Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Dois ceguinhos num dia ruim

1 de dezembro de 2005, às 20:40h por Samarone Lima

Desço do ônibus no Derby, aguardo a vez de atravessar a rua, e ao meu lado, com sua bengala de alumínio, um cego. Fico observando. Se aproxima um ônibus, ele estende a mão para o vazio, acenando com o braço inteiro. O motorista sabe que o ceguinho vai entrar pela frente, pedir trocados e descer, então queima a parada.

Desisto de atravessar a rua para observar melhor.

O ceguinho aguarda. Pelo barulho do ônibus, ele sente a aproximação, estende o braço novamente, o motorista passa direto. O cego vira o rosto e fala zangado:

“Fila da puta!”.

Não sei como foi a aventura do meu amigo no restante do dia, porque tinha que ir trabalhar, mas o ceguinho ganhou minha simpatia imediatamente. Fiquei pensando em quantas vezes, nessa vida, deixei de soltar um “fila da puta” com algum sacana, por pudor ou vergonha mesmo.

No fim do dia, exausto e suado, um mormaço rasgando o ônibus do motorista ao último passageiro, outro ceguinho. Entra, vai até a cobradora e vem voltando, com sua bengalinha de alumínio.

“Um trocado para o ceguinho, quem puder me ajude, quem puder me ajude, que eu mereço”, repetia.

Adorei a constatação:

“Eu mereço”.

Ele para ao lado do passageiro, e repete seu mantra, com algumas moedas servindo como chocalho na mão calejada.

“Um trocadinho, que eu mereço”.

Fiquei pensando em quantas vezes deixei de dizer “eu mereço” por pura timidez.

Dois ceguinhos perambulando pelo Recife, os personagens principais desse dia ruim como o quê.

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Receita de Viver

1 de dezembro de 2005, às 8:12h por Samarone Lima

Publico um texto do adorável cronista Carlinhos de Oliveira, intitulada “Receita de Viver”, de 1966. Por sorte, todos os seus livros estão sendo relançados pela editora Record. Informo que minha inveja por não ser o autor desta maravilha, é fundamental. Mas para viver bem, creio, é preciso admitir plenamente nossas invejas.
Samarone.
**

Para viver bem, é preciso chegar aos trinta anos com a satisfação de se ter permitido todas as loucuras imagináveis na juventude. Principalmente no capítulo mulheres. E só freqüentar os amigos que suportam os nossos defeitos.

Recomenda-se também uma boa gargalhada, a sós, no momento de se erguer da cama: “Quanta bobagem tenho feito neste mundo! Quá, quá, quá!” A serenidade imperturbável conduz ao fanatismo, e este dá câncer.

Nenhuma preocupação burguesa ou pequeno-burguesa, como por exemplo o medo de perder o emprego ou os bens; nenhuma ambição material, fora as indispensáveis (casa, comida, roupa lavada), ou então que seja gratuita: juntar dinheiro para algum dia comprar um iate ou passar dois anos zanzando pela Europa.

Nunca ferir uma mulher a ponto de fazer-se odiado por ela. O homem inteligente é o que sabe transformar antigos amores em sólidas amizades.

Estar sempre em condições morais de perder tudo e recomeçar tudo outra vez. Interessar-se por tudo, principalmente por aquilo que não nos diz respeito.

Amar apenas uma mulher de cada vez.

Dizer sempre a verdade, seja qual for e doa a quem doer.

Conhecer um por um os nossos defeitos, curar-se dos que não são naturais e cultivar aqueles que mais nos agradam.

Evitar ao máximo o paletó e a gravata, os chatos que falam ao ouvido, as mulheres que resolvem tudo pelo telefone, os bêbados que mudam de personalidade quando lúcidos, os vizinhos muito prestativos e todo papo do qual participem mais de três pessoas.

Longa caminhada solitária pelo menos uma vez por semana.

Não discutir preços – é melhor ir embora sem comprar.

Não guardar ódio a ninguém. Dormir oito horas e, acordando, continuar na cama enquanto puder. Recusar-se terminantemente a beber uísque que não seja escocês legítimo, preferindo a cachaça como alternativa. (Isto vale apenas para quem gosta de beber e bebe frequentemente, como é o caso do autor desta receita. Neste caso, a aceitação de qualquer bebida é moralmente inquietante, pois atravessa a fronteira que separa o prazer do vício.)

Ser condescendente com o comportamento sexual dos outros. Tentar compreender cada pessoa, evitando julgá-la. Saber exatamente o momento em que os amigos gostariam de estar a sós. Ter caráter bastante para reconhecer as qualidades positivas de um eventual inimigo.

Treinar, como quem faz ginástica, para ser sinceramente modesto. Saber contar com irreverência histórias em que faz papel de bobo, e que tenham acontecido realmente.

Viver tão intensamente que possa dizer à morte, quando vier: “Já veio tarde.”

Carlinhos Oliveira
Revista Manchete, 29.10.1966

Para Fabão, meu amigo baiano, que vira balzaquiano hoje.

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