Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Minha briga com o IG e as lorotas de sempre

23 de março de 2006, às 10:20h por Samarone Lima

Até outro dia, eu vinha usando o IG para ver meus email, olhar as notícias na Internet, enfim. Mas o tal do IG tem uma mania feia de mandar informes quase diários, que enchem a paciência, pelo menos a minha, que detesto receber porcaria para ler. Pior: mandam coisas no meu nome, com uma falsa intimidade que detesto. “Samarone, mude para melhor!”, disse o primeiro email, e fiquei olhando atravessado, dizendo ôx!

Por que mudar para melhor, se o melhor deles pode ser bem diferente do meu? Foi então que descobri meu gosto de filosofia. Passei o dia lendo os socráticos, pré-socráticos e existencialistas, analisei profundamente os conceitos do bom e do melhor, e não cheguei a conclusão nenhuma.

Depois veio a ofensa: “Samarone, cadastre seu currículo gratuitamente!”.

Das duas uma, e não sei qual a pior: 1) o IG acha que estou desempregado, na pior, na pindaíba mesmo, nem lugar para currículo tenho para mandar, é o fim da linha, aos 36 anos, já com as chuteiras penduras, já rendeu o que tinha para render, coitado ; 2) O IG quer me arranjar um emprego, quando acho isso uma coisa muito fora de moda, neste início de milênio. Vou sobrevivendo com meus bicos jornalísticos e informo que zerei todos os débitos, semana passada, graças ao Dia Internacional da Mulher (Carol, valeu pelo frila), paguei até seu Vital, que tinha me emprestado duzentinho, na hora do aperto.

Achando pouco, o IG mandou um informativo com a seguinte manchete:

“Filha de Jacky Ickx vai correr no DMT!”.

Amigos leitores, eu sou relativamente bem informado, mas não sei, não imagino, não vislumbro sequer o rosto da tal Jacky (o segundo nome não sei pronunciar, e duvido que algum leitor deste Blog saiba), imagine a filha dela! A única conclusão que cheguei foi a seguinte: o IG acha que sou muito burro e seleciona lixo para eu ler. Agradeço se alguém me explicar o que é esse tal DMT, creio que é Depressa Mata Tudo, mas em inglês deve ser diferente, algo do tipo Down Man Trash, que eu não imagino o que vem a ser, porque gosto mesmo é da língua espanhola, especialmente os poemas do Juan Gelman.

O IG sempre se renova. Outro dia me mandou a pergunta: “Samarone, qual a sua religião?”

Além de ser uma coisa muito íntima, pessoal, confesso que não sei me situar no plano religioso. Em São Paulo, tive um guia espiritual, que era um pai-de-santo, coisa que não encontrei ainda no Recife, e que vai ser tema da próxima crônica. Era um negão forte e sorridente, que me atendia uma vez por mês, botava búzios, abria meus caminhos e dizia o que estava se passando comigo como se estivesse lendo meus diários. Êpa baba! Foi lá que descobri minhas aproximações com Oxalá, e é por isso que gosto tanto de roupa branca. Adoro os espíritas e acho uma igreja católica vazia, aquele silêncio contemplativo, a coisa mais religiosa do mundo. Além disso, geralmente ando com o terço que foi da minha avó Zeneuda, e vai aqui uma confissão, mas que minha família não saiba: já rezei algumas vezes o terço, quando o Santinha estava perdendo, e funcionou. A família haverá de perdoar, porque foram jogos decisivos: a decisão do Estadual, este ano, e o jogo contra a Portuguesa, quando viramos e subimos para a Série A, dois gols de Reinaldo, quando eu terminava o terceiro mistério. Ultimamente estou querendo ler o Alcoorão, para entender mais aquela confusão toda no Oriente Médio, e acho aquela saudação a Meca, todo entardecer, uma cena bonita.

