Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Pequenas histórias de amor, volume II

14 de março de 2006, às 17:05h por Samarone Lima

Ela andava meio sem esperança no amor, e já tinha me confessado em nossos muitos cafés. Ninguém a emocionava o suficiente para que os olhos brilhassem, até que apareceu uma viagem. Iria filmar, com uma equipe do Recife, um Festival Internacional de Bonecos. Viagens, muitas apresentações, artistas de todo o mundo. Quem sabe, pensamos, quem sabe neste Festival não aconteça algo que seja simples e bom, do jeito que queres, a sorte de um amor tranqüilo.

Ele é jovem, e me confessou outro dia, na praia, que estava há muito tempo sem se apaixonar. Viajava muito, com sua companhia de bonecos, tinha percorrido a Europa, conhecera gente bonita, interessante, tivera lá seus pequenos afetos, mas… faltava algo que lhe fizesse se sentir menino, capaz de brincar com as besteiras do dia, de se encantar com uma conversa, uma troca de olhares, um sorriso que lhe acalentasse a alma.

E o Festival começou. Ela, a diretora, fazia seu trabalho, dizia as cenas que queria, fazia as entrevistas. Começou a viajar por muitas cidades, já tinham se passado três semanas de Festival, e tudo seguia calmo. Estavam em Cuiabá, quando ele chegou com sua trupe. Ele, com seus bonecos, seguiu na louca agitação da preparação para as apresentações, aquele mundo de gente do mundo inteiro. Ela lembra que era uma sexta-feira, quando foram apresentados. Trocaram algumas rápidas palavras, nada muito importante, porque nem sempre o amor é à primeira vista.

No dia seguinte, se reencontraram, e algo começou a se mover. Ela viu quando ele subiu ao palco, e ficou se perguntando – quem será esta criatura, meu Deus? “Quando fecho os olhos e lembro deste momento, me vem um cheiro doce na lembrança e logo um sorriso com braços largos e ternos”, me contou ela outro dia.

Aquele sujeito de pernas finas, peito estufado, cabelos lisos e sorriso generoso estava concentrado em seu boneco, quando olhou e viu novamente aquela morena esguia, cabelos pretos, de sorriso doce mãos eloqüentes. Sentiu, não sabe porque, aquela fisgada no peito, que um amigo diz ser “uma cócega no coração”. A troca de olhares já havia se modificado. Os dois decidiram, sem revelar a ninguém, que precisavam se falar mais.

Deram um jeito de conversar, foram afastando quem estava por perto, e pouco tempo depois, nenhuma conversa interessava mais, a não ser o que um tinha a dizer para o outro.

Não sei qual foi a desculpa que ele inventou para convidá-la até o quarto, ele até me contou outro dia, mas ando com a memória fraca, acho que algum boneco novo, mas enquanto ele tentava abrir a porta do quarto, ela encostou a cabeça na parede e ficou olhando, reparando, sentindo seu cheiro e achando-o a criatura mais linda, e sentiu isso tudo antes mesmo de a porta ser aberta, o que para mim é uma metáfora linda.

Ele, que se engasgava com a chave, sentindo sua respiração, olhou-a docemente e se beijaram ali mesmo, esqueceram a porta, o quarto, o Festival, e o mundo ficou mais bonito, como uma moldura, pintada de azul. Ela me disse depois que perdeu a noção do tempo e do espaço, ele me disse que ficou vendo estrelas de todas as cores e tamanhos, e se grudaram.

Passaram vários dias namorando, se reconhecendo. Não havia pressa. Ele, um passarinho do Sul, ela, uma ave migratória do Nordeste, se encontrando no coração do Brasil.

O festival seguiu por várias cidades, e eles foram descobrindo as paisagens de cada um. O encontro já tinha acontecido, e era irreversível. Já não se tratava de um pássaro do Sul e uma ave migratória do Nordeste, mas duas almas que se reconheciam em pleno vôo.

Ao final do Festival, foram inundados pela saudade. Muitas vezes, durante o almoço, ele parava e não percebia as lágrimas descerem pelo rosto, molhando a comida. A mãe dele ligou para a “moça do Recife”, perguntando o que ela fizera, porque seu filho estava enfeitiçado. Era verdade.

Tomaram suas decisões. Primeiro, ela foi ao seu encontro. Depois, ele veio para os dias de sol recifense. Breve, vão estar juntos em algum lugar que não seja de um, nem do outro, mas que seja dos dois.

Estão juntos há sete meses, e me pediram, outro dia, para fazer a bênção do casamento, então resolvi contar esta pequena grande história de amor.

Para Deá e Rafa, que se reconheceram.

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