Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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As pequenas fortunas do afeto

3 de março de 2006, às 9:27h por Samarone Lima

Desde a quarta-feira de cinzas ando intrigado com uma questão filosófica e poética: por onde andará o meu precioso exemplar do “Livro do Desassossego”, do Fernando Pessoa, que os ladrões levaram, junto com minha bolsa, naquele assalto feio e nervoso?

Sei que após colocar minha bolsa no ombro, os dois ladrões entraram na favela de Santo Amaro e fiquei desamparado, com apenas uma caneta no bolso, em plena Agamenom Magalhães, uma das mais movimentadas do Recife. Um taxista me disse que lá dentro da favela “é um verdadeiro labirinto”, e lembrei de Borges, com seus labirintos. Será que o Pessoa foi notado? Será que alguém ali por dentro chegou a ler a bela dedicatória que a super super Érika fez para mim, no maio dos meus 30 anos, em São Paulo? Será que alguém percebeu que o livro está riscado em todas as páginas, com dezenas de anotações minhas nas primeiras páginas, coisas que servem para toda uma vida? Vão reparar que algumas páginas estão manchadas de café?

Ontem, me dei ao trabalho de um levantamento mais completo das coisas que estavam na bolsa e confirmei o que vinha pensando: quem me roubou não ficou menos pobre, apenas causou males a um amante da literatura e das besteiras da vida. Além do Pessoa, tinha o pequeno livro do Gustavo, o “Comunicosofia”, que ganhei de presente, em Brasília, e vinha relendo para preparar as aulas que vou dar na “Oficina da Palavra”. Tinha feito inúmeras anotações e o livro, na verdade, era já um esboço das aulas. Espero que Gustavo leia esta pequena crônica e me envie um novo exemplar, com dedicatória novamente.

Mais duas cacetadas: a deliciosa caneta-tinteiro, que me acompanhava serena e bela, há mais de dois anos, e um relógio de bolso, com aquela correntinha, igual aos dos nossos avós ou bisavós, aquele que a gente aperta um pitoco e a tampa abre. Lembro que quando eu dava aula, colocava em cima da mesa para ver a hora de encerrar algum assunto, e dizia que tinha sido do meu avô, uma história cheia de meandros, coisas de herança etc. Na verdade, o pequeno objeto me custou R$ 19,99 em uma banca de revista, mas valia inventar a história pelo tom solene da conversa e o ar de espanto.

Por último, confirmei agora de manhã. Tinha colocado na bolsa, pouco antes de sair, uma cadernetinha linda, que ganhei da Fabiana, de Londres, uma cadernetinha repleta de anotações aleatórias, frases de autores queridos, de amigos, pequenos trechos de reflexões inúteis sobre a importância do café forte para a saúde, a vantagem de ter pé grande na compra de sapatos, ponderações sobre a necessidade de conversar com desconhecidos em praças e ônibus, além da pequena ode aos jardins. Me dói saber que a tal cadernetinha estava a poucas páginas do final.

Há pouco me deu um frio na espinha. E se um dos ladrões, o que estava com um 38 me apontando na cabeça, resolver ler minhas anotações? Meu Deus. Pior: se ele foi comemorar o assalto em um boteco, ali por dentro, tomando umas cervejas, e resolver ler em voz alta minha reflexão existencial sobre a importância da pelada de domingo nos Caducos, aqui no Poço?

Como só recebo dinheiro lá para o dia 10 de março, acabei de pegar R$ 200,00 a título de empréstimo, com Seu Vital. Paguei dona Fátina e me sobrou R$ 150,00. Daria este meu pequeno orçamento pelos dois livros, a caneta, o relógio e meu caderninho. Acho que os ladrões topariam.

Já que a questão as segurança pública está um desastre mesmo, deveriam inaugurar pelo menos um “Serviço de Interação com os Ladrões”. Você discaria para um 0800 e negociaria o material roubado. Tenho certeza que muitos bandidos barra pesada aceitariam uma graninha pela foto do filho que a mãe levava, no cantinho da carteira que foi roubada.Outros lalaus venderiam por uns trinta contos aquele terço da avó, que a mulher levava na bolsa, a modo de proteção. A carta que a amada mandou de longe, cheia de saudades, valeria um pouco mais.

Porque mais que o dinheiro, o celular, os cheques, são esses pequenos afetos que nos roubam, essas lembranças que carregamos conosco para fazer a vida mais bonita. O retrato da filha distante, um bilhetinho de alguém dizendo “te amo”, com sua letra garatujada, um restinho do perfume predileto, para usar no encontro de daqui a pouco, aquela fitinha do Senhor do Bonfim, baratíssima em todo canto, mas que é uma proteção, uma pequena bênção, o livro mais querido, cheio de anotações, com uma foto antiga dentro.

São as pequenas fortunas do afeto, nossas besteirinhas, nossa singularidade. Quando levam, assim à força, a vida fica menos bela.

Para Luisa, a Luluôô, que completa dois anos hoje, e faz minha vida muito mais bela.

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