A mulher que perdeu os medos
Samarone Lima
Foi na semana passada, e como dizem os psicólogos, estou elaborando o diálogo, pela rara intensidade. Eu conversava com duas pessoas, na despedida de um amigo, a o papo seguia bom, cheio de coisas ricas, delicadas, falávamos de coisas da vida (acho melhor não citar o nome porque nem todo mundo quer ver seu nome em uma crônica, e daqui a pouco não vão querer conversar mais comigo, porque posso publicar conversas) e nenhum dos três sabia contar piadas, creio.
Fomos trocando impressões sobre os mais diferentes temas, lembrando coisas de nossas vidas. Uma disse que foi apaixonada por um menino do Jardim I até a 4a série, então rimos muito. A outra disse uma frase e tanto: “Desde que eu me lembro, estou apaixonada por alguém”. Ela tinha um pôster do He-Man em seu quarto, e cada vez que acordava, dava um beijo nele. A amiga confessou que também adorava o He-Man, mas não só adorava mesmo, não chegou a ficar apaixonada pelo super-herói. Minha lembranças de infância são meio ruis, porque fui um pirralho que leu pouqíssimo gibi e assistiu pouquíssimo desenho animado, não sei o que eu ficava fazendo nas muitas horas vagas da infância.
Até que, em um determinado momento da conversa, uma delas me disse que não tinha mais medo de nada. Ela disse que nada, absolutamente nada, lhe dava medo. Perdeu todos os medos.
Fiquei assombrado. Como assim, sem medo de nada?
Então ela me contou que no ano passado perdeu a irmã mais nova, vítima de uma doença. Não entrou em detalhes, e nem precisava. Mas o que ela mais temia na vida era perder aquela irmã tão amada, e foi justamente o que aconteceu. Uma esquina torta no meio da vida. Um safanão da vida, a morte precoce de quem se ama.
Hoje, ela não tem mais medo da solidão, da morte, de ficar desempregada, nada. Simplesmente perdeu o medo, nada mais que isso. Ele foi embora, junto com aquela dor, que só posso mesmo imaginar. Não havia convencimento em suas palavras, não se tratava de nenhuma tentativa de demonstrar força, mas pelo contrário: É como se tivesse chegado ao ponto mais frágil da vida, quase um graveto, aquele graveto quase quebrou, mas depois ela conseguiu se redimir, sobreviver, florescer.
Quando ela terminou de falar, fizemos um breve silêncio, e dos seus olhos vazava uma luz muito forte, serena, que guardei como quem está recebendo um presente para a humanidade inteira.
Achei justo compartilhar com vocês, num dia muito triste.
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