Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Das vantagens de estar liso

16 de dezembro de 2005, às 14:11h por Samarone Lima

Ontem recebi a notícia em tom solene: meu dinheiro só vai entrar na conta dia 26 de dezembro, mediante a entrega do famoso “relatório”, o que significa mais dez dias de liseira completa, um mal que andou me perseguindo durante 2005, e que espero reparar em 2006, deus é grande.

Mas nesta entresafra, descobri algumas vantagens de estar liso, e passo a enumerá-las, bem no espírito de fim de ano, quando a gente anota as besteiras que fez e promete não repetir no ano vindouro. Vamos lá.

1. Um cabra liso não causa surpresa a nenhuma mesa, no final da farra. Quando chega a conta, tem 11 pessoas para rachar, alguém olha e diz: “O Sama está de fora, que ele está liso”. Não tem constrangimento nenhum, e ninguém reclama, a amizade se torna um bem da humanidade.

2. Você descobre que tem muitos amigos, e que eles gostam mesmo de você. Há ofertas de empréstimo do nada, gente que você achava meio mala chega com cinquentinha, e ninguém, absolutamente ninguém, cobra juros.

3. Você descobre também que a venda da esquina pode resolver todos os seus problemas, e que não é preciso cartão de crédito ou Hipercard para comprar o café, a farinha, um queijinho, a cerveja, produtos essenciais da cesta básica.

4. Um liso de cabo a rabo não fica nervoso quando ligam cobrando. A moça da Oi, sempre com um sotaque distante, liga para você, informa que você está atrasado em três faturas, e diante do irremediável, da pergunta idiota sobre o dia do pagamento, antes de cortarem a linha, você responde, com uma doçura que ela nem espera:

“Ah, meu anjo, é que estou sem dinheiro, mas estou louco para pagar essa conta, você nem imagina”.

Ela diz que vai “estar te mandando a cópia da conta”, e você ainda tira uma onda, dizendo: “evite os gerundios, querida, diga logo que vai mandar a conta”.

5. Outra vantagem de estar liso é que você não fica nervoso antes de olhar o saldo, no caixa eletrônico. Você olha para o banco e diz “tchau, guaranau”.

6. Estar definitivamente liso é ótimo porque vem aquele ceguinho batendo as paredes com aquele ferrinho, você coça os bolsos, olha que só tem o dinheiro da passagem e nem fica com peso na consciência por não ajudar um ceguinho.

7. Um liso de verdade fica muito feliz quando um amigo aluga um filme e telefone, perguntando: “Já visse aquele filme O Filho da Noiva?” Você não assistiu, vai pegar um bigu no aluguel do DVD e ainda vai dizer: caramba, em plena sessão da tarde, estou vendo um filminho.

8. Um bom liso descobre que é preciso bem menos para viver.

9. Outra vantagem de ser liso é que você entra numa livraria já tirando onda com os autores. Você olha, lambe, toma um café anotando trechos dos livros, passa os dedos nas lombadas dos livros, faz pesquisas de autores com os vendedores, mas volta para casa somente com o informativo da Livraria Cultura, que é grátis, e compra uma pipoquinha a R$ 0,25 num fiteiro da vida.

10. Quando você está liso, sempre chega alguém para dar um CD de presente e você almoça nos muquifos a R$ 3,50 achando tudo lindo.

11. No amigo secreto, ao invés de gastar uma grana, você vai a uma daquelas lojas que vendem tudo a R$ 1,99 e compra algo bonitinho, que faz o maior sucesso na hora da entrega, e todos ainda perguntam: onde encontrasse esse presente?

A única desvantagem de estar liso é que tem uma hora que você olha para um lado, olha para o outro e se pergunta: porra, esse liseu não termina nunca?

E quando passa o liseu, quando chega uma grana, você fica rico pra caralho e se pergunta:

“como uma pessoa pode sobreviver sem seu dinheirinho?”

