Confissões de um cronista desempregado
Samarone Lima
Aqui vai uma confissão: entrei em janeiro na condição de jornalista e cronista desempregado. Não é a primeira vez e não será a última, creio, tanto que não chego a me assustar. Como não tenho filhos, não pago plano de saúde, não tenho TV a Cabo, carro e não uso cartão de crédito, minha vida financeira tem somente uma definição: eu só gasto o que tenho. Quando não tenho, peço emprestado, até chegar de novo. Talão de cheque ou a famosa frase “entrei no cheque especial” não acontecerá jamais comigo, porque usei cheque uma vez na vida, fiquei absolutamente nervoso e cancelei imediatamente. Meus luxos são modestos e baratos.
O desemprego chegou sem alarde, sem aquela miséria chamada “aviso prévio”, foi de mansinho, sem dor, logo que terminei mais uma das muitas consultorias para o Unicef. Do alto da minha prosopopéia, garanto: até dezembro de 2005, eu era um “consultor” do Unicef, a palavra tem uma certa imponência, eu sentia que era algo muito importante mesmo, porque o lema do Unicef é “Fazendo a Humanidade Avançar”, é muito bom ajudar não só meu bairro avançar, mas a humanidade inteira. Como não tem consultoria em vista, só me resta escrever sobre minha nova condição existencial, que é a de desempregado, a humanidade que avançe sem minha interferência direta.
Fiz um levantamento. Desde que voltei ao Recife, em 2000, já fui professor de Jornalismo (Universidade Católica), fiz uns frilas para o Diário de Pernambuco, dei oficinas de comunicação para um monte de ONGs, trabalhei como assessor de comunicação da Articulação no Semi-Árido Brasiliro (ASA), fui dono de dois bares, escrevi uns livros para o Unicef e batuquei minhas crônicas para o JC On Line e depois aqui no Blog. Em cinco anos, somente um ano e meio de carteira assinada. O resto foi contrato e frila.
Pelas minhas contas, só vou me aposentar com uns 92 anos, se vivo for, porque eu realmente não ajudo muito o INSS com esse negócio de consultoria. Raras vezes na vida recebi um décimo-terceiro salário, e férias mesmo, aquela com dinheiro na conta, é uma lenda. Eu é que me dou umas férias, de vez em quando, como fiz na semana passada. Quando saí da Católica, tive direito ao famoso “seguro-desemprego”, período em que me dediquei a reescrever a versão final do meu livro “Clamor”, publicado em 2003, é uma coisa muito boa, receber dinheiro para ficar em casa, só escrevendo. No final, ainda sai um livro novinho em folha, já citado anteriormente, por sinal vi um exemplar hoje na Livraria Cultura.
Estou de volta à realidade. Fui ao banco hoje e ainda tenho uma reserva técnica, que vai dar para chegar vivo até o final do próximo mês. Depois disso, não sei o que vai acontecer, especialmente porque temos o Carnaval pela frente, e é uma festa que não é bom estar liso, mas posso dizer que pelo menos a farra está garantida, ninguém neste mundo merece passar um Carnaval liso, é muita maldade voltar para casa cheio dos paus num Corujão da vida.
Então acontece algo comigo que é meio misterioso, espiritual, um fenômeno inexplicável: eu sempre acho que vai chegar algo, que vou escapar fedendo, aos 45 do segundo tempo. E como tenho esta esperança sempre viva, tenho já escapei de muitas e muitas frias, a principal foi em São Paulo, quando fiquei desempregado, morando numa pensão, passando o maior frio da minha vida, parecia aquele livro do Oswaldo Soriano, “Triste, solitário e final”. A mão divina foi um frila em um jornal da Igreja Católica, quando eu tinha somente R$ 30,00 na conta. Foi pelo gongo mesmo, e escrevi uma matéria sobre o “Dia Mundial da Alimentação”, que ajudou muito a matar minha fome.
Vamos ver o que dizem os astros. Até sair alguma novidade, só garanto uma coisa: continuarei escrevendo minhas crônicas por aqui. Pelo menos o Blog é de graça e escrever é a coisa mais barata do mundo. Eu com um caderninho, uma caneta Bic e tempo livre, vou escapando bem.
Amanhã escrevo mais, que estou animado com a minha vida de desempregado. Sobra tempo para pensar as besteiras fundamentais. Se alguém tiver emprego, por favor não me avise, porque pretendo curtir a minha fase de desempregado sem nenhum tipo de cobrança, seria estragar este bom momento da vida.
O Governo bem que poderia dar um seguro-desemprego para quem vive de bicos e frilas, além dos consultores. Do meu púlpito, lanço o brado: um seguro-desemprego para cronistas desempregados, de norte a sul do Brasil!
ps. voltei a publicar os poemas no www.quemerospoemas.blogspot.com
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