Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Conversas recifenses na fila do banco

25 de março de 2006, às 10:49h por Samarone Lima

Estou na fila do Banco do Brasil, na sede da Prefeitura do Recife, para receber uma pequena ajuda de custo para pagar nossa orquestra dos “Barba”. É sexta-feira, já passei duas horas com Serjão, nos corredores da Prefeitura, o tal do “empenho” vai de um lado para o outro, falta sempre alguma assinatura, até que recebo o papel em três vias e vou para a fila. A fila não, aquilo era um mar de gente. Então descubro que é o dia do pagamento da ajuda de custo para as troças e blocos. Aguço o ouvido, esqueço o cansaço, e começo a pescar as conversas. Descubro que há muitos mundos, dentro de uma mesma cidade, cada um com seus valores e importâncias. Neste caso, estou no meio de uma gente pobre, que insiste em manter a tradição de um bloco ou troça no bairro, às vezes sem dinheiro nem para a passagem de ônibus dos integrantes.

Três sujeitos estão à minha frente. Um deles tem apenas o dente da frente, pontudo, aguçado, um dente que parece não querer ficar dentro da boca. Batizei-o logo de Dentinho. Ele é o mais falante. Ao seu lado, um sujeito baixinho, de calça marrom desbotada, camisa verde bem velha, aberta à altura do peito, chapéu branco, daqueles de poeta, enterrrado na cabeça. Lembou um amigo meu da Casa do Estudante, “Tijolinho”. Eles conversam. Esqueço do cansaço e começo meu trabalho de registrador das conversas recifenses:

“Rapaz, a Dantas Barreto acabou-se no Carnaval. Ninguém vai pra lá, só se for para ser morto ou assaltado”.

“Quando fizeram aquele corredor de merda…”

“Na Praça do Diário era que era bom. A gente saída do Marco Zero e vinha se apresentando, era lindo”.

O de dente pra fora passa então a reclamar:

“Maracangalha estava com dez passistas e cinco diretores, e foi quarto lugar!”

“E eu, que fui o sétimo!”, reclama Dentinho.

“Maracangalha não foi quarto não, rapaz, foi quinto, que eu vi a apuração”.

“E eu, que fui o sétimo! O Sétimo!”

“E o terceiro, foi quem?”

Silêncio.

Dentinho retoma:

“Se eu tivesse caído, ía processar a Federação”.

Olha para os amigos, indignado, e pergunta:

“Agora me diga. Como é que passa sem o porta-estandarte e se classifica em quinto lugar, e eu fico em sétimo?”

“Em quinto? Isso é que é uma esculhambação”.

O celular do cara atrás de mim toca.

“Alô Clarinha? Tudo bem? Ôx, ele está juntinho de mim, aqui na fila”.

(passa o celular para Dentinho, que abre um sorriso com seu único dente).

“Ei, menina, tás com raiva de mim ainda?”

Silêncio.

“Meus trabalhos na comunidade, estou aprendendo a trabalhar melhor, visse?”

Silêncio.

“Vou entregar o aparelho ao teu marido, minha linda”.

Fala para os amigos:

“Eu vi ela guri, conheci pequenininha”.

Outro sujeito, na fila, fala alto, como se pensasse entre seus miolos.

“Aquelas agremiações do interior receberam o mesmo que a gente. O que sobra para eles, falta para a gente. De outro município, tinha que vir como convidado”.

Entra um sujeito moreno, forte, na agência. Ao meu lado, Dentinho dá um grito.

“Seu Vladimir!!!!”

A fila inteira olha para seu Vladimir. Uma velhinha que cochilava na cadeira quase cai, com o berro de Dentinho.

“Vladimir Vieira da Silva!”

Abraços e tapões nas costas, igualzinho aos políticos.

“Fala Bicão!”

Do meu lado:

“Aí eu me arretei… Era o Urso da Boa Vista”.

“Faltando cinco minutos para terminar minha apresentação, Léo tirou a orquestra e me prejudicou muito. Veja bem: cinco minutos antes de terminar a apresentação!”

“Safadeza monstra. Agora… tens notícia de Camisa Velha?”

“Camisa Velha passou vários anos sem sair, e quando saiu, me ganhou o título por um ponto. Sabe o que é perder o título por um ponto?”

“Um ponto é pra arrasar a pessoa”.

Chega uma senhora, com o carnê do IPTU.

“Me informaram agora que meu débito do IPTU é dois mil e pouco. Já pensasse?”

“É um pobrema, esse negócio do IPTU. Eu tenho um barraquinho de cinquenta metros, e estou devendo mais que isso”.

“A turma lá de cima não perdoa pobre”, comenta um senhor barrigudo, muito sério.

Do outro lado da fila, a conversa segue.

“Tá desmoralizada. A Federação Carnavalesca está desmoralizada. A pessoa não pode ter três agremiações de jeito nenhum”.

“Eu vou te dizer uma coisa. A minha comunidade é muito boa para o Carnaval. Quando a gente sai, sai mesmo, não tem quem segure”.

“Sabia que o cara está com três ursos, aquele homem lá do Buriti?”.

“Eu te digo: esses caras estão acabando com o Carnaval do Recife”.

“Ali, rapaz, só punhalada nas costas”.

Vai chegando a minha vez de ir ao caixa. Ainda escuto o acerto:

“Quando a gente receber o dinheiro, vamos na casa de Jorge Bicão, tomar uma”.

“E apois”.

Durante uma hora de fila, não escutei um comentário sobre corrupção, guerras, o aumento da violência no Recife, o custo de vida, desemprego, nada. Era outro mundo, com suas carências, seus sonhos, suas tristezas e alegrias. Outros recifenses, que moram nos altos e baixos, longe dos lugares mais arrumadinhos.

Fiquei arrependido de não ter perguntado qual a agremiação que perdeu o Carnaval por um ponto, um reles pontinho, mas deixei para lá. Certas coisas, sem resposta, ficam até melhores.

E confesso: se tivesse me chamado para ir na casa de Jorge Bicão, tomar uma, eu teria ido na hora.

Fica para a próxima, então.

Postado em Crônicas |

2 Comentários

  1. keila aquino Disse:

    Sama, tô aqui já saindo pra uma festinha de criança e qdo vi o micro ligado pensei: eu vou dar uma espiadinha no blog do Sama!
    Então encontro vc com sua forma especial de falar sobre coisas simples da vida… uma delícia!
    Esse mundo a que pertencemos que envolve guerras, corrupções, violência urbana e outras coisas nos tira um pouco a percepção de que algo além disso existe.
    Podem ser coisas mais simples, como vc descreveu, ou coisas mais belas, como a poesia e as emoções…
    Obrigada por nos fazer relembrar que precisamos melhorar nossa percepção sobre outros mundos!!
    Beijos e bom domingo.

  2. Seu Paulo Disse:

    Parabéns pelo blog!
    Não tive tempo de lê-lo com calma, mas farei isso em breve.
    Abraço

Conversinhas

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