Tem um nome para o povo ou a pessoa que tem várias religiões, e todas se harmonizam por dentro e por fora, mas esqueci agora como é o nome estou com preguiça de ir ao Aurélio, o pai dos burros, então sou um burro preguiçoso, graças a Deus, Oxalá, Chico Xavier e Maomé e Buda, os deuses maias, astecas e todos os outros que não lembro agora.

Acharam pouco? O IG me manda um informativo perguntando: “Samarone, qual o seu perfil?”

Como assim, por exemplo? Perfil psicológico? Terei que invocar minha amiga Emília Miranda, para escrever sobre minhas manhas e manias. Perfil futebolístico? Ficará dividida em duas partes: 1) Meu amigo Inácio França escreverá sobre a parte dos jogos do Santa Cruz, nos estádios e botecos, bem como o dia do Tetra, em São Paulo, quando quebrei o espelho de sua casa imitando o Senna; 2) Dinho Papeira falará sobre minha atuação na zaga dos “Caducos”, nos domingos pela manhã, aqui no Poço.

Não, pensando bem, nada desse negócio de perfil. O IG que vá amolar outro sujeito. Emília está viajando muito para cuidar das crianças no Sertão, Inácio está cuidando das crianças dele, que são duas, e das crianças do Unicef, que são muitas, e Dinho Papeira está de férias, perambulando aqui no Poço com uma eterna gaiola na mão, o homem é louco por passarinho, quase foi pego pelo Ibama, outro dia.

Eu já estava sem paciência, quando chegou a mensagem: “Samarone, assine Veja + 1 revista e pague só em 7/04!” (Toda mensagem vem com exclamação, como se fosse coisa importante).

Foi a gota d’água, deixei o IG de lado. Não bastasse a intromissão diária na minha vida, ainda quer me empurrar lixo, goela abaixo.

ps. Há seis anos, só leio Veja em consultório ou cabeleireiro, para ver qual o remédio novo para emagrecer ou como tratar os movimentos sociais como reles bandidagem. Como quase não fico doente e Eliete, minha cabeleireira, só compra “Carinho”, “Contigo” e “Caras”, me limito a olhar a capa, nas bancas. E então, compro a Caros Amigos ou Carta Capital.

ps 2. peguei no tranco: vou atualizar este Blog diariamente.

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Anotações sobre um livro novo

21 de março de 2006, às 16:45h por Samarone Lima

Finalmente, chegou a hora. Depois muitos anos, estou conseguindo escrever a versão final de um projeto que iniciou em 1993, quando eu estava no último período do curso de Jornalismo, da Unicap, aqui no Recife. É um livro sobre a explosão de uma bomba no Aeroporto dos Guararapes, em 1966, quando estávamos com dois anos de Ditadura.

No atentado, morreram duas pessoas, outras ficaram mutiladas, mas a Polícia nunca conseguiu identificar os autores. Por outro lado, ninguém assumiu a ação. Ficou assim mesmo, no vazio. Uma bomba silenciosa.

Em dezembro de 1968, dois engenheiros foram presos e envolvidos no atentado, numa cilada kafkaniana de um delegado insano, no Recife. Apresentados à imprensa dia 11 de dezembro de 1968, Ricardo Zarattini e Edinaldo Miranda conheceriam de perto e por dentro, as entranhas da Ditadura. Dois dias depois, foi promulgado o AI-5, tirando até o habeas corpus do mundo jurídico. Não foi fácil passar pelo que os dois passaram. Não nos enganemos: esse Brasil já foi muito pior.

No livro, conto a história dos dois engenheiros. A prisão, o sofrimento, as fugas, exílios, amores, enfim.

Falo aqui neste Blog por um motivo simples. O livro estava atravessado em mim. Escrevi uma versão, em 2003, e não gostei. Tentei dezenas de vezes recomeçar, e esbarrava no próprio crivo – não achava o caminho.

