Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Recesso carnavalesco

27 de fevereiro de 2006, às 9:35h por Samarone Lima

Amados leitores,

Este jovem cronista só voltará a escrever na quarta-feira de cinzas.

O motivo é simples: Carnaval.

É impossivel escrever algumas linhas quando em Olinda e no Recife tem uma multidão cantando e brincando, e o dia está lindo.

Não sou de ferro.

Até breve.

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Notas pré-carnavalescas, anotações históricas e conversas nos coletivos

23 de fevereiro de 2006, às 12:14h por Samarone Lima

Serjão, meu amigo que nunca para quieto, me mostrou ontem o álbum de fotografias da Troça Carnavalesca “Me segura senão eu caio”. O título é mesmo uma graça: a troça é formada somente de deficientes físicos. Aos trupicões, saem cantando e celebrando a vida, uma lição de vida e tanto.
***
Estou fazendo um trabalho extra, entrevistando um bocado de gente, o troço tem que ficar pronto logo depois do Carnaval. Acabo de receber um telefonema, avisando que uma das entrevistadas vai me receber no sábado de Carnaval, dia do Galo da Madrugada e outra, possivelmente na quarta-feira de cinzas. Estou aqui meio em desespero, tentando desmarcar tudo, vamos ver, ninguém merece isso.
***
Nossa Troça Carnavalesca Mista “Os Barba” costumava bater no peito e dizer: “fazemos a festa com uma orquestrazinha fornecida gratuitamente pela Prefeitura da Cidade do Recife!” Pois deu errado. Este ano, não liberaram um saxofone sequer para a agremiação. A sorte é que alugamos uma orquestra, temendo o pior. Viva “Os Barba”.
***
Algumas troças maravilhosas que pesquei na programação do Carnaval de Olinda, e que pretendo acompanhar: (onde tem TCM é “Troça Carnavalesca Mista”)

T.C.M. Anárquico Erótico Ereto Bicho de Pé.

T.C.M. Leve Minha Cunhada.

T.C.M. Mexendo Passa.

T.C.M. Anárquica Bebedoura Mole Não Entra.

T.C.M. Quase Que Não Sai.

T.C.M.Só Quero Um Pouquinho,
***
Fiz um pequeno levantamento de caráter sociológico (no site da Prefeitura de Olinda) sobre o Clube Carnavalesco Misto “Cachorro do Homem do Miúdo”, fundado em 05.03.1910. A agremiaçao surgiu no antigo Beco das Barreiras, atual Rua José de Alencar, no Recife. Segundo o site, um grupo de amigos voltava de um enterro e viu um vendedor de miúdos caído no chão, embriagado, tendo ao lado vários cachorros, que não permitiam que ninguém se aproximasse do dono nem comiam os miúdos que tinham caído do tabuleiro. Tanto zelo, inspirou o grupo que acabou criando uma pequena agremiação homenageando os cães. Um miudeiro com o tabuleiro na cabeça e um cão ao lado (símbolo do clube) estão bordados no estandarte da agremiação. Informo que o presidente do Clube é o senhor Carlos Orlando, que mora na Ladeira do Giz, em Águas Cumpridas.
***
Ontem, parei defronte a uma escola e fui tomar um suco de maracujá. Daqui a pouco, vejo uma penca de meninos saindo de uma sala, por uma rampa. Traziam nas mãos uns adereços e cantavam: “Ei pessoal, ei moçada/ Carnaval começa, no Galo da Madrugada”.
Impossível não sentir uma emoção.
***
Bem, meu pantim dos últimos dias está passando e me preparo para os festejos. Como estou liso, tento empréstimos de emergência com vários amigos. Há pouco, recebi o primeiro não, mas com elegância. Mais tarde tentarei Cesar Maia, Déa e Mimos. Ninguém merece um Carnaval liso.
***
Lembrei agora de um Carnaval em que eu estava trabalhando pelo Diário de Pernambuco, junto com a amigona Graça Prado. “É o bicho, vou te devorar, crocodilo eu sou”, fazia o maior sucesso. Foi a primeira vez que vi o Carnaval em cima de trios elétricos. Foi bom, mas bom mesmo é no meio da massa.
**
Só para lembrar…
Saiu no “Diário na História” de hoje, uma nota sobre o sábado, 23 de fevereiro de 1856 (150 anos atrás):
Avisos diversos – Desapareceu no dia 10 corrente pela 8 da noite, um escravo de nação, por nome João, levou calça e camisa de algodão riscado, altura regular, seco de corpo, costuma embriagar-sé; roga-se as autoridades policiais e capitães de campo que o apreendam e levem a seu senhor, na rua Largo do Rosário, botquie 27, que será recompensando generosamente”.
Precisa-se alugar uma ama de leite sem filho: na praça da independência, números 36 e 38/
***
Estou no Alto Santa Isabel, sexta-feira de Carnaval, 8h23 da manhã. O diálogo do motorista com a cobradora:
Ele: Bob Esponja está descansando hoje?
Ela: Ele ainda tem coragem de botar aquele chapéu cheio de gaia dele?
Ele: Pense!
Ela: Ele diz que é ex-corno. Eu disse que isso não existe: quando é corno, é para todo o sempre.
***
Mais na frente, o ônibus para num sinal. O mesmo motorista conversa com o colega do ônibus ao lado:
Motorista1: Óia, tu vai bater bumbo hoje?
Motorista 2: (inaudível)
Motorista 1: E apois.
Motorista 2: (inaudível)
Motorista 1: Pense! Pense numa água de crente que vou beber hoje!
O sinal abriu, e acabou a conversa.
***
“Deixa o frevo rolar/ eu só quero saber/se você vai brincar…

