Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Melancolíricas

15 de fevereiro de 2006, às 8:18h por Samarone Lima

Ah, certos dias me vem uma tristeza muito grande, uma melancolia, os últimos foram assim, e há uma sensação de que algo está, de fato, se rasgando por dentro, me perdoem os poucos leitores pela falta de coisas boas para compartilhar. Sou muito de brincar, gosto da alegria, mas não sou imune às dores da vida, também tenho minhas angústias, tristezas, desolações, minhas falências espirituais, enfim, nada mais que um integrante da espécie humana.

O que me salva é sempre um amigo que saiba escutar sem julgar e ficar no meu canto, quieto. Nesses momentos, quando estou ferido, eu sou meio bicho do mato mesmo. Minhas dores são egoístas, faço como os cães, que lambem suas feridas num cantinho. As alegrias, ah, as alegrias são em conjunto, com os meus, ao deus-dará, eu adoro a celebração coletiva.

Me salva também sair pela cidade, andar em silêncio pelo Recife, vendo as pessoas e criaturas, os rostos, as esperanças e tristezas. Ontem mesmo, fui assistir “Cidade Baixa”, no Teatro do Parque, uma sessão às 18h, que custa R$ 1,00. Desço uma parada antes da Rua do Hospício, vou andando no meio da multidão, na Conde da Boa Vista. É bom me sentir anônimo, somente olhando, respirando a cidade onde vivo. O Recife está um mormaço, um calor ainda intenso, ao entardecer. Em cada esquina, um carrinho vendendo CDs pirateados, com frevo rolando. Ah, o Recife é todo Carnaval, é uma cidade que parece apenas esperar a hora, o momento da grande festa coletiva, há um povo inteiro somente esperando o momento da celebração coletiva.

Passam mulheres suadas, com suas crianças nos braços, vejo uma se pesar na balança da farmácia: 58,9 quilos, acho que está magrinha, vou andando, olhando as lojas, os vendedores de tudo, de óculos, perfumes, alças para sutian, as vendedoras ainda com forças para bater palmas, chamar novos clientes, o sujeito com voz de locutor, chamando os clientes ao microfone, um fantasiado de palhaço, fazendo firulas na porta da loja.

Na fila do Teatro, muitas colegiais, vendedores, gente da classe média baixa e outras classes que não reconheço bem, gente que pode estar salvando o dia com um filme por R$ 1,00. Compro meu ingresso, agradeço, a mulher responde “de nada, meu bem”, nunca num Shopping vou ser cumprimentado assim, tem sempre um vidro e um ridículo microfone, para dar o toque impessoal, mas é isso mesmo, fico feliz com o “de nada, meu bem”, que veio com um sorriso doce.

Sento, vem “O Poeta”, um personagem que está no Teatro do Parque há anos, com suas folhinhas impressas, seus poemas invariavelmente ruins, ele aborda as pessoas com a voz exageradamente alta, com a acusação: “Oi, eu sou poeta, estou mostrando meu trabalho”, comprei um poema por R$ 0,25 e acho que ele está piorando com o tempo, e há muito tempo ele diz que é poeta. Um poema sobre “A sala de aulas” termina dizendo “as condições humanas, expõem-se questionadas/afastam pouco a pouco, o estado de asmo/A participação em as questões poematizadas”, eu não entendi uma vírgula e não sei o que é “asmo”, se alguém souber, me avise, porque me senti um asno com o poema, ou talvez pasmo.

Olho o Teatro do Parque, mato saudades. Aqui assisti um grande show de Elomar, há muitos anos, aqui assisti um belo show do Luís Melodia, o filme começa, é um filme intenso, com cenas de sexo, desejo, dois homens e uma mulher que se desejam, no submundo de Salvador, no final, na última cena, uma cena desconcertante, um sujeito grita bem forte “porra!” e há uma gargalhada geral.

Saio pela Rua do Hospício, já é noite, muitos comem cachorro quente a R$ 1,00 com o suco grátis, tomo um suco de tamarindo, ligo para o Ricardo Mello, apareceu um trabalho bacana para mim, oficinas de texto com jovens de comunidades de baixa renda, me animo, é isso o que gosto de fazer, marco uma reunião para hoje, depois vou às Lojas Americanas, está fechando, só vejo os vendedores cansados, terminando a luta de mais um dia, olho CDs, daqui a pouco começa a tocar “Ave Maria”, e não estou com clima para um negócio triste desses no final do dia, volto pela Conde da Boa Vista, um homem forte boceja na parada, vem o Alto Santa Isabel, sempre ele, entro, sento próximo à cobradora e vou olhando pela janela a paisagem do Recife, esta cidade que entrou em minha alma e no meu sangue.