Há duas semanas, consegui acessar a fonte. Sentei, botei o primeiro capítulo para o final, e o rio começou a passar. Comecei a reescrever capítulos, cortar coisas, mudar relatos, refazer percursos. É um mistério, esse negócio de escrever. A hora mais importante do dia é esta, quando ligo o ventilador aqui, no pé do ouvido, no três, ligo o computador e vou trabalhar.

Aos poucos, o livro foi renascendo. Um, dois, três capítulos refeitos. Outros foram chegando, nascendo prontos. Refiz a ordem cronológica, mudei caminhos, e agora há pouco, tive um susto: tenho 22 capítulos prontos, três por revisar, creio que mais cinco capítulos, e o livro estará pronto. Até a Semana Santa, farei mais três entrevistas complementares, para ter mais densidade nas informações.

Será meu último livro sobre o período das ditaduras. Já publiquei “Zé”, em 1998, a pequena biografia de um militante clandestino da Ação Popular. Depois veio “Clamor”, em 2003, minha dissertação de Mestrado sobre a solidariedade no Cone Sul da América Latina, durante as ditaduras. Agora vem o terceiro, fechando a trilogia. Fala de um encontro com o passado e de um encontro com a verdade.

Os verdadeiros autores do atentado nunca assumiram o fato, e a culpa ficou, historicamente, em cima de dois engenheiros. Um deles, Ricardo Zarattini, disse num belo documentário da Andréa Ferraz, que “a verdade tem força revolucionária, ela muda o mundo”. Acho que é verdade.

Acho que está ficando bom, pelo menos estou escrevendo apaixonadamente, em todos os horários. A pior coisa para quem escreve, é um bloqueio, quando você não sabe ou não consegue começar. O livro está vindo como um rio.

Por enquanto, o título é: Quando o silêncio condena, que é o mesmo título do documentário da Andréa.

Não sei nem por que comecei a falar sobre isso, acho que para compartilhar com meus leitores uma alegria, um alívio. Comecei esta pesquisa com 23 anos, com uma barba rala e mais tímido vinte vezes que hoje. Fui seguindo meus caminhos no Jornalismo, e nunca me perdi dessa história. Fiz grandes amizades com a turma dessa geração, uma entrevista fortíssima com Edinaldo, ao som de músicas revolucionárias do mundo inteiro. Estou com 36, alguns cabelos bancos, e está na idade de criar juizo, dizem alguns amigos. Menos, menos.

Bem, são coisas da vida. No fundo, acho que escrever tem me ajudado a viver melhor, é simples.

Entre um capítulo e outro, tentarei sempre arranjar um tempinho para o Blog, que adoro.

Vamos que vamos.

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Notas soltas sobre jovens e livros

20 de março de 2006, às 14:24h por Samarone Lima

Estou aqui, com 73 questionários respondidos por jovens que moram em bairros da periferia do Recife, que estão participando de uma seleção para uma escola, que vai ser inaugurada no mês que vem. Como sou um dos professores da escola, terei que selecionar, a partir de uma série de critérios (questionário, redação, desenho etc), jovens de 16 a 19 anos que possam participar da segunda fase da seleção. O trabalho com a primeira turma, 80 jovens, vai vai durar 18 meses.

Então me dá uma tristeza. Tenho em minhas mãos um pequeno retrato de como anda a Educação neste país, mais especificamente no Recife, onde vivo, e qual o futuro desses jovens. Os questionários, quase todos, são de doer. Pior que o massacre à língua, a imensa dificuldade de articular algumas poucas idéias, é a ausência quase completa de uma bagagem cultural mínima. É preciso lembrar que muitos já estão no segundo grau. Uma das perguntas mais difíceis, é citar três os três livros que mais gostou na vida. “Carandiru”, “O Alto da Compadecida” e “JK” foram os mais lembrados. Os dois primeiros foram filmes, exibidos pela TV Globo. O último é uma mini-série na mesma TV, ainda em cartaz. Dos 73, apenas um conseguiu falar de um livro.

