Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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A lógica da alegria compartilhada: contribuição para uma discussão filosófica sobre carnaval e lucro

2 de fevereiro de 2006, às 13:35h por Samarone Lima

Não sei como é em outras cidades, estados e países, mas aqui no Recife, só há um assunto filosófico importante a inundar as mesas de bares, botecos, balcões de padarias, caixas de banco, filas de desempregados, universidades, celulares, email: o Carnaval.

Nós, que fazemos parte da Troça Carnavalesca Mista “Os Barba” (ano V), estivemos envolvidos esta semana em um acalorado debate sobre os mistérios da nossa pequena troça, fundada para reunir amigos e simpatizantes da boa festa. Fomos questionados, pelo dono de um bloco gigantesco, por que não ganhamos dinheiro com nossa idéia, se temos tudo para conseguir patrocínio, apoio, lei de incentivo etc. Ele fala com a voz da experiência. Seu pequeno bloco, surgido aqui no Poço, há mais de dez anos, arrasta multidões, quinze dias antes do Carnaval. Só o que ele vende de cerveja, eu passaria cinco anos vivendo de fulozô, só escrevendo crônicas e viajando. É a tal lógica do “fazer dinheiro”.

E nós, dos Barba, o que achamos disso tudo?

Não temos estatuto nem organização, mas já é lugar comum em nossas conversas: no dia em que a Troça tiver a insuportável presença da “diretoria”, quando formos devidamente organizados, é hora de cair fora, porque acabou a alegria e começou a empresa, e nós só queremos nos divertir no sábado antes do Carnaval, aqui nas ruas do Poço, com nossa gente. Vamos parar com essa frescura do capitalismo de fazer tudo virar comércio, tudo virar empresa, como se nunca sobrasse espaço para a simples e deliciosa festa, sem outras intenções. O capitalismo parece aquele cara que não consegue dançar com uma mulher bonita sem querer levar pra cama, acaba nem dançando com gosto, nem levando para a cama, é um saco.

No próximo dia 18, vamos fazer nossa tradicional farra, com a presença do novo rei e a transmissão solene do cargo. Para fazer a farra, precisamos somente de alguns ingredientes, que passo a detalhar:

A rua – Colocamos um cavalete na rua e todo mundo respeita. Mas é uma rua que passa dez carros por dia. No dia dos Barba, ela vira a “nossa rua”, e ninguém reclama, é grátis.

Uma orquestra – Há três anos, fazemos um ofício simples para a Prefeitura (Fundação de Cultura), explicamos nosso bloco, pedimos uma orquestra, e ela vem, de graça. A gente só dá o almoço e a cachaça aos músicos, mais cachaça que almoço, garanto. Ou seja: sai de graça, pelo menos é um consolo para o IPTU que a gente paga o ano inteiro, acabei de descobrir que IPTU é quase a mesma coisa de PITU, é só inverter o lugar do “P”, só o sabor que é diferente, rarara.

Um panelão de feijoada – O panelão é feito na rua, com fogo de madeira, e a mistura é cientificamente elaborada a partir de pedaços de algo comestivel, trazidos pelos integrantes da Troça, subtraídos na madrugada, de geladeiras as mais diversas. Ninguém paga nada, e Nana domina tudo, fazendo o milagre da multiplicação.

Cachaça – A PITU, fornece uma ajuda financeira e etílica. No dia da festa, um garraffão de 20 litros é oferecido gratuitamente à comunidade, e a comunidade não se faz de rogada, bebe até chamar urubu de meu louro.

Uma camisa da Troça, pintada pelos artistas da comunidade – A camisa é o ingrediente mais caro da festa: custa R$ 10,00. Cada camisa tem uma pintura diferente, e são elogiadíssimas pela crítica de pintura-de-camisa-do-carnaval-especializada. Os artistas pintam de graça, porque fazem parte da Troça.

