Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Apontamentos sobre o mês de dezembro

4 de dezembro de 2005, às 3:53h por Samarone Lima

E súbito, chegou dezembro. Veio deslizando, serpenteando os dias, até que se instalou, o safado.

É o mais esquisito, patético, embolado e cômico mês do ano. Não sei como é nos outros países, mas nós do Brasil, essa gente da batucada, da bagunça e da eterna esperança, entramos numa espécie de frenesi coletivo com o derradeiro mês do ano. Parece que temos que expurgar tudo e celebrar tudo, comprar tudo e parcelar tudo, numa catarse estranha, feita de objetos e mudança de estados d’alma.

Dezembro, mês da solidariedade obrigatória, do “Natal sem fome”, como se pudéssemos ter o Carnaval com fome, o São João com fome, o 7 de Setembro com fome, como de fato temos, mas dá para ir segurando até dezembro.

Dezembro, mês de uma infame criação brasileira, a tal “Caixinha de Natal”, que nasce como capim em qualquer boteco, padaria, qualquer açougue, venda, boteco.

Dezembro, mês das confraternizações, do lendário “amigo-secreto”, que gostaria de saber quem inventou.

Levantamento pessoal: tenho confraternização do trabalho (1), que é muito boa, porque geralmente é num lugar bacana e a gente não entra no racha da conta. Confraternização com meus companheiros de pelada aos domingos, o Caducos Futebol Clube (2), que é uma farra de voltar para casa num carrinho de mão, sem hora para terminar. Confraternização com os amigos da torcida do Santa Cruz (3), meu clube que agora está na Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro, perdoem o charme. Por fim, tenho a confraternização do nosso Poço da Panela, em Seu Vital (4), que é um espantoso amigo secreto de umas 60 pessoas do bairro, uma farra monumental, com discurso e muita galhofa. Informo que nos dois primeiros anos, tirei Seu Vital no sorteio, mas perdi o tri-campeonato ano passado, na cerimônia da escolha dos papéis.

Graças a Deus, não sou mais dono de bar, porque teria a confraternização com os funcionários (5). Pior: eu teria que pagar a conta.

Dezembro, mês da neve no Brasil, especialmente em shopping-center. Está lá, o Papai Noel, aquele gordinho com cara de leso, e as renas prontas para um galope em cima dos flocos de neve. Se as renas saíssem do shopping e pegassem o mormaço do Recife, cairiam durinhas de choque térmico.

Dezembro, mês da obsessão pelas compras, e tome cartão de crédito, pré-datado, cheque especial. Lembro que nesta época, minha mãe fazia uma lista dos que ganhariam presente de natal. Entrava todo mundo que ela conhecesse ou que tivesse visto, durante o ano. O lixeiro, o sujeito da bodega, a caixa do supermercado que ela gostava, o carteiro, a cabeleireira, a filha da cabeleireira, a neta da cabeleireira, uma par de vizinhos, a empregada (opa, foi mal, agora a moda é chamar a empregada de “secretária”), enfim.

Dezembro, mês de uma caridade meio forçada. Todo mundo amolece de repente, quer fazer uma coisinha boa, ajudar um velhinho a atravessar a rua, dar uma cestinha básica uma família pobre, comprar brinquedo para alguma creche, coisas que foram esquecidas ao longo do ano.

Dezembro, mês das ruas do Recife entupidas de gente, com um “gingobel” fuleiro nas lojas abarrotadas.

Dezembro, mês da saudade para quem mora fora do Brasil.

Dezembro, mês ideal para repetir a velha frase: “Nossa, como esse ano passou rápido!”.

Dezembro, mês dos balanços e promessas para 2006. Milhares de brasileiros vão parar de fumar nestes dias de dezembro.

Dezembro, mês perfeito para dizer: “Eita, daqui a pouco vem o Carnaval”.

Dezembro, mês que sempre tinha um disco novo do Roberto Carlos, uma música que estourava e ninguém aguentava mais tocar, mas o Roberto Carlos já não é mais o mesmo, pela graça de Deus.

Dezembro, o único mês que a gente pode encontrar um amigo e perguntar:

“Tirasse quem no amigo secreto?”

Dezembro, o único mês que o amigo vai olhar e responder:

“O Serjão”.

E você sabe que ela está mentindo, mas tudo bem, é assim mesmo, é dezembro, um mês meio embolado, meio fuleiro, cheio de mungangas, das miçangas, das farras, das compras dos produtos do Paraguai, das encomendas para os produtos da Avon e da Boticário, da Sidra e do Panetone, último mês do calendário, que passe rápido…

…que não vejo a hora de me benzer e botar os dois pés em janeiro.

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