Fazer um breve comentário, de cinco linhas, sobre o livro que mais gostou, é exigir o impossível. Um livro, e somente um. O “Pequeno Príncipe” já resolveria. “Meu pé de laranja lima”. Nada. Fico me perguntando: para onde estamos indo, com estas milhares de criaturas sem acesso a uma educação no mínimo razoável, sem emprego, sem perspectivas de vida?

Lamento, mas acho que o pior ainda não chegou. Está sendo cuidadosamente gestado.

**

Cada dia que passa, sinto que o Recife está precisando melhorar suas poucas livrarias. Temos a Livraria Cultura, ali no Paço da Alfândega, mas a parte de literatura estrangeira é fraquíssima, a de poesia não fica atrás. A cada consulta um pouco diferenciada, não há livro disponível, é preciso encomendar. Na última visita, nem o livro novo da Adélia Prado, uma poeta conhecidíssima, tinha. Os vendedores são atenciosos, um pessoal descolado, mas esse negócio de encomendar livro não é minha praia. Gosto de ir, cutucar as prateleiras, encontrar algo bom e sair com o volume debaixo do braço, para ir lendo no ônibus.

A Livraria Imperatriz, no Shopping Plaza, é muito menor e mais diversificada. Sei quem tem uma no Shopping Recife, a Saraiva, mas o shopping é longe pra chuchu, deixo sempre para a próxima semana. Tarcísio Pereira bem que poderia reabrir a Livro 7, aquela maravilha que nunca esqueço, até hoje sinto uma alegria quando vejos os livrinhos com o símbolo da Livro 7.

**

Vou ao Hiper Bompreço comprar um café e um azeite, e resolvo passar na parte de livros. Minha Nossa Senhora, é o fim dos tempos, o miserê cultural atinge em cheio uma classe média que pode comprar livros. As prateleiras estão cheias de livros de auto-ajuda e busca de sucesso, uma combinação que vem crescendo muito nos últimos anos, em detrimento a uma boa literatura, aos bons poetas. As pérolas que dominavam o amplo espaço:

“Pais brilhantes – professores fascinantes”, do Augusto Cury; “Nunca desista de seus sonhos”(ibdem); “O poder que vem do seu nome”(Aparecida Liberato e Beto Junqueira), “As cinco pessoas que você encontraria no céu”(Mitch Albom); “Ditadura da beleza e a revolução das mulheres”(Augusto Cury); “Paixão por vencer – a bíblia do sucesso”(Jack Welch). E esta pérola: “O vendedor Pit Bull – o profissional indispensável para sua empresa”, de Luiz Paulo Luppa. Na foto, há um cachorro bul zangadíssimo, rangendo, com os lábios arregaçados, pronto para o ataque. A versão normal custa R$ 17,52, mas a edição de bolso, um pit bul menorzinho, custa somente R$ 8,71).

O sujeito que sai do supermercado com um livro sobre “o vendedor Pit Bull” ou “A Bíblia do Sucesso” não está precisando de boa literatura. Para esse, o bolso cheio de dinheiro é a melhor biblioteca.

**

Recebo do amigo Ricardo Mello a coleção “Poeminhas” (3 volumes), em parceria com o cartunista Samuca, feita pela Editora Bagaço. Uma belezinha, uma festa para adultos e crianças. Tem um volume de “Hai Kados”. Pequenas gotas de colírio, digamos assim, nessa secura literária que toma conta de nossa cidade.

**

Não sei o que há no Recife, que não tem um mercado razoável de sebos. São poucos, e com pessoas que não conhecem muito de literatura, é mais aquela venda rasteira dos livros do segundo grau. Quando morei em São Paulo, comprei muita coisa boa em sebos ou em bancas, nas ruas mesmo, era um barato. Sempre que viajo, para outros cantos do Brasil ou do exterior, procuro uma pracinha que tenha venda de livros, especialmente nos finais-de-semana, e os livros sempre estão em lugares privilegiados. Seria lindo um negócio desses aqui no sítio histórico do Poço da Panela. Allgo sossegado, sem muita agitação, com um chorinho ao fim da tarde, para ver o dia morrendo devagarinho, tomando um bom café e lendo as primeiras páginas de um bom livro. Lembrei de San Telmo, em Buenos Aires, e me deu saudades.