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A palavra que conserta a vida

21 de fevereiro de 2006, às 9:06h por Samarone Lima

Por obra do destino, voltarei a ser professor. Ganhei de presente uma disciplina com o delicioso nome de “Oficina da Palavra”. A partir de abril, trabalharei com jovens de 16 a 19 anos, de bairros menos favorecidos desta cidade imensa e desigual, que é o Recife. Durante 18 meses, junto com outros profissionais, tentaremos buscar novos caminhos profissionais e humanos para 80 jovens, num belo projeto que envolve muita gente bacana, sob a batuta do querido Ricardo Mello. Por ora, só posso informar isso, para as coisas fluírem bem.

E me vi novamente preparando aulas, pensando nos caminhos a seguir. Fui à Biblioteca Central da Universidade Católica, levando meus cadernos e alguns livros. Passei o dia inteiro em meio aos livros, naquele clima delicioso de biblioteca.

E logo que cheguei, me veio uma torrente de lembranças. As mesmas mesas, as cadeiras iguais, as prateleiras não mudaram, desde a primeira vez que pisei ali, em 1988. São 18 anos, meu Deus! Foi ali, naquele mesmo lugar, que comecei a minha grande aventura com a escrita, com os livros, com a descoberta dos mundos. Lembro que morava numa pensão ali próximo, e dividia o quarto com dois camaradas. Sei que os nomes deles estão anotados em meus inúmeros diários, mas não é o caso de futucar o passado com vara curta, é só uma constatação.

Lembro de um, que trabalhava vendendo seguros, algo assim. Ele chegava do trabalho e abria uma latinha de Pitu, ficava a bebericar e fumar seus cigarros. Era magro, aquele que bebe e vai ficando magro (porque tem cara que bebe e vai ficando gordo). Quando eu voltava da Universidade, ele ainda estava em sua melancolia profunda, entre os goles de aguardente e o cigarro forte, que eu não achava ruim. Quando a faxineira vinha limpar o quarto, arrastava com a vassoura um monte de latinhas vazias, que estavam debaixo de sua cama, e eu ficava impressionado com sua sede. Não sei que destino levou. O outro era um rapaz do interior. Se não me engano, sonhava em morar no Rio de Janeiro, tomara que tenha conseguido, é bom realizar sonhos. Ele sempre botava um pano na janela, para não entrar sol de manhã, e isso era muito bom.

Fui preparando as aulas, pensando em como a palavra poderia ajudar na formação desses jovens que encontrarei. Enquanto isso, olhava para os funcionários e tentava o precário reconhecimento de lembranças antigas. Minha memória é péssima, acho que por isso escrevo tanto. Tinha uma gordinha simpática que sempre me atendia com um sorriso, não lembro seu nome, mas lembro de seu sorriso. Não a vi. Terá se aposentado? Muita coisa muda em 18 anos, mas creio que seu sorriso não mudou, deve ter melhorado. Com o tempo, o sorriso das pessoas melhora.

Lá pelas tantas, as aulas foram ficando prontas, pelo menos na minha cabeça, mas o filminho continuou passando. As aulas, os amigos de turma, os primeiros estágios, até que chegou a hora de viver disso, do jornalismo, viver da palavra, por assim dizer. Conquistei, às duras penas, o ofício de Jornalista. Depois de vários anos, retornei para ensinar na mesma Unicap. Teria que repassar este amor às palavras e aos textos aos meus alunos. Lembro da apreensão que fiquei, antes de entrar em sala de aula, e da grande dica que Gustavo me deu, antes da primeira aula:

“Você não precisa mudar nada porque vai ser professor. Seja você mesmo, que vai dar tudo certo”.