E vai correndo para a livraria, compra aquele livraço que andou namorando semanas a fio e volta para casa de táxi, porque descobre subitamente que está cansado do Alto Santa Isabel…

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O brega venceu Onetti

14 de dezembro de 2005, às 20:45h por Samarone Lima

Saio do trabalho, um quase anoitecer no Recife, ali no Derby, uma espécie de pescoço do Recife, um lugar de eterna passagem de tudo, de gente, carro, ônibus, vendedores, anônimos, perdidos. Ninguém vai ao Derby para ficar, todos estão de passagem, como o sangue no pescoço.

Atravesso aquelas imediações de mal jeito, um dia esquisito, quem tem esses dias sabe, quem não tem dia ruim, louvado seja, ou é santo ou é besta. Nesses dias, eu respiro mal, hoje eu era um desses homens sem pulmões, atravessando o Derby devagar, como quem vai mas não chega, vai mas não vai. Cruzo o parque sem flores, sem nada, cruzo a Restauração, aquelas barracas mata-fome dos parentes dos doentes e transeuntes, um sujeito lava as salsichas numa bacia que pelo amor de deus.

Pego à esquerda, passo defronte ao Santa Joana, que hospital lindo, parece um hotel, mas é só para quem pode, e poucos podem, depois viro à direita, acho que era rua das Crioulas e continuo o mesmo, cadê o oxigênio do Recife para meus pulmões? Sem respirar, paro no Bacia D’Barro, assim mesmo, com apostrofe. Sento, pego o caderno e faço anotações sem rumo. Escrevo telegramas para os que amo, cheios de saudade e espanto. Quero saber o que aconteceu com o Agenor, meu amigo da 5a série do Salesiano, em Fortaleza, e se a Sandrinha, que conheci em Belém, em 1991, está feliz, depois daquele nosso romance de verão, e sinto que tudo em meu coração está mais ameno, se dissipando, é bom sentir isso.

Guardo a nostalgia na algibeira. Abro Onetti, o velho e bom Juan Carlos Onetti, com o maravilhoso “A vida breve”, publicado em 1950 no Uruguai, e que só agora, anos depois, nos chega, o Brasil parece que lê tudo em braille. Leio, releio, tomo notas, tentando aprender. É minha Bíblia, meu Alcoorão, meus 10 Mandamentos, meu Torá, meu Evangelho Segundo o Espiritismo. Cada página, uma humanidade inteira.

O bar vai enchendo. Na TV, com DVD, “Calcinha Preta” e “Saia Rodada”, essas maravilhas do brega. Onetti me fala de “corações sem esperança”. “Quanto a mim, só podiam convir-me o júbilo e a inocência”, diz, meu amado uruguaio, louvado seja.

Aos poucos, o ar começa a me chegar. A literatura, este balão de oxigênio, obrigado. Quero silêncio, um pouco de silêncio, um cálice de silêncio, para o anoitecer chegar nos ossos e nas pálpebras, nos olhos e na alma, para aceitar que tudo é assim mesmo, a alma não tem chão definitivo, só abismos e céus, um de cada vez, os dois juntos é um clarão.

Acaba “Calcinha preta”, pela graça divina. Então o som é ligado, eu não sei quem canta em voz alta, um órgão nervoso e apressado, som de churrascaria sabendo a fumaça e carne tostada. Fecho Onetti, para que não sofra tanto. “Comoções sem esperança”, tinha dito ele em algum parágrafo, lo siento, Onetti. O brega come solto no bar, estou mais para Ben Harper, “excuse-me mister”.

Recolho tudo, me recolho, guardo Onetti, pago a conta, volto para casa no meu passo de camundongo. Antes, passo na Praça do Entroncamento, para ver o presépio gigante, eu não ligo para presépio, mas gosto de ver a manjedoura só por causa da palavra, manjedoura, que acho linda.