**

Os livros do Juan Carlos Onetti, uruguaio absurdamente lindo, estão saindo pela Editora Planeta, pela graça divina. Aguardo rezando de joelhos pelos livros com as poesias do Juan Gelman, e por edições populares do Robert Arlt, o argentino louco e incomparável, capaz de escrever uma maravilha como “Os sete loucos”, que já reli tantas vezes, que já sei páginas interias decorado, apesar da péssima memória que sempre tive.

**

Soube outro dia da morte da querida Elita, da Editora Bagaço. Fiz um projetinho com a Bagaço, na época em que estava na Universidade, e ela foi sempre uma mulher generosa. Nos víamos sempre de manhã, aqui no Poço, quando ela passava, em suas caminhadas. Agora, não a vejo mais, isso é a morte. Vai um abraço para Elita, de coração.

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Uma velha crônica, para matar saudades das histórias de amor…

17 de março de 2006, às 15:32h por Samarone Lima

Amados leitores:
atendento a um bocado de pedidos, republico a crônica “Pequenas histórias de amor – volume I”, que faz parte do livro “Estuário”, lançado ano passado.
Com este texto, encerro a “semana amorosa” deste Blog, e volto a escrever sobre as besteiras de sempre.
Espero que gostem e se inspirem, para amar ainda mais.
Samarone Lima
***
Pequenas histórias de amor -volume I

Recife, 24 de dezembro de 2004.

Ele descobriu que a amava quando tinha 15 anos, em 1984. Ela estudava na mesma turma, e quando entrava na sala de aula, ele cantarolava intimamente “pela luz dos olhos teus”, porque havia algo de encantador nos seus olhos, no que eles diziam, uma ternura que cativava aquele coração tão moço. Ele lembra, vinte anos depois, do dia em que ela fez circular um caderninho para os amigos deixarem mensagens, e atravessando a fronteira da timidez, escreveu “você é meu único e definitivo poema”. Depois disso, eles desencontraram.

Ele entrou na faculdade e, como me disse há poucos dias, se distraiu das coisas do amor. Conheceu outras mulheres, se encantou com algumas, mas nenhuma tinha aqueles olhos. Se reencontraram anos depois, quando ela terminou a faculdade. A última cena deste novo contato foi ela se beijando com um sujeito, no baile de formatura. Como queria estar naquele lugar!

Os dois casaram e não se viram mais. Aqui e ali, nos encontros com os amigos da turma, uma notícia esporádica. Somente em 2001 voltaram a se ver, num encontro dos velhos amigos, para cativar lembranças. Na primeira vez que o viu, depois de tantos anos, ela comentou com uma amiga– “o menino virou homem”. A resposta da amiga acendeu alguma chama que ela nunca percebera – “o teu apaixonado chegou”. Surpresa em saber daquele amor silencioso, ela ficou em silêncio, achando-o mais belo.

“Aquela frase da amiga foi um sopro divino”, me disse ele, repassando os detalhes da história, enquanto tomávamos uma cerveja.

Mas a vida seguia outros cursos. Tinham compromissos, casamento, filhos. Em 2002, voltaram a se encontrar. Pare ele, já não era tão fácil olhá-la nos olhos. E a turma, sem perceber que alimentava um sentimento que parecia perdido, colaborou para que voltassem a se ver. Um novo encontro, em 2003, serviu para que ele confirmasse que aquele menino estava vivo, dentro de sua alma, querendo amar plenamente.

