Entardecendo
Samarone Lima
Vai entardecendo aqui no Poço, e resolvo fazer meu périplo. Saio de casa de propósito, para contemplar o que resta de luz, enquanto há luz, porque daqui a pouco a noite, a misteriosa noite chega. Vou em Vital, está Guga Mota, tomando sua solitária cervejinha. Do outro lado da calçada, na curva oeste, um grupo toca um violão sossegado, parecem estar compondo algo. Peço R$ 10,00 a Guga, ele me empresta os últimos trocados, preciso pagar Matuto, um Rum Montilla que comprei há 15 dias por R$ 9,00.
Sigo, passo em Popa, vou em Matuto, que é o nosso Bompreço aqui da comunidade, tem tudo o que precisamos na hora da necessidade, pago o rum, ele pergunta se quero outro, menos Matuto, menos, que rum é muito oleoso, dizem os entendidos. Falo com as crianças, aceno para os distantes, cumprimento os velhos, chamo os cachorros com os estalos. Vou em Abdias, Ruy já tomou umas, me reclama porque não fui para a pelada hoje, eu nem fui informado da pelada extra dos Caducos, senti uma tristeza retroativa. Os meninos jogavam no campo de Abdias, e gosto de ver moleque jogando bola. O brasileiro é a maior prova de habilidade que um corpo pode desenvolver. Não sabem nada da vida, mas sabem dar um drible em um espaço mínimo, onde só cabe a bola e o pé, fico olhando e me deliciando, contemplando o movimento dos corpos em torno de uma bola.
Volto para Popa, à beira do Capibaribe. No caminho, encontro Carne de Vaca, passando o jogo do bicho. Jogo 1,00, do primeiro ao quinto. Se der, levo R$ 280,00 e vou pagar Seu Vital. Em Popa, a informação: só tem Nova Schin, vai ela mesmo. Sento, na mesa ao lado uns coroas conversam sobre tudo e nada, sobre a vida e as coisas da vida. Olho o rio, tem um barquinho atravessando de lá para cá, cheio de gente. O recifense ainda atravessa o seu rio de barco, é um toque singelo ao entardecer, eu fico feliz.
Escuto os diálogos. “Tu bebe naquela barraca?”; “Se você sabe que ele não presta e bebe com ele, você também não presta”; “Também não é assim”; “Peraí, menino!”; “Deixa de teu pantim”; “A verdade é verdade”; “Pois se um safado me der bebida, eu não bebo com ele”; “Aí tá certo”; “Ele é chegado?”; “Tu precisava ver a morena, de dar água na boca”, e por ai vai.
Sou tomado de uma saudade imensa de Pixinguinha, que queria muito ter conhecido, eu tenho essas coisas saudosas de tempos que não vivi.
Chega Márcio, um moleque gordinho que estuda na Escola Municipal Nilo Pereira, o colégio que nossa comunidade adotou para acompanhar. “Posso sentar, Sama?”, senta, Márcio. Ele me fala de um carangueijo que saiu “daquele buraco” outro dia e nunca mais viu, depois fala de outras coisas, até que sai. Na Rádio Recife, o melhor do brega. “São 17h57 e você pode faturar um aparelho celular, ligando e participando”. Sou informado pela rádio que no presídio Barreto Campelo 50 presos estavam de castigo há mais de 30 dias, sem ver o sol, e que muitos não tinham colchão para dormir.
Às 18h, o golpe fatal. A rádio começa a tocar “Ave Maria”, não sei quem canta, mas é algo triste, pungente, doloroso, é como se quisessem nos lembrar que é preciso ser infeliz ao crepúsculo, então percebo que é hora de voltar, me aquietar.
Chego em Seu Vital de novo, está dona Fátima, a mulher que cuida da minha casa, ela me olha bem séria e diz:
“Trouxe tua tartaruga. Veio de Abreu e Lima”.
Ela traz um isopor com a tartaruga, que agora está perambulando no quintal. Já está escuro, e não posso vê-la direito, amanhã escolherei um nome.
A noite chegou com a tartaruga sem nome. É assim que vai anoitecendo por aqui, lentamente, e a vida segue.
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