Tatuagens de ternura
Samarone Lima
Amanhã o Recife vai amanhecer sem Zeca, porque logo cedinho ele vai estar viajando para o Rio de Janeiro, onde vai morar. Ontem teve a despedida-surpresa, organizada por sua mãe, Lucila, mas foi tudo fajutice, porque ele percebeu que algo estava sendo preparado durante o dia, e fingiu que não tinha nada a ver com aquilo. À tardinha ele veio aqui, tomamos duas cervejas geladíssimas em Seu Vital e fiz aquela cara de leso, como quem não sabe nada, e acho que tinha um letreiro na minha testa, informando que teria um assustado em sua casa.
À noite, em meio aos comes e bebes, tive algumas conversas filosóficas da mais alta importância com ele. Primeiro, fiquei sabendo que não tenho uma tartaruga em casa, mas um cágado, o que muda radicalmente meu cotidiano e minha forma de ver o mundo. É que eu andava muito nervoso, sem dormir direito, achando que minha tartaruga estava com dengue, pois não saía do canto, não se alimentava, não ia ao banheiro, não dava um passo. Zeca me tranqüilizou, disse que já teve um cágado, um gato e um pato de uma vez só, explicou que eles, os cágados, são assim mesmo, ficam bem quietos, sem importunar ninguém, sem puxar assunto, são criaturas silenciosas e mansas, então fiquei profundamente aliviado e acho justo que a TV Globo esteja contratando Zeca para trabalhar no Rio de Janeiro.
Depois, me bateu uma inveja irreversível. Zeca vai morar no Rio e vai ganhar um salário para escrever sobre ….futebol! Como é um de meus sonhos de infância, combinamos que ele vai ficar de olho, e se aparecer uma vaga, vai me indicar, dizendo que eu levo jeito com a escrita, e prometeu que dividiremos o apartamento em Laranjeiras, o que é muito chique. Falam da violência do Rio, mas acho o Recife muito mais barra-pesada. Quando tiver jogo do Santa Cruza contra os times do Rio, estaremos lá, no Maracanã, empurrando nosso escrete e calando a torcida do Flamengo.
Então fiquei pensando sobre o fluxo da vida, que é sempre um mistério. Conheci primeiro o pai de Zeca, o engenheiro Edinaldo Miranda. Em 1992, eu era um jovem candidato a jornalista, e estava escrevendo umas reportagens sobre o misterioso caso daquela bomba que explodiu no Aeroporto dos Guararapes, em 1966, durante a ditadura. Morreram duas pessoas, e várias ficaram feridas. Edinaldo foi preso dois anos depois e apontado como responsável pela bomba, junto com o também engenheiro Ricardo Zarattini. O tempo todo eles repetiram que eram inocentes, nunca foi provado nada contra eles, mas ficou assim mesmo. Eles passaram por coisas terríveis, sofreram muito, até que veio a Anistia, em 1979, e puderam recomeçar a viver. Mais que isso, começaram a lutar pela verdade sobre aquele episódio, mas nunca conseguiram. Estou perto de terminar este livro, e espero que fique bonito como Edinaldo e Zarattini.
Fui na casa de Edinaldo várias vezes, a partir de 1992, lembro que eu tinha 23 anos e ainda estava naquele período da pindaíba pesada, que foi de 1987 a 1992. Nas muitas idas ao apartamento na Estada das Ubaias, eu não fiquei amigo de ninguém da família, a não ser Edinaldo, que morreu em 1999.
Alguns anos depois, fiz uma série de entrevistas com Lucila, a esposa de Edinaldo, e acabei amigo dela também, fato que prossegue até hoje, pela graça divina. Em 2000, voltei ao Recife e conheci Emilia, filha de Edinaldo e Lucila, e ficamos amigos também. Teve um Carnaval desses que tomamos um porre de chamar Jesus de Genésio, declaramos nosso amor incondicional, e até hoje somos iguaizinhos àquela música muito brega, que tem o refrão em espanhol, “amigos para siempre”, que as pessoas dançam abraçadas quando estão mamadinhas.
Por último, veio Zeca. Fomos nos aproximando aos poucos, e lembro que eu estava ensinando na Unicap, quando ele entrou na sala, timidamente, com seu passo e jeito mansos. Era meu aluno de Jornalismo, quase uma década depois de eu ter ido à sua casa, entrevistar seu pai. Terminou o curso, trabalhou em alguns lugares, agora vai para o Rio, ser gauche na vida.
Não sei qual o motivo de escrever sobre a partida de Zeca. Não é para dizer o quanto gosto dele, porque ele já sabe bem. Acho que é para falar da vida, dos encontros, de como é bom conhecer e conviver com gente de verdade, no mormaço e na chuva, na alegria e na tristeza, pessoas que criam raízes na gente.
Mário Benedetti fala em um de seus poemas de “tatuagens de ternura”.
Acho que é isso mesmo. Há pessoas que deixam tatuagens de ternura na gente, e quando partem, ficam também, como tatuagem, deixando a lembrança infinita de uma boa e profunda conversa sobre a diferença existencial entre uma tartaruga e um cágado.
Para Edinaldo, Lucila, Emilia e Zeca, pois.
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