Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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O melhor do Recife, versão popular

9 de janeiro de 2006, às 10:11h por Samarone Lima

Todo ano, a revista Veja publica o “melhor do Recife”, um guia de bares, restaurantes, botecos e o escambau, eleito por um júri eclético. Os ganhadores recebem diploma e colocam num lugar bem visível, para todo mundo saber quem é o “melhor da cidade”, uma espécie de atestado de “eu sou fodão”.

Um amigo resolveu fazer uma edição bem mais popular, para ser lançada agora em junho, um rastreamento menos refinado das coisas de nossa cidade, e me mandou a série de perguntas abaixo, algumas bem cabulosas mesmo. Depois de uma ampla pesquisa comigo mesmo, cheguei à minha listagem final, que passo a compartilhar com os simpáticos leitores deste blog, na esperança de não atrapalhar os planos editoriais do meu amigo. Vamos lá:

Melhor Boteco do Recife: Bar Vital, no Poço da Panela, apesar da falta de tira-gosto e da mistura na marca das cervejas, o que importa é o ambiente e as pessoas, o que adianta cerveja geladíssima, garçom bacana, tira-gosto supimpa, se não aparece Lulu, por exemplo, para a gente brincar de coçar o cocoruto do louro, e se o dono do bar é incapaz de dançar com uma vassoura?

Melhor cabeleireiro do Recife: Eliete, do Alto José do Pinho, a única que consegue acalmar minha vasta cabeleira, enquanto conversa com as outras clientes e escuto tudo para uma nova crônica, coisas da alma feminina, esse eterno mistério a ser desvendado todos os dias.

Melhor caldinho do Recife: Caldinho de Seu Biu, no mesmo Alto citado anteriormente, onde Flavio vai atendê-lo com aquela voz de locutor de FM e apresentar a conta sem alarde, algo que não chega nunca a doer.

Melhor Ele & Ela do Recife: O mesmo citado anteriormente, especialmente se o produto for apreciado ao lado de Ailton “Peste”, com aquela sua conversa fiada. Informo quem não sabe o que é um “Ele & Ela”, não está conhecendo as coisas boas da vida.

Melhor mercado do Recife: Racionalmente, é o da Encruzilhada, mas, por motivos sentimentais, filosóficos e existenciais, o de Casa Amarela ganha por uma cabeça (lá em Casa Amarela, é possível encontrar o professor Davi e tomar uma boa cerveja em Mary, saboreando um peixe ao côco).

Melhor livraria do Recife: A “Livro 7”, especialmente num período de formação da minha vida, de 1987 a 1994, quando morei no Recife pela primeira vez, in memorian. Todas as outras serão pálidas comparações.

Melhor estádio do Recife: Colosso do Arruda, especialmente as arquibancadas, junto à Sanfona Coral, na hora do gol do Santinha.

Melhor campo do Recife: Campo de Seu Abdias, no Poço da Panela, especialmente aos domingos, de preferência sem o mudo no time, porque ele reclama demais, imagine se falasse.

Melhor pizza do Recife: Não sei, quase não como pizza, apesar de gostar muito, e pra mim, pizza tem tudo o mesmo sabor, que vem a ser o “sabor de pizza”, perdão pela ignorância, quem tiver opinião mais elaborada que aponte.

Melhor sushi do Recife: Também não sei a diferença, se vem tudo igualzinho no prato, apesar de adorar sushi, acho especial aquele negocinho verde que dá uma esquentada geral no rango.

Melhor cineasta do Recife: Camilo Cavalcanti (e é porque eu nem vi o último filme dele, que dizem ser do caralho).

Melhor hospital do Recife: Eu lá quero saber de hospital!

Melhor cemitério do Recife: Vôte!

Melhor café do Recife: Todos os cafés de Buenos Aires e Montevidéu.

Melhor bolinho de bacalhau do Recife: Os bolinhos de Dona Da Luz, apesar de admitir que estou forçando a barra, por motivos sentimentais.

Melhor Troça Carnavalesca do Recife: Os Barba, novamente por questões sentimentais, me perdoem, mas sou sentimental mesmo.

Melhor dia do Carnaval do Recife: A pergunta é absurda. Todos os dias, mas Olinda não pode ficar de fora da questão, porque no Carnaval, as duas cidades se tornam irmãs siamesas e irreversiveis.

Melhor poeta do Recife: Carlos Pena Filho, autor daquele absurdo “Soneto do Desmantelo Azul”. É preciso botar sempre uma flor no túmulo deste poeta.

Melhor hora do Recife: Não sei, mas não é às seis da noite, com Luiz Gonzaga cantando “Ave Maria”, na Universidade Católica, momento em que o sujeito é tomado por um desamparo irreversível e desumano.

Melhor suco do Recife: O que Dona Fátima, minha vizinha, faz a cada três dias, de maracujá, empatado com o suco de Thiago, que tem um fiteiro ao lado do Unicef, também de maracujá.

Melhor Fiteiro do Recife: O de Thiago, já citado, porque sempre tem suco de maracujá prontinho e na medida, por R$ 0,50 o copo.

Melhor feijoada do Recife: A de dona Madalena, servida na casa de Joãozinho, antes dos jogos decisivos do Santinha.

Melhor taxista do Recife: Zinho, o “Garotinho”, que vai conversando na viagem e à noite, faz dupla no dominó comigo.

Maior leseira do Recife: Você acaba de ler, mas a sorte é que foi de graça.

ps. Vou sugerir que meu amigo faça uma edição do “Pior do Recife” também. Vai dar um samba bom.

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