Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Deu zebra na mudança do Blog!

31 de março de 2006, às 22:18h por Samarone Lima

Amados leitores,

Fui inventar de mudar o modelo do Blog, e fiz um monte de besteiras. Resultado: todos os textos perderam a forma original, estão batidões, como se eu escrevesse parágrafos imensos e intermináveis, a la Proust, quem me dera.

A confusão aumentou, porque os dados sobre este Blog e sobre o autor, ficaram lá no final, com um espaço vazio em cima.

Terei que chamar minha professora de Blog, Macksandra, para me ajudar a reorganizar as coisas. Mas vai uma confissão: até que este modelo ficou bonitinho.

Bem, como já dizia o velho e bom Leminsky, “distraídos venceremos”.

ps. após uma madrugada cutucando espaços, olhando “definições do Blog”, “editar postagens” e coisas piores, consegui reorganizar os textos, mas o resto continua esculhambado. Se o troço sair do ar, não se incomodem, eu devo ter apertado algum “excluir Blog” sem perceber, o ruim é que vou perder todos os arquivos.

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Conversas no Alto José do Pinho e uma análise sobre a Lei Seca

30 de março de 2006, às 14:27h por Samarone Lima

Estou no salão Belo Visual, no Alto José do Pinho, Zona Norte do Recife. Eliete, minha cabeleireira, passa uns cremes na minha vasta cabeleira e comenta:

“Professor, está bom de dar uma cortadinha, né?”

Só Eliete, e mais ninguém, enfia uma tesoura na minha cabeleira. Ela só me chama de “professor”, porque quando a conheci, eu era professor da Universidade Católica, e fiz um trabalho com os alunos no Alto. Não tem jeito: todo mundo no Alto me chama de “professor”. Eu adoro isso, acho mais bonito ser professor que jornalista. A filha de Eliete faz um alisamento no cabelo de uma criatura, que está sentada ao meu lado. O cabelo dela é cor de jambo, e o secador, junto com a escova, vai alisando tudo, o cabelo vai ficando uma peruca, de tão lisinho. Daqui a pouco, o assunto em pauta é a morte de uma atriz, que não sei o nome, só sei que era uma setentona, e caiu de um edifício, acho que foi no Rio de Janeiro.

“Foi suicídio. Deu no noticiário. Isso é depressão”, diz a mulher-do-cabelo-sendo-alisado.

O salão inteiro entra no assunto. Fico calado, para não cometer nenhuma gafe, porque outro dia saiu o ator global Kadu Moliterno com a família, na revista Caras, e era tudo lindo e maravilhoso, uma família “unida, completa e feliz”, como sempre queria minha avó Zeneuda. A mulher dele apareceu recentemente na capa de uma revista, toda detonada, com o olho inchado, dizendo que apanhava direto do camarada, o mundo está mesmo uma grande esquizofrenia.

A mulher ao lado conta a história de uma amiga que ficou doida, por causa de um grande amor, hoje vive girando o braço esquerdo o tempo inteiro e comeu parte dos cabelos. Eu fico impressionado com esse negócio de comer parte dos cabelos.

“Lá vou morrer por causa de homem! Eu, em cada separação, vou é para a farra, tomo todas e volto pra casa cheia dos quequéus”.

Eliete escuta. Perdeu um grande amor, ano retrasado, vítima de um acidente, e só faz o comentário:

“Primeiro, a pessoa tem que se amar”.

A morte da atriz é o mote para uma longa discussão sobre solidão, depressão, relacionamentos, separações, sofrimento, culpa, amor, enfim, essas coisas que rendem muito num salão de beleza, num boteco e numa sessão de psicanálise.

Eliete me pergunta se conheço um lugarzinho para ela alugar um salão, em Casa Forte. Anda meio desgostosa, quer mudar de ares, conhecer novas pessoas, “escutar outras conversar”. Fico de procurar um lugar, ela pede meu telefone. Dá uma aparada na minha juba e vou comemorar no bar de Seu Biu, que fica defronte.

É quase uma hora da tarde. Flávio me serve um “Ele & Ela”, depois como um pratinho de jabá (a R$ 2,00) e tudo fica mais bonito. Flávio me fala da com sua voz de locutor da “Lei Seca”, que está vigorando em vários bairros, inclusive no Alto José do Pinho. A partir das 23h, segundo determinação da Secretaria de Defesa Social, os bares de vários bairros não podem mais vender bebida alcoólica. Flávio acha que não vai dar em nada, porque o bar fecha, e todo mundo vai atrás de bares abertos. Só valeria mesmo se fosse para a cidade inteira, avalia.