São oito da noite. Pego o ônibus. A cobradora me recebe com um sorriso exausto. Está trabalhando desde as cinco e meia da manhã, me diz, é a pisada de segunda a sábado, com a folga só no domingo. Na semana do Natal, nem o domingo vai escapar. Paramos numa ponto, um fiscal olha rasteiro e puxa assunto. “Ele quer saber se a gente cochila, depois de tantas horas de trabalho”, diz, melancólica, exausta, e hoje antecipamos U$ 14 bilhões para o FMI, achando isso tudo lindo, somos bons otários pagadores.

O brega venceu Onetti, o cansaço venceu a cobradora, e no íntimo, perdão pela confissão, um sentimento de derrota, então o Onetti ressurge e diz: “E como nos falta a grandeza necessária para pôr outro objetivo no lugar da felicidade…”

meus poemas estão no www.quemerospoemas.blogspot.com

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Brasil, um país que não entendo

13 de dezembro de 2005, às 8:09h por Samarone Lima

Desde que me entendo por gente, sou brasileiro, nascido nas entranhas do Ceará, uma cidade chamada Crato, vizinha a Exu, em Pernambuco, e por isso tenho esta alma assim, tão pernambucana. Isso foi em 1969, na Maternidade Santa Theresinha, creio, no terceiro dia de maio, e de lá pra cá, muita água passou por debaixo da ponte.

Nesses 36 anos, muita coisa aconteceu, mas continuo desenvolvendo um problema existencial de largas proporções: não consigo entender este País em que vivo, chamado Brasil.

Vi outro dia uma pesquisa da Reuters sobre a felicidade: 56% dos espanhóis se sentem “muito felizes” com suas vidas (creio que a torcida do Barcelona ajudou muito a subir o índice, com aqueles golaços do Ronaldinho Gaúcho). Os franceses são apenas 42% muito felizes, uma coisa de dar dó, os italianos são 49% e os alemães, 52%. Com esta pesquisa da AGF/Allianz, mudei inclusive minha visão de mundo sobre a Europa, porque achava aquelas criaturas meio entediadas com todo aquele bem estar, eu percebia, nas entrelinhas, um certo enfado europeu, deve ser inveja minha por não encontrar um hospital decente na rede pública.

Pois bem. E o Brasil?

Amanheci com esta dúvida filosófica latejante sobre a minha pátria. Como explicar o inexplicável? De vez em quando, na verdade, eu me pego com uma dúvida ainda mais profunda: como este País ainda segue funcionando?

Fiz um pequeno estudo de caso. Conversando com um amigo, ele me contou que levou a filha no hospital (ela tinha cortado o indicador da mão esquerda), foi feita a sutura, o médico assinou os papéis, ele foi ao plano de saúde, para ser ressarcido. A mulher do atendimento disse que o médico não tinha explicado, na papelada, o procedimento. Ele mostrou o dedo da filha suturado e explicou:

“Foi uma sutura na falange do dedo indicador da mão esquerda”.

Nada. Ela viu o dedo com esparadrapo, a assinatura do médico, mas se manteve incólume, essa palavra é boa. Davi, ôps, meu amigo, insistiu, explicou que teria somente o trabalho de atravessar a cidade para o sujeito escrever duas linhas, que ela mesma poderia complementar o documento, que foi apenas um esquecimento, um ato falho, como dizem os psicanalistas freudianos e lacanianos. Nada feito.

Então meu amigo desceu do prédio, procurou um boteco, pediu um chopp e escreveu:

“Procedimento realizado: sutura na falange do dedo indicador da mão esquerda”.

