Melancolíricas
Samarone Lima
Ah, certos dias me vem uma tristeza muito grande, uma melancolia, os últimos foram assim, e há uma sensação de que algo está, de fato, se rasgando por dentro, me perdoem os poucos leitores pela falta de coisas boas para compartilhar. Sou muito de brincar, gosto da alegria, mas não sou imune às dores da vida, também tenho minhas angústias, tristezas, desolações, minhas falências espirituais, enfim, nada mais que um integrante da espécie humana.
O que me salva é sempre um amigo que saiba escutar sem julgar e ficar no meu canto, quieto. Nesses momentos, quando estou ferido, eu sou meio bicho do mato mesmo. Minhas dores são egoístas, faço como os cães, que lambem suas feridas num cantinho. As alegrias, ah, as alegrias são em conjunto, com os meus, ao deus-dará, eu adoro a celebração coletiva.
Me salva também sair pela cidade, andar em silêncio pelo Recife, vendo as pessoas e criaturas, os rostos, as esperanças e tristezas. Ontem mesmo, fui assistir “Cidade Baixa”, no Teatro do Parque, uma sessão às 18h, que custa R$ 1,00. Desço uma parada antes da Rua do Hospício, vou andando no meio da multidão, na Conde da Boa Vista. É bom me sentir anônimo, somente olhando, respirando a cidade onde vivo. O Recife está um mormaço, um calor ainda intenso, ao entardecer. Em cada esquina, um carrinho vendendo CDs pirateados, com frevo rolando. Ah, o Recife é todo Carnaval, é uma cidade que parece apenas esperar a hora, o momento da grande festa coletiva, há um povo inteiro somente esperando o momento da celebração coletiva.
Passam mulheres suadas, com suas crianças nos braços, vejo uma se pesar na balança da farmácia: 58,9 quilos, acho que está magrinha, vou andando, olhando as lojas, os vendedores de tudo, de óculos, perfumes, alças para sutian, as vendedoras ainda com forças para bater palmas, chamar novos clientes, o sujeito com voz de locutor, chamando os clientes ao microfone, um fantasiado de palhaço, fazendo firulas na porta da loja.
Na fila do Teatro, muitas colegiais, vendedores, gente da classe média baixa e outras classes que não reconheço bem, gente que pode estar salvando o dia com um filme por R$ 1,00. Compro meu ingresso, agradeço, a mulher responde “de nada, meu bem”, nunca num Shopping vou ser cumprimentado assim, tem sempre um vidro e um ridículo microfone, para dar o toque impessoal, mas é isso mesmo, fico feliz com o “de nada, meu bem”, que veio com um sorriso doce.
Sento, vem “O Poeta”, um personagem que está no Teatro do Parque há anos, com suas folhinhas impressas, seus poemas invariavelmente ruins, ele aborda as pessoas com a voz exageradamente alta, com a acusação: “Oi, eu sou poeta, estou mostrando meu trabalho”, comprei um poema por R$ 0,25 e acho que ele está piorando com o tempo, e há muito tempo ele diz que é poeta. Um poema sobre “A sala de aulas” termina dizendo “as condições humanas, expõem-se questionadas/afastam pouco a pouco, o estado de asmo/A participação em as questões poematizadas”, eu não entendi uma vírgula e não sei o que é “asmo”, se alguém souber, me avise, porque me senti um asno com o poema, ou talvez pasmo.
Olho o Teatro do Parque, mato saudades. Aqui assisti um grande show de Elomar, há muitos anos, aqui assisti um belo show do Luís Melodia, o filme começa, é um filme intenso, com cenas de sexo, desejo, dois homens e uma mulher que se desejam, no submundo de Salvador, no final, na última cena, uma cena desconcertante, um sujeito grita bem forte “porra!” e há uma gargalhada geral.
Saio pela Rua do Hospício, já é noite, muitos comem cachorro quente a R$ 1,00 com o suco grátis, tomo um suco de tamarindo, ligo para o Ricardo Mello, apareceu um trabalho bacana para mim, oficinas de texto com jovens de comunidades de baixa renda, me animo, é isso o que gosto de fazer, marco uma reunião para hoje, depois vou às Lojas Americanas, está fechando, só vejo os vendedores cansados, terminando a luta de mais um dia, olho CDs, daqui a pouco começa a tocar “Ave Maria”, e não estou com clima para um negócio triste desses no final do dia, volto pela Conde da Boa Vista, um homem forte boceja na parada, vem o Alto Santa Isabel, sempre ele, entro, sento próximo à cobradora e vou olhando pela janela a paisagem do Recife, esta cidade que entrou em minha alma e no meu sangue.
Há alunos na calçada de um cursinho fumando cigarros e esperanças. Ainda vejo os incansáveis vendedores de pipoca, a cobradora está cansada, encosta a cabeça e cochila, vejo uma moça que pega o ônibus errado, muitos e muitos que esperam o ônibus nas inúmeras paradas, casais que se equilibram, mães, avós, homens sérios, jovens, o ônibus vai seguindo, o vento vai entrando pela janela, volto para casa, chego ao Poço, vejo os amigos aqui em Seu Vital, tomo um café, como meu pedaço de fruta-pão que simplesmente adoro e vou me aquietar, que a vida segue seu rumo, a vida está certa, é só deixar que ela siga, como um ônibus pela Rosa e Silva, a caminho de casa, viver parece que é caminhar para casa, que é a gente mesmo, sei lá, vamos vivendo, a gente não nasce e vai vivendo, a gente vive e vai moldando, parece, mas não tenho certeza.
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