“É um problema. Quando dá onze horas, todo mundo começa a pedir saideiras”, lamenta Flávio, que está se organizando para voltar a estudar para concursos. Pergunto qual concurso, ele responde que qualquer um serve.

Lembrei de Castanha, o homem que mais pede saideiras no Brasil. No mínimo dez, antes de pedir a conta. Seu Vital adora essa brincadeirinha.

“O governo tinha que fazer propaganda na televisão, explicando se está dando resultado e informando como funciona. Ficou tudo nas costas da gente, que trabalha no ramo”, explica Flávio. Concordo.

Ele me olha assim bem sério e diz:

“Sabe de uma coisa, Marone (ele só me chama de Marone mesmo, desde a primeira vez que falou comigo, já me acostumei). Com essa Lei Seca, a turma está bebendo é mais. Como sabem que o bar vai fechar de 11 horas, empurram o pau. Bebem com mais pressa. O freezer que esvaziava lá pela uma da manhã, agora fica vazio antes das onze”.

Imagino. O cara beber olhando para o relógio deve ser um inferno.

Na parede, os avisos diversos.

“Não vendemos mais fiado”.

“Evite ressaca: mantenha-se bêbado”.

Preços: prato de Jabá: R$ 2,00 (pequeno) e R$ 3,00 (grande); Cerveja Brahma: R$ 2,00.

Cerveja Nova Schin: R$ 1,99.

Na mesa ao lado, cinco sujeitos tomam Pitu em lata, comem jabá e discutem com seriedade os caminhos do dominó. Lá pelas tantas, um lamenta:

“Pra jogar lá, a gente tem que pagar. Agora… eles aqui jogam de graça”, diz ele, com um jeito meio desconfiado.

Termino minha cerveja, passo na casa de Peste, meu velho amigo, mas ele saiu. Procuro um táxi, mas o taxista foi almoçar. Desço a pé mesmo, o velho e bom Alto José do Pinho. Vou olhando as pessoas, as casas, os jogadores de dominó do início da tarde, as velhinhas aboletadas nas varandas, uns cachorros preguiçosos, caçando sombra, o subúrbio, a periferia, essas coisas que adoro, os lugares onde me sinto em casa.

No primeiro andar de uma casa, um senhor de bermuda vai levantando uma parede lentamente. Está suado, são quase duas horas da tarde, o calor está fodendo tudo, ele está concentrado em seu ofício, tem um tijolo nas mãos, não olha sequer para os lados. Lembrei de uma crônica do Rubem Braga, escrita na Itália, logo após o final da II Guerra, quando ele observa um homem reconstruindo sua casa, “trabalhando quieto, quase sem comer, de sol a sol, indiferente a tudo o mais”. Ao final, Braga diz que aquele homem estava ali, solitário, mas parecia que estava fazendo mais que reconstruir sua casa, destruída pelas bombas: “estava começando a reconstruir o mundo”.

Pego um ônibus até o mercado de Casa Amarela, vou em Mary, procuro Davi, mas ele não está. Passo na barraca de Denise, ela grita “oi, meu amor”, bem delicado, e acho essas coisas do Recife impagáveis, líricas, afagos na alma. Penso em almoçar peixe, mas hoje não tem peixe, deixo pra lá. Pego um táxi, volto para casa com um taxista silencioso, um carro velho, caindo aos pedaços.

Chego em casa, olho no espelho, o cabelo ficou na medida, Eliete é demais.

Deveria ter anotado a placa do táxi, para jogar no bicho, mas esqueci.

Bem, a vida segue.

ps. hoje à tardinha (sexta-feira), será aberta a exposição “Visões do Poço”, com trabalhos de vários artistas do nosso reduto. A mini-galeria funciona na mercearia de Seu Vital, no Poço da Panela. Quem quiser ir, vai curtir.

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Anotações sobre o jogo do bicho

29 de março de 2006, às 9:57h por Samarone Lima

Acabei de fazer uma enquete em Seu Vital sobre o jogo do bicho e a única conclusão que cheguei foi a seguinte: não há motivo algum para esse troço ser ilegal.