Em 2004, por uma desculpa qualquer que sempre encontramos, quando queremos algo de verdade, almoçaram juntos. Ao final da longa e cativante conversa, ela perguntou:

“Você sentia alguma coisa por mim naquela época?”

“Eu era muito apaixonado por tu”, respondeu ele.

Algo rompera na timidez dele. Ela agora sabia de algo secreto, que ele trazia há muitos anos. Voltaram a falar de literatura, cinema, dos caminhos profissionais, mas algo já tinha sido dito, e era irreversível. Pronunciaram, timidamente, o nome do amor.

Quando se encontraram novamente, nada mais poderia ser feito. Os dois se queriam tanto, que quando ele a abraçou, sentiu que estava protegido, acolhido, que aquele era o melhor lugar do mundo para estar.

Os mundos que viviam exigiam outras respostas. Sim, os compromissos, outros laços haviam sido firmados em duas décadas. Ela foi mais incisiva. “A partir de hoje, morreu”, disse, na despedida. “Essa história acaba por aqui”, repetia, muito séria.

“Como vou te tirar de dentro de mim?”, perguntou ele.

Nas longas semanas de silêncio, ele também fazia o esforço. Ao final do dia, se perguntava – “será que pensei nela hoje?”. Sim, era a resposta. Sua dúvida era saber se, em algum momento do dia, ela tinha pensado nele, para que os pensamentos se encontrassem, em algum ponto da cidade.

No último encontro dos amigos, ele bebeu para chegar ao bar com o coração entorpecido, para que a alma não o traísse. Escolheu um ponto da mesa em que não pudesse vê-la. Decidiu que não a olharia, em hipótese alguma, durante toda a noite. O cumprimento formal, gelado, era a tentativa dos dois de administrar algo que era quente, muito quente, por dentro. Ela confessaria, dias depois, que quando o viu, suas pernas tremeram. Agradeceu a Deus por estar sentada. Na despedida, ele a olhou de longe e acenou. Viu aqueles mesmos olhos e desejou cantar “pela luz dos olhos teus”.

Naquela fração de segundos, o sentimento desvendou os dois. Nada mais poderia ser feito. No dia seguinte, se falaram. Era preciso fazer algo. “Não consigo te tirar de dentro de mim”, confessou ele.

Sim, eles fizeram as escolhas e tomaram decisões. Não podiam abrir mão do sagrado, da calma que sentiam estando juntos, da plenitude que encontravam em cada palavra. Num dos encontros, ele falou ao seu ouvido o poema “Teresa”, de Manuel Bandeira. “Os céus se misturaram com a terra/E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas”, diz o final do poema, que parecia ser o que viviam. Céus e terras se misturavam.

Vinte anos depois, eles decidiram assumir o amor.

E quando estava a terminar esta crônica, me chegou um email de um amigo, com o pequeno trecho de um poema do Drummond:

“Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?”

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Pequena declaração de amor de um leitor à sua amada

16 de março de 2006, às 12:11h por Samarone Lima

Em dezembro de 2004, quando ainda tinha a coluna “Estuário”, no JC On Line, publiquei um texto intitulado “Pequenas histórias de amor – volume I”. Era a história de um sujeito que se apaixonou por uma garota quando tinha 15 anos, em 1984. Um amor silencioso e tímido, celebrado com a música “pela luz dos olhos teus”. Ele recordou, vinte anos depois, do dia em que ela fez circular na sala de aula, num daqueles famosos caderninhos para deixar mensagens (que depois todo mundo perde), e do exato momento em que atravessou a fronteira da timidez e escreveu: “você é meu único e definitivo poema”.

O texto entrou na seleção do livro “Estuário”, que publiquei ano passado, pela Livro Rápido, livro que contou com a apresentação do jornalista João Magro Valadares, uma apresentação tão bacana, que ele citou até crônicas que não estavam no livro, o que não deixa de ser uma inovação no mercado editorial, gosto muito dessas ousadias intelectuais.

