Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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O que sobra das derrotas é a vida

8 de fevereiro de 2006, às 16:21h por Samarone Lima

Acabei de confirmar a participação como palestrante na calourada dos alunos de Comunicação da Unicap, na próxima semana. Eu gosto muito desses encontros, porque há uma boa troca e lembro do período em que fui estudante de Jornalismo na mesma Universidade. É bem provável que o debate seja no auditório que freqüentei muitas vezes, em busca de algum conhecimento ou, no mínimo, de algum encontro, alguma palavra que ajudasse a pensar os caminhos de um jovem estudante universitário latino-americano sem dinheiro no bolso, sem parentes importante, e vindo de Fortaleza, ainda imberbe.

Então vai acontecer aquilo que me deixa meio sem graça, mas é parte do script. Vão falar onde me formei, dos livros publicados, dos lugares onde trabalhei, do mestrado etc. Como sempre gostei muito de mudança, passei por muitos lugares. E mais uma vez, vou passar o filminho na cabeça, lembrando algo que deveriam citar também na trajetória de qualquer pessoa: os inúmeros fracassos.

Lembro que o “Zé”, meu primeiro livro, foi enviado para várias editoras, e quase todas recusaram olimpicamente, até outro dia eu tinha as cartas informando que o livro não era viável, naquele tom respeitoso e cordial para dizer que seu trabalho é uma merda. Um dia, uma editora de Minas Gerais me telefonou, dizendo que tinha achado o livro lindo e que iria iniciar a edição, fiquei muito emocionado, mas é preciso lembrar dos muitos “nãos” que fui colecionando, até ver o livro nas minhas mãos, no maio dos meus 29 anos. O detalhe é que a distribuição foi um desastre, e muita gente jamais conseguiu comprar o livro, o que foi uma vitória com fracasso, porque todo escritor quer ser lido. Bateu na trave.

Tentei reeditar o “Zé” pela Objetiva, que publicou Clamor, mas levei um não bastante redondo, e nunca mais se falou nisso nem de outro projeto de livro-reportagem que eu vinha alimentando há alguns anos.

Consegui fazer um mestrado muito bacana na USP, um núcleo de pesquisas sobre a América Latina, mas não lembram que fui reprovado em outras três tentativas (duas na PUC-SP e uma na Unicamp) porque me faltava “consistência teórica” e outros requisitos intelectuais de maior monta, mas que, pela graça divina, não lembro.

Tentei emprego na Folha de São Paulo umas três vezes, e recebi simpáticas cartas negativas em todas elas, naquele mesmo tom gentil e delicado, dizendo que agradeciam meu interesse pela vaga, mas informavam meu curriculum não tinha a qualificação necessária ou suficiente, sei lá. Ou seja: nem da primeira fase do processo de seleção eu passei, que bicho burro da gota, era o que eu pensava.

Mandei uma seleção dos meus poemas para dois concursos da Prefeitura da Cidade do Recife, e nas duas oportunidades não recebi sequer uma medalha pela participação, aquela “menção honrosa”, que é uma espécie de pirulito para o menino não chorar muito. Para me consolar, estou publicando os poemas aos poucos, no meu blog de poemas (www.quemerospoemas.blogspot.com)

Outro dia uma grande amiga minha, Luzilá, quis me elogiar em sua coluna das terças-feiras do Diário de Pernambuco e falou com um certo orgulho que eu tinha sido “repórter da Veja”, como se fosse algo muito importante. Eu fiquei envergonhadíssimo, quase saio comprando todos os jornais da cidade, para que ninguém soubesse, porque foi o período mais triste de minha vida profissional, eu nunca vi uma máquina tão poderosa de destruição de coisas e pessoas, tanta boçalidade e arrogância num mesmo espaço, e num determinado momento eu achei que não tinha chegado ao ponto máximo da carreira, mas ao ponto em que mais me envergonhava da profissão, foi uma decepção e fracasso juntos.

