Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Não tenho mais idade para isso

17 de fevereiro de 2006, às 0:53h por Samarone Lima

Um amigo meu outro dia fez uma viagem ao interior, em um ônibus vagabundo, para ver o seu time jogar. Seu time, por coincidência, é o meu, que vem a ser o Santa Cruz. A viagem foi infame, num ônibus caindo aos pedaços, ele deveria chegar em casa à meia noite, mas o ônibus foi parado pela Polícia Rodoviária três vezes, e o pneu estourou, isso sem contar que o nosso time perdeu. Chegou no Recife quase quatro da manhã e constatou: não tenho mais idade para isso.

Até outro dia, eu tinha uma birra com esse negócio de “não tenho mais idade para isso”. Mas ela, a frase, mudou de sentido. Ao invés de revelar um cansaço, um abatimento da alma, me diz que vamos ficando mais seletivos, com o passar do tempo. O ser humano pode sim, ser como os vinhos. E descubro que não tenho mais idade para muitas coisas.

Não tenho mais idade para ficar aturando gente chata. Eu me afasto mesmo, na base da cara feia, e se for o caso, digo para o sujeito: meu irmão, tu é chato pra caralho. Engraçado que há uma média de 10 homens chatos para cada mulher chata.

Não tenho mais idade para ser destratado em bar ou restaurante. Ontem mesmo, estava em um bar, o tal do Recanto Paraibano, assistindo um jogo do meu clube, o já citado Santa Cruz. Tinha um telão imenso, mas a gente não escutava nada. Os dois garçons que nos atendiam eram azedos dos pés à cabeça. Pedi ao gerente para aumentar o som, ele perguntou se o jogo já tinha começado, quando ia começar o segundo tempo. Não tive dúvidas: paguei a conta antes de começar o segundo tempo e fui assistir ao mesmo jogo em um botequinho de terceira, uma maravilha.

Não tenho mais idade para ficar contando vantagem, seja lá qual for a vantagem.

Não tenho mais idade para ficar contando os centavos, quando chega a conta. Calculo quanto gastei e coloco na mesa. Quando todos fazem isso, dá certo.

Não tenho mais idade para esconder sentimentos e emoções.

Não tenho mais idade para ficar mandando para os amigos aquelas mensagens engraçadinhas que chegam pela Internet. Aliás, nunca tive idade para isso, mas tem muita gente mais velha que continua com essa mania chata.

Não tenho mais idade para escutar palestra, conferência ou debate de qualidade duvidosa, sobre qualquer tema. Eu me levanto e vou embora, e quem achar ruim que ache ruim.

Não tenho mais idade para suportar bêbo chato falando besteiras no meu ouvido, apesar de ter feito isso com amigos, eles que me perdoem.

Não tenho mais idade para ler poetas ou escritores ruins. Nas primeiras páginas, se não gosto, eu delicadamente deixo de lado e vou em busca de algo que me encante.

Não tenho mais idade para ver filme ruim até o fim.

Não tenho mais idade para pedir autógrafo a ninguém.

Não tenho mais idade para ficar longe dos amigos.

Não tenho mais idade para acreditar em amores impossíveis e sofridos.

Continuo tendo idade para buscar o amor real, aquele júbilo que tão bem sabemos.

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