Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Florescimentos

24 de janeiro de 2006, às 17:49h por Samarone Lima

Não sei exatamente quando mudo, quando algo se transforma em mim. Sei que em algum momento, por volta dos 25/26 anos, fiquei mais lento, mudei o rumo do passo, e foi uma mudança profunda. Tenho um fascínio por este tema, o da lentidão, da mudança, e gosto de reparar nos outros, nas pessoas que quero bem, gosto também de ver quando uma cidade muda, quando uma paisagem se modifica, é meu fascínio.

Não sei exatamente quando, mas um dia descobri que minha tia Flocely tinha envelhecido. Foi um momento em que ela dobrou a esquina.

Não sei quando a gente deixa de amar uma pessoa que era tão importante, era fundamental, era “tudo” para o desejo, para alma, para o coração, para o espírito. Mas há um momento, e esse é o mistério, em que o amor também dobra uma esquina. Dobrei algumas.

Nas longas conversas com o meu velho e bom amigo Gustavo, ele me falou sobre a importância de “dobrar esquinas”, de seguir buscando o seu caminho, cheio de tantos percursos lindos.

Não sei quando, mas olhei para a minha profissão, de jornalista, percebi que estava reproduzindo coisas, que não queria aquilo, e mudei o rumo. Dobrei a esquina, arrisquei um novo começo, e me sinto feliz por isso.

Estou em Brasília e acho que algo vai se modificando, por aqui. Eu, que sempre olhara a cidade com a visão política, como o “centro do poder”, mudei meu olhar. Ela continua sendo o centro do poder, onde a grana rola e destrói coisas belas, mas… deus do céu, como essa cidade tem árvores lindas, jardins bem cuidados, flores por todos os lados.

Nas minhas caminhadas com Gustavo, ele me contou que aqui existe um funcionário público com a seguinte função: “Podador de árvores”.

Que profissão delicada e bela, pensei. Saber exatamente onde pode cortar os galhos, sem ferir a essência, sem matar.

Na vida, às vezes a gente faz a poda, mas mata a planta, mata um amor, mata uma amizade, cortando mais do que devia.

Quantos não fazem também a poda de si com tanto exagero, que não floresce a tempo?

Acho que dobrei mais uma esquina, e já não sou o mesmo.

Floresçamos, pois, floresçamos de norte a sul de nós mesmos, enquanto há tempo.

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