Ricardo, filho de Vital, comprou um carro novo ontem. A placa (6342) vai ser jogada por todo mundo da comunidade do Poço da Panela. A dezena 42 é cavalo.

Não entendeu?

O jogo do bicho tem sua lógica, e 25 animais estão representados por várias dezenas. Exemplo: de 01 a 04, é avestruz. De 05 a 08, é águia. De 09 a 12 é outro animal, que não vem ao caso lembrar. Não entendeu? Ok, de 09 a 12, é burro, está tudo certo.

Então, se a pessoa jogou a milhar 2501, jogou na avestruz. Se jogou 3005, foi águia.

Qual a importância disso para a história da humanidade?

Imagine se você sonhou com um elefante, animal que gosto deveras, principalmente elefante azul, que dizem estar em extinção. O que vai fazer? Consultar o psicanalista, para fazer relações com o peso do animal, sua imensa tromba e sua cor? Não, meu querido ou minha querida, melhor jogar a milhar com a dezena terminando entre 45 e 48, que é a “dezena de elefante”, como diz Vital.

O brasileiro é um bicho sonso. Apesar de proibido, aqui no Poço, todo mundo joga no bicho, e os animais estão como que atravessando a vida das pessoas. Exemplo: outro dia sonhei com Arara, pai deThiago e Thúlio. Como não tem Arara no bicho, me sugeriram jogar na placa do camarada. Joguei três dias seguidos a R$ 1,00 e quando desisti, deu a milhar. Com o jogo do bicho é assim: você joga 200 vezes, e quando deixa de jogar, dá na cabeça, o primeiro prêmio.

Na última campanha, organizei uma caminhada com Luciana Azevedo aqui no Poço da Panela. O número dela, salvo engano, era 13813 (a dezena é borboleta). O certo seria, no dia seguinte, todo mundo jogar 3813, do primeiro ao quinto. Só que deu uma pane e todo mundo aqui esqueceu de jogar. Deu no primeiro prêmio. Quem ganhasse, acharia Luciana a mulher mais linda do mundo.

“Samarone, viesse com a sorte, e não pegamos”, me disse um morador. Ainda bem que Luciana teve uma votação de arromba. Aqui no Poço, ninguém esqueceu o número dela.

Outro dia, fui numa gráfica para encomendar um trabalho, e fiquei perplexo com a quantidade de comandas do jogo do bicho que estavam sendo impressas. Eram milhares de blocos, formulários, rolos. Um universo que movimenta milhões de reais, todos os dias, aqui em Pernambuco.

Lembro da época em que trabalhei no Diário de Pernambuco, de 1991 a 1994. Quando saía o resultado do Bicho, às 13h, havia uma comoção na redação. Depois, tem o jogo das 15h e o das 18h. Quem não ganhou no primeiro, joga no segundo, arrisca no terceiro, e ainda tem a “salvação”, das 17h.

Não sei se ainda tem muita gente jogando no Bicho, o Diário, porque os tempos mudam. Mas aqui no Poço, se der a dezena ente 73 e 76, é pavão. Se for de 77 a 80, é peru, e por aí vai.

Sempre joguei 3059, que era a placa do carro de meu pai, quando eu era pirralho. É jacaré. Olhando bem, o carro parecia mesmo um jacaré, sempre na terra e na água, resistindo a tudo. Deu duas vezes, na cabeça. Nas duas, eu tinha prometido jogar, mas esqueci.

Eis um detalhe do jogo do bicho. Você joga a vinda inteira, e nunca arranca nada. Quando você esquece, dá na cabeça. E você promete nunca mais jogar.

Mas no dia seguinte, diz para si mesmo: não custa nada arriscar.

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Cada papelzinho, uma vida

27 de março de 2006, às 16:39h por Samarone Lima

Nas muitas viagens que fiz à Argentina, Chile e Uruguai, para pesquisar sobre ditaduras e solidariedade, que resultou no livro Clamor (2003), escutei dezenas de histórias, que não entraram no livro, mas guardei com carinho em muitos cadernos, e passo a compartilhar.

