Ai, ai, saudade, saudade tão grande…
Samarone Lima
Tenho uma falha existencial inexplicável, mas que já se incorporou à vida – sinto saudades de algumas pessoas que não conheci, mas que admiro e me ajudam a tocar esta vida. Ultimamente, ando saudoso do velho e bom Antônio Maria. A saudade deve ter aumentado porque estamos nesta época intensa do Carnaval, e ontem, no Mercado da Boa Vista, tivemos uma prévia do “Lili nem sempre toca flauta”, uma festa linda e cheia de gente amiga.
Se vivo fosse, ele estaria lá, o gordinho, bebericando seu whisky e cantando suas canções. Antônio Maria foi jornalista, cronista e compositor, e tenho aqui, em vinil, o “Frevo número 2 do Recife”, cantado pela Maria Betânia. Um absurdo de belo, e com aquele chiadinho do vinil, que adoro. Para quem não lembra:
“Ai, ai, saudade
saudade tão grande
saudade que eu sinto
do Clube das Pás, dos Vassouras
passistas traçando tesouras
nas ruas repletas de lá.
Batidas de bumbo
São maracatus retardados
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes por ar”.
Para quem é do Recife e está longe, a segunda parte vai doer um bocado, mas a vida é assim mesmo, tem que aguentar:
“Quando eu me lembro
o Recife tá longe
a saudade é tão grande
e até me embaraço.
Parece que eu vejo
Haroldo Matias no passo
Valfrido e Cebola, Colasso
Recife está perto de mim.
Saudade que eu tenho
São maracatus retardados
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes por ar”.
Garanto que no Carnaval passado, uma moça cantou esta canção inteira, numa voz meio rouca e afinada, sem errar uma palavra, e faltou pouco para pedi-la em casamento.
Em 1996, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos escreveu uma deliciosa biografia do Antônio Maria, para a coleção “Perfis do Rio”. Acabei de ver o livro ampliado, como várias fotos, agora publicado pela Objetiva. “Era um homem movido a emoção”, diz o jornalista, que conheci de raspão, quando fui assinar um contrato com a editora Objetiva, em 2003. Por conta do liseu, ainda não comprei a nova edição, mas vou comprar ou vou ganhar de presente, porque fevereiro é um mês ótimo para receber presentes.
Por esses dias, ando também rangendo de saudades da Clarice Lispector. Não sei se escreveram uma boa biografia dela, mas acho que nem é o caso, basta ler “A descoberta do mundo” para ver sua alma inteira, pendurada num varal, secando quando há sol, molhando quando há chuva, pegando sereno nas noites mais amenas. E de pensar que o livro, que é minha Bíblia, meu Alcoorão, meu Torá, é a reunião das crônicas que ela publicou no Jornal do Brasil, de 1967 a 1973.
Houve uma época, neste País, em que o sujeito comprava o jornal e lia, de manhã, antes de sair para o trabalho:
“Não dou pão a ninguém, só sei dar palavras. E dói ser tão pobre”.
“Tenho recebido olhares que valem por uma reza”.
“Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada”.
“Nessa hora eu me senti pior do que uma mendiga porque nem ao menos eu sabia o que pedir”.
“Tudo o que não sei é minha parte maior e melhor”.
“…e o homem dizia que amava com mudo fervor. Eu respondi que todo fervor é mudo”.
“Há dias que são tão áridos e desérticos que eu daria anos de minha vida em troca de uns minutos de graça”.
E para terminar:
“Prometo aos meus leitores que serei mais feliz e assim os farei, pelo menos por um instante, mais felizes. Mas, Deus meu, como é que se é feliz?”
Sigamos.
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