Então nem venham com esse papo de ganhar dinheiro com a Troça, porque vamos ter um troço, perdão pelo trocadilho infame, mas chega desse papo de tudo dar lucro, tudo ter que ser pela lógica do capitalismo. Nossa lógica é a da alegria compartilhada no meio da rua, com o frevo rasgando a tarde do sábado, e só neste dia, o glorioso sábado antes do Carnaval. Depois disso, estão todos liberados para farras em outros blocos, que ninguém é de ferro.

Vai aqui um pedacinho do nosso hino, feito pelo glorioso Lula Terra, que deve inclusive reger a orquestra novamente:

“Barba já chegou ôoo
Animando o Carnaval
Barba a todo vapor
Sai da venda do Vital”

Tem barbudo presidente
ôôôoooo
Tem barbudo operário
Ôôôooo
Tem o barba boa gente
Mas tem barba que é otário”.

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Para a mulher que me piscava o olho

2 de fevereiro de 2006, às 0:38h por Samarone Lima

Saí de casa em 1987, em meio a uma turbulência familiar que me impulsionou ao mundo, e nunca mais voltei a morar em Fortaleza. Foi no início de julho, após uma despedida espantosa, regada a cachaça, vinho e confissões, com os amigos da época, hoje espalhados por aí, nem sei direito onde. Meu irmão do meio casou pouco depois, o mais velho foi para Minas. Minha avó, que morava conosco, morreu em 1999. Minha mãe separou dois anos depois da minha partida. Ficaram com ela somente as duas filhas mais novas. A casa, que chegou a abrigar nove pessoas, ficou apenas com as três mulheres: mãe e duas filhas.

Então aconteceu algo que me dói muito, mas não posso fazer nada: parece que essa nova geração já não sabe amar os pais. Algo como um “esquecimento perpétuo do amor”, em nome de outras coisas que são, no mais das vezes, objetos, coisas e turmas. Minha mãe vive sua maior solidão.

Eu já tinha notava isso quando visitava Fortaleza, e ficava dois, três dias. O desamor a gente percebe nas entrelinhas, na falta de bondade, no jeito de falar, de tocar. Estava tudo grosseiramente à vista, e sou bom de vista. Eu sei que amar não é fácil, mas a Clarice já diz que amar os outros é a única salvação individual. “Ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca”.

A minha mãe tem uma história e tanto. Ela foi casada durante mais de duas décadas, passou maus e bons bocados, até que “criou coragem” e separou. Era já uma senhora, uma simples e dedicada dona de casa, quando conseguiu a alforria, e começou sua revolução pessoal. Fez um curso de auxiliar de enfermagem, enfrentou um baita de um concurso, foi aprovada e entrou de cabeça no maior hospital de Fortaleza, o José Frota. Isso com mais de 40 anos. A vida deu uma guinada. Foi se cuidar, foi caminhar, outro dia começou a estudar inglês.

Hoje, ela mora com duas filhas, mas não conta com ninguém sequer para uma conversa rápida. Volta do plantão, não há um aconchego, uma conversa, um prato raso de sopa morna. Ela que se vire com seu cansaço, com seus plantões, com sua vida. Vive a pior solidão, que é aquela acompanhada.

Lembro que uma época adolescente lutei karatê, e meu pai era totalmente contrário à “invenção”, tanto que não liberou grana para a compra de material esportivo. Minha mãe foi economizando da feira, tirando um trocado daqui, reduzindo no pepino, no tomate, outro tanto dali, escondendo migalhas, fazendo mágicas, até que conseguimos comprar um quimono, o mais belo quimono que já usei na vida. Acho que foi com ela que aprendi essa grandeza dos pequenos gestos, do quase nada que transforma.

Havia sempre um piscar de olho nos momentos mais difíceis, e isso até hoje é uma lembrança simples, uma fagulha de esperança, uma espécie de “segure firme, meu filho, que tudo se arruma”, a solidariedade silenciosa.

O nome dela é Ermira, e sei que está cansada de um monte de coisas. O pior é que não posso fazer nada, porque a gente pode aprender a amar, a ter esta salvação individual, mas é impossível ensinar alguém a amar – mesmo que seja a própria mãe.

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