Lembro que a pesquisadora argentina Claudia Feld, que participava comigo e outros 15 jovens pesquisadores da América Latina do projeto “Memória e Repressão”, me entregou uma pesquisa que tinha feito sobre o julgamento dos militares argentinos, em 1985. Era uma longa e detalhada pesquisa sobre o impacto que o julgamento dos milicos, após a redemocratização do País, teve naquele contexto argentino. Mas, como sempre, foi uma pequena história a que mais me interessou.

Não era sequer uma história. Na verdade, pouquíssimas frases, de uma pessoa que foi ao Tribunal, dar seu testemunho. Era o depoimento de uma mulher. Das 833 pessoas que deram seu testemunho, cerca de 500 havia sido afetadas diretamente pelo terrorismo de Estado: sobreviventes de centros clandestinos de detenção e familiares de desaparecidos.

Alberto Amato contou para Claudia um episódio que ocorreu no Tribunal. Um dia, uma testemunha apareceu com uma pasta laranja debaixo do braço, sentou-se e contou sua história. A pasta estava grudada ao corpo. Ao final do depoimento, o juiz perguntou:

“A senhora tem alguma prova?”.

“Sim”.

“As trouxe?”

“Sim”, respondeu a senhora.

“Estão nesta pasta?”

“Sim, estão nesta pasta”.

“Por favor, entregue-a ao Tribunal”, pediu o juiz.

O juiz pediu a pasta e a mulher foi se desprendendo dela com uma enorme dificuldade, “como quem se desprendia da única amarra que tinha com a vida”, como disse Amato. Dentro, estavam muitos papéis. Após entregar a pasta ao Tribunal, ela só conseguiu dizer uma frase:

“Por favor, não percam nenhum papelzinho”.

Lhe disseram:

“Fique tranqüila, não vamos perder nenhum papelzinho”.

Atrás dela, um jornalista disse a Amato:

“Te dás conta? Cada papelzinho é uma vida”.

***

Uma vez, estávamos discutindo sobre o número de mortos e desaparecidos nas diferentes ditaduras de cada País. A conversa com os amigos pesquisadores do Cone Sul ficou em cima dos números. Lembro que uma das pesquisadores, que era do Chile, ficou impressionada com o baixo número de mortos e desaparecidos no Brasil, em comparação com os seus vizinhos (só na Argentina, o número de desaparecidos pode chegar a 30 mil).

“Mas só?”, perguntou ela, referindo-se aos desaparecidos brasileiros.

Eu fiquei tão perplexo, que só me veio uma frase Tzevan Todorov como resposta:

“Um milhão de mortos é uma informação. Uma morte é um sentimento”.

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Conversas recifenses na fila do banco

25 de março de 2006, às 10:49h por Samarone Lima

Estou na fila do Banco do Brasil, na sede da Prefeitura do Recife, para receber uma pequena ajuda de custo para pagar nossa orquestra dos “Barba”. É sexta-feira, já passei duas horas com Serjão, nos corredores da Prefeitura, o tal do “empenho” vai de um lado para o outro, falta sempre alguma assinatura, até que recebo o papel em três vias e vou para a fila. A fila não, aquilo era um mar de gente. Então descubro que é o dia do pagamento da ajuda de custo para as troças e blocos. Aguço o ouvido, esqueço o cansaço, e começo a pescar as conversas. Descubro que há muitos mundos, dentro de uma mesma cidade, cada um com seus valores e importâncias. Neste caso, estou no meio de uma gente pobre, que insiste em manter a tradição de um bloco ou troça no bairro, às vezes sem dinheiro nem para a passagem de ônibus dos integrantes.

Três sujeitos estão à minha frente. Um deles tem apenas o dente da frente, pontudo, aguçado, um dente que parece não querer ficar dentro da boca. Batizei-o logo de Dentinho. Ele é o mais falante. Ao seu lado, um sujeito baixinho, de calça marrom desbotada, camisa verde bem velha, aberta à altura do peito, chapéu branco, daqueles de poeta, enterrrado na cabeça. Lembou um amigo meu da Casa do Estudante, “Tijolinho”. Eles conversam. Esqueço do cansaço e começo meu trabalho de registrador das conversas recifenses:

“Rapaz, a Dantas Barreto acabou-se no Carnaval. Ninguém vai pra lá, só se for para ser morto ou assaltado”.

“Quando fizeram aquele corredor de merda…”

“Na Praça do Diário era que era bom. A gente saída do Marco Zero e vinha se apresentando, era lindo”.