Eu já tinha escrito o volume II da série “pequenas histórias de amor”, uma história também linda, um encontro retumbante que uma grande amiga viveu, mas o desenlace foi triste, e não achei graça nenhuma em publicar uma história de amor com final infeliz, apesar de saber que isso faz parte da vida, a gente toma cada pau da porra nessas coisas do amor, mas eu gosto de final feliz, fico puto com filme que tem final infeliz e não vou usar meu pequeno espaço de Blog para ficar escrevendo coisas tristes, me perdoem a sinceridade.

Então me chegou um email da Keila, uma pessoa muito bacana, que insiste em ler Estuário nas horas vagas. Vamos ao texto:

“Meu caro Samarone…
gostaria de te fazer algumas perguntas, se vc me permitir…
Lembra (claro que lembra!) de uma crônica sua publicada no JC Online que falava de uma história de amor entre duas pessoas que tinham dificuldades de vive-la intensamente devido a situações e escolhas da vida?
O título (se não me falha a memória!) era: “pequenas histórias de amor vol. 1″. Pois é…
Agora vem a minha pergunta : essa história foi fruto de sua inspiração ou vc se baseou em alguém que realmente viveu coisa parecida?
2ª pergunta: Se foi baseado em fatos reais, como anda esse casal que viveu tanto tempo escondendo o amor deles ?
3ª pergunta: se não foi baseado em fatos reais, pq vc não faz uma crônica continuando essa belíssima história??
Aguardo suas resposta, meu caro poeta!
Forte abraço pra vc.”

Respondo por partes.

Eu tenho meus lampejos de inspiração, mas inventar uma história como aquela, cheia de detalhes e confissões, seria muita, mas muita inspiração, e eu deveria estar escrevendo era contos e ganhando uns trocadinhos. Foi baseado em pessoas reais, um grande amigo me contou a história com os olhos brilhando, e eu perguntei se poderia escrever no Blog. Ele autorizou e aproveitou para me contar a mesma história 40 vezes, em dois dias, então decorei tudo, nos mínimos detalhes.

Não é que o casal “viveu tanto tempo escondendo o amor deles”. Creio que não era o momento, e eles seguiram vivendo, fazendo coisas, os dois casaram, ele teve filhos etc. Não sofriam por algo que não era pleno, apenas tinha algo lá, guardadinho, aquele sentimento, aquele “um dia, vamos viver isso”, a tal cosquinha no coração.

Mandei o email da Keila para o casal. Ela, a mulher da história de amor, preferiu ficar mais quietinha, silenciosa, mas ele, o meu amiog, me mandou a seguinte resposta, reveladora do tamanho do sentimento:

“Olá velho,

Gostaria de aproveitar a oportunidade que o Estuario me oferece para fazer uma Pequena Declaração de Amor (vol 2, o primeiro volume foi e-mail que enviei e desencadeou tudo)

Afinal não tenho já não tenho medo de admitir que:

é com ela que gosto de enroscar as pernas ao acordar;
para ela que quero levar café na cama, no meio da manhã;
é no corpo dela que curto passar o sabonete novinho, recém saído da embalagem;
é ela quem transforma em jóias as pequenas bijoterias do cotidiano;
diante dela que me sinto homem ao dizer “sou teu, somente teu”;
com ela quero catar pedrinhas no fundo da piscina;
com ela quero marcar viagens, realizáveis ou imaginárias – para Caruaru ou Timbuctu;
com ela, andar de mãos dadas é passear por um paraíso antes desconhecido;
ao lado dela, sou capaz até de esperar uma inspeção por vitrines de lojas;
com ela, quero – mais uma vez – trocar fraldas e dar banho num filho;
com ela, quero acordar sabendo que estou um dia mais velho – e adormecer, acreditando estar um dia mais jovem”.

Bem, a resposta foi dada.

E ainda dizem que não há mais homens românticos na cidade…

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