Tomou outro chopp, um quartinho, uma cerveja, que Davi não é de ferro, voltou lá, entregou o documento e a moça abriu um largo sorriso:

“Agora sim, está tudo corretinho…”

Certa vez, eu estava numa pindaíba danada, uma febre do rato mesmo, quando fui em busca do seguro-desemprego. Uma fila dos diabos, uma burocracia, aquela maravilha dos oito anos do Fernando Henrique, uma eternidade da qual milhões de brasileiros ainda não se recuperaram. Peguei minha ficha, acho que era um número acima de 200, 199 fodidos mais eu, olhei o número do atendimento, estava em 80, saí, tomei café, li um jornal, escrevi minhas besteiras e voltei, duas horas depois. Ainda tinha uns 20 na minha frente, quase todo mundo esperando em pé, com calor, sede e fome, eu tenho uma certa facilidade para reconhecer gente que está com fome, os olhos parecem ter neon avisando “fome, fome, fome”.

Na minha vez, a moça olhou a Carteira de Trabalho de trás pra frente, sacolejou, espremeu, baculejou, soprou, quase arrancou meu retrato com 17 anos, até que me olhou com aquele sorriso de gozo da burocracia e afirmou peremptória (hoje estou demais com o meu português clássico):

“Senhor, temos um problema na sua Carteira…”

Eu quase chorei de desconsolo. Era uma ONG que eu tinha trabalhado uns três anos antes, que tinha quebrado sem dar a famosa “baixa da carteira”. Expliquei tudo, disse que estava numa febre do rato desgraçada, ela não entendeu meu pernambuquês, eu disse que estava liso mesmo, quebrado, na lona, duro, na pindaíba, zerado, liso, ela escutou com aquela cara de cera de FHC e disse o famoso “não posso fazer nada”, uma das frases mais idiotas da língua portuguesa, porque você sempre pode fazer alguma coisa por alguém, até no jeito de falar você pode ser útil com qualquer pessoa, é o tal do afeto mínimo. Ela, a múmia de FHC, me disse que bastava eu ir à Junta Comercial, procurar o setor de falências, encaminhar meu processo, que em duas semanas saía a baixa na minha carteira, para eu entrar com o pedido, que sairia em duas semanas. Do meu lado, um sujeito sem dentes era informado:

“Senhor, em 1979 o senhor não deu baixa nesta empresa que o senhor trabalhou em Goiás”.

Eu quase choro por mim, por ele e por aquela desgraça toda, outro dia FHC veio receber o título de Cidadão Pernambucano, aquela Praga do Egito, boçalidade do sapato ao cocoruto, explicou tudo que estava errado, avaliou todos os erros, voltou a ser sociólogo, falou de ética na política, mas não disse que foi reeleito comprando voto de deputado, todo mundo sabe que cada picareta daquele custou R$ 200 mil, e tome mais quatro anos, deu no que deu.

Fui à Junta Comercial de São Paulo, imaginem. Era uma multidão de norte a sul. Fiquei na calçada esperando aquela ajudinha divina, aquele momento do desconsolo completo, que dizem também ser o momento do inconsciente maquinando. Olhei do outro lado da rua, tinha uma empresa de fazer carimbos. Pedi para fazer um carimbo com o nome da ONG, fui tomar meu chopp, que ninguém é de ferro, carimbei a carteira e levei para meu irmão Gustavo assinar. Ele assinou, deu baixa na minha carteira, voltei à fila do Seguro Desemprego, outra chatinha-FHC bonitinha me atendeu e encaminhou o seguro-desemprego. Salvo engano, fora cinco parcelas de 250 mangos, uma invenção do José Serra, que Deus o tenha, mas o mantenha longe da presidência.

De formas que comecei e terminei esta crônica sem entender o Brasil. Aqui na minha rua, vai passando agora uma Kombi vendendo aquelas bandejas de ovos com um megafone em cima:

“Direto da Granja Santa Luzia, de Paudalho, aproveita freguesa, aproveita freguesa, são trinta ovos por quatro reais”.

Não sei se isso tem na França, com seus 42% de muito felizes, mas eu adoro.

Ontem à noite, me ligou o amigo Ailton, vulgo “Peste”, do Alto José do Pinho. Eu disse o “olá” de sempre, e ele emendou:

“Olá, é Samarone Lima? Aqui é Peste Lima, seu conterrâneo da Terra do Nunca”.

