Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Anotações sobre o jogo do bicho

29 de março de 2006, às 9:57h por Samarone Lima

Acabei de fazer uma enquete em Seu Vital sobre o jogo do bicho e a única conclusão que cheguei foi a seguinte: não há motivo algum para esse troço ser ilegal.

Ricardo, filho de Vital, comprou um carro novo ontem. A placa (6342) vai ser jogada por todo mundo da comunidade do Poço da Panela. A dezena 42 é cavalo.

Não entendeu?

O jogo do bicho tem sua lógica, e 25 animais estão representados por várias dezenas. Exemplo: de 01 a 04, é avestruz. De 05 a 08, é águia. De 09 a 12 é outro animal, que não vem ao caso lembrar. Não entendeu? Ok, de 09 a 12, é burro, está tudo certo.

Então, se a pessoa jogou a milhar 2501, jogou na avestruz. Se jogou 3005, foi águia.

Qual a importância disso para a história da humanidade?

Imagine se você sonhou com um elefante, animal que gosto deveras, principalmente elefante azul, que dizem estar em extinção. O que vai fazer? Consultar o psicanalista, para fazer relações com o peso do animal, sua imensa tromba e sua cor? Não, meu querido ou minha querida, melhor jogar a milhar com a dezena terminando entre 45 e 48, que é a “dezena de elefante”, como diz Vital.

O brasileiro é um bicho sonso. Apesar de proibido, aqui no Poço, todo mundo joga no bicho, e os animais estão como que atravessando a vida das pessoas. Exemplo: outro dia sonhei com Arara, pai deThiago e Thúlio. Como não tem Arara no bicho, me sugeriram jogar na placa do camarada. Joguei três dias seguidos a R$ 1,00 e quando desisti, deu a milhar. Com o jogo do bicho é assim: você joga 200 vezes, e quando deixa de jogar, dá na cabeça, o primeiro prêmio.

Na última campanha, organizei uma caminhada com Luciana Azevedo aqui no Poço da Panela. O número dela, salvo engano, era 13813 (a dezena é borboleta). O certo seria, no dia seguinte, todo mundo jogar 3813, do primeiro ao quinto. Só que deu uma pane e todo mundo aqui esqueceu de jogar. Deu no primeiro prêmio. Quem ganhasse, acharia Luciana a mulher mais linda do mundo.

“Samarone, viesse com a sorte, e não pegamos”, me disse um morador. Ainda bem que Luciana teve uma votação de arromba. Aqui no Poço, ninguém esqueceu o número dela.

Outro dia, fui numa gráfica para encomendar um trabalho, e fiquei perplexo com a quantidade de comandas do jogo do bicho que estavam sendo impressas. Eram milhares de blocos, formulários, rolos. Um universo que movimenta milhões de reais, todos os dias, aqui em Pernambuco.

Lembro da época em que trabalhei no Diário de Pernambuco, de 1991 a 1994. Quando saía o resultado do Bicho, às 13h, havia uma comoção na redação. Depois, tem o jogo das 15h e o das 18h. Quem não ganhou no primeiro, joga no segundo, arrisca no terceiro, e ainda tem a “salvação”, das 17h.

Não sei se ainda tem muita gente jogando no Bicho, o Diário, porque os tempos mudam. Mas aqui no Poço, se der a dezena ente 73 e 76, é pavão. Se for de 77 a 80, é peru, e por aí vai.

Sempre joguei 3059, que era a placa do carro de meu pai, quando eu era pirralho. É jacaré. Olhando bem, o carro parecia mesmo um jacaré, sempre na terra e na água, resistindo a tudo. Deu duas vezes, na cabeça. Nas duas, eu tinha prometido jogar, mas esqueci.

Eis um detalhe do jogo do bicho. Você joga a vinda inteira, e nunca arranca nada. Quando você esquece, dá na cabeça. E você promete nunca mais jogar.

Mas no dia seguinte, diz para si mesmo: não custa nada arriscar.

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