A palavra que conserta a vida
Samarone Lima
Por obra do destino, voltarei a ser professor. Ganhei de presente uma disciplina com o delicioso nome de “Oficina da Palavra”. A partir de abril, trabalharei com jovens de 16 a 19 anos, de bairros menos favorecidos desta cidade imensa e desigual, que é o Recife. Durante 18 meses, junto com outros profissionais, tentaremos buscar novos caminhos profissionais e humanos para 80 jovens, num belo projeto que envolve muita gente bacana, sob a batuta do querido Ricardo Mello. Por ora, só posso informar isso, para as coisas fluírem bem.
E me vi novamente preparando aulas, pensando nos caminhos a seguir. Fui à Biblioteca Central da Universidade Católica, levando meus cadernos e alguns livros. Passei o dia inteiro em meio aos livros, naquele clima delicioso de biblioteca.
E logo que cheguei, me veio uma torrente de lembranças. As mesmas mesas, as cadeiras iguais, as prateleiras não mudaram, desde a primeira vez que pisei ali, em 1988. São 18 anos, meu Deus! Foi ali, naquele mesmo lugar, que comecei a minha grande aventura com a escrita, com os livros, com a descoberta dos mundos. Lembro que morava numa pensão ali próximo, e dividia o quarto com dois camaradas. Sei que os nomes deles estão anotados em meus inúmeros diários, mas não é o caso de futucar o passado com vara curta, é só uma constatação.
Lembro de um, que trabalhava vendendo seguros, algo assim. Ele chegava do trabalho e abria uma latinha de Pitu, ficava a bebericar e fumar seus cigarros. Era magro, aquele que bebe e vai ficando magro (porque tem cara que bebe e vai ficando gordo). Quando eu voltava da Universidade, ele ainda estava em sua melancolia profunda, entre os goles de aguardente e o cigarro forte, que eu não achava ruim. Quando a faxineira vinha limpar o quarto, arrastava com a vassoura um monte de latinhas vazias, que estavam debaixo de sua cama, e eu ficava impressionado com sua sede. Não sei que destino levou. O outro era um rapaz do interior. Se não me engano, sonhava em morar no Rio de Janeiro, tomara que tenha conseguido, é bom realizar sonhos. Ele sempre botava um pano na janela, para não entrar sol de manhã, e isso era muito bom.
Fui preparando as aulas, pensando em como a palavra poderia ajudar na formação desses jovens que encontrarei. Enquanto isso, olhava para os funcionários e tentava o precário reconhecimento de lembranças antigas. Minha memória é péssima, acho que por isso escrevo tanto. Tinha uma gordinha simpática que sempre me atendia com um sorriso, não lembro seu nome, mas lembro de seu sorriso. Não a vi. Terá se aposentado? Muita coisa muda em 18 anos, mas creio que seu sorriso não mudou, deve ter melhorado. Com o tempo, o sorriso das pessoas melhora.
Lá pelas tantas, as aulas foram ficando prontas, pelo menos na minha cabeça, mas o filminho continuou passando. As aulas, os amigos de turma, os primeiros estágios, até que chegou a hora de viver disso, do jornalismo, viver da palavra, por assim dizer. Conquistei, às duras penas, o ofício de Jornalista. Depois de vários anos, retornei para ensinar na mesma Unicap. Teria que repassar este amor às palavras e aos textos aos meus alunos. Lembro da apreensão que fiquei, antes de entrar em sala de aula, e da grande dica que Gustavo me deu, antes da primeira aula:
“Você não precisa mudar nada porque vai ser professor. Seja você mesmo, que vai dar tudo certo”.
Foi o que tentei fazer, não sei se cheguei a realizar plenamente o que planejei, mas guardo muitas lembranças lindas.
Agora, terei pela frente 80 jovens de bairros menos privilegiados do Recife, para caminhar e descobrir novos mundos. O nome da disciplina é “Oficina da Palavra”.
E me vem uma percepção mínima, mas que me serve, me ampara e me orienta: a palavra muitas vezes consertou minha vida. Em outras, ela me salvou.
Postado em Crônicas |
18 Comentários »