Fracassei em vários projetos literários (nunca consegui editar minha coleção de frases nem os relatos de viagem) e experimento meio-fracassos quando escrevo crônicas meia-boca neste Blog, a sorte é que tenho escrito muito, e dá para tapear um pouco, e o povo gosta mais de comentar quando acha bom do que quando o texto está aquela coisa insossa.

Tive meus fracassos no amor, que doeram muito, mas segui. Por sorte, tive poucos fracassos nas amizades, que sempre foram perenes, mesmo as mais distantes e silenciosas, acho que tenho um talento com as amizades, uma vocação fraterna e afetiva para não me perder dos que são da minha praia.

De sorte que vejo o mundo com uma minúscula e simpres frase do poeta norte-americano Robert Frost: “a vida segue”.

Minha anotação o pára-choque do meu caminhãozinho: o que sobra das derrotas é a vida.

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Para quem toma seu remediozinho controlado…

8 de fevereiro de 2006, às 5:21h por Samarone Lima

Continuo a receber notícias as mais diversas sobre o Carnaval do Recife, que está a um palmo de distância. Há o intrigante fenômeno do surgimento da troça, aquele momento em que o sujeito tem uma idéia e resolve passar para as ruas, transformar um sonho em frevo, por assim dizer.

Acabo de receber o email do meu amigo Josias, que também atende pela alcunha de Geó. Melhor reproduzir na íntegra, porque pode interessar a muita gente que é chegada a uns remedinhos para o cabeção, e pode muito bem conciliar seu ansiolíticozinho, seu remédiozinho com a tarja preta, com uma boa tarde na frevolândia de Chico, aqui na Rua dos Arcos, no Poço da Panela.

“Venho comunicar-lhes do surgimento da mais nova troça carnavalesca da cidade do Recife, a Troça Químico Carnavalesca Tarja Preta (Pé-na-cova). Formada da necessidade de depressivos, agorafóbicos, claustrofóbicos, acometidos da síndrome das pernas nervosas, de pânico, de consumo complusivo, viciados em sexo etc, provarem que também são animados e dispostos pra folia. Enfim, aqueles consumidores de bolinha, psicotrópicos, ansiolíticos e afins querem provar que também são gente boa.

Em seu primeiro ano e apresentação, a Tarja Preta saíra às ruas no dia 11 de fevereiro, um sábado, concentrando-se por volta das 3 da tarde, e desfilando pelo circuito Poço da Panela-Casa Forte.

A Troça contará com a presença de cordão de isolamento (para os agorafóbicos) e animada orquestra.

É desnecessário afirmar que o bloco é democrático e aberto à participação de todos, ou seja, mesmo os normais podem participar.

Camisas já estão sendo confeccionadas à preços módicos, podendo-se adquiri-las facilmente mediante contato com alguém da organização (no caso de vocês que estão recebendo esse mail, falem comigo, óbvio).

Não percam a chance de obter uma prova de sua participação no triunfal primeiro desfile do Tarja.

Espero todos lá,

Josias Geó - atual Presidente do troço…”

**

Desnecessário informar que no mesmo dia teremos a prévia do famoso “Amantes de Glória”, que reúne um time que eu vou dizer (César Maia, Giba, Carol, Ariel, Ivanzinho etc). Na festa do Amantes do ano passado, faltou até freio no meu Fusca, mas este ano não corro perigo, porque nem Fusca mais eu tenho. A gamelagem será no Bar Pirata, ali por detrás do Colégio Salesiano.

Informo que haverá um teste de resistência para os mais fogosos. É que no domingo teremos a prévia do “Esfola ou Arrebenta”, na Praça do Arsenal, a partir das 15h30.

Está muito difícil trabalhar aqui no Recife, nesta época do ano. Até o Carnaval, teremos prévia todo dia e toda hora, festa para todos os gostos.

Defendo a tesde de que o ano só começa de verdade depois do Carnaval, lá pelo dia 6 de março, porque fica difícil a pessoa se concentrar em qualquer coisa séria, com tantos clarins anunciando a chegada de mais uma troça e com tanto troço bom acontecendo.

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