Tive um acesso de riso e conversamos muito. No final, ele completou, dizendo:

“O Pastor Peste, da Igreja Universal Cadê o Meu, vai se despedindo”.

Peste, um negro sorridente, de coração imenso, que mora no Alto José do Pinho, ganha menos de um salário mínimo e faz um trabalho social na periferia de Olinda, com adolescentes em situação de risco. Agora, enquanto escrevo estas besteiras, ele está em Aguazinha, fazendo um trabalho com uma turma de filhos de catadores de lixo. Os filhos deveriam estar se ferrando no lixão também, ou fazendo coisas piores, mas estão em sala de aula, com Peste.

Então, viva Peste, viva os ovos da Granja Santa Luzia e viva a vida, que é melhor do que ficar tentando enteder o Brasil.

Para Naire Valadares.

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Coisas bestas para fazer no exterior

9 de dezembro de 2005, às 10:19h por Samarone Lima

É muito bom viajar para o exterior, eu mesmo já viajei pra caramba, conheço um montão de países, se pudesse viajava o ano inteiro. Mas o que é bom mesmo é curtir com os lugares comuns, aquele negócio de ficar tirando onda com os chavões internacionais.

Lembro que fui a Paris em 1995, fiquei um mês inteiro perambulando, hospedado na casa de Luzilá, tomando aqueles cafezinhos bacanas, olhando a francesada passar, até que certo dia resolvi ir à Sorbonne. Puxa vida, o berço de um bando de gente sabida, esses caras que influenciaram parte da humanidade, aquela coisa toda, um glamour do conhecimento, das Ciências Humanas, que adoro. Fiquei olhando tudo, com uma inveja danada daquela moçada que circulava, alguns certamente com bolsas de estudo, eu sou um sujeito fissurado por bolsa, seja ela qual for, até bolsa a tiracolo.

Pois bem, não sei se foi a emoção ou uma baguette vencida, o fato é que senti uma dor de barriga devastadora. Quando menos vi, estava usando o sanitário da Sorbonne. Puxa, que dia glorioso! Que alegria, dar minha contribuição à legendária Sorbonne! Demorei bastante, me deliciando, rindo daquilo tudo. Procurei uma caneta para escrever alguma besteira, mas estava sem caneta, que vacilo.

Terminei, dei a descarga, me organizei e saí com o peito estufado. Já perguntei a vários amigos e nenhum deles usou o sanitário da Sorbonne. Inácio, único amigo que já leu e cita trechos de “Crime e Castigo”, de Dostoievsky, nunca freqüentou o WC da lendária Universidade. Fico pensando: pra que ler tanto?

Uns dois dias depois, fui ao Louvre, porque já fui chique. Andei, andei, era gente do mundo tudo, fui andando com meu passinho de camundongo, até que esbarrei numa multidão, olhando um pequeno quadro. Amigos, juro que não dava dois palmos da minha mão, uns 50 centimetros pra cima e pra baixo. Era ela, a famosa Monalisa, do Leonardo da Vinci, dependurada na parede.

Me aproximei, olhei a criatura, aquele quadro que valia uma verdadeira fortuna, que aparece em tudo que é de calendário desde que sou pirralho, vi bem de perto e senti mesmo foi uma enorme decepção. Mas isso é que é a Monalisa?

Informo a quem estiver interessado em comprar a Monalisa: é um quadrinho meia boca, chinfrim mesmo, pequeno. De perto, ela é aguadíssima, não pegaria uma ponta na novela das seis. Eu até tinha simpatia pela moça, mas de perto, olhos nos olhos, ela não faria sucesso nem no ônibus do Alto Santa Isabel. Me deu vontade de dar uma vaia, mas vaia é uma coisa que o sujeito precisa de muita personalidade para dar sozinho. De um lado, japoneses, de outro, americanos. Atrás de mim, mais japoneses ou vietnamitas, eu nunca sei, acho que eram os japas mesmo. Não, japonês não é um povo que sabe vaiar como o nosso, Pernambucano. Tive que segurar a vaia, para não causar problemas aos seguranças do Louvre. Usei-a depois contra os rubronegros daqui, no Arrudão.

