Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Folhas de Relva (da Vida)

19 de janeiro de 2006, às 12:50h por Samarone Lima

A cada viagem, tenho um ritual simples, mas fundamental. Preciso de um bom caderno, que aguente mesmo o tranco, umas três canetas, e de um livro, e somente um, para me acompanhar, para não me sentir nu. Muitas vezes, sinto uma angústia antes da viagem, que é a de não encontrar ” ele”, o livro que vai caminhar comigo. Diria que o livro é mais importante que o destino.

Hoje, boto o pé na estrada, rumo ao Planalto Central, com desdobramentos ainda incertos, porque não sou desses que viajam com guia, mapas, reservas em hotéis. Eu simplesmente vou, e estou indo.

E ontem, o encontrei. Minto, porque foi um reencontro. Ele se chama Walt Whitman, o velho barbudo, o grande poeta da humanidade. Eu tinha uma edição antiga, dos anos 80, a capa vermelha, o desenho dele. Está toda rabiscada, coitada. Esbarrei na edição de luxo (bilíngue) da Iluminuras, e fiquei gelado, dos pés à cabeçca. De certa forma, minha viagem já começou. Ele está comigo em todos os lugares. Precisava falar dele, antes de botar o pé na estrada.

” Vadie na relva comigo… solte o nó da garganta,
Nada de palavras música rima alguma… nem bons-costumes ou sermões, nem mesmo os melhores, só quero sua calma, o zunzunzum de sua voz valvulada.
Lembro da gente deitado em junho, numa transparente manhã de verão;
você pousou sua cabeça em meus quadris e delicadamente veio pra cima de mim,
e desabotoou a camisa do meu peito, e mergulhou sua língua no meu coração nu,
e estendeu a mão até tocar minha barba, depois até tocar meus pés.

De repente se ergueram e grassaram à minha volta a paz e a sabedoria que superarm
toda arte e agumento desta terra;”

Trata-se da primeira Declaração Universal dos Direitos dos Homens, e fico intrigado como um mesmo país, os Estados Unidos, pode nos dar um Walt Whitman e um George Busch. Não posso reclamar muito, percebo, nós demos ao mundo um Pixinguinha, um Garrincha, mas nos demos também um exemplo de como viver nos extermos da miséria e da riqueza, sem uma guerra civil declarada, os norte-americanos devem ficar confusos, relativizemos.

“E sei que o espírito de Deus é meu irmão primevo,
e que todos os homens que já nasceram até hoje são meus irmãos… e todas as mulheres minhas irmãs e amantes,
e que o amor é a quilha da criação”.

Ulalá…

“Uma criança disse, O que é a relva? trazendo um tufo em suas mãos;
O que dizer a ela?… sei tanto quanto ela o que é relva”.

Se eu pudesse, copiaria o livro todo neste blog, em pequenas partes, mas tiraria dos leitores que amam a poseia, o prazer do livro, de ver as fotos dele, de sentir o cheiro da relva em cada página, onde a humanidade inteira pulsa.

Encerro com esta pequena jóia:

“Bois que chacoalham a canga e as correntes ou param na sombra, o que dizem seus olhos?
Pra mim isso diz mais que todos os artigos que já li”.

“A pressão do meu pé sobre a terra mina mais de cem carícias.
Elas desdenham meus melhores esforços para descrevê-las”.

Vadie na relva comigo, diz ele.

Vou ali, fechar minha sacola, e partir para mais uma vadiagem. De onde estiver, mandarei minhas relvas.

Viva a vida.

Postado em Crônicas |

3 Comentários

  1. Luiz Disse:

    Viva, i gracias.

  2. Andreia Santos Disse:

    aplausos…
    bj

  3. Sonia Disse:

    Tem razão, Samarone, livros são ótimos companheiros de viagem. E em casa também.

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