O de dente pra fora passa então a reclamar:

“Maracangalha estava com dez passistas e cinco diretores, e foi quarto lugar!”

“E eu, que fui o sétimo!”, reclama Dentinho.

“Maracangalha não foi quarto não, rapaz, foi quinto, que eu vi a apuração”.

“E eu, que fui o sétimo! O Sétimo!”

“E o terceiro, foi quem?”

Silêncio.

Dentinho retoma:

“Se eu tivesse caído, ía processar a Federação”.

Olha para os amigos, indignado, e pergunta:

“Agora me diga. Como é que passa sem o porta-estandarte e se classifica em quinto lugar, e eu fico em sétimo?”

“Em quinto? Isso é que é uma esculhambação”.

O celular do cara atrás de mim toca.

“Alô Clarinha? Tudo bem? Ôx, ele está juntinho de mim, aqui na fila”.

(passa o celular para Dentinho, que abre um sorriso com seu único dente).

“Ei, menina, tás com raiva de mim ainda?”

Silêncio.

“Meus trabalhos na comunidade, estou aprendendo a trabalhar melhor, visse?”

Silêncio.

“Vou entregar o aparelho ao teu marido, minha linda”.

Fala para os amigos:

“Eu vi ela guri, conheci pequenininha”.

Outro sujeito, na fila, fala alto, como se pensasse entre seus miolos.

“Aquelas agremiações do interior receberam o mesmo que a gente. O que sobra para eles, falta para a gente. De outro município, tinha que vir como convidado”.

Entra um sujeito moreno, forte, na agência. Ao meu lado, Dentinho dá um grito.

“Seu Vladimir!!!!”

A fila inteira olha para seu Vladimir. Uma velhinha que cochilava na cadeira quase cai, com o berro de Dentinho.

“Vladimir Vieira da Silva!”

Abraços e tapões nas costas, igualzinho aos políticos.

“Fala Bicão!”

Do meu lado:

“Aí eu me arretei… Era o Urso da Boa Vista”.

“Faltando cinco minutos para terminar minha apresentação, Léo tirou a orquestra e me prejudicou muito. Veja bem: cinco minutos antes de terminar a apresentação!”

“Safadeza monstra. Agora… tens notícia de Camisa Velha?”

“Camisa Velha passou vários anos sem sair, e quando saiu, me ganhou o título por um ponto. Sabe o que é perder o título por um ponto?”

“Um ponto é pra arrasar a pessoa”.

Chega uma senhora, com o carnê do IPTU.

“Me informaram agora que meu débito do IPTU é dois mil e pouco. Já pensasse?”

“É um pobrema, esse negócio do IPTU. Eu tenho um barraquinho de cinquenta metros, e estou devendo mais que isso”.

“A turma lá de cima não perdoa pobre”, comenta um senhor barrigudo, muito sério.

Do outro lado da fila, a conversa segue.

“Tá desmoralizada. A Federação Carnavalesca está desmoralizada. A pessoa não pode ter três agremiações de jeito nenhum”.

“Eu vou te dizer uma coisa. A minha comunidade é muito boa para o Carnaval. Quando a gente sai, sai mesmo, não tem quem segure”.

“Sabia que o cara está com três ursos, aquele homem lá do Buriti?”.

“Eu te digo: esses caras estão acabando com o Carnaval do Recife”.

“Ali, rapaz, só punhalada nas costas”.

Vai chegando a minha vez de ir ao caixa. Ainda escuto o acerto:

“Quando a gente receber o dinheiro, vamos na casa de Jorge Bicão, tomar uma”.

“E apois”.

Durante uma hora de fila, não escutei um comentário sobre corrupção, guerras, o aumento da violência no Recife, o custo de vida, desemprego, nada. Era outro mundo, com suas carências, seus sonhos, suas tristezas e alegrias. Outros recifenses, que moram nos altos e baixos, longe dos lugares mais arrumadinhos.

Fiquei arrependido de não ter perguntado qual a agremiação que perdeu o Carnaval por um ponto, um reles pontinho, mas deixei para lá. Certas coisas, sem resposta, ficam até melhores.

E confesso: se tivesse me chamado para ir na casa de Jorge Bicão, tomar uma, eu teria ido na hora.

Fica para a próxima, então.

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