Dois ceguinhos num dia ruim
Samarone Lima
Desço do ônibus no Derby, aguardo a vez de atravessar a rua, e ao meu lado, com sua bengala de alumínio, um cego. Fico observando. Se aproxima um ônibus, ele estende a mão para o vazio, acenando com o braço inteiro. O motorista sabe que o ceguinho vai entrar pela frente, pedir trocados e descer, então queima a parada.
Desisto de atravessar a rua para observar melhor.
O ceguinho aguarda. Pelo barulho do ônibus, ele sente a aproximação, estende o braço novamente, o motorista passa direto. O cego vira o rosto e fala zangado:
“Fila da puta!”.
Não sei como foi a aventura do meu amigo no restante do dia, porque tinha que ir trabalhar, mas o ceguinho ganhou minha simpatia imediatamente. Fiquei pensando em quantas vezes, nessa vida, deixei de soltar um “fila da puta” com algum sacana, por pudor ou vergonha mesmo.
No fim do dia, exausto e suado, um mormaço rasgando o ônibus do motorista ao último passageiro, outro ceguinho. Entra, vai até a cobradora e vem voltando, com sua bengalinha de alumínio.
“Um trocado para o ceguinho, quem puder me ajude, quem puder me ajude, que eu mereço”, repetia.
Adorei a constatação:
“Eu mereço”.
Ele para ao lado do passageiro, e repete seu mantra, com algumas moedas servindo como chocalho na mão calejada.
“Um trocadinho, que eu mereço”.
Fiquei pensando em quantas vezes deixei de dizer “eu mereço” por pura timidez.
Dois ceguinhos perambulando pelo Recife, os personagens principais desse dia ruim como o quê.
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