Sobre a importância do copo americano
Samarone Lima
Estava ontem com o professor Davi em Mary, no Mercado de Casa Amarela, aquecendo os motores para o almoço, quando pedimos uma cerveja, sem intenção nenhuma de farrear, apenas para suavizar o instante, e a cerveja, de fato, veio. A moça trouxe uma cerveja contundida, com dois copos imensos, daqueles de tomar suco. Quando iríamos reclamar, ela já estava longe e ficamos a ver navios. Davi encheu as duas tinas muito a contragosto, eu fiquei olhando, meio desamparado, quando começamos nossa longa dissertação sobre a importância do copo americano para nossa humanidade.
Descobri que as pessoas têm afinidades eletivas, de sentimentos, mas é no detalhe que reside mesmo a grande afinidade. Só mesmo o velho e bom Davi para conversar comigo, despreocupadamente, por uns bons minutos, sobre a importância daquele copinho miúdo, que cabe exatamente a quantidade de cerveja que o sujeito necessita naquele instante. Muita gente conversa sobre a fazenda que vai comprar, o filho na Disneylândia, o Corola novo, essa besteirada toda, mas com Davi, posso me debruçar longamente sobre o reles copo americano. Isso sim, é que é uma criatura.
Depois de muito papo, me peguei numa dúvida existencial das mais fulgurantes: por que o nome do copo americano é copo americano, se ele de americano não tem nada?
Pela minha teologia, aquele copinho poderia se chamar muito bem copo “latino americano”, que ficaria ótimo. Como na Internet tem tudo, vou fazer uma pesquisa sobre o tema. Pensando bem, vou pesquisar nada não, deixemos a dúvida pairando no ar.
A conversa rendeu um bocado. Ficamos a repensar nos erros que cometemos durante o ano, e não foram poucos (Davi, para quem não sabe, acabou se tornando meu sócio acidental em um bar, que está finalmente sendo vendido). Ficamos pensando no que poderíamos ter evitado e como somos dois bobalhões até para fechar um negócio. Ele me saiu com essa:
“Prever o passado…eu sou ótimo nisso”.
Tomei nota, claro. Não é todo dia que se toma uma cerveja com um poeta.
E não sei exatamente para onde a conversa andou, porque vamos falando de tudo um pouco, quando ele me contou sobre um certo jeito de se arrumar, alguns anos atrás.
“Botava perfume Topazze, da Avon, English Lavander, da Atkinsons, e comia-se batata frita na Fans, na Conde da Boa Vista”.
Faltava algo.
“Com um chopp, claro”, completou ele.
Agora sim.
Na mesa ao lado, o sujeito disse que a esposa dele gostava de “comer tussindo”.
Tradução: ela adora uma pimenta. Coisas do Mercado de Casa Amarela, que Serjão, outro amigo, adora.
Voltamos a falar do nosso ex-negócio, das muitas horas que já esperamos para encerrar toda a negociação, quando Davi soltou essa pérola:
“Sou ridículo, tolo e bobo, mas detesto que me façam de ridículo, tolo e bobo”.
Me olhou meio invocado e completou:
“Quero sê-lo por opção”.
Concordei dos pés à cabeça.
A garçonete trouxe incontinente dois copos americanos maravilhosamente lindos, e algo ficou mais suave no Recife. Enchemos os ditos cujos e bebemos de gute gute.
Em seguida, Nana chegou, pediu um copo, contou alguma lorota e o almoço foi para o beleléu. Cheguei em casa às quatro da tarde.
É o que costumo dizer: tomar uma cerveja com Davi, antes do almoço, é um perigo.
ps. atendendo às inúmeras ordens do meu amigo Gustavo, estou deixando a timidez de lado e começando a publicar meus poemas no seguinte espaço: www.quemerospoemas.blogspot.com
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