Há alunos na calçada de um cursinho fumando cigarros e esperanças. Ainda vejo os incansáveis vendedores de pipoca, a cobradora está cansada, encosta a cabeça e cochila, vejo uma moça que pega o ônibus errado, muitos e muitos que esperam o ônibus nas inúmeras paradas, casais que se equilibram, mães, avós, homens sérios, jovens, o ônibus vai seguindo, o vento vai entrando pela janela, volto para casa, chego ao Poço, vejo os amigos aqui em Seu Vital, tomo um café, como meu pedaço de fruta-pão que simplesmente adoro e vou me aquietar, que a vida segue seu rumo, a vida está certa, é só deixar que ela siga, como um ônibus pela Rosa e Silva, a caminho de casa, viver parece que é caminhar para casa, que é a gente mesmo, sei lá, vamos vivendo, a gente não nasce e vai vivendo, a gente vive e vai moldando, parece, mas não tenho certeza.

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Das vantagens do corte da água

15 de fevereiro de 2006, às 0:50h por Samarone Lima

Já me aconteceu de tudo um pouco: já fui preso e levado num camburão à saída do estádio, uma vez esqueci minha mala de viagem em um boteco (e só lembrei na rodoviária), comi soda cáustica quando era pivete, já cortaram minha luz algumas vezes, cochilei em plena avenida e meti meu Fusca num Honda Civic, já fui presidente de Casa do Estudante, fundador de troça de Carnaval, enfim, mas teve uma boa semana passada – cortaram a água aqui de casa.

Eu sempre fui tão preocupado com as contas de luz (média de um corte por ano), que fui deixando a água de lado, acumulando contas, até que a turma da Compesa partiu para a ignorância mesmo – diante da minha obstinação não-pagamental, levaram o hidrômetro (acho que o nome é esse mesmo, apesar de achar que deveria se chamar aguômetro, algo assim), me deixando na seca.

Há inúmeras vantagens em ficar sem água em casa, e pouquíssimas desvantagens, acho inclusive que deveríamos fazer um boicotezinho para a Compesa baixar os preços das contas de água. Primeiro, é ótimo esse negócio de tomar banho na casa dos amigos, porque sempre tem um monte de shampoo bacana, dá para tirar uma lasquinha, aquele que custa mais de dez reais, não aqueles de R$ 3,99 que compro, na promoção. Outra sugestão minha é a seguinte: leve sempre um balde para o banho e traga-o cheio, para os momentos mais críticos no seu banheiro.

Outra vantagem imensa do corte de água: você vai conhecer o banheiro dos vizinhos e até ficar mais amigo deles. Seu Vital, por exemplo, tem que prender o cachorro para que ele não me despedace por inteiro, e faz isso com uma certa satisfação, como quem diz “esse Samarone não tem jeito mesmo”. Tomo banho no WC dos clientes e já deixo o sabonete por lá, que é para o próximo banho. Volto para casa com a toalha no ombro e ainda escuto gracinhas dos clientes.

Na casa de Naná, o banho é bom, mas a lâmpada do banheiro está queimada, e atrapalha um pouco o serviço, penso em levar uma vela para o próximo banho, para um “banho à luz de vela”, deve ter sido aí que nasceu aquela história de “Banho Turco”, é porque Nana deve descender de turcos.

Descobri também que lavar pratos usando a água do balde representa uma economia de 95% no consumo de água, vou falar para meus amigos do Semi-Árido para implementarem o projeto “pratos no balde”, ao lado do “Um Milhão de Cisternas”.

A única nota a lamentar é que as plantas estão sofrendo um pouco, mas como ontem deu uma chuvarada, posso ficar mais sossegado. O jabuti, ou cágado ou tartaruga não deve estar gostando também da brincadeirinha.

Naná ficou de me trazer um tonel, amanhã de manhã, para eu não ficar zanzando com baldes na mão. Pensa em puxar uma mangueira por cima do seu muro, atravessar quintais e terrenos, numa intricada combinação de canos e mangueiras, até chegar à minha casa. Não sei se vai dar certo. Sei que estou pelo menos me divertindo um pouco.

O corte de água serviu para me afastar um pouco as tristezas que andei sentindo nos últimos dias. Parece que quando o sujeito tem que lutar pela sobrevivência, deixa o sofrer meio de lado, talvez esqueça de sofrer mesmo, nem que seja para descolar um balde d’água. Corte de luz não ajuda nada, porque sem um ventilador por perto, eu não durmo um segundo. Além disso, privatizaram a Celpe para os espanhóis, não quero espanhol nenhum me deixando no escuro.

Por via das dúvidas, amanhã tentarei pagar as faturas atrasadas e renegociar a dívida. Daqui a pouco, Seu Vital vai ficar injuriado com esse prende e solta do cachorro e Naná vai achar ruim eu levar uma vela para o banho em sua casa.

E confesso: tem hora que o banho de cuia é poético, mas enche o saco mesmo.

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