Em 2000, fui ao Central Park, em Nova York. Sinceramente, é uma Parque da Jaqueira dez vezes maior, um Ibirapuera mais largo, com mais flores. Não vi nenhum famoso, como Woody Allen, Susan Saradon, ou aquela gostosona da Elizabeth Shue. Nenhum bacana jogando o pedaço de pau, para o cachorro trazer na boca, como acontece no cinema. Sequer um reles, um magérrimo, desdentado pipoqueiro. Fiquei perambulando, chateado com Hollywood, que vende tanto gado por lebre. Nem pedrinha para chutar tinha!

Na República Tcheca, visitei a casa do Franz Kafka. Puxa, o sujeito viveu num muquifo mesmo. Apesar de a rua ser bonitinha, o Franz teve uma habitação meio ordinária. Não tinha sequer um armador, para ele pendurar sua redinha. Por isso saíram aqueles livros angustiados, concluí. Tirei uma foto na frente, acho que já perdi a foto, mas hoje deve ter gente fazendo o mesmo que eu, dez anos atrás, buscando as pegadas do Franz, me perdoem a intimidade. Depois disso, nunca mais fui em casa de escritor. Melhor ver os livros mesmo.

Por falar nisso, fui visitar o túmulo do Proust, lá em Paris. Rodei, rodei, aquele Pére Lachaise é imenso, morreu muita gente mesmo, desde que criaram a França, acabei chegando lá e imediatamente me senti idiota. Primeiro, porque só li o primeiro dos livros dele, aquele “Em Busca do Tempo Perdido”, aquele em que ele come um biscoito e quase goza. Depois, eu fiquei me perguntando: que diabos estou fazendo aqui?

Há milhares de coisas para se fazer no exterior, como tomar uma cerveja num boteco velho, ir a um cinema na periferia, ver uma pelada no meio da rafaméia, assistir um jogo de dominó. Agora, o sujeito sai do Brasil e vai olhar o túmulo do Proust?

Sinceramente, tem épocas que a gente é otário e não sabe.

Uma das melhores viagens da minha vida foi para a Argentina. Ficávamos no andar superior do albergue, em Buenos Aires, os três patetas: eu, Gustavo e Daniel Raton. Começávamos a conversar inutilidades às 8h da manhã, e quando menos notávamos, já eram cinco da tarde. Enquanto isso, dezenas de turistas passavam, com seus guias de viagem, mapas de lugares obrigatórios, máquinas fotográficas.

Ficamos vários dias assim. No íntimo, sentíamos uma certa solidão naqueles bandos de turistas, sedentos por fotos e emoções. Eles falavam de lugares, não das pessoas. Não trocaria aquelas longas conversas dos três patetas, por nenhum passeio pela encantadora Buenos Aires.

Nesta mesma viagem, aconteceu algo encantador. Eu estava escrevendo um texto, estava um calor dos diabos e faltou energia no quarteirão onde funcionava o albergue. A faxineira, uma boliviana, me ofereceu a casa dela, que ficava ali perto, para que eu não interrompesse o meu trabalho. Aceitei, lógico. Ela me levou e me apresentou sua companheira, uma senhorita argentina, que me preparou um café. Sim, viviam juntas e se amavam muito, me contaram depois.

Fiquei ali, numa casinha apertada, o ventilador rangendo, na casa-da-esposa-da-zeladora-do-albuergue. No quarto delas, havia várias fotos de mulheres nuas.

Existe passeio mais lindo que esse, ser recebido no meio do amor de duas mulheres, no coração de Buenos Aires?

ps. obedecendo ordens superiores, continuo publicando meus poemas e poemas alheios no blog www.quemerospoemas.blogspot.com

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Sobre a importância do copo americano

7 de dezembro de 2005, às 8:11h por Samarone Lima

Estava ontem com o professor Davi em Mary, no Mercado de Casa Amarela, aquecendo os motores para o almoço, quando pedimos uma cerveja, sem intenção nenhuma de farrear, apenas para suavizar o instante, e a cerveja, de fato, veio. A moça trouxe uma cerveja contundida, com dois copos imensos, daqueles de tomar suco. Quando iríamos reclamar, ela já estava longe e ficamos a ver navios. Davi encheu as duas tinas muito a contragosto, eu fiquei olhando, meio desamparado, quando começamos nossa longa dissertação sobre a importância do copo americano para nossa humanidade.

Descobri que as pessoas têm afinidades eletivas, de sentimentos, mas é no detalhe que reside mesmo a grande afinidade. Só mesmo o velho e bom Davi para conversar comigo, despreocupadamente, por uns bons minutos, sobre a importância daquele copinho miúdo, que cabe exatamente a quantidade de cerveja que o sujeito necessita naquele instante. Muita gente conversa sobre a fazenda que vai comprar, o filho na Disneylândia, o Corola novo, essa besteirada toda, mas com Davi, posso me debruçar longamente sobre o reles copo americano. Isso sim, é que é uma criatura.

Depois de muito papo, me peguei numa dúvida existencial das mais fulgurantes: por que o nome do copo americano é copo americano, se ele de americano não tem nada?

Pela minha teologia, aquele copinho poderia se chamar muito bem copo “latino americano”, que ficaria ótimo. Como na Internet tem tudo, vou fazer uma pesquisa sobre o tema. Pensando bem, vou pesquisar nada não, deixemos a dúvida pairando no ar.

A conversa rendeu um bocado. Ficamos a repensar nos erros que cometemos durante o ano, e não foram poucos (Davi, para quem não sabe, acabou se tornando meu sócio acidental em um bar, que está finalmente sendo vendido). Ficamos pensando no que poderíamos ter evitado e como somos dois bobalhões até para fechar um negócio. Ele me saiu com essa:

“Prever o passado…eu sou ótimo nisso”.

Tomei nota, claro. Não é todo dia que se toma uma cerveja com um poeta.

E não sei exatamente para onde a conversa andou, porque vamos falando de tudo um pouco, quando ele me contou sobre um certo jeito de se arrumar, alguns anos atrás.

“Botava perfume Topazze, da Avon, English Lavander, da Atkinsons, e comia-se batata frita na Fans, na Conde da Boa Vista”.

Faltava algo.

“Com um chopp, claro”, completou ele.

Agora sim.

Na mesa ao lado, o sujeito disse que a esposa dele gostava de “comer tussindo”.

Tradução: ela adora uma pimenta. Coisas do Mercado de Casa Amarela, que Serjão, outro amigo, adora.

Voltamos a falar do nosso ex-negócio, das muitas horas que já esperamos para encerrar toda a negociação, quando Davi soltou essa pérola:

“Sou ridículo, tolo e bobo, mas detesto que me façam de ridículo, tolo e bobo”.

Me olhou meio invocado e completou:

“Quero sê-lo por opção”.

Concordei dos pés à cabeça.

A garçonete trouxe incontinente dois copos americanos maravilhosamente lindos, e algo ficou mais suave no Recife. Enchemos os ditos cujos e bebemos de gute gute.

Em seguida, Nana chegou, pediu um copo, contou alguma lorota e o almoço foi para o beleléu. Cheguei em casa às quatro da tarde.

É o que costumo dizer: tomar uma cerveja com Davi, antes do almoço, é um perigo.

ps. atendendo às inúmeras ordens do meu amigo Gustavo, estou deixando a timidez de lado e começando a publicar meus poemas no seguinte espaço: www.quemerospoemas.blogspot.com

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