,99. Quando eu era pirralho, essas coisas eram mais caras e difíceis.

Acho que a humanidade anda vivendo numa pressa dos diabos. O sujeito que em outubro já está se arrumando para o Natal, definitivamente está com pressa. Daqui a pouco vai começar aquela frescura das lojas do Recife: um calor de entortar concreto, e os funcionários daquelas lojas do centro usando o gorro do papai Noel. É pra derreter o juízo. Caramba, hoje eu só estou falando besteira!

Nem sei por que comecei a falar sobre o negão e o pisca-pisca do Natal. Ah, sim, lembrei. É que em meados de novembro já começa mesmo aquele clima de fim de ano, e a gente pensa nas besteiras que fez, nas que deixou de fazer, e nas que não deveria ter feito. São os tais balanços do ano. Olha eu, falando dos outros e me apressando…

Então me ocorreu que este ano está sendo muito atribulado, mas tive algumas boas idéias, que passo a relatar, na esperança de retribuir as bondades que têm me chegado dos meus poucos mas insistentes leitores.

Uma delas surgiu de uma longa caminhada com meu amigo Iramarai. Eu tinha saído do JC On Line, estava meio morgadão, largado, escrevendo só nos meus cadernos, com saudade daquela troca com os leitores, quando ele me deu um safanão espiritual e sugeriu a criação de um blog. Depois veio a Macksandra e me ensinou a fazer tudo direitinho. E vejam só o resultado: me comunico na hora que eu quero, lê quem quer, tenho escrito muito mais, e tenho adorado esta brincadeirinha.

Ontem mesmo eu estava numa fossa danada, macambúzio e sem animação, botei minha cronicazinha sobre o tema, e o que aconteceu? Um bocado de email na minha caixa postal, com palavras bonitas e animadoras, fora os telefonemas. É como uma gemada para o espírito.

Outra boa idéia deste ano foi o “momento Kinito’s”, que criei para mim mesmo, e me resultou em importantes e fundamentais decisões. Kinito’s, para quem não sabe, é uma pipoca salgada deliciosa, feita, obviamente, pela fábrica Kinito’s, perdão pela redundância. É um troço saborosíssimo, não sei o que eles colocam dentro, que dá até barato, é melhor que ópio, apesar de não ter ainda provado ópio, a não ser do futebol, que os intelectuais de meia tigela insistem em dizer que é o ópio do povo. Custa R$ 0,25 aqui em Seu Vital, mas a tal pipoca é vendida em toda esquina do Recife, dizem até que o dono da empresa está riquíssimo, deve estar mesmo e no fundo, bem que merece, porque o cara se garante no que faz.

Uma vez por dia, paro tudo o que estou fazendo, puxo da minha bolsa uma pipoca dessas e como bem devagar, tentando não pensar em nada, somente saboreando cada pipoquinha, que é bem crocante. É preciso exagerar no barulhinho, para ficar mais saboroso, e jogar para algum passarinho, se ele aparecer.

Nem sempre dá para ficar sem pensar nada, porque a cabeça da gente é uma máquina de produzir coisas, é impressionante. Mas o “Momento Kinito’s”, especialmente nas praças do Recife, foi uma das grandes idéias de 2005. Agora vai o alerta: tem que ser a pipoca salgada, que é realmente do outro mundo, muito melhor que aqueles biscoitinhos que o Proust comeu, e que rendeu uns sete livros em busca do tempo perdido. Tomei muitas decisões maravilhosas e pensei muita besteira também, mastigando o citado produto.

Outra boa idéia para 2005 foi deixar de fazer um bocado de coisas que tinha programado, obedecendo a uma lei natural da existência que se chama preguiça, já caminhando para a vagabundagem, porque adoro os vagabundos, ainda chegarei lá.

Sim, amigos, este ano finalmente introduzi a preguiça na minha agenda, apesar de ter sido atrapalhado bastante pela figura fantástica de um bar. Mas reduzi as idas ao cinema (porque está caro demais e são quase todos longe de onde moro), fiz menos exercícios, desisti de ser boxeador com o titio Jaime, aceitei que não nasci fisicamente preparado para beber whisky e quase não conheci boteco novo. Uma noite, me levaram ao tal do Borracharia, mas de longe, vi aquela multidão, tive um faniquito e dei meia volta.

Mais uma vez, não compareci a vários aniversários, batizados, noivados, chás de bêbê, bodas, despedidas de solteiro e casamentos, pela questão elementar da preguiça. Melhor, preguiça sem culpa. Ao casamento de Bruno Fontes eu só não fui porque estava em São Paulo, acompanhando o Santa Cruz, mas a culpa é dele, do Bruno. Não sei como o sujeito, em sã consciência, é capaz de marcar o casamento para o dia do jogo do Mais Querido.

Em 2005, assisti 90% menos de telejornais, e julgo que foi muito bom para minha saúde física e mental. Deixei para ver só o finalzinho, que tem as notícias do futebol e os gols da rodada. Descobri que estar mais desinformado não me atrapalhou em nada a vida. Pelo que sei, ninguém andou me chamando de burro por ai, porque eu não sabia os nomes de quem foi cassado e de quem roubou mais. Em troca, dei umas olhadinhas básicas nas novelas. Vi o primeiro capítulo dessa “Belíssima”, achei um barato, mas no segundo dia, já começou aquela baixaria previsível da mulher velha, rica e rabugenta ficar arrasando a menina bonita e gostosinha que já foi pobre, então já vi que não dá para o meu bico. Desliguei a TV e fui cuidar do meu jardim do quintal, que foi elogiado até por dona Fátima, a minha gerente de organização da casa.

Informo que pela primeira vez, em muitos anos, escapei do crediário que a dona Ermira faz todo ano, para comprar roupas novas para mim. Em compensação, estou com cada camisa que é de doer. Mas não canto vitória antes do 31 de dezembro. Ela pode chegar a qualquer momento, com a famosa frase: “Meu filho, fiz essas comprinhas pra você”.

Uma das melhores idéias de 2005 foi uma ação besta, mas que me fez um bem danado. Cuidei com um zelo imenso do jardim do quintal e da frente da casa. Todo dia, um pouco, sem pressa. Quando menos notei, o jardim estava florescendo. Descobri que adoro ficar nesta leseira de aguar, plantar, mudar planta de lugar, enfim. Travei uma batalha heróica contra umas lagartixas (reptis lacertílios, de pequeno porte, especialmente da família dos geconídeos), que estavam detonando uma planta belíssima. Venci pelo cansaço, mas o que matei de lacertílios em 2005, não está no gibi.

A Kinito’s que me perdoe, mas cuidar do jardim é melhor que o “Momento Kinito’s”. Ah, já sei o que fazer quando terminar de vender o bar: vou botar uma cadeira no quintal, e comer uma pipoquinha olhando para as flores. Se aparecer passarinho, melhor.

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