Anotações sobre um livro novo
Samarone Lima
Finalmente, chegou a hora. Depois muitos anos, estou conseguindo escrever a versão final de um projeto que iniciou em 1993, quando eu estava no último período do curso de Jornalismo, da Unicap, aqui no Recife. É um livro sobre a explosão de uma bomba no Aeroporto dos Guararapes, em 1966, quando estávamos com dois anos de Ditadura.
No atentado, morreram duas pessoas, outras ficaram mutiladas, mas a Polícia nunca conseguiu identificar os autores. Por outro lado, ninguém assumiu a ação. Ficou assim mesmo, no vazio. Uma bomba silenciosa.
Em dezembro de 1968, dois engenheiros foram presos e envolvidos no atentado, numa cilada kafkaniana de um delegado insano, no Recife. Apresentados à imprensa dia 11 de dezembro de 1968, Ricardo Zarattini e Edinaldo Miranda conheceriam de perto e por dentro, as entranhas da Ditadura. Dois dias depois, foi promulgado o AI-5, tirando até o habeas corpus do mundo jurídico. Não foi fácil passar pelo que os dois passaram. Não nos enganemos: esse Brasil já foi muito pior.
No livro, conto a história dos dois engenheiros. A prisão, o sofrimento, as fugas, exílios, amores, enfim.
Falo aqui neste Blog por um motivo simples. O livro estava atravessado em mim. Escrevi uma versão, em 2003, e não gostei. Tentei dezenas de vezes recomeçar, e esbarrava no próprio crivo - não achava o caminho.
Há duas semanas, consegui acessar a fonte. Sentei, botei o primeiro capítulo para o final, e o rio começou a passar. Comecei a reescrever capítulos, cortar coisas, mudar relatos, refazer percursos. É um mistério, esse negócio de escrever. A hora mais importante do dia é esta, quando ligo o ventilador aqui, no pé do ouvido, no três, ligo o computador e vou trabalhar.
Aos poucos, o livro foi renascendo. Um, dois, três capítulos refeitos. Outros foram chegando, nascendo prontos. Refiz a ordem cronológica, mudei caminhos, e agora há pouco, tive um susto: tenho 22 capítulos prontos, três por revisar, creio que mais cinco capítulos, e o livro estará pronto. Até a Semana Santa, farei mais três entrevistas complementares, para ter mais densidade nas informações.
Será meu último livro sobre o período das ditaduras. Já publiquei “Zé”, em 1998, a pequena biografia de um militante clandestino da Ação Popular. Depois veio “Clamor”, em 2003, minha dissertação de Mestrado sobre a solidariedade no Cone Sul da América Latina, durante as ditaduras. Agora vem o terceiro, fechando a trilogia. Fala de um encontro com o passado e de um encontro com a verdade.
Os verdadeiros autores do atentado nunca assumiram o fato, e a culpa ficou, historicamente, em cima de dois engenheiros. Um deles, Ricardo Zarattini, disse num belo documentário da Andréa Ferraz, que “a verdade tem força revolucionária, ela muda o mundo”. Acho que é verdade.
Acho que está ficando bom, pelo menos estou escrevendo apaixonadamente, em todos os horários. A pior coisa para quem escreve, é um bloqueio, quando você não sabe ou não consegue começar. O livro está vindo como um rio.
Por enquanto, o título é: Quando o silêncio condena, que é o mesmo título do documentário da Andréa.
Não sei nem por que comecei a falar sobre isso, acho que para compartilhar com meus leitores uma alegria, um alívio. Comecei esta pesquisa com 23 anos, com uma barba rala e mais tímido vinte vezes que hoje. Fui seguindo meus caminhos no Jornalismo, e nunca me perdi dessa história. Fiz grandes amizades com a turma dessa geração, uma entrevista fortíssima com Edinaldo, ao som de músicas revolucionárias do mundo inteiro. Estou com 36, alguns cabelos bancos, e está na idade de criar juizo, dizem alguns amigos. Menos, menos.
Bem, são coisas da vida. No fundo, acho que escrever tem me ajudado a viver melhor, é simples.
Entre um capítulo e outro, tentarei sempre arranjar um tempinho para o Blog, que adoro.
Vamos que vamos.
Postado em Crônicas |




21 de março de 2006, às 21:51h
Olhe olhe Samarone… não esqueça dos “seus” fãs bloggeiros…
Que esse “rio” continue correndo sempre!! Felicidades com mais essa conquista!
21 de março de 2006, às 22:46h
Querido Samarone! Lembro de há alguns anos ler suas entrevistas sobre este episódio no site do Tortura Nunca Mais… Acho que era esse site, não? Não vejo a hora de ler mais um livro seu sobre o este período. O Clamor foi excepcional e ainda vaga de mão em mão aqui em Curitiba. Só não li o Zé ainda… Quem sabe um dia terei uma oportunidade… Quando estive no Recife, tentei comprar na Livraria Cultura mas não encontrei! Uma pena! Meu caro, sucesso, alegria e felicidades nesse novo parto e que o filho saia tão lindo, ou mais do que o Clamor! Grande abraço, Priscila
22 de março de 2006, às 1:20h
Sama, não vou me demorar. Tenho que escrever a minha tese. Depois da leitura do seu texto me desbloqueei tb. Abração do mano PH
22 de março de 2006, às 5:45h
Nao abandona o blog, por favor.
Sucesso, sucesso e sucesso!
Claudia
22 de março de 2006, às 8:57h
Priscila,
mande seu endereço, que te mando um exemplar de “Zé”.
beijos,
samarone
ps. estou sem teu email.
22 de março de 2006, às 13:07h
Sempre visito seu blog.
Vc escreve muito bem.
Onde posso encontrar o ” ZÉ”
Gostaria de ler.
Sucesso no seu novo livro e avisa o dia do lançamento.
Bjs
Iza
22 de março de 2006, às 13:51h
O blog é a ponte que passa sob o rio. Não deixe percorrer. Absorva as mudanças que vc está vivendo.
22 de março de 2006, às 14:38h
Samuca: “Beba, pois a água viva ainda está na fonte, você tem dois pés para cruzar a ponte. Nada acabou, basta ser sincero e desejar profundo. Você será capaz de sacudir o mundo”. Não encontrei nada melhor que Raul Seixas para servir de comentário ao teu texto de hoje. Bj, Ane.
23 de março de 2006, às 1:11h
Que momento mágico esse, em que o bloqueio se rompe, e as palavras, até então rebeldes, vão se encaixando. E só acontece quando se escreve apaixonadamente. Boa sorte, que seu livro continue fluindo.