Foi o que tentei fazer, não sei se cheguei a realizar plenamente o que planejei, mas guardo muitas lembranças lindas.

Agora, terei pela frente 80 jovens de bairros menos privilegiados do Recife, para caminhar e descobrir novos mundos. O nome da disciplina é “Oficina da Palavra”.

E me vem uma percepção mínima, mas que me serve, me ampara e me orienta: a palavra muitas vezes consertou minha vida. Em outras, ela me salvou.

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O menino com a bola, a pelada e outras besteiras de sempre

19 de fevereiro de 2006, às 20:01h por Samarone Lima

São 12h47 do domingo, o sol vai rasgando o Recife e estou na esquina aqui de Seu Vital, conversando lorotas com os amigos. Estou numa cadeirinha daquelas de ferro, junto com o velho Diazepan, bebemos uma cerveja para relaxar. O dia está lindo, não há uma verruga nele. Lucidélia traz um tira-gosto e tanto: cebolinhas cozidas, uma delícia, recomendo. Nana vai e vem para todos os lados, armando uma mesa com frutas, para tira-gosto. Defronte, na igreja de Nossa Senhora da Saúde, mais um casamento. Quantos casamentos já assisti na vida? Uns 100, creio, talvez mais. É a vantagem de morar ao lado de uma igreja, a gente sempre vê muitos casamentos. A noiva é linda e o noivo tem lá seu charme, usa um terno branco que se garante. À saída, jogaram arroz neles, igualzinho ao cinema. Eu me considero um sujeito de sorte, por ter um domingo assim, tão doce, sereno.

E surge uma cena do nada, que se torna motivo desta crônica. Vem andando um garoto, de uns 14 anos. Ele está só de calção, descalço, o cabelo cortado bem curto. É um moreno escuro, mas não chega a ser negro. Vem com uma bola de futebol, fazendo embaixadas. Sim, ela caminha e vai tocando uma bola, sem deixá-la cair, com uma habilidade impressionante. Deixo tudo de lado e passo a reparar no menino. Não, não é um menino, é um menino com uma bola. Os dois, o corpo e a bola, se transformam em uma coisa só.

Ele está descalço, vem andando, não repara no casamento. A bola vai ficando macia no pé dele. Nada mais tem importância, nesta manhã de domingo. É ele e a bola. Os dois são um. Aliás, somos dois – o menino com sua bola e eu. Não tem importância nenhuma o chão de pedra e o mormaço. Ele está acariciando a pelota com os pés.

E me vem então este sentimento amoroso com o futebol, que os intelectuais não entendem. Na verdade, não sei o motivo de me encantar tanto com o futebol. Talvez seja porque futebol e vida, para mim, se entrelaçam. Meu nome, por exemplo, veio de um jogador do Fluminense, que meu pai adorava. O Samarone do Flu de 1969.

A pelada do domingo é a minha grande festa corporal. É quando grito, chuto, dou bicudas, solto o bicho dentro de mim. Cada partida é uma decisão. Eu queria ver algum homem brasileiro que aceite perder a pelada do domingo sem ficar contrariado. Do domingo ou de qualquer outra data. Perder a pelada é começar mal o dia, ver o adversário crescer. A maior solidão de um ser humano é a de um sujeito que vai buscar a bola dentro da rede, depois de levar um gol.

Há muito mistério em uma pelada, tenham certeza. Por um breve momento, naquelas quatro linhas, todos são iguais. Todo domingo, jogo com desempregados, porteiros, motoristas, zeladores, encanadores. É quando me sinto mais próximo à igualdade de um país desigual. Posso levar um drible de um cachaceiro e me sentir um merda. Posso dar uma solada em um cara que me acha um burguesinho metido a gente boa. Posso mandar um cara que mal conheço se foder, porque perdeu o gol debaixo da barra.

Pago R$ 1,00 para ajudar no aluguel do campo, e R$ 5,00 para ajudar a pagar a bola oficial, que Batman comprou no crediário. Todos pagam a mesma quantia. Eu acho isso lindo, é uma partilha.

O futebol ensina tantas coisas. Ensina que nunca a vitória é fácil, isso todo mundo já sabe, mas viver isso, sentir isso, é diferente. Hoje mesmo, logo cedo, na pelada dos Caducos, meu clube e minha fé, enfiamos um 6 x 0 no primeiro tempo, Dinho Papeira estava o cão, fez cinco gols. No segundo tempo morgamos geral, erramos a marcação e o time adversário cresceu. Resultado: teve um momento em que a partida chegou ao dramático 6 x 6, o meu time todo desorganizado, e Ruy alardeando que iria virar.

Então, virei bicho, briguei com o time, gritei, fiquei louco. No final, ganhamos de 9 x 6 e me senti responsável pela vitória. Vitória não, me senti responsável pela superação. Saí de campo ensopado de suor, exausto, joguei um balde de água na cabeça e me veio aquele cansaço pleno, a exaustão repleta de sentido. Fiquei sentado, respirando, o suor escorrendo por todos os poros.

Me veio um sentimento muito simples, mas que talvez ainda nos salve enquanto povo: nós, brasileiros, ainda sabemos brincar. Uma pelada na manhã de domingo, aqui onde vivo, é este pequeno exercício de muitos homens se encantando com uma bola, e dialogando em pequenos toques para os corpos que correm. Cultivamos a noção de espaço no mesmo tempo. Dialogamos com poucas palavras: “toca”, “passei”, “na direita”, “pega!”, enfim.

Pena que ainda não aprendemos a ser iguais fora das quatro linhas.

Um dia chegaremos lá. E seremos um povo parecido com este menino, que vem andando e equilibrando a bola nos pés, feliz somente por existir.

Para Peitao, Papeira, Sérgio, Cioba, Hércules e todos os amigos da pelada dos Caducos.

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Não tenho mais idade para isso

17 de fevereiro de 2006, às 0:53h por Samarone Lima

Um amigo meu outro dia fez uma viagem ao interior, em um ônibus vagabundo, para ver o seu time jogar. Seu time, por coincidência, é o meu, que vem a ser o Santa Cruz. A viagem foi infame, num ônibus caindo aos pedaços, ele deveria chegar em casa à meia noite, mas o ônibus foi parado pela Polícia Rodoviária três vezes, e o pneu estourou, isso sem contar que o nosso time perdeu. Chegou no Recife quase quatro da manhã e constatou: não tenho mais idade para isso.

Até outro dia, eu tinha uma birra com esse negócio de “não tenho mais idade para isso”. Mas ela, a frase, mudou de sentido. Ao invés de revelar um cansaço, um abatimento da alma, me diz que vamos ficando mais seletivos, com o passar do tempo. O ser humano pode sim, ser como os vinhos. E descubro que não tenho mais idade para muitas coisas.

Não tenho mais idade para ficar aturando gente chata. Eu me afasto mesmo, na base da cara feia, e se for o caso, digo para o sujeito: meu irmão, tu é chato pra caralho. Engraçado que há uma média de 10 homens chatos para cada mulher chata.

Não tenho mais idade para ser destratado em bar ou restaurante. Ontem mesmo, estava em um bar, o tal do Recanto Paraibano, assistindo um jogo do meu clube, o já citado Santa Cruz. Tinha um telão imenso, mas a gente não escutava nada. Os dois garçons que nos atendiam eram azedos dos pés à cabeça. Pedi ao gerente para aumentar o som, ele perguntou se o jogo já tinha começado, quando ia começar o segundo tempo. Não tive dúvidas: paguei a conta antes de começar o segundo tempo e fui assistir ao mesmo jogo em um botequinho de terceira, uma maravilha.

Não tenho mais idade para ficar contando vantagem, seja lá qual for a vantagem.

Não tenho mais idade para ficar contando os centavos, quando chega a conta. Calculo quanto gastei e coloco na mesa. Quando todos fazem isso, dá certo.

Não tenho mais idade para esconder sentimentos e emoções.

Não tenho mais idade para ficar mandando para os amigos aquelas mensagens engraçadinhas que chegam pela Internet. Aliás, nunca tive idade para isso, mas tem muita gente mais velha que continua com essa mania chata.

Não tenho mais idade para escutar palestra, conferência ou debate de qualidade duvidosa, sobre qualquer tema. Eu me levanto e vou embora, e quem achar ruim que ache ruim.

Não tenho mais idade para suportar bêbo chato falando besteiras no meu ouvido, apesar de ter feito isso com amigos, eles que me perdoem.

Não tenho mais idade para ler poetas ou escritores ruins. Nas primeiras páginas, se não gosto, eu delicadamente deixo de lado e vou em busca de algo que me encante.

Não tenho mais idade para ver filme ruim até o fim.

Não tenho mais idade para pedir autógrafo a ninguém.

Não tenho mais idade para ficar longe dos amigos.

Não tenho mais idade para acreditar em amores impossíveis e sofridos.

Continuo tendo idade para buscar o amor real, aquele júbilo